domingo, 18 de janeiro de 2026

Valor Sentimental

Uma história sempre tem um sintoma. O desta é a falta. Gostaria de poder escrever um outro texto, aquele que imaginei logo depois do primeiro dia, do dia primeiro. Ali você me ofereceu e tirou, e eu fingi que não me importava. Eu disse massa, comemos carne. Eu não disse nada sobre os colchões, sobre as minhas dúvidas a respeito do que estava acontecendo, do que ia acontecer. Eu não disse a verdade quando você me perguntou se o que escrevo é verdade. Eu não sei falar sobre isso. Sentei e os meus pés foram automaticamente parar no seu colo, simultâneos ao seu gesto, numa intimidade que até então eu não sabia existir entre nós, a mesma que me constrangeu quando você entrou no quarto enquanto eu me maquiava, a mesma que me espantou quando você me cheirou de fio a pavio, como se eu fosse um animal, um filhote, uma presa. Poucas palavras, eu precisando de mais, mas ao mesmo tempo aliviada por não ter que dizer, pensar, falar. Eu poderia facilmente escrever aquela noite, a vertigem ao reconhecer o corredor que leva até o seu apartamento, a sensação de irrealidade ao bater na sua porta, a ausência de surpresa quando a porta se abriu. Escrever eu posso, sempre posso, ainda que seja depois. A verdade da escrita é como a do desejo, vem depois. Isso eu disse, suas mãos nos meus pés, que eu poderia escrever aquela primeira noite inteira, o texto, naquele momento, já imaginado e não derramado.

Mudamos de ano, eu, de casa, e são tantas as coisas que eu queria contar. Falo que estou carente, mas não é verdade. Estou com falta de palavras, esses tijolos que constroem as histórias, que tecem os laços. Estou à espera de palavras. Queria tanto contar sobre o medo bobo e infantil que tive ao ter que tomar uma injeção; sobre o saquinho de biscoitos amanteigados desses que derretem na boca e que têm gosto de quando a gente é criança e come biscoitos amanteigados quase macios sem pensar em mais nada e que venho comendo aos poucos, alguns ontem, outros hoje, com alguma culpa mas não muita; sobre o meu amigo de infância que se matou na noite de Natal e o meu pânico ao entrar no velório pelo qual passaram alguns dos corpos da família que um dia eu tive; sobre o sabor da minha pizza preferida, que comi ontem à noite, inteira, os quatro pedaços, como quem come a última refeição antes de ser levado ao cadafalso; sobre o prazer da água azul da piscina, o azul da piscina, que é assim desde que eu sou criança, a piscina, para mim, é o azul mais quente, mais bonito, mais letárgico, e invariavelmente eu lembro do meu avô quando estou dentro dela, todo mundo tem que saber nadar e dirigir, a minha mãe diz que ele dizia, e um dos acontecimentos mais gloriosos da minha vida era vê-lo mergulhar, pesado e delicado como uma orca, projetando uma sombra sobre os azulejos e depois provocando uma grande movimentação na água da piscina da casa onde eu cresci, a mesma cuja entrada hoje me é interditada por um pai vivo morto que nunca me chamou de filha, com o qual eu também tenho falta de palavras; sobre o filme ao qual assisti, Valor Sentimental, que traz um pai, uma filha, uma ausência, uma tentativa de suicídio e, por fim, um roteiro cheio de palavras escrito pelo pai, cineasta, que finalmente consegue levar de volta, ou pela primeira vez, a filha até o pai e o pai até a filha, sendo que a última cena do filme, a mais bonita, aquela pela qual todo o resto vale a pena, é o resumo desse encontro silencioso e ainda sem intimidade inicialmente possibilitado pelas palavras escritas. Pensei no meu pai, que nunca me deu nenhuma palavra, com quem nunca tive intimidade, exceto talvez na infância, quando ele me jogava pra cima em dia de futebol ou quando jogava dama comigo, pensei em você e na sua filha e nas suas palavras sobre vocês. Sobre o filme, eu diria, assista, é sobre um pai e uma filha, foi isso o que tive vontade de escrever em uma mensagem depois que os créditos subiram; sobre o convite que recebi há poucas horas e que me deixou feliz, um reconhecimento que é a contrapartida de outros que me são negados; sobre o quanto você me magoou ao ir falar com outro homem (um ex cujo nome por extenso ou abreviado, infantilizado, diz respeito ao mesmo homem ignóbil, não se trata de Jekyll e Hyde, de dois ps diferentes, a letra é uma só) a respeito da nossa viagem sem sequer antes falar comigo, sobre o quanto isso ressoa em mim com palavras que eu não quero escrever, embora saiba nomear, os sentimentos, as palavras. Você falou em obrigação moral, essa moral que no caso eu chamo de masculina, machista, e que é o oposto da ética. Papo de homem, eu fico de fora, excluída da conversa entre um homem que está casado pela ducentésima vez e outro para o qual o importante é o que pensa a respeito dele o homem do ducentésimo casamento e não a mulher que ele cheirou de fio a pavio, como um animal, um filhote, uma presa; sobre a minha surpresa ao ouvir você dizer, eu não quero saber o que aconteceu entre vocês, depois de ter, sim, há tantos anos, querido. Foram tantos os anos, tantas as voltas, e eu deveria seguir me revelando em partes para você? Quais seriam as que interessam e as que não interessam?

Quando saí da sua casa depois do dia primeiro, no dia dois, veio a música do Milton na minha cabeça, não sei se a letra é dele, mas diz assim, o mundo lá sempre a rodar, em cima dele tudo vale, quem sabe isso quer dizer amor, que é um verso e também o nome da música. Eu não sei o que é amor, não sei definir o amor, mas gosto da ideia de que é como voltar para casa ou, de alguma maneira, como estar em casa. Gosto também de uma outra teoria, a de que, quando amamos, queremos saber da pessoa tudo o que dela veio antes de nós e contar a ela tudo o que de nós veio antes dela, especialmente na infância. Isso eu li num livro de uma escritora uruguaia, a Cristina Peri Rossi, o mesmo que eu estava lendo durante a viagem, na cama, ao seu lado, enquanto você dormia e eu me sentia enjaulada como um animal grande demais para o meu próprio tamanho naquele apartamento tomado pelos ruídos do mundo exterior que nos momentos de intimidade e de descanso se assemelhavam a uma invasão. O livro, um romance de formação; o apartamento, mais um equívoco.

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Romance de formação, eu gosto desse nome, e gosto de poder escrever, de encontrar, sem precisar esperar, as minhas próprias palavras.

Itu, 9 de janeiro de 2026.

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