sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Valença do Minho, Viana do Castelo e Tui: as três "joinhas"

Quando estive em Portugal pela primeira vez, em 2009, num roteiro que foi de Lisboa a Braga, ainda em Lisboa, enquanto eu planejava a segunda etapa da viagem, um dos donos do Travellers House me disse que Portugal tinha duas "joinhas": Valença do Minho e Viana do Castelo, ambas localizadas no Minho, no norte do país.

Considerei, então, a quantidade de dias dos quais ainda dispunha para viajar, as cidades que já estavam na minha lista de desejos, as distâncias e, no fim das contas, deixei ambas as joias para uma próxima oportunidade, que não demorou muito a chegar.

Em 2011, ao fazer o Caminho (Francês) de Santiago de Compostela e emendá-lo com um trecho ao contrário de um dos Caminhos Portugueses, tive o prazer de passar tanto por Valença do Minho quanto por Viana do Castelo, ocasião na qual pude verificar, por mim mesma, que a indicação recebida em 2009 estava corretíssima, especialmente com relação a Valença do Minho, pela qual fiquei encantada.

Valença fica na belíssima fronteira entre Portugal e Espanha, outrora países inimigos, razão pela qual, na segunda metade do século XVII, foi construída a Fortaleza de Valença, preservada até hoje e que é a grande estrela da cidade. Andar pelo seu interior, observando a agitação turística diurna, o comércio vibrante, a arquitetura e a paisagem é uma delícia.

Da fortaleza, que fica no alto de uma colina, tem-se um panorama de tirar o fôlego: o caudaloso Rio Minho (que divide os dois países), o verde espalhado por toda parte, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional e, do lado espanhol, a cidade de Tui, que nada mais é do que outra "joinha".

Detalhe: dá para atravessar a ponte que divide Portugal e Espanha a pé e passear em Tui, que é uma cidade medieval toda feita de pedra e com a força característica desse tipo de edificação. De lá, mais uma vista de cair o queixo: o rio, o vale verde, a ponte e a Fortaleza de Valença do Minho, sob outra perspectiva. Além de curtir o visual do entorno a partir do ponto de vista espanhol e de vagar pelas ruas da bela cidadezinha de pedra, uma vez em Tui, não deixe de entrar na Catedral de Santa Maria de Tui. Vale muito a visita.

Já Viana do Castelo, à beira-mar, é uma joia azul. Uma de suas atrações mais famosas é o Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia, no Monte de Santa Luzia, cuja vista panorâmica já foi considerada pela National Geographic como a terceira mais bonita do mundo.

Além do super visual que o Monte de Santa Luzia oferece, o mar, as belas ruas de Viana do Castelo e a comida deliciosa que provei por lá (ainda lembro de um arroz de polvo que fumegava ao chegar à mesa e que estava simplesmente divino) também me cativaram. No quesito programa inusitado, uma visita ao Navio Hospital Gil Eannes, um navio museu em exposição na antiga doca comercial da cidade, tornou-se uma surpresa agradável, que eu recomendo.

Felizmente essas são joias que, apesar de já estarem na minha coleção, podem ser compartilhadas; espero que você também goste de usá-las...

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho. Na foto, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional.

Comércio agitado no interior da Fortaleza de Valença

Jardim no interior da Catedral de Santa Maria de Tui

Vista da Fortaleza de Valença a partir de Tui

 Vista a partir de Tui

Vista a partir das dependências externas da Catedral de Santa Maria de Tui

Funicular que leva ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Fim de uma cerimônia de casamento que estava sendo realizada no santuário

Fim de cerimônia e, ao fundo, um pedacinho da famosa vista panorâmica do Monte de Santa Luzia

 Navio museu Gil Eannes

Navio museu Gil Eannes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Brooklyn Ice Cream Factory

Foto: Camila Guido

Eu poderia escrever "eu amo NY" quatrocentas e cinquenta e uma vezes e, mesmo assim, não seria o suficiente para expressar o quanto eu amo Nova York; da mesma forma, dizer o quanto eu adoro sorvete não basta para realmente dizer o quanto eu adoro sorvete!

Agora, imagine a minha alegria ao encontrar o sorvete perfeito na cidade perfeita. Há alguns meses, antes de me jogar em Nova York, vi na internet, numa matéria que continha dicas sobre a cidade (infelizmente não tenho mais a fonte da informação), a indicação de uma sorveteria no Brooklyn, pertinho da Ponte do Brooklyn. Mais do que depressa, meu cérebro registrou a informação e, uma vez em Nova York, estabeleci como uma das minhas prioridades uma visita à Brooklyn Ice Cream Factory, localizada no Fulton Ferry Landing pier, praticamente à margem e sob a ponte (okay, ficou um pouco estranha essa indicação, mas não sei como fazer melhor). Para otimizar o tempo, associei a travessia da Ponte do Brooklyn com a ida à sorveteria, já que o único problema de uma viagem a Nova York é controlar a angústia gerada pelo fato quase enlouquecedor de que você não vai conseguir ver e fazer tudo o que quer de uma só vez.

Após cumprir a primeira meta do dia dedicado ao Brooklyn, que era atravessar a ponte, cheguei na Brooklyn Ice Cream Factory, que, atenção, só aceita pagamento em espécie e tem outro endereço no Brooklyn, mais distante da ponte. A sorveteria é simples e oferece poucos sabores de sorvete: vanilla, chocolate, strawberry, vanilla chocolate chunk, peaches & cream, butter pecan, coffee e chocolate chocolate chunk. Optei por chocolate chocolate chunk e butter pecan, que saboreei no píer, curtindo a paisagem.

Veja, sou apenas uma pessoa gulosa e não tenho conhecimentos mais sofisticados sobre alimentação, mas, talvez pela cremosidade extraordinária, talvez pelo ótimo estado de espírito no qual eu me encontrava, aquele sorvete definitivamente deixou para trás muitos gelatos italianos que eu já havia provado. Aliás, é muito provável que eu seja execrada pelo que vem a seguir, mas nem o gelato da Gelateria Dondoli, em San Gimignano, na Toscana, tido como o melhor gelato do mundo, teve sobre o mim o mesmo efeito do sorvete da Brooklyn Ice Cream Factory, pelo qual até hoje eu derreto de amores.

Sobre os sabores que provei, chocolate chocolate chunk, com pedaços de chocolate de sabor intenso e textura impecável, estava divino. Porém, apesar da minha "chocolatria" (aonde que que eu vá, sempre peço uma bola de chocolate para acompanhar algum outro sabor de sorvete), confesso que eu voltaria à Brooklyn Ice Cream Factory só para poder provar novamente o de butter pecan, que, como diriam os personagens da minha série de televisão preferida, was awesome!!!

(Sim, a série é How I Met Your Mother, cujo cenário, talvez não por acaso, é Nova York...)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Bye bye zona de conforto

Tomar iniciativas nem sempre é fácil, não é mesmo? E mais difícil ainda se você não tem consciência de que precisa agir.

Foi exatamente o que aconteceu comigo nesta semana. Tudo parecia bem e, de fato, estava. Porém, na manhã de um determinado dia, após uma conversa com amigas onde o assunto surgiu en passant, decidi que iria, depois de muitos meses longe da bicicleta, pedalar naquela noite. Fiz uma rápida busca na internet e encontrei um grupo de pedal noturno que, aparentemente, era perfeito. Terminado o dia, ressuscitei minha bike e lá fomos nós.

Pouco tempo após começar a pedalar com o grupo percebi que, apesar da ótima recepção e de tudo estar correndo bem, eu estava um pouco incomodada e ligeiramente tensa, sem que, no entanto, repito, houvesse qualquer motivo objetivo para dramas. Subitamente, então, veio o clique: eu tinha saído da minha zona de conforto e, obviamente, alguma coisa em mim não estava gostando nada daquilo.

A partir daí, consciente do que estava acontecendo, respirei e procurei relaxar. Durante o passeio, percebi mais uma coisa: eu não só estava me divertindo como também estava sentindo algo que há tempos não sentia. Após pedalar uns bons quilômetros concentrada apenas nas exigências requeridas pelo pedal, minha mente naturalmente falante estava quietinha, meu corpo estava presente, vivo, e eu sentia uma felicidade tranquila e genuína que, aliás, perdurou por todo o dia seguinte. Naquela mesma noite, chegando em casa, outro clique: eu precisava sair da minha zona de conforto e fazer aquilo, porém, até aquele momento, eu não tinha consciência disso.

Basicamente, eu estava presa à ideia de uma condição anterior, de lesões e de desilusões. Eu estava de bode. E, embora essa condição já estivesse superada, eu insistia nela, pois não tinha consciência da superação. A consciência só veio quando eu agi, muito embora, acredito, ela já estivesse latente em mim, faltando apenas um empurrãozinho para que finalmente saísse do seu esconderijo e desse as caras.

Creio que a consciência, ou seja, a chave para abrir as portas das salinhas escuras e monótonas onde estão localizadas as nossas muitas zonas de conforto, já esteja dentro de nós, mas, nem sempre, muito acessível. Eventualmente, é preciso um empurrão ou algum outro ajuste, vindo de fora ou de dentro, para que a consciência se manifeste e abra as portas das salinhas escuras.

No exemplo acima, uma pergunta inócua feita por uma amiga durante uma conversa despreocupada foi o suficiente para cutucar aquela consciência latente e, consequentemente, para fazer com que eu me mobilizasse; em outras situações, confesso (e foram muitas), eu mesma dei um pontapé no meu traseiro e me obriguei a fazer coisas que me colocaram numa situação desconfortável antes ou durante o processo, mas que, ao fim e ao cabo, resultaram em experiências prazerosas, necessárias ou úteis.

Por exemplo, como é praticamente de conhecimento geral, eu adoro viajar. Mas, antes de cada viagem, eu sinto um frio no estômago e isso só piora com o passar dos anos. Claro que uma viagem para a praia com as minhas amigas não tem esse efeito, mas, saber que vou desembarcar, muitas vezes sozinha, em outro país, pode até me fazer perder o ar durante uma ou duas madrugadas. Mesmo assim, eu vou, já que sei que a ansiedade vai se desfazer assim que eu colocar os pés no aeroporto e que, invariavelmente, a viagem acabará sendo um sucesso. Ou seja, eu tenho consciência de que o frio no estômago e a falta de ar são apenas truques arquitetados pelo meu monstro do medo (não se iluda, pois todo mundo tem o seu), que não quer que eu o deixe em casa sozinho enquanto saio por aí para conhecer lugares e pessoas diferentes e para viver experiências distintas daquelas oferecidas pelo meu cotidiano.

Outro exemplo pessoal clássico diz respeito ao ato de dirigir. Basicamente, eu odiava dirigir. Eu dirigia mal e era insegura. Minha mãe, a super mulher que super dirige incrivelmente bem não tinha condições de andar dentro de um carro comigo sem gritar o tempo todo. Nasci e cresci no interior e aprendi a dirigir por lá. Pois bem. Quando finalmente comprei um carro, eu já morava em São Paulo há alguns anos, mas não dirigia por aqui. Quando comecei a fazê-lo, sentia pânico, tinha calafrios e suava em bicas; ficava confusa, queria chorar e ao mesmo tempo pedir por favor para as pessoas serem mais legais e mais gentis e para as motos sumirem da face da Terra. Mesmo com todo esse perrengue, não desisti do carro, pois sabia que o fato de conseguir dirigir decentemente (ou seja, com segurança e sem pânico) faria de mim uma pessoa mais independente. Por anos a fio, o monstro do medo esteve ao meu lado, confortavelmente acomodado no banco do passageiro. A princípio, eu o olhava quase em prantos (sim, era um drama); depois, com uma certa revolta. Tivemos inclusive a fase da comédia, quando eu não conseguia mais deixar de rir do meu próprio medo, que, a propósito, não tem senso de humor. Até que, por fim, desgastada a relação (especialmente pelas piadas), chegamos à indiferença e, agora, não só dirijo sem monstrinhos imaginários dentro do carro como também ouço música, canto, como uma fruta, bebo água, converso e até me divirto dirigindo! Porém, isso só foi possível porque eu queria ser uma pessoa totalmente independente e tinha consciência de que, para tanto, era importante saber dirigir.

Último exemplo: este blog. Quando comecei a escrever, eu morria de vergonha. Ao publicar um post, ondas de calor percorriam meu corpo e eu sentia o meu rosto corar. Objetivamente falando, eu tinha um medo brutal da exposição. Porque escrever é se expor. Tinha medo de estar sendo ridícula, de parecer arrogante, de não estar sendo inteligível. O monstro do medo estava lá o tempo todo, gritando nas minhas orelhas. No início, claro, fiquei acuada, mas, com o tempo, percebi que, mais uma vez, o monstro estava levando tudo muito a sério e fazendo o maior drama (caso não tenha ficado claro, o drama é o principal recurso do tal monstrinho). Foi nesse ponto que um detalhe que até então passara despercebido acabou se revelando: não há espaço para drama neste blog, cuja única função é ser um meio para que eu possa fazer uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida, ou seja, escrever. Portanto, não fazia o menor sentido sofrer em função destes pensamentos inadequados! Uma vez consciente desse fato, parei de corar e de me preocupar e, hoje, simplesmente escrevo.

Sobre o medo, aliás, a escritora norte-americana Elizabeth Gilbert (sim, a famosa autora de Comer, Rezar, Amar), em seu último livro, Grande Magia: Vida criativa sem medo, conta que, até a adolescência, era extremamente medrosa e que, quando criança, muito provavelmente adoraria ter tido uma mãe que a colocasse sob as suas asas. Contudo, ao que parece, sua mãe não possuía uma única célula condescendente em seu corpo e não tolerava uma vírgula do drama da filha (que tinha medo de tudo), forçando Elizabeth a fazer as coisas que ela mais temia. Por motivos óbvios, Gilbert confessa que essa foi possivelmente a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido, afinal, dá pra imaginar a protagonista de Comer, Rezar, Amar como um ser humano medroso e chorão?

Agora, por favor, peço que ninguém me entenda mal. Não estou dizendo que as pessoas devem abandonar os seus monstrinhos do medo para saírem por aí fazendo todo tipo de coisas que antes as assustava. Não é nada disso! O grande lance é manter o monstrinho vivo (já que em muitas situações ele é a melhor companhia que alguém poderia almejar), porém, sob controle, de forma que ele se manifeste apenas quando realmente for necessário. Do contrário, o medo certamente tomará todo o espaço disponível em nossas mentes com bobagens inúteis, obnubilando nossa consciência. Quanto mais falante for o monstrinho, mais distração e confusão ele trará com o seu blá-blá-blá incessante, menos clara e distinta será a nossa percepção da realidade e de nós mesmos e mais difícil será tomar iniciativas transformadoras e construtivas em nossas vidas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Viaggiando nos livros

Foi muito depois do seu início que tomei conhecimento do projeto A volta ao mundo em 198 livros, da Camila Navarro, autora do blog Viaggiando. O projeto, que começou em 2013 e que, pelo seu andamento, parece estar no fim, consiste na leitura, pela sua idealizadora, de 198 livros, sendo cada um deles de um país diferente (estão sendo considerados os 193 países membros da ONU e seus dois Estados observadores, Palestina e Vaticano, bem como Kosovo, Taiwan e Saara Ocidental).

Como achei o projeto encantador, não resisti à tentação de compartilhá-lho aqui; além disso, a Camila acabou criando uma super lista de livros (e eu adoro listas), inclusive com resenhas, prontinha para ser consultada por quem quiser indicações de romances escritos por escritores do mundo todo, por meio dos quais sempre é possível ter um vislumbre das especificidades sociais, econômicas, políticas, geográficas e culturais de cada povo.

Felizmente, como se não bastasse o mundo, em janeiro deste ano a Camila criou outro projeto, o Lendo o Brasil, no qual ela pretende ler um livro de cada um dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal. E assim temos mais uma lista!!! Obrigada, Camila!

No mais, fique de olho nos projetos da Camila Navarro e aproveite as dicas de leitura, afinal, em cada livro há sempre uma nova viagem, em forma de palavras, esperando por cada um de nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Antes que Anoiteça


Sendo uma daquelas pessoas às quais a simples visão de um livro é capaz de oferecer alívio e conforto imediatos diante do inevitável tédio que ronda a existência humana, é natural que eu sinta também um leve frenesi de felicidade todas as vezes que coloco as mãos num livro para, em seguida, lê-lo ou levá-lo para a pilha de livros a serem lidos.

E foi justamente a eterna e sempre crescente pilha de livros a serem lidos o destino, há muitos anos, de Antes que Anoiteça, comprado num dos muitos sebos que eu frequentava na época das vacas magras da faculdade.

Numa tarde de garimpagem literária, deparei com o livro numa estante bagunçada e empoeirada de um dos tais sebos poucos dias após ter assistido a Antes do Anoitecer numa pretensa sala de cineclube improvisada em algum dos espaços teatrais da Praça Roosevelt. O filme, baseado no livro de Reinaldo Arenas, com Javier Bardem no papel do escritor, me deixou impressionadíssima, de forma que, ao dar de cara com aquele volume já meio capenga e amarelado numa estante insólita, tive que levá-lo para casa, onde ele ficou hospedado durante anos a fio na famigerada pilha.

Recentemente, decidi que estava na hora de lê-lo e não pude deixar de achar curioso o fato de que, tantos anos depois de tê-lo comprado, estava lendo suas primeiras páginas quando foi anunciada a morte de Fidel Castro.

Antes que Anoiteça são as memórias do escritor cubano Reinaldo Arenas, que cresceu sob a ditadura de Fulgêncio Batista e viveu sob a ignomínia da inominável ditadura castrista.

Reinaldo Arenas, filho de camponeses pobres, homossexual e escritor, foi, por esses mesmos motivos, perseguido, censurado, preso, humilhado e torturado das formas mais abjetas e inimagináveis possíveis pelo regime de Fidel Castro, que mais parecia um circo incontrolável de atrocidades do que propriamente um regime político, mesmo que ditatorial.

A regra do regime em Cuba era a arbitrariedade, a violência, o aumento e a manutenção da miséria para os miseráveis, o incentivo à traição e à deslealdade, a perseguição a homossexuais e a mulheres, o aniquilamento completo da criatividade e da liberdade. Parece ser incontável o número de artistas que tiveram suas vidas e carreiras destruídas, que foram mortos diretamente pelas mãos da ditadura ou que, desesperados, puseram fim às próprias vidas.

À medida que a leitura avança cresce também a perplexidade do leitor diante da inexplicável loucura e crueldade do regime castrista. Contudo, mesmo com o estômago um pouco revirado, é impossível largar o livro de Reinaldo Arenas, que, como só um escritor brilhante e obstinado consegue fazer, agarra o leitor, desde a primeira página, com a firmeza própria de quem ousa libertar o seu demônio interior.

Muito mais que os livros do também escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor do famoso Trilogia suja de Havana, Antes que Anoiteça é literatura definitiva na desmistificação do regime de Fidel Castro e também um daqueles livros que, uma vez lidos, passam sem grandes esforços da "pilha de livros a serem lidos" para a "lista dos dez mais".

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

All or Nothing at All

Tarde nublada de domingo e as três gerações de mulheres do meu pequeno e principal núcleo familiar estão reunidas em frente à televisão. As idades variam, de 36 a 90 anos, e a programação rolando é a do Canal Off. Avó, mãe e filha de olho na tela, comentamos sobre os lugares deslumbrantes que vemos nela, sobre o quão legal é fazer uma trilha, sobre o tamanho das mochilas que as garotas que apresentam o programa de trekking estão usando; ficamos todas encantadas com o azul turquesa da água, com os tubos formados pelas ondas e com as baleias que aparecem no programa subsequente, gravado na Polinésia Francesa. Nossa empolgação termina quando a programação desemboca no universo do skate; bate uma preguiça e acabamos deixando a TV de lado. Talvez um cochilo geral? Minha mãe sai de cena, se joga na cama e, no sofá, ficamos eu e a minha avó. Abro Livre, o relato da escritora norte-americana Cheryl Strayed sobre a sua caminhada, sozinha, nos anos 90, pela Pacif Crest Trail, trilha que atravessa toda a costa oeste dos Estados Unidos, posteriormente adaptado para o cinema, mas rapidamente desisto da leitura. Estou com muito sono para ler, mas com pouco para dormir. 

Ligo a TV novamente e aperto o botão do Netflix no controle remoto. Por algum motivo, o documentário Sinatra: All or Nothing at All parece ser ideal para aquele momento. Começo a assistir à primeira parte do documentário e pouco tempo depois a minha avó, que parecia já estar dormindo, abre os olhos e, juntas, passamos a seguir a história. À medida que a narrativa vai se desenrolando e que os anos e décadas que contêm os acontecimentos que constituíram a vida de Frank Sinatra vão passando, minha avó começa timidamente a fazer observações, os fatos do mundo e da carreira de um dos maiores cantores de todos os tempos se misturando àqueles de sua própria vida, como a dificuldade para conseguir farinha de trigo durante a Segunda Guerra Mundial, o que a levava a fazer pão com farinha de milho, a situação na fábrica de tecidos onde ela trabalhava e o dia da chegada dos pracinhas brasileiros na principal rua da minha cidade natal após o término da guerra, os hábitos, os costumes e o moralismo que vigiam nos anos 40. Ao ver os penteados e os cortes dos vestidos das mulheres, minha avó relembrou seus próprios penteados e contou que as mulheres chegavam a usar o mesmo cabelo, arrumado e armado com palha de aço por dentro dos rolos de cabelo que faziam parte do penteado, por uma semana inteira, e roupas, frisando a proibição do uso de calça. Mulher não usava calça. A tecnologia entra em pauta e minha avó detalha o vagaroso e hoje inimaginável processo de comunicação por meio do telefone há aproximadamente seis décadas, fala sobre a ausência da televisão e sobre a sua chegada. Comenta que, naquela época, os teatros e cinemas ficavam lotados, menciona as matinês frequentadas pela minha mãe e pelo meu tio, que eram levados por minha tia-avó, que, a propósito, presenteou todas as suas gerações de sobrinhos com sua autenticidade, liberdade de pensamento e com livros, filmes, passeios e mimos diversos.

Mas, não pense que parou por aí; a certa altura do campeonato, minha mãe, a mais tecnológica das três, juntou-se a nós novamente e, alternando entre o celular e eu e minha avó, passou a fazer pequenas intervenções na conversa, colocando ainda mais lenha no fogo da memória da D. Cida, que, a despeito de todo o brilho de Sinatra, roubou a cena naquela tarde de domingo.

O resultado é que Sinatra: All or Nothing at All, foi, sem dúvida, a melhor escolha para aquele momento, não somente por ser impecável do ponto de vista documental, mas por ter me proporcionado uma das tardes mais acolhedoras e agradáveis dos últimos tempos. Obrigada, vovó, obrigada, Frank.

P.S.: Para saber mais sobre o documentário, clique aqui.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Harry e Sally, Caetano Veloso e a vida depois dos trinta

Há mais ou menos duas décadas, Harry e Sally - Feitos um para o outro (When Harry Met Sally...) não significou, para mim, nada além de mais um filme numa daquelas pilhas de fitas VHS que eu religiosamente montava às sextas-feiras, quando ia à locadora logo após o colégio para preparar a programação da maratona de filmes do final de semana. Nesse contexto, Harry e Sally surgiu e passou como, digamos, mais um romance bonitinho. As inquietações da Sally, as separações e as frustrações dos personagens, aquela amizade que, apesar da intimidade e dos ares de paixão, não decolava nunca, nada daquilo fazia sentido e, do alto da minha sabedoria adolescente, parecia bastante improvável que aquele take de vida adulta um dia viesse a fazer parte do meu roteiro.

Vinte ou mais anos depois, Harry e Sally está lá, disponível no catálogo do Netflix, a um clique do meu dedo. Okay, por que não assistir de novo? Afinal, um romance bonitinho não costuma fazer mal a ninguém... No meio do filme, percebo que estou levemente boquiaberta e eventualmente fazendo um ou outro sinal de aprovação com a cabeça. Tudo ou quase tudo naquele filme fez ou faz parte do meu roteiro, ou seja, da história da vida depois dos trinta! Descubro, surpresa, que a vida pode ser previsível e que Harry e Sally, produzido no final da década de 80, faz todo o sentido do mundo para mim, agora, na segunda década do século XXI.

Um dia depois dessa iluminação tardia, enquanto assistia ao show do Caetano Veloso no final da Virada Cultural 2015 de São Paulo (que foi alto astral no quesito galera na rua, mas fraca de doer o coração, os ouvidos e os olhos nos quesitos programação e produção), fiquei novamente boquiaberta quando percebi a empolgação da galera quando o Caetano finalmente deixou de lado o repertório do Abraçaço para mandar bala num set list mais conhecido do grande público. Ao final do show, não pude deixar de compartilhar com as minhas amigas a sensação de que, ops, aos vinte e tantos os shows em geral pareciam ser bem mais demais... Okay, Caetano não desperta mesmo, há anos, meu ardor musical e é quase óbvio que se eu estivesse na frente do Jorge Drexler, por exemplo, minha pulsação teria aumentado, mas, ainda assim, fiquei impressionada com a constatação de que, aos vinte, eu certamente teria, pelo menos, encarado o show como algo menos banal. 

Sushi, quase duas décadas de amizade e detentora de uma capacidade de síntese que sempre nos foi útil, mandou mais ou menos o seguinte resumo: "Pois é, Câmis, não dá pra ter tudo: aos vinte os shows eram muito mais legais, mas aos trinta você finalmente entende o roteiro de Harry e Sally." Fomos todas jantar (o que nos empolgou bem mais do que o show em si, outro sintoma clássico da proximidade dos quarenta) e esqueci o assunto. Porém, revendo a situação, mais uma revelação tardia aparece: só agora, passados seis anos da minha década dos trinta, eu começo a entender o que ela significa. Haja delay!!!

P.S.: Para ser justa, admito que fiquei conscientemente feliz por estar em pé na frente da Estação Júlio Prestes numa noite de céu aberto quando o Caetano cantou Sampa. Nesse momento, percebi que, após muitos anos de brigas e discussões, enfim fiz as pazes com São Paulo, a cidade que, apesar de todos os conhecidos pesares, me deu o que poucos lugares são capazes de dar a alguém. Incluindo as décadas de amizade que me cercavam naquela noite.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lagos Andinos e Quero Pedalar

Lendo o Transpatagônia, pumas não comem ciclistas, livro de Guilherme Cavallari que anda pela minha cabeceira, não pude deixar de lembrar da cicloviagem pelos Lagos Andinos, feita no final de 2013 e início de 2014. Cicloviagem que, para mim, estará sempre associada aos queridos amigos Cesar e Regina Stella, autores do blog Quero Pedalar, que, literalmente, cederam o mapa da mina para a sua realização. Mapas, altimetria, indicações de hospedagem e de restaurantes, valores, informações sobre as dificuldades técnicas do percurso, todos os detalhes possíveis e imagináveis foram doados, de mão beijada, para a concretização da viagem, por essa dupla. Aos dois, Cesar e Regina, meu muito obrigada pelo eterno carinho.

Seria uma grande bobagem postar a viagem aqui, pois o seu relato, na versão original, está mais do que bem registrado e esquematizado no Quero Pedalar. Para lê-lo, é só dar uma passada por lá (aproveita e, de quebra, dá uma olhada nos outros pedais, como o da Costa Rica, por exemplo).

Mas, segura aí! Antes de ir pro pedal com o Cesar e a Rê, fica só mais um pouquinho aqui comigo para ver umas fotos. Aposto que, depois delas, você vai pedalar ainda mais inspirado!
 











 

P.S.: As fotos deste post são minhas.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Olha isso!


É com muita alegria que compartilho aqui a mais nova criação da Anelisa Cavamura, amiga de longa data, que está, agora, fazendo um mochilão de quatro meses pelo mundo. Inspirada pelo desejo de mostrar as maravilhas que ela anda vendo por aí para o maridão José Rogério (e, por tabela, para todos nós), ela acaba de estrear o olhaissojose, um blog onde, daqui em diante, a viagem começa a ser registrada.

Os três primeiros posts - escritos de forma leve e espontânea e com dicas práticas para quem um dia quiser visitar os lugares pelos quais a Nê está passando - são sobre o Japão, que, a propósito, figura no topo da minha lista de "países desejo". Nem preciso dizer que estou  me esbaldando com os relatos e com as fotos, né?

Maníacos por viagem, fiquem de olho nisso. Esse mochilão promete!

domingo, 14 de junho de 2015

Bikes vs Carros?



"Aprendi que a desavença é porque sempre alguém pensa que ninguém mais tem razão."

Aprendiz de Feiticeiro, Itamar Assumpção


É logo de cara que o documentário sueco Bikes vs Carros - que teve sua pré-estreia em São Paulo ontem, no Auditório do Ibirapuera, e no qual a cidade aparece como uma das protagonistas - sugere uma oposição entre bicicletas e carros. O documentário, de fato, mostra algumas das várias facetas dessa que parece ser uma guerra urbana interminável não só na cidade de São Paulo mas também em lugares como Los Angeles, Toronto e Copenhage.

Momentos de tristeza (como é inevitável sentir quando são abordadas as mortes de ciclistas) e de temor pelo futuro se alternam com esperança e comicidade (impossível não sorrir diante das imagens e da narrativa, pelo próprio, da realidade de um motorista de táxi em Copenhage, que, com resignada indignação, suporta diariamente o enxame de ciclistas que transita pela cidade) ao longo do documentário, onde também são abordadas questões já bastante debatidas por muitos de nós e outras nem tanto assim, além de fatos e estatísticas sobre o tema bikes vs carros.

Apesar da oposição declarada, enquanto assistia ao documentário, não pude evitar pensar que, ao fim e ao cabo, não são bikes vs carros; não são os sistemas econômico e político impondo os seus desejos e caprichos aos seres humanos. São pessoas. São elas que estão sentadas no selim da bicicleta ou nos bancos dos carros; são elas que dirigem as grandes corporações e que governam os países. Saí da sessão com uma leve sensação de desconforto, com a pontinha daquele vazio que a dúvida sempre provoca... E fui dormir pensando: será que bikes vs carros não é mais uma das questões em torno das quais nós ficaremos dando voltas, com medo ou, na pior das hipóteses, sem interesse de nos aproximarmos do centro?

Dúvidas e questionamentos à parte, Bikes vs Carros é sobre o aqui e o agora. Para quem achava que um bicicletário somente seria implantado em sua empresa daqui a muitas décadas e numa bela manhã chegou no trabalho e ficou sabendo das boas novas ou para quem pensou que jamais viveria para ver as ruas da cidade de São Paulo coloridas por ciclovias, bom, o fato é que, de repente, o futuro chegou. Concordando ou discordando, sendo você ciclista, motorista de carro ou piloto de avião, bikes e carros, cada vez mais, terão que conviver. Que seja em paz.