sábado, 3 de novembro de 2018

We will rock you

Da cadeira do cinema eu penso no vazio da guerra daqueles que tentam destruir o desejo. Penso nos montes de palavras mentirosas e de atos violentos e inúteis daqueles que não suportam olhar para a cara das suas verdades e que, ao invés de mexer algum dedo para tentar puxar as máscaras que as encobrem, apontam indicadores e polegares para aqueles que ousam usar seus corpos e mentes para fazer do sexo e do pensamento individual instrumentos de felicidade, liberdade e racionalidade. O filme segue e com ele o meu pensamento de que nem os genocídios foram capazes de exterminar a verdade que reside em cada um de nós e que se mostra refletida no tesão de viver de acordo com o próprio desejo ou no medo e na tensão de quem não banca nem sequer a própria pequenez. Até hoje e desde sempre a cafonice de quem se detesta não conseguiu obliterar a beleza e a universalidade daquilo que inebria os sentidos de quem se permite invadir pela expressão da verdade do outro sem medo de ser aniquilado pela possibilidade de reconhecer nela a sua própria.

Eu pensava nisso enquanto via transbordar da tela do cinema a sensualidade da irreverência, da inteligência e da autenticidade da verdade irrefreável de Freddie Mercury, que encontrou no Queen a configuração perfeita para expressar aquilo que, a despeito de todas as especulações e críticas mesquinhas à sua vida privada, capturou a verdade de bilhões de pessoas, antes e agora, provando o que a história da humanidade está aí para contar: é melhor criar coragem e olhar para a cara do desejo pois serão eternamente inúteis as tentativas de aniquilá-lo.

É bom se acostumar: we will rock you. Ontem, hoje e sempre.


P.S.: Este post foi inspirado pelo filme Bohemian Rhapsody e por outras coisinhas mais.


sábado, 27 de outubro de 2018

Palavra

Exausta pelo atropelo das palavras, é nelas, contudo, que encontro alento.

Palavras me atravessam, recortam e colam, e são o que de mais familiar eu tenho. É a elas que recorro para tentar explicar o outro, tão diferente de mim, e o mundo que nos cerca, tão estranho a nós.

É por meio da palavra que eu sou e é por meio dela que eu sei que tudo o que eu não sou também é palavra, num nó de similitude individuada que nos dá humanidade.

Palavras que escorregam em nós que se desfazem empoçam e, impotentes pelo seu isolamento, se perdem ou se acabam. 

Palavras são desejos colocados em marcha, são simbólicas e concretas. Brincam consigo mesmas mas não devem ser tomadas como brincadeira. Palavras não são erros.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Só o cheiro

"Doido desejo chupando dedo num beco
Cheio de bêbados, trêbados
Chutando os prédios, pregando prego no prego
Réu da razão, do súplice cuspe fútil
Nessa estrada cariada
Só você é o meio-fio de luz
Contramão sinalizada
No mapa do meu nada
Canção emocionada
Trajeto por teus fios"

Mapa do Meu Nada, Carlinhos Brown


"Só o cheiro do seu cheiro
Não consegue me deixar mais em paz
Nos ares dos lugares
Onde passo e onde nunca estás

(...)

Só o cheiro do seu cheiro
Não consegue ser tão fugaz
Nas pessoas, peles colos
Sexo, bocas, onde nunca estás

(...)

Só o cheiro do seu cheiro
Não consigo deixar para trás
Impregnado o dia inteiro
Nessa roupa que eu não tiro mais"

          Um Branco, Um Xis, Um Zero, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes


Acelero quando ouço na voz da Cássia Eller a lembrança do beco cego que o meu desejo atravessa levado pelo cheiro de um instante que eu não alcanço mais.

Beco que é também labirinto de odores tóxicos e de velhos caminhos deslizantes que, vistos da borda de uma subjetividade flutuante, levam ao buraco do medo e da confusão.

Movida pelo vazio daquilo que se repete, levanto e passo a delinear com linhas mais precisas as formas do meu emaranhado particular, num contorno que se revela em susto no imprevisível instante das linhas da estrada ou da ponta do lápis.

Só não há susto quando escorrego e minhas mãos, que nunca foram hábeis, deixam escapar para além do desenho que tenta se definir os traços da minha pequena ousadia. Apago a marca do que risca mas sou presa do cheiro que me pulsiona.

Recusar-se nunca é pouco.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mapa do meu mundo

"Devo confessar que a psicanálise, quando eu soube algo a respeito dela por volta dos dezesseis anos, me assustou e ainda me assusta. Eu sei por quê. Ela nos induz a lançar o olhar muito longe, para além de qualquer ordem constituída, e, quando o raio visual volta a ser o de sempre, nada é mais como antes, qualquer outro discurso parece uma máscara de palavras vestida para esconder a angústia. Naturalmente é um susto que me seduz; do discurso psicanalítico, gosto sobretudo da desfaçatez visionária, da potência corrosiva escondida atrás da promessa terapêutica. Quanto ao resto, pertenço ao grupo dos duvidosos. É terapia, é taumaturgia? Nunca fiz análise. Mas é raro que alguém se salve de um patamar oscilante no alto de um edifício atirando-se no vão das escadas.

Gostei muito de Freud, que li bastante: acho que ele sabia mais do que seus seguidores que a psicanálise é o léxico do precipício."

Elena Ferrante em Frantumaglia


"There is a crack, a crack in everything
That´s how the light gets in."

Leonard Cohen, Anthem



A propósito do estudo da psicanálise, uma amiga me perguntou, durante uma pausa no trabalho, se ao fazer análise como parte da minha formação eu não tinha medo de "sair da casinha". À pergunta, lançada em meio a rosquinhas e waffles, reagi com um riso involuntário que, visto em retrospecto, parecia conter um misto de nervosismo e de constrangimento, e com um reflexo não, não tenho.

Mais tarde, porém, a caminho de casa, percebi que minha resposta, ainda que sincera, não era verdadeira.

A verdade é que eu morro de medo de sair da casa que me contém e que as vertigens que sinto quando olho para as luzes e as sombras dos abismos que me habitam, principalmente para aquelas, poderiam fazer com que eu passasse a eternidade girando ao redor do meu próprio eixo, num movimento sintomático de estagnação não aparente.

O que muda, no meu caso, com a análise, talvez seja a possibilidade, para além de qualquer vertigem, de me colocar na beira do precipício e dali ousar estender o corpo na direção das luzes que me ofuscam e das sombras que me envolvem e que não raro me comprimem no meio de madrugadas tornadas insones; a possibilidade de, num instante de estabilidade oscilante, tocar com as pontas dos dedos o rosto do desejo que me assusta para, recobrada da surpresa, fazer do que me ofusca o que me aquece e do que me envolve o que me ampara.

Léxico que me entrega o mapa do desejo, é na borda do precipício da psicanálise, entre vertigens e oscilações, que eu, que sempre temi alturas, hoje encontro o meu lugar.

domingo, 5 de agosto de 2018

Garota na janela

É domingo de manhã e a repentina visão do mar num trecho da estrada que me traz de volta para casa é motivo de alívio. A cor da água se une ao verde esparramado pelas montanhas e a paisagem, crua em sua natureza quase desnuda de frenesi humano, concretiza a percepção do fim da agitação de uma sequência de dias feitos de imagens e de sons de palavras, gestos, frases, olhares, cores, cheiros, texturas e pensamentos que, enquanto duraram, pareceram encobrir todos os espaços, os de fora e os de dentro de mim.

Embora houvesse o prazer de estar em confusão com tantos elementos, havia também o desejo, vindo em lufadas, de estar em um lugar só meu, preenchido com o calor da calma de alguma organização interna. Foram golpes que me pegaram desprevenida e durante os quais percebi, com o divertimento que o inusitado às vezes nos causa, que ao desejar o acolhimento do silêncio eu pensava não em lugares obviamente íntimos, como o meu quarto e a minha cama, ou relacionados a uma memória afetiva que me remetesse a momentos de relaxada introspecção, como o gramado de um parque onde um dia eu tenha me deitado sobre uma canga com a Gigi ao meu lado para ler um romance, mas sim no divã da minha analista.

Nada mais natural, talvez, já que é nele que venho encontrando o contorno daquilo cuja voz não se coloca em palavras mas que se deixa entrever nos vãos das frases que digo em voz alta e que refletem o que está além de qualquer lógica; é com ele na cena das minhas fantasias que dialogo com o contraponto do meu próprio pensamento sobre me jogar ou recuar diante do abismo da existência para acabar descobrindo que nem uma coisa, nem outra; é para ele que tenho levado meus escritores e livros tão essenciais e os filmes e as séries que me dão o que pensar. No divã posso falar, sem medo, sobre o arrebatamento da beleza e a ebriedade do sexo, sobre como me sinto e não me sinto velha, sobre a festa, a punição e o infinito que entre elas constitui a vida, sobre o desperdício de considerar a morte a todo momento que se vive, sobre a densidade que tanto procuro. À meia-luz e em meio a almofadas que me amparam, no divã eu posso, como o objeto que me olha à minha direita, derreter a superfície dura que me protege para enfim me confessar como sou: frágil e imperfeita.

De volta ao burburinho do mundo, na noite da despedida dos dias intensos que abrem este texto, retomo a imagem do divã e muitas outras, de amparo e de desamparo, enquanto, sentada junto ao pequeno balcão da janela de um restaurante, sou embalada pelo ir e vir de quem passa lá fora e pelo jazz do Dave Brubeck que ressoa no ambiente. As pessoas que se aproximam da entrada do restaurante ouvem, de um dos garçons, que não, não estamos mais servindo, já encerramos, pedimos desculpas. Após a notícia, ouço o que dizem entre si, os novos planos que se formam sob a minha janela, e as observo enquanto se afastam, tentando imaginar quem são elas umas para as outras e o que será delas naquele futuro imediato. Vejo também os que passam simplesmente, alguns tropeçando nas pedras que calçam a cidade e que me encantam desde os tempos de criança. Elevo o olhar e a fachada das edificações coloniais em contraste com o céu escuro me transporta para o lugar onde nasci e cresci e para a tia-avó que me trazia de mãos dadas para as praças que encerram, na rua que as interliga, o museu republicano que tanta impressão e amor me causou. Praças que por sua vez guardam as lembranças de brincadeiras em bancos e da banca de jornais onde a minha tia-avó, com a qual me pareço na minha liberdade, me deu o mundo inteiro em forma de gibis, revistas e livros, pelos quais, aliás e não por acaso, eu estou ali.

Na moldura da janela que contém o espaço do meu corpo e à meia-luz que se faz notar às minhas costas, acabo encontrando, por alguns momentos, um lugar de conforto e de observação silenciosa, onde novos pensamentos surgem para alterar a forma daqueles que já vêm irrompendo em bolhas incessantes de fervura, unindo-os em círculos maiores até que se tornem uma grande e densa espiral, um resumo simbólico do intangível que é o tempo da vida.

Poucos dias depois, deitada no divã, deixo que o silêncio em espiralada ebulição escape em forma de palavra falada, aquela que tanto eu temi e pela qual agora ironicamente eu tanto anseio. Os livros que ali vivem e que tudo observam e escutam a uma distância discreta parecem, em sua muda aquiescência, não se incomodar com a mudança. Completos como são talvez saibam que, se no fundo daqueles que os escrevem habita o nada, dito ou escrito, todo o resto vira palavra.


P.S.: O título desta publicação é uma referência à Muchacha em la ventana, obra de Salvador Dalí, exposta no Museo Reina Sofía.

sábado, 4 de agosto de 2018

O Ponto do Poema

O ponto do poema
Nem sempre é um tema
Um edema
Um bálsamo de riso
Um alívio de dor.

O ponto do poema
Nem sempre é luz
Horizonte aberto, claro de azul
Sem poeira e sem pus.

O ponto do poema
É um esquema
Pensado por um nada
Que pulsa na falha rasgada
No meio do corpo de quem o conduz.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Eu era

aprisionado
num corpo frágil
pássaro mudo
recurvo
sob o peso do nada
como expressão
de algo que não foi tocado

o brilho do barulho
do plástico
que carrega
aquele que não tem papel
ator de um passado
agora interdito

parado a uma distância
mínima da pergunta
desejo saber
sem poder dizer
o porquê
do discurso surdo
que habita
os seus olhos
turvos
do que não é mais.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

No embalo de outros jeitos de usar a boca ou deixando que os dedos falem

será que você pensou que eu fosse uma cidade
grande o suficiente pra passar o feriado
eu sou a cidadezinha ao redor dela
aquela que você talvez não conheça
mas sempre atravessa
aqui não tem luz de neon
nem arranha-céu ou estátua
mas não vai faltar trovoada
porque eu deixo as pontes trêmulas
eu não sou carne de vaca sou geleia feita em casa
firme o bastante pra cortar a coisa mais
doce que sua boca vai tocar

                  Rupi Kaur, Outros jeitos de usar a boca


Primeiro Ato

O indizível estava lá o tempo todo. Começou com um gesto forçado e um tropeço. Uma definição bruta do que se faz e algo tão potencialmente humano é atirado em meio ao movimento e às luzes como um excremento ao qual não se dá valor. O lugar da mesa junto a um respiro incômodo. Ruído. A cada gole o real se insere com mais força no discurso e revela trechos de um eu estranho ao personagem. O palco assume um cenário indistinto, dominado pela tensão daquilo que viria a ser. Incerteza que o último gesto realizado à mesa apenas reforça.

Intervalo, onde tudo se inscreve

Quando não se tem o registro de uma situação, você mal consegue encará-la nos olhos. 

Segundo Ato

A cortina volta a se abrir, só que dessa vez não há palco. A realidade despenca em meio à fusão dos personagens e o indizível se concretiza em atos. Crueldade é aquilo que se produz na ausência de compaixão.

Fim.

domingo, 25 de março de 2018

Porque a vida não é filme

"A vida não é filme
Você não entendeu
Ninguém foi ao seu quarto
quando escureceu
Saber o que passava
No seu coração
Se o que você fazia
era certo ou não"

                     Ska, Herbert Vianna 


Durante o primeiro ano do curso de Filosofia, a cujas aulas, naquele momento de choque inicial, eu assistia meio tonta de tanta adoração, ouvi de um professor que, para um determinado expoente da Filosofia Medieval, nós, seres humanos, éramos como que anjos caídos, desconectados da nossa outra metade (Deus, no caso), condição que nos fazia passar toda a vida em busca da parte que perdemos. Enquanto o professor, com seus modos gentis e a clareza que lhe eram característicos, falava e rabiscava a parte inferior da lousa, fazendo uma espécie de desenho indicativo da separação das partes e da dor dessa alienação, dei aquela congelada básica que acontece quando identificamos num discurso a explicação, em palavras e frases concatenadas de maneira lógica, de algo que até então era apenas sentido. Descongelei, olhei com toda a atenção para o rosto do professor, que continuava falando, e intuí, logo na sequência da revelação perturbadora da falta, que não só éramos seres incompletos como também que essa incompletude era algo praticamente irremediável, que nos perseguiria pela vida afora. Bateu uma tristeza que só chorando mesmo, e foi exatamente o que eu fiz. Quando dei por mim, estava tentando disfarçar o choro, enxugando as lágrimas como quem estava só dando aquela coçadinha nos olhos, fungando de leve para parecer que era só uma alergia etc. Só para você, querido leitor, entender melhor a situação: eu tinha vinte aninhos e estava ali, sentada numa sala lotada de gente mas me sentindo totalmente desamparada, intuindo que, ao contrário do que eu havia imaginado ao longo da minha infância feliz e da minha adolescência livre, leve e louca, a vida não seria assim tão fácil. Estranho seria não chorar, concorda?


Ainda nos idos do meu passado como estudante de Filosofia, numa noite até então despretensiosa, ouvi de outro professor (Franklin Leopoldo e Silva, suas aulas foram das melhores que tive na vida!) a explicitação da ideia da fissura da existência que precede a essência e do nada que permeia o ser. Novo congelamento, nova velha intuição: tanto a angústia que não raro me pegava de jeito e me virava do avesso como a náusea insuportável que eu vinha sentindo naquela época enquanto lia a famosa obra de mesmo nome (A náusea, de Jean-Paul Sartre) eram coisas, digamos, naturais e, mais uma vez, inexoráveis. Era e seria assim e pronto, para sempre. Dessa vez não chorei e confesso que fiquei até aliviada. Afinal, tudo bem eu morrer de enjoo enquanto lia um livro que tornava praticamente palpável a sensação do vazio de existir. Bizarro seria dar de cara com a angústia e não sentir nada no estômago, concorda novamente?


Muitos anos se passaram após os episódios iniciais da descoberta, introjetada por todas as células do meu ser, do vazio e da angústia de existir, ao longo dos quais busquei incessantemente não pela parte, mas pelas partes que faltavam em mim. Durante esse percurso ignorei, em razão de um inconformismo e de uma rebeldia inúteis que só se explicam pela imaturidade, o que hoje eu vejo como sendo a principal questão relacionada à falta, que é o fato pronto e acabado de que ela nunca deixará de existir, faça você o que fizer, esteja você com quem estiver, onde estiver, com quanto dinheiro conseguir. O que muda, na real, é simplesmente como você vai lidar com ela, e é bom, diga-se desde já, que seja da melhor maneira, pois ela será para sempre, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, a sua grande companheira.


Recentemente recebi o link de um vídeo cujo tema era justamente a falta. (Há alguns anos, aliás, a pessoa que me mandou esse link me disse que era como se houvesse um enorme buraco dentro dela, o que claramente lhe causava grande tristeza.) Pois bem, levei uns dias mas finalmente, num momento x, cliquei no link. O vídeo era uma leitura do livro infantil A parte que falta, e o seu nome, A falta que a falta faz. (JoutJout, tô viciada nos seus vídeos; quase morro de tão ótima que você é.) Gente, é o seguinte: sabe todo esse blá-blá-blá aí de cima? Tudo o que filósofos e psicanalistas disseram até hoje sobre a falta? Então, está tudo resumido e ao alcance do entendimento de uma criança no livrinho que eu acabei de mencionar e, como se não bastasse, a sensacional Júlia deu o toque final da perfeição da explicação no vídeo que ela fez. Sei que muita gente já viu esse vídeo, que ele deu uma viralizada e tal, mas sempre tem uma galera viajante como eu que alguém precisa dar um toque e falar, olha, vê lá tal coisa na internet porque é muito boa. Vejam o vídeo da JoutJout porque ele é fundamental para todos nós entendermos, de uma vez por todas, que a falta existe, está e estará aí para sempre e, pasmem, não necessariamente é algo ruim.


Claro que a falta é angustiante, mas pergunto o que seríamos nós sem ela. Se o homem é um ser desejante, não seria o desejo justamente o fruto da falta? Caso a falta nos faltasse, será que também não nos faltariam a arte em geral, as descobertas tecnológicas que nos deixam de queixo caído, os feitos atléticos surreais que tanto admiramos? Supondo, na hipótese da arte, que sem a falta Michelangelo ainda assim tivesse pintado o teto da Capela Sistina, será que, ao olhar para esse teto, no caso de um ser humano livre da falta, alguns de nós (os que já se emocionaram nessas circunstâncias) continuariam tendo o ímpeto de chorar diante da beleza? Por que, afinal de contas, não seria a identificação do belo um dos raros momentos, mesmo que fugazes, de preenchimento da falta? E amor, existiria sem a falta? Será que sem ela haveria compaixão? Para finalizar essa série de perguntas singelas, não seria a falta que permeia a nossa existência justamente aquilo que nos torna humanos?


Há poucos dias uma determinada pessoa me perguntou, de forma que posteriormente se revelou bastante leviana (infelizmente honestidade e profundidade são qualidades muito mal distribuídas entre nós, anjos caídos), o que me falta. Eu respondi que o que me falta é conexão, justamente porque, mais uma vez, eu estava desconsiderando o elemento essencial da falta, ou seja, a sua perenidade.


Contudo, desde que aprendi a suportar a angústia de viver, nada mais realmente me faltou. Quando ouvi daquela pessoa que mencionei mais acima sobre o enorme buraco que parecia haver dentro dela, desejei fortemente que ela deixasse de sentir a tristeza que ocupava o espaço do buraco, pois eu sabia que este, em si mesmo, jamais deixaria de existir. E pensei dessa forma porque por muitos anos a tristeza da falta me atormentou e me angustiou, até que percebi, de uma maneira que ia além do entendimento racional, que o pulo do gato não consistia em achar algo ou alguém para colocar no buraco da falta, nem jogar o que quer que fosse nele. O grande lance era simplesmente segurar a onda, respirar fundo e aceitar a angústia de viver. E desde então é assim que eu vivo e é assim que continuo buscando (porque, entenda, a busca faz parte da falta, que por sua vez será sua best friend para sempre e mesmo que você e o seu buraquinho se deem super bem, ele nunca vai deixar você quietinho e, de tempos em tempos, vai chamar você para algum rolê) não a melhor forma de eliminar a falta mas sim a melhor forma de viver com ela.


Muita coisa para um domingão? Sorry, mas quando o assunto é viver é isso aí mesmo, tem coisa que não acaba mais. O importante aqui é saber que, quando se trata da falta, a única saída (que na verdade não é uma saída) é olhar firme para ela e dizer: segura a sua onda aí, que eu seguro a minha aqui. E vamos que vamos. Afinal, a vida é tudo, menos filme com final feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Elena Ferrante ou Uma história universal do feminino

Se eu pudesse escolher ser alguém além de mim mesma eu escolheria ser a Elena Ferrante.


Maravilhada é o adjetivo que melhor define a maneira como me senti lá pelas tantas páginas de A amiga genial, primeiro volume da chamada Série Napolitana (A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida) e meu primeiro contato com a escritora italiana de identidade misteriosa.

Enquanto lia A amiga genial eu me deslumbrava a todo momento com a qualidade da escrita e tentava lembrar quando tinha sido a última vez que um escritor havia me arrebatado de forma tão contundente.

Pensei em Lygia Fagundes Telles, Érico Veríssimo, Rosa Montero, João Guimarães Rosa, autores cujos tons pareciam pulular daquele texto que, não obstante a evocação inexplicável de vozes familiares, revelava a cada frase algo de inaudito, num encontro paradoxal entre o conforto gerado por aquilo que nos é conhecido e o frisson causado pelo contato com o desconhecido.

A amiga genial trazia à tona, com consistência e fluidez, personagens e contextos que de alguma forma já estavam em mim, entranhados talvez nas dobras do inconsciente.

Nos volumes seguintes da Série Napolitana a marca da escrita extraordinária de Elena Ferrante (seja ela quem for) foi ficando ainda mais profunda e a trajetória das duas amigas protagonistas dos romances, Lila e Lenu, acabou se entrelaçando à história política, social e econômica do mundo ocidental de forma tão natural que não pude deixar de notar o talento da autora para entremear acontecimentos ordinários da vida cotidiana com outros de alcance mais amplo e mais complexo.

Mas o que havia de mais fascinante na Série Napolitana era o sentido do feminino. Ao longo da trajetória de Lila e de Lenu pude enxergar a mim mesma, minha mãe, minhas avós, tias, primas, amigas e conhecidas, como se as vidas das duas personagens fossem espelhos que refletissem apenas as imagens essenciais daquilo que é existir como mulher. Embutida na história particular de Lila e de Lenu estava a história universal do feminino. 

História que aliás parece não poder ser inteiramente pensada sem que esteja associada a outra, tão antiga quanto infame: a do machismo.

Ainda que subjacente aos acontecimentos gerais e particulares que articulavam a trajetória das duas protagonistas da trama, o machismo saltava das páginas da Série Napolitana assim como no mundo real salta aos olhos de qualquer observador atento à dinâmica da vida em sociedade.

Se Elena Ferrante é de fato uma mulher eu não sei, mas não consigo imaginar como um homem poderia compreender em toda a sua inteireza o que significa existir sob a condição feminina num mundo como o nosso. A Série Napolitana dá boas pistas a esse respeito.