sábado, 1 de abril de 2017

Moustiers Sainte-Marie ou a cidade com colar de estrela

Estrela dourada sobre o vilarejo de Moustiers Sainte-Marie

Quem leu meu post Cidades de brinquedo, sobre Monschau e Óbidos, sabe que sou fã de cidades que de tão pequenas, charmosas e perfeitinhas mais parecem brinquedos do que cidades de verdade.

Pois Moustiers Sainte-Marie, na Provence, é uma dessas cidades que possui todos os requisitos para ser considerada uma cidade de brinquedo: linda, pequeníssima, charmosa e ainda por cima enfeitada por uma estrela dourada. Tida como um dos vilarejos mais bonitos da França, ela esteve no roteiro de uma cicloviagem que fiz em 2012 e que começou em Orbetello, no litoral da Toscana, e terminou em Manosque, na Provence.

Antes de chegar em Moustiers Sainte-Marie eu havia lido algumas coisas a seu respeito, como a história sobre a estrela dourada e a classificação como uma das cidadezinhas mais lindas da França, mas o impacto da chegada foi maior que a expectativa gerada pelas informações que a precederam.

Eu e meu companheiro de viagem havíamos passado boa parte do dia nos esbaldando com um caiaque nas Gorges du Verdon e acabamos chegando mais tarde do que o planejado em Moustiers Sainte-Marie. Como dizem por aí, sei que não dá para ter tudo, mas confesso que ao deparar com a cidade fiquei ao mesmo tempo satisfeita por ter passado um tempo disputando um lugar na água com os outros muitos caiaques, remos, pedalinhos e barquinhos de europeus ensandecidos pelo verão e triste por ter sobrado menos tempo para curti-la.

Aqui cabe destacar que, como se sua própria beleza e seus outros atrativos não bastassem, Moustiers Sainte-Marie fica nos arredores das estonteantes Gorges du Verdon, do Lago de Sainte Croix e dos campos de lavanda do Platô de Valensole. Tudo a pouca distância, tanto de bike quanto de carro, e um verdadeiro desbunde de paisagens lindíssimas, diversão ao ar livre e aromas encantadores.

Resolvidos os trâmites da chegada e assimilado o choque da surpresa causada pelo vilarejo, o primeiro ponto a ser explorado foi a Notre Dame de Beauvoir cujo acesso se dá por meio de 262 degraus de pedra esculpidos no flanco da montanha, de onde se tem uma vista belíssima da cidade e dos arredores. 

Cumprida a missão vista panorâmica antes do pôr do sol, felizmente houve tempo para uma caminhada pelas ruas da cidade, para bebericar uma cerveja regional antes do jantar e para admirar a inusitada estrela dourada cuja origem é incerta.

De acordo com o escritor Frédéric Mistral um cavaleiro de nome Blacas teria decidido pendurar a estrela entre duas grandes rochas, posicionando-a sobre a cidade, em agradecimento à Virgem Maria por ter retornado das Cruzadas. Outras versões falam, por exemplo, sobre histórias de amor, mas até hoje nenhuma delas foi confirmada. A atual estrela, que em 1995 foi revestida com uma camada de ouro antes de voltar ao seu posto, é a décima primeira a ficar sobre a cidade.

Seduzida pelo charme do vilarejo cuja ocupação remonta ao século V d.C., tive que conter na manhã seguinte um ataque da síndrome da permanência para poder me colocar a postos para partir e, ao pedalar rumo a um novo destino, virei para trás não sei quantas vezes "só para tirar mais uma foto". Uma boa desculpa para olhar, quem sabe se pela última vez, para a cidade com colar de estrela.

Estrela dourada sobre o vilarejo de Moustiers Sainte-Marie

 Moustiers Sainte-Marie

  Moustiers Sainte-Marie

  Moustiers Sainte-Marie
  
  Moustiers Sainte-Marie vista da subida para a Notre Dame de Beauvoir

Église Notre-Dame-de-l´Assomption de Moustiers Sainte-Marie

 Moustiers Sainte-Marie vista da subida para a Notre Dame de Beauvoir

Subida para a Notre Dame de Beauvoir

 Moustiers Sainte-Marie e a subida para a Notre Dame de Beauvoir 

Moustiers Sainte-Marie

Gorges du Verdon

Caiaques, canoas, pedalinhos e barcos nas Gorges du Verdon

Campos de Lavanda/Platô de Valensole

quinta-feira, 30 de março de 2017

Boston - parte 3

Sabe quando você faz uma coisa e depois fica sentindo um incômodo por não tê-la feito exatamente da maneira como gostaria? Pois foi desse modo que me senti após publicar Boston - parte 2.

Ao contrário do que aconteceu com Boston - parte 1, que curti não só escrever como reler, Boston - parte 2 me pareceu insípido, amorfo e forçado.

O fato é que me propus a escrever um texto que listasse atrações turísticas e tratasse delas de forma objetiva (o que não é a minha praia) quando no íntimo eu gostaria de ter abordado o meu segundo dia em Boston de outra maneira. Porque posso até escrever sobre um local específico que eu tenha visitado e do qual tenha gostado muito, como fiz aqui, mas normalmente a motivação para tanto surge espontaneamente, mais como uma necessidade do que como uma obrigação e muito mais como uma forma de expressar o que eu senti e organizar meus pensamentos e emoções do que como uma mera indicação do que outrem deveria ver ou fazer.

Justamente para não repetir neste post o fiasco ocorrido em Boston - parte 2 vou tratar do meu terceiro dia na cidade a partir de uma perspectiva mais subjetiva e ensolarada, compatível com o dia que começou com sol e muito céu azul, perfeito para a programação ao ar livre que eu, a Ana e a Ju, minhas companheiras brasileiras de hostel, havíamos planejado na véspera.


Começamos pelo Boston Public Garden, um parque onde seria bem agradável passar umas boas horas lendo e curtindo o visual. Lá iniciamos nosso passeio pela Freedom Trail, um caminho de quatro quilômetros todo sinalizado por uma linha vermelha no chão que dá um bom rolê pela cidade passando por dezesseis pontos turísticos de relevância histórica. Lembre-se: além de ser um centro universitário que abriga instituições como a Universidade de Harvard e o MIT (Massachusetts Institute of Technology), Boston é uma das cidades mais antigas do leste dos Estados Unidos e teve um papel importante na Revolução Americana.


Idealizada nos anos 1950, a Freedom Trail é uma super sacada para preservar e exibir aos moradores da cidade e aos turistas a história de Boston e dos Estados Unidos, dando um toque especial àquela caminhada exploratória que viajantes como eu adoram fazer em locais desconhecidos.


Para quem gosta de comidinhas um dos pontos altos da trilha é o Quincy Market, onde há uma grande variedade gastronômica. Aqui vale a dica: uma vez em Boston, a não ser que um desejo mais forte tome conta de você (como aconteceu comigo aqui), jogue-se nos frutos do mar. E não fique surpreso ao ouvir Português por toda parte pois Boston abriga uma das maiores comunidades brasileiras nos Estados Unidos.


Depois de uma boa refeição e de mais algum tempo caminhando e curtindo as ruas bostonianas, finalizamos a Freedom Trail no Bunker Hill Monument que nos ofereceu uma vista da cidade (não a mais espetacular) após escalarmos seus 294 degraus internos.


Era fim de tarde e o frio começava a pegar quando, apesar do cansaço, resolvemos tentar participar do último tour do dia na Samuel Adams, o que se revelou uma decisão acertadíssima. Sou um pouco suspeita quando o assunto é cerveja (basta ler um pouco do que está aqui) mas a visita à cervejaria foi um dos pontos altos da estada em Boston. O tour foi didático e divertido e terminou com uma degustação das cervejas produzidas pela Samuel Adams que fez jus à mania norte-americana de abundância. Para deixar os visitantes ainda mais alegres, todos puderam levar os copos onde degustaram as cervejas para casa.


Eram minhas últimas horas em Boston e, relativamente recuperadas do rolê daquele dia pelo tour cervejeiro, felizmente ainda tivemos forças para curtir o resto da noite. A viagem terminaria no dia seguinte e embora eu estivesse louca de saudade da Gigi (minha filha canina e o maior motivo para eu querer voltar de alguma viagem), sentia que ainda não era a hora de abandonar a festa.


Na manhã seguinte me despedi de Boston, da Ju e da Ana com zero entusiasmo. Sem que eu tivesse grandes expectativas, a festa bostoniana acabou sendo tão alto astral que será difícil não pensar nela com carinho e prazer pela vida toda.


P.S.1 Fiquei na vontade: Skywalk ObservatoryFenway ParkMuseum of Fine ArtsThe Institute of Contemporary Art, mais comidinhas vindas do mar, mais caminhadas pelas ruas de Boston e pelo menos uma ida ao cinema.


P.S.2 Para sacar melhor a cidade antes de visitá-la recomendo os artigos que você encontra aqui.

Boston Public Garden

Boston Public Garden

 Freedom Trail

 Freedom Trail/Massachusetts State House

Freedom Trail/Park Street Church

Freedom Trail/Granary Burying Ground

Freedom Trail/Boston Latin School

Freedom Trail/Quincy Market (Faneuil Hall Marketplace)

Freedom Trail/Bunker Hill Monument

sábado, 18 de março de 2017

Médecin de campagne

Uma sequência onde se ouve um cover de Hallelujah, de Leonard Cohen, e a eclosão da voz de Nina Simone cantando Wild is the Wind num momento em que Nina e o piano, sempre tão poderosos, não roubam a cena mas harmonizam-se com ela, produzindo um sorriso, eventualmente algumas lágrimas e uma sensação de terna satisfação no telespectador que havia entrado desavisado na sala de cinema certamente foram dois toques especialíssimos que me fizeram apreciar enormemente Insubstituível (Médecin de campagne), mas não foram a principal razão.

O filme trouxe à baila um assunto que não por coincidência eu havia discutido com uma das minhas melhores amigas no dia anterior (sou uma dessas pessoas sortudas que tem melhores amigas de longa data, as quais são fontes inesgotáveis de conversas não só divertidas e acolhedoras como também instigantes e inteligentes): a relevância do trabalho dos médicos.

Comentávamos que nada parece ser mais importante e essencial do que a atividade exercida por um médico. Comparados à medicina nossos próprios trabalhos e alguns outros que imaginamos pareciam não fazer grande diferença, pois partíamos da premissa de que no fim o que realmente importa é o que alguém pode fazer por você ou por alguém querido quando o assunto é vida ou morte.

Claro que estávamos pensando naqueles médicos que tratam seus pacientes sem preconceitos e com o respeito e a dignidade que lhes são devidos não só pela sua condição de seres humanos mas principalmente por serem pessoas que estão mais vulneráveis e fragilizadas pelos males que as afligem no momento em que procuram ajuda médica. E é exatamente esse tipo de médico que aparece no filme.

Após voltar do hospital onde estou tratando um pequeno acidente de percurso, eu contava para a minha amiga como estava feliz com o tratamento que vinha recebendo desde o dia em que procurei o pronto socorro. Naquela ocasião confesso ter ficado impressionada e aliviada com a acolhida de todos, da recepcionista ao médico. Mais do que simpáticos, gentis e eficientes, eles pareciam sensíveis ao fato de eu poder estar tensa com a situação e voluntariamente procuravam me tranquilizar. Além disso, a calma e a atenção do médico foram fundamentais para que eu saísse de lá segura de que, após quase uma semana de outros tratamentos que não estavam funcionando, agora eu estava no caminho certo.

As idas subsequentes ao hospital e o contato com outros médicos e médicas da equipe só confirmaram a sensação de empatia e aumentaram minha admiração pela maneira pela qual eles exercem a medicina naquele local.

Mas além da minha satisfação na qualidade de paciente (e de ser humano), eu e a minha amiga conversávamos sobre o outro lado, ou seja, o do médico. Imaginávamos que deve ser uma sensação ímpar ver um paciente sorrindo como eu sorri de alegria ao perceber o quanto estava melhorando. Por que, de novo, o que pode ser mais importante do que resolver os males de alguém, sejam eles resultado de uma doença ou de um acidente?

Felizmente essa não foi minha única experiência com médicos que muito mais do que executarem procedimentos agem como seres humanos conscientes de estarem com a vida de outros seres humanos em suas mãos e posso dizer que a mais importante delas já dura pelo menos trinta e cinco anos. Mas isso é outro roteiro. Por enquanto, o filme do título deve bastar. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Boston - parte 2

Arredores da Universidade de Harvard

O arrependimento por não ter programado uma estada mais extensa em Boston surgiu na minha primeira manhã por lá. Eu havia curtido o astral do local logo de cara, tinha uma lista considerável de coisas que queria fazer e, para agravar a sensação de quem vai perder um pedaço da festa, tinha agora duas companheiras de viagem na mesma sintonia que eu, a Ju e a Ana, que iriam ficar um pouco mais na cidade.

Arrependimentos à parte, a festa ainda estava no começo e havia muito o que ver. Unimos nossas programações e decidimos que iríamos começar nosso passeio pela Universidade de Harvard, onde optamos por uma versão independente de visita e dispensamos os tours oficiais que são oferecidos pela universidade e os não oficiais, oferecidos por hostels como o HI Boston (The Unofficial Harvard Tour) ou por alunos, The Hahvahd Tour.

 Campus de Harvard

 A famosa estátua de John Harvard


Campus de Harvard


Campus de Harvard 


Campus de Harvard

Depois de Harvard nosso destino era o MIT (Massachusetts Institute of Technology), onde novamente optamos por um tour não guiado e baseado num mapa distribuído no próprio campus.


MIT

"Casinha do Ursinho Pooh", MIT

MIT

 MIT

MIT

Confesso que Harvard e o MIT estavam no topo da minha lista de desejos e eu já estava bem feliz por ter ido até eles. Mas o dia ainda não havia acabado e, após um almoço onde dividimos muitas histórias e risadas, sobrou espaço na nossa concorrida agenda de viagem para irmos a um dos vários museus que existem na cidade, o Isabella Stewart Gardner Museum.

Interior do Isabella Stewart Gardner Museum

Ao sairmos do museu deparamos com uma noite fria e chuvosa. O dia seguinte seria predominantemente ao ar livre, dedicado à Freedom Trail, e a nossa torcida era para que o The Weather Channel não estivesse errado e o sol aparecesse. Boston estava sendo tão legal até aquele momento que no íntimo eu duvidava que qualquer coisa pudesse dar errado. Em todo caso, esperei amanhecer.

domingo, 5 de março de 2017

As coisas mais difíceis

Mas eu sabia perfeitamente que esse não fora o verdadeiro motivo. O motivo havia sido um gesto sem sentido, sobre o qual, justamente por ser sem sentido, decidi não contar a ninguém. As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.
Elena Ferrante, A filha perdida


Venho pensando nisso desde ontem, quando li A filha perdida de um só fôlego, nas coisas que nós não conseguimos entender e que por isso mesmo são as mais difíceis de falar.

Acho muito difícil falar. Usar o tom certo, dizer verdades cortantes sem machucar, encontrar as palavras que transmitam de maneira inequívoca o que sinto e o que penso, falar de mim sem lacunas e sem recuar.

Após uma conversa tenho quase sempre a impressão de que algo ficou pelo caminho, de que alguma coisa se sobrepôs a outra, como se uma vez ditas as palavras escorregassem pelo abismo do intangível e do irrecuperável.

A certa altura de A amiga genial (primeiro livro da série napolitana), a mesma Elena Ferrante menciona "as escórias de quando se fala" e a "confusão oral", expressões com as quais me identifiquei de imediato, eu, que não consigo livrar minha fala do supérfluo e ordená-la na ordem exata do meu raciocínio.

Mais difícil ainda quando se trata de coisas que não consigo entender. Nesse caso, toda a escória da oralidade se manifesta, arrasando qualquer intenção de honestidade e de coerência. Falar chega a me fazer mal.

Muito melhor é escrever. Escritas as palavras não só expressam o que deveriam como também se alinham na ordem exata do meu raciocínio, dando a cadência certa para o pensamento. Na tela ou no papel, há a proteção do tangível, como um anteparo entre mim e o outro ou como uma garantia de que nenhuma palavra ou intenção irá se perder. Aqui não há lacunas nem recuos, há somente eu.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Boston - parte 1

Boston

Duas frases surgem imediatamente na minha cabeça quando penso em Boston: "Adorei!" e "Dois dias foi pouco."

Boston foi uma bonus track num disco cujo tema era Nova York. Talvez seja algum desvio de personalidade ou coisa do gênero, mas acho estranho viajar e conhecer uma só cidade (mesmo que essa cidade seja Nova York). Assim, para satisfazer minha mania e pensando que essa seria uma boa faixa bônus para aquele disco, inseri dois dias em Boston no final da viagem.

Logo no começo do percurso do trem de Nova York para Boston percebi que havia feito a escolha certa. Coloquei os fones de ouvido e passei o tempo todo olhando pela janela ao invés de imergir em um dos livros que carregava comigo. Lá fora a paisagem era mais bonita do que eu esperava e dentro de mim, Smile, de Cole Porter, interpretada por John Pizzarelli e reproduzida nos fones que estavam nos meus ouvidos, soava mais extraordinária que o habitual. Naqueles dias em Nova York eu havia lido O sal da vida, de Françoise Héritier, e ainda dentro do trem não pude conter um sorriso ao perceber que aqueles momentos estavam carregados desse sal que dá tempero à vida e cujo sabor sinto até hoje.

Na chegada notei algo diferente e demorei alguns minutos para entender o que estava acontecendo. Eu respirava melhor e estava mais solta porque, claro, havia relaxado! Enquanto Nova York é aquela loucura de sons, carros, luzes, pessoas apressadas falando ao celular, lojas que funcionam como ímãs, comida aqui e acolá, mais pessoas apressadas olhando para os seus celulares, muitas atrações para pouco tempo, turistas por todos os lados, Boston é menor e mais tranquila (mas nada provinciana), o que foi apreendido rapidamente pelo meu corpo.

Ainda estava claro quando desembarquei na South Station, que fica a uma pequena caminhada do HI Boston, onde me hospedei e cuja estrutura e localização são formidáveis. Após os trâmites da chegada e de um bom banho fui dar um rolê pelos arredores e procurar um lugar para comer.

Eu tinha em mente o Legal Sea Foods cuja forte recomendação recebi de um californiano habitué da costa leste enquanto dividíamos um pedaço do disputado balcão do Lobster Place, no Chelsea Market, em Nova York, e compartilhávamos impressões sobre as patas de king crab que tínhamos diante de nós.

No começo da caminhada passei por um restaurante tailandês para o qual fingi não dar muita bola. Segui em frente e não demorou muito para eu topar com uma unidade do Legal Sea Foods, que continha implícita a promessa certeira de uma noite agradável com sabor de maresia. Para minha própria surpresa, não entrei.

Meio titubeante, dei meia-volta e parei na porta do Montien Thai Restaurant, o restaurante tailandês para o qual eu havia fingido não estar nem aí, mas que havia despertado em mim uma espécie de pensamento obsessivo: pato. Crispy duck, com aquela carne tenra por dentro e crocante por fora. Havia uma crítica de jornal afixada na entrada e uma onda de excitação cruzou meu corpo quando vi que o texto mencionava justamente o duck de maneira muito positiva. Simultaneamente, uma das partes de um casal que estava chegando no local e que provavelmente percebeu meu misto de interesse e hesitação me disse, como quem não quer nada, que a comida era ótima. A partir daí não pude mais ignorar os sinais que prometiam uma noitada feliz em companhia do pato e, resoluta, entrei.

Minha segurança durou pouco. Ao correr os olhos pelo cardápio deparei não com um, mas com dois patos interessantes: Crispy Duck ou Chili-Chili Duck? Ambos pareciam tão bons, cada um com suas potencialidades... Incapaz de decidir, deixei a escolha aos cuidados da garçonete que estava me atendendo e de Crispy Duck eu fui.

O resultado é que bastou provar a primeira garfada do pato para que eu esquecesse de vez durante aquela noite as maravilhas gastronômicas que o mar pode proporcionar. Quando levantei da mesa para deixar o restaurante o casal da entrada discretamente acenou e perguntou se eu havia gostado. Boston estava só começando, mas já tinha me ganhado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Valença do Minho, Viana do Castelo e Tui: as três "joinhas"

Quando estive em Portugal pela primeira vez, em 2009, num roteiro que foi de Lisboa a Braga, ainda em Lisboa, enquanto eu planejava a segunda etapa da viagem, um dos donos do Travellers House me disse que Portugal tinha duas "joinhas": Valença do Minho e Viana do Castelo, ambas localizadas no Minho, no norte do país.

Considerei, então, a quantidade de dias dos quais ainda dispunha para viajar, as cidades que já estavam na minha lista de desejos, as distâncias e, no fim das contas, deixei ambas as joias para uma próxima oportunidade, que não demorou muito a chegar.

Em 2011, ao fazer o Caminho (Francês) de Santiago de Compostela e emendá-lo com um trecho ao contrário de um dos Caminhos Portugueses, tive o prazer de passar tanto por Valença do Minho quanto por Viana do Castelo, ocasião na qual pude verificar, por mim mesma, que a indicação recebida em 2009 estava corretíssima, especialmente com relação a Valença do Minho, pela qual fiquei encantada.

Valença fica na belíssima fronteira entre Portugal e Espanha, outrora países inimigos, razão pela qual, na segunda metade do século XVII, foi construída a Fortaleza de Valença, preservada até hoje e que é a grande estrela da cidade. Andar pelo seu interior, observando a agitação turística diurna, o comércio vibrante, a arquitetura e a paisagem é uma delícia.

Da fortaleza, que fica no alto de uma colina, tem-se um panorama de tirar o fôlego: o caudaloso Rio Minho (que divide os dois países), o verde espalhado por toda parte, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional e, do lado espanhol, a cidade de Tui, que nada mais é do que outra "joinha".

Detalhe: dá para atravessar a ponte que divide Portugal e Espanha a pé e passear em Tui, que é uma cidade medieval toda feita de pedra e com a força característica desse tipo de edificação. De lá, mais uma vista de cair o queixo: o rio, o vale verde, a ponte e a Fortaleza de Valença do Minho, sob outra perspectiva. Além de curtir o visual do entorno a partir do ponto de vista espanhol e de vagar pelas ruas da bela cidadezinha de pedra, uma vez em Tui, não deixe de entrar na Catedral de Santa Maria de Tui. Vale muito a visita.

Já Viana do Castelo, à beira-mar, é uma joia azul. Uma de suas atrações mais famosas é o Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia, no Monte de Santa Luzia, cuja vista panorâmica já foi considerada pela National Geographic como a terceira mais bonita do mundo.

Além do super visual que o Monte de Santa Luzia oferece, o mar, as belas ruas de Viana do Castelo e a comida deliciosa que provei por lá (ainda lembro de um arroz de polvo que fumegava ao chegar à mesa e que estava simplesmente divino) também me cativaram. No quesito programa inusitado, uma visita ao Navio Hospital Gil Eannes, um navio museu em exposição na antiga doca comercial da cidade, tornou-se uma surpresa agradável, que eu recomendo.

Felizmente essas são joias que, apesar de já estarem na minha coleção, podem ser compartilhadas; espero que você também goste de usá-las...

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho. Na foto, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional.

Comércio agitado no interior da Fortaleza de Valença

Jardim no interior da Catedral de Santa Maria de Tui

Vista da Fortaleza de Valença a partir de Tui

 Vista a partir de Tui

Vista a partir das dependências externas da Catedral de Santa Maria de Tui

Funicular que leva ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Fim de uma cerimônia de casamento que estava sendo realizada no santuário

Fim de cerimônia e, ao fundo, um pedacinho da famosa vista panorâmica do Monte de Santa Luzia

 Navio museu Gil Eannes

Navio museu Gil Eannes