domingo, 5 de agosto de 2018

Garota na janela

É domingo de manhã e a repentina visão do mar num trecho da estrada que me traz de volta para casa é motivo de alívio. A cor da água se une ao verde esparramado pelas montanhas e a paisagem, crua em sua natureza quase desnuda de frenesi humano, concretiza a percepção do fim da agitação de uma sequência de dias feitos de imagens e de sons de palavras, gestos, frases, olhares, cores, cheiros, texturas e pensamentos que, enquanto duraram, pareceram encobrir todos os espaços, os de fora e os de dentro de mim.

Embora houvesse o prazer de estar em confusão com tantos elementos, havia também o desejo, vindo em lufadas, de estar em um lugar só meu, preenchido com o calor da calma de alguma organização interna. Foram golpes que me pegaram desprevenida e durante os quais percebi, com o divertimento que o inusitado às vezes nos causa, que ao desejar o acolhimento do silêncio eu pensava não em lugares obviamente íntimos, como o meu quarto e a minha cama, ou relacionados a uma memória afetiva que me remetesse a momentos de relaxada introspecção, como o gramado de um parque onde um dia eu tenha me deitado sobre uma canga com a Gigi ao meu lado para ler um romance, mas sim no divã da minha analista.

Nada mais natural, talvez, já que é nele que venho encontrando o contorno daquilo cuja voz não se coloca em palavras mas que se deixa entrever nos vãos das frases que digo em voz alta e que refletem o que está além de qualquer lógica; é com ele na cena das minhas fantasias que dialogo com o contraponto do meu próprio pensamento sobre me jogar ou recuar diante do abismo da existência para acabar descobrindo que nem uma coisa, nem outra; é para ele que tenho levado meus escritores e livros tão essenciais e os filmes e as séries que me dão o que pensar. No divã posso falar, sem medo, sobre o arrebatamento da beleza e a ebriedade do sexo, sobre como me sinto e não me sinto velha, sobre a festa, a punição e o infinito que entre elas constitui a vida, sobre o desperdício de considerar a morte a todo momento que se vive, sobre a densidade que tanto procuro. À meia-luz e em meio a almofadas que me amparam, no divã eu posso, como o objeto que me olha à minha direita, derreter a superfície dura que me protege para enfim me confessar como sou: frágil e imperfeita.

De volta ao burburinho do mundo, na noite da despedida dos dias intensos que abrem este texto, retomo a imagem do divã e muitas outras, de amparo e de desamparo, enquanto, sentada junto ao pequeno balcão da janela de um restaurante, sou embalada pelo ir e vir de quem passa lá fora e pelo jazz do Dave Brubeck que ressoa no ambiente. As pessoas que se aproximam da entrada do restaurante ouvem, de um dos garçons, que não, não estamos mais servindo, já encerramos, pedimos desculpas. Após a notícia, ouço o que dizem entre si, os novos planos que se formam sob a minha janela, e as observo enquanto se afastam, tentando imaginar quem são elas umas para as outras e o que será delas naquele futuro imediato. Vejo também os que passam simplesmente, alguns tropeçando nas pedras que calçam a cidade e que me encantam desde os tempos de criança. Elevo o olhar e a fachada das edificações coloniais em contraste com o céu escuro me transporta para o lugar onde nasci e cresci e para a tia-avó que me trazia de mãos dadas para as praças que encerram, na rua que as interliga, o museu republicano que tanta impressão e amor me causou. Praças que por sua vez guardam as lembranças de brincadeiras em bancos e da banca de jornais onde a minha tia-avó, com a qual me pareço na minha liberdade, me deu o mundo inteiro em forma de gibis, revistas e livros, pelos quais, aliás e não por acaso, eu estou ali.

Na moldura da janela que contém o espaço do meu corpo e à meia-luz que se faz notar às minhas costas, acabo encontrando, por alguns momentos, um lugar de conforto e de observação silenciosa, onde novos pensamentos surgem para alterar a forma daqueles que já vêm irrompendo em bolhas incessantes de fervura, unindo-os em círculos maiores até que se tornem uma grande e densa espiral, um resumo simbólico do intangível que é o tempo da vida.

Poucos dias depois, deitada no divã, deixo que o silêncio em espiralada ebulição escape em forma de palavra falada, aquela que tanto eu temi e pela qual agora ironicamente eu tanto anseio. Os livros que ali vivem e que tudo observam e escutam a uma distância discreta parecem, em sua muda aquiescência, não se incomodar com a mudança. Completos como são talvez saibam que, se no fundo daqueles que os escrevem habita o nada, dito ou escrito, todo o resto vira palavra.


P.S.: O título desta publicação é uma referência à Muchacha em la ventana, obra de Salvador Dalí, exposta no Museo Reina Sofía.

sábado, 4 de agosto de 2018

O Ponto do Poema

O ponto do poema
Nem sempre é um tema
Um edema
Um bálsamo de riso
Um alívio de dor.

O ponto do poema
Nem sempre é luz
Horizonte aberto, claro de azul
Sem poeira e sem pus.

O ponto do poema
É um esquema
Pensado por um nada
Que pulsa na falha rasgada
No meio do corpo de quem o conduz.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Eu era

aprisionado
num corpo frágil
pássaro mudo
recurvo
sob o peso do nada
como expressão
de algo que não foi tocado

o brilho do barulho
do plástico
que carrega
aquele que não tem papel
ator de um passado
agora interdito

parado a uma distância
mínima da pergunta
desejo saber
sem poder dizer
o porquê
do discurso surdo
que habita
os seus olhos
turvos
do que não é mais.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

No embalo de outros jeitos de usar a boca ou deixando que os dedos falem

será que você pensou que eu fosse uma cidade
grande o suficiente pra passar o feriado
eu sou a cidadezinha ao redor dela
aquela que você talvez não conheça
mas sempre atravessa
aqui não tem luz de neon
nem arranha-céu ou estátua
mas não vai faltar trovoada
porque eu deixo as pontes trêmulas
eu não sou carne de vaca sou geleia feita em casa
firme o bastante pra cortar a coisa mais
doce que sua boca vai tocar

                  Rupi Kaur, Outros jeitos de usar a boca


Primeiro Ato

O indizível estava lá o tempo todo. Começou com um gesto forçado e um tropeço. Uma definição bruta do que se faz e algo tão potencialmente humano é atirado em meio ao movimento e às luzes como um excremento ao qual não se dá valor. O lugar da mesa junto a um respiro incômodo. Ruído. A cada gole o real se insere com mais força no discurso e revela trechos de um eu estranho ao personagem. O palco assume um cenário indistinto, dominado pela tensão daquilo que viria a ser. Incerteza que o último gesto realizado à mesa apenas reforça.

Intervalo, onde tudo se inscreve

Quando não se tem o registro de uma situação, você mal consegue encará-la nos olhos. 

Segundo Ato

A cortina volta a se abrir, só que dessa vez não há palco. A realidade despenca em meio à fusão dos personagens e o indizível se concretiza em atos. Crueldade é aquilo que se produz na ausência de compaixão.

Fim.

domingo, 25 de março de 2018

Porque a vida não é filme

"A vida não é filme
Você não entendeu
Ninguém foi ao seu quarto
quando escureceu
Saber o que passava
No seu coração
Se o que você fazia
era certo ou não"

                     Ska, Herbert Vianna 


Durante o primeiro ano do curso de Filosofia, a cujas aulas, naquele momento de choque inicial, eu assistia meio tonta de tanta adoração, ouvi de um professor que, para um determinado expoente da Filosofia Medieval, nós, seres humanos, éramos como que anjos caídos, desconectados da nossa outra metade (Deus, no caso), condição que nos fazia passar toda a vida em busca da parte que perdemos. Enquanto o professor, com seus modos gentis e a clareza que lhe eram característicos, falava e rabiscava a parte inferior da lousa, fazendo uma espécie de desenho indicativo da separação das partes e da dor dessa alienação, dei aquela congelada básica que acontece quando identificamos num discurso a explicação, em palavras e frases concatenadas de maneira lógica, de algo que até então era apenas sentido. Descongelei, olhei com toda a atenção para o rosto do professor, que continuava falando, e intuí, logo na sequência da revelação perturbadora da falta, que não só éramos seres incompletos como também que essa incompletude era algo praticamente irremediável, que nos perseguiria pela vida afora. Bateu uma tristeza que só chorando mesmo, e foi exatamente o que eu fiz. Quando dei por mim, estava tentando disfarçar o choro, enxugando as lágrimas como quem estava só dando aquela coçadinha nos olhos, fungando de leve para parecer que era só uma alergia etc. Só para você, querido leitor, entender melhor a situação: eu tinha vinte aninhos e estava ali, sentada numa sala lotada de gente mas me sentindo totalmente desamparada, intuindo que, ao contrário do que eu havia imaginado ao longo da minha infância feliz e da minha adolescência livre, leve e louca, a vida não seria assim tão fácil. Estranho seria não chorar, concorda?


Ainda nos idos do meu passado como estudante de Filosofia, numa noite até então despretensiosa, ouvi de outro professor (Franklin Leopoldo e Silva, suas aulas foram das melhores que tive na vida!) a explicitação da ideia da fissura da existência que precede a essência e do nada que permeia o ser. Novo congelamento, nova velha intuição: tanto a angústia que não raro me pegava de jeito e me virava do avesso como a náusea insuportável que eu vinha sentindo naquela época enquanto lia a famosa obra de mesmo nome (A náusea, de Jean-Paul Sartre) eram coisas, digamos, naturais e, mais uma vez, inexoráveis. Era e seria assim e pronto, para sempre. Dessa vez não chorei e confesso que fiquei até aliviada. Afinal, tudo bem eu morrer de enjoo enquanto lia um livro que tornava praticamente palpável a sensação do vazio de existir. Bizarro seria dar de cara com a angústia e não sentir nada no estômago, concorda novamente?


Muitos anos se passaram após os episódios iniciais da descoberta, introjetada por todas as células do meu ser, do vazio e da angústia de existir, ao longo dos quais busquei incessantemente não pela parte, mas pelas partes que faltavam em mim. Durante esse percurso ignorei, em razão de um inconformismo e de uma rebeldia inúteis que só se explicam pela imaturidade, o que hoje eu vejo como sendo a principal questão relacionada à falta, que é o fato pronto e acabado de que ela nunca deixará de existir, faça você o que fizer, esteja você com quem estiver, onde estiver, com quanto dinheiro conseguir. O que muda, na real, é simplesmente como você vai lidar com ela, e é bom, diga-se desde já, que seja da melhor maneira, pois ela será para sempre, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, a sua grande companheira.


Recentemente recebi o link de um vídeo cujo tema era justamente a falta. (Há alguns anos, aliás, a pessoa que me mandou esse link me disse que era como se houvesse um enorme buraco dentro dela, o que claramente lhe causava grande tristeza.) Pois bem, levei uns dias mas finalmente, num momento x, cliquei no link. O vídeo era uma leitura do livro infantil A parte que falta, e o seu nome, A falta que a falta faz. (JoutJout, tô viciada nos seus vídeos; quase morro de tão ótima que você é.) Gente, é o seguinte: sabe todo esse blá-blá-blá aí de cima? Tudo o que filósofos e psicanalistas disseram até hoje sobre a falta? Então, está tudo resumido e ao alcance do entendimento de uma criança no livrinho que eu acabei de mencionar e, como se não bastasse, a sensacional Júlia deu o toque final da perfeição da explicação no vídeo que ela fez. Sei que muita gente já viu esse vídeo, que ele deu uma viralizada e tal, mas sempre tem uma galera viajante como eu que alguém precisa dar um toque e falar, olha, vê lá tal coisa na internet porque é muito boa. Vejam o vídeo da JoutJout porque ele é fundamental para todos nós entendermos, de uma vez por todas, que a falta existe, está e estará aí para sempre e, pasmem, não necessariamente é algo ruim.


Claro que a falta é angustiante, mas pergunto o que seríamos nós sem ela. Se o homem é um ser desejante, não seria o desejo justamente o fruto da falta? Caso a falta nos faltasse, será que também não nos faltariam a arte em geral, as descobertas tecnológicas que nos deixam de queixo caído, os feitos atléticos surreais que tanto admiramos? Supondo, na hipótese da arte, que sem a falta Michelangelo ainda assim tivesse pintado o teto da Capela Sistina, será que, ao olhar para esse teto, no caso de um ser humano livre da falta, alguns de nós (os que já se emocionaram nessas circunstâncias) continuariam tendo o ímpeto de chorar diante da beleza? Por que, afinal de contas, não seria a identificação do belo um dos raros momentos, mesmo que fugazes, de preenchimento da falta? E amor, existiria sem a falta? Será que sem ela haveria compaixão? Para finalizar essa série de perguntas singelas, não seria a falta que permeia a nossa existência justamente aquilo que nos torna humanos?


Há poucos dias uma determinada pessoa me perguntou, de forma que posteriormente se revelou bastante leviana (infelizmente honestidade e profundidade são qualidades muito mal distribuídas entre nós, anjos caídos), o que me falta. Eu respondi que o que me falta é conexão, justamente porque, mais uma vez, eu estava desconsiderando o elemento essencial da falta, ou seja, a sua perenidade.


Contudo, desde que aprendi a suportar a angústia de viver, nada mais realmente me faltou. Quando ouvi daquela pessoa que mencionei mais acima sobre o enorme buraco que parecia haver dentro dela, desejei fortemente que ela deixasse de sentir a tristeza que ocupava o espaço do buraco, pois eu sabia que este, em si mesmo, jamais deixaria de existir. E pensei dessa forma porque por muitos anos a tristeza da falta me atormentou e me angustiou, até que percebi, de uma maneira que ia além do entendimento racional, que o pulo do gato não consistia em achar algo ou alguém para colocar no buraco da falta, nem jogar o que quer que fosse nele. O grande lance era simplesmente segurar a onda, respirar fundo e aceitar a angústia de viver. E desde então é assim que eu vivo e é assim que continuo buscando (porque, entenda, a busca faz parte da falta, que por sua vez será sua best friend para sempre e mesmo que você e o seu buraquinho se deem super bem, ele nunca vai deixar você quietinho e, de tempos em tempos, vai chamar você para algum rolê) não a melhor forma de eliminar a falta mas sim a melhor forma de viver com ela.


Muita coisa para um domingão? Sorry, mas quando o assunto é viver é isso aí mesmo, tem coisa que não acaba mais. O importante aqui é saber que, quando se trata da falta, a única saída (que na verdade não é uma saída) é olhar firme para ela e dizer: segura a sua onda aí, que eu seguro a minha aqui. E vamos que vamos. Afinal, a vida é tudo, menos filme com final feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Elena Ferrante ou Uma história universal do feminino

Se eu pudesse escolher ser alguém além de mim mesma eu escolheria ser a Elena Ferrante.


Maravilhada é o adjetivo que melhor define a maneira como me senti lá pelas tantas páginas de A amiga genial, primeiro volume da chamada Série Napolitana (A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida) e meu primeiro contato com a escritora italiana de identidade misteriosa.

Enquanto lia A amiga genial eu me deslumbrava a todo momento com a qualidade da escrita e tentava lembrar quando tinha sido a última vez que um escritor havia me arrebatado de forma tão contundente.

Pensei em Lygia Fagundes Telles, Érico Veríssimo, Rosa Montero, João Guimarães Rosa, autores cujos tons pareciam pulular daquele texto que, não obstante a evocação inexplicável de vozes familiares, revelava a cada frase algo de inaudito, num encontro paradoxal entre o conforto gerado por aquilo que nos é conhecido e o frisson causado pelo contato com o desconhecido.

A amiga genial trazia à tona, com consistência e fluidez, personagens e contextos que de alguma forma já estavam em mim, entranhados talvez nas dobras do inconsciente.

Nos volumes seguintes da Série Napolitana a marca da escrita extraordinária de Elena Ferrante (seja ela quem for) foi ficando ainda mais profunda e a trajetória das duas amigas protagonistas dos romances, Lila e Lenu, acabou se entrelaçando à história política, social e econômica do mundo ocidental de forma tão natural que não pude deixar de notar o talento da autora para entremear acontecimentos ordinários da vida cotidiana com outros de alcance mais amplo e mais complexo.

Mas o que havia de mais fascinante na Série Napolitana era o sentido do feminino. Ao longo da trajetória de Lila e de Lenu pude enxergar a mim mesma, minha mãe, minhas avós, tias, primas, amigas e conhecidas, como se as vidas das duas personagens fossem espelhos que refletissem apenas as imagens essenciais daquilo que é existir como mulher. Embutida na história particular de Lila e de Lenu estava a história universal do feminino. 

História que aliás parece não poder ser inteiramente pensada sem que esteja associada a outra, tão antiga quanto infame: a do machismo.

Ainda que subjacente aos acontecimentos gerais e particulares que articulavam a trajetória das duas protagonistas da trama, o machismo saltava das páginas da Série Napolitana assim como no mundo real salta aos olhos de qualquer observador atento à dinâmica da vida em sociedade.

Se Elena Ferrante é de fato uma mulher eu não sei, mas não consigo imaginar como um homem poderia compreender em toda a sua inteireza o que significa existir sob a condição feminina num mundo como o nosso. A Série Napolitana dá boas pistas a esse respeito.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Canadá de trem

Estação de trem de Québec

Sabe aquele roteiro clássico de viagem pela costa leste do Canadá que inclui Toronto, Ottawa, Montréal e Québec? Pois bem, nos últimos meses de maio e junho fiz a experiência de percorrê-lo e posso garantir que, assim como quase todo clássico, este é uma ótima pedida.

Como de hábito coloquei em prática o bom e velho esquema mochilão e planejei toda a viagem de forma a não gastar os tufos. Eu estava muito a fim de viajar de trem entre as cidades mas, após algumas pesquisas, me conformei em fazê-lo de ônibus pois a princípio os preços das passagens rodoviárias eram menores.

Porém mais ou menos um mês antes de viajar percebi que havia uma categoria de bilhetes no site da VIA Rail Canada, a companhia responsável pela maior parte do transporte ferroviário interurbano de passageiros no país, que apresentava tarifas muito atrativas. Eram as tarifas escape, ainda mais baratas do que as economy e com preços similares aos cobrados pelas empresas rodoviárias.

Fiquei feliz da vida e resolvi comprar as passagens imediatamente mas, ao preencher o formulário de compra, logo empaquei no campo relacionado ao meu endereço de residência e ao do meu cartão de crédito. O fato é que somente pessoas e cartões de crédito residentes no Canadá ou nos Estados Unidos conseguem realizar a compra de bilhetes pelo site da VIA Rail. Minha empolgação havia durado pouco mas não estava de todo acabada.

Conversei com os amigos que iam me receber em Toronto e eles gentilmente providenciaram a compra das passagens pois o site da VIA Rail permite que o comprador indique terceiros como passageiros, ou seja, o titular da compra não precisa necessariamente ser o titular da passagem e a compra compreende a emissão de um bilhete eletrônico com o nome do passageiro e uma fatura com o nome do comprador.

Caso você não tenha parentes ou amigos morando no Canadá ou nos Estados Unidos parece ser possível adquirir os bilhetes de trem por meio de uma empresa que opera a VIA Rail aqui no Brasil. Encontrei o site por meio de pesquisas na internet mas nunca entrei em contato com eles.

Seja qual for a forma de aquisição das passagens fique atento pois cada categoria possui regras específicas, ou seja, escape, economy, economy plus, business e business plus têm critérios diferentes para reembolso, remarcação etc. Evidentemente as tarifas escape possuem as regras menos flexíveis.

Ao todo fiz cinco trechos utilizando trens e todas as viagens foram muito tranquilas: Toronto - Ottawa; Ottawa - Montréal; Montréal - Québec; Québec - Montréal e Montréal - Toronto. Os percursos mais bonitos foram os dois últimos, com muita água pelo caminho e um visual deslumbrante nas proximidades de Toronto onde, de tempos em tempos, o lago Ontário surgia na janela como um espelho d´água num horizonte infinito.

Tanto as estações quanto os trens possuem WiFi (oscila um pouco mas quebra bem o galho) e a estação mais distante do centro é a de Ottawa, mas nada que um ônibus que para praticamente na frente das portas que lhe dão acesso não resolva.

Em resumo, viajar de trem pela costa leste do Canadá foi tudo de bom; recomendo e pretendo repetir, quem sabe com um roteiro como este aqui. Até lá, vou curtindo as lembranças da viagem recente que ainda estão se sedimentando na memória. E você, pronto para comprar os seus bilhetes?

sábado, 29 de julho de 2017

Guido, ops, Gilmore Girls

Sempre que acessava a Netflix eu acabava notando com alguma curiosidade o título Gilmore Girls entre os tantos outros que haviam por ali mas foi somente quando li uma matéria que continha a lista de livros que Rory havia lido ao longo das várias temporadas da série que resolvi assisti-la. Afinal, que roteiro era aquele que incluía uma personagem que lia compulsivamente?

Logo após assistir aos primeiros episódios comentei com a minha mãe que estava gostando muito da série e poucos dias depois ela me contou que também havia começado a assistir Gilmore Girls. A partir daí deixamos os filmes temporariamente de lado e nos fins de semana em que estávamos juntas passamos a nos dedicar de forma quase compulsiva ao que agora chamávamos de "o nosso programinha".

Certa noite estávamos confortavelmente acomodadas em frente à televisão quando em razão de alguma cena muito característica simultaneamente exclamamos "Somos nós!". A semelhança entre mãe (Lorelai Gilmore) e filha (Rory Gilmore) fictícias e mãe e filha reais era tão grande que não pudemos deixar de comentar e, claro, de dar boas risadas.

O fato é que sou mesmo muito parecida com a Rory mas a Mirian é a Lorelai quase escrita e retratada.

Querida pelos meus amigos desde a infância e hoje festejada pelas minhas amigas ela sempre foi a mãe da qual ninguém, especialmente eu, precisava esconder nada; ela sempre tomou minhas dores nos episódios que envolveram corações partidos e crises de desânimo; ela sempre me motivou, apontando em mim qualidades e habilidades das quais muitas vezes duvidei e ainda duvido; ela sempre me deu todas as oportunidades para que eu pudesse fazer o melhor de mim; ela sempre me considerou um ser humano capaz de entender tudo e me ensinou bem cedo o que eu mais precisava para sair pelo mundo; ela nunca exitou em me dizer não; ela sempre me mostrou meus piores erros mas sempre os respeitou e tolerou; ela sempre esteve lá para me ajudar a sacudir a poeira quando os meus erros, aqueles que ela havia apontado, me fizeram cair; ela sempre me disse com alegria que "a vida é boa" e me provou que é sempre possível recomeçar até acertar. É com ela que até hoje eu falo quando tenho que tomar uma decisão importante e é nela que eu penso quando acordo com medo da vida. Eu não tenho a mesma coragem mas o exemplo que ela me dá sempre me movimenta.

Até os livros, meus grandes amigos desde a infância, têm o dedo dela. Foram incontáveis as histórias que ela leu para mim e os livros que estiveram ao meu alcance, sem censura, desde sempre; igualmente inumeráveis as vezes nas quais olhei para a minha mãe e a vi absorta num romance, o que me instigava a querer ler também. Sem perceber ela me deu o exemplo e talvez para mim o afeto pelos livros tenha até hoje alguma relação com o amor e a admiração que eu sinto por ela.

Amor esse que ficou entranhado nas conversas que nós tivemos sentadas à mesa da cozinha com alguma guloseima entre nós, no meu quarto apoiadas cada uma em um canto da cama ou à mesa de algum café ou restaurante, de maneira muito semelhante à que se vê em determinadas cenas de Gilmore Girls e que não por acaso me dão a imediata sensação de conforto e bem-estar.

Assim como a série que teve um revival recente produzido pela Netflix e que se eu não estiver tão mal informada talvez tenha mais uma continuação, os episódios das nossas vidas, a minha e a da minha mãe, não só ainda estão sendo escritos como terão que ser adaptados ao formato da maturidade. Por enquanto posso adiantar apenas que estamos bem em nossos papéis. Mais que isso, como dizem por aí, é spoiler.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Stardust

"Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim. (...) O primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de mundos, aniquila, por assim dizer, a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo), depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo, ao contrário, eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência, por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível."

Kant, Crítica da razão prática.


Faz duas décadas que deparei pela primeira vez com esse trecho da Crítica da razão prática emoldurado no topo de uma página do livro de François Châtelet, Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël, e imediatamente fui arrebatada pela força imagética das palavras e pela expressão precisa e quase poética de um dos paradoxos da existência humana, qual seja, o fato de sermos a um só tempo insignificantes perante o Universo cuja matéria nos constitui e absolutamente dotados de valor no âmbito dos nossos universos singulares.

Mais ou menos na mesma época eu estava encantada com o filme de Richard Linklater, Antes do Amanhecer (Before Sunrise), no qual os personagens Céline (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) se conhecem num trem na Europa e decidem desembarcar no meio do caminho, em Viena, para passarem o único dia do qual dispõem juntos.

A certa altura das perambulações do casal por Viena uma cigana os aborda e, depois de ler suas mãos, sai de cena dizendo: "Vocês são estrelas, não esqueçam. Quando as estrelas explodiram há bilhões de anos, formaram tudo o que há neste mundo. Tudo o que nós conhecemos é poeira estelar. Então não esqueçam, vocês são poeira estelar." (Tradução livre.)

A conexão entre a fala da cigana e o texto de Kant foi imediata e desde então penso com maior ou menor intensidade em ambos.

Saber que sou poeira de estrela me deixa simultaneamente maravilhada e assustada pois não consigo dissociar essa condição da minha própria insignificância e, em última análise, da minha mortalidade. Quando penso que um dia vou voltar a ser pó as estrelas do meu universo interior se agitam e mudam de pulsação, resistindo à ideia de deixar de brilhar.

A resistência e o temor são tão grandes que há alguns anos muitas das minhas madrugadas são permeadas pelo sobressalto da consciência visceral do fim irremediável da minha constelação interior.

Com o passar dos anos a sensação de pequenez e a angústia gerada pela certeza consciente do fim da minha inteligência e de tudo o que acho que sou vêm se acentuando e mudando a minha percepção das coisas. Hoje sei que assim como eu todos os momentos que formam o fio da minha existência possuem sua carga própria de importância e de fugacidade, razão pela qual merecem toda a minha atenção mas jamais o meu apego.

Durante uma viagem recente, andando pela cidade de Québec num dia que me pareceu, em certos aspectos, similar àquele protagonizado por Céline e Jesse no primeiro filme da trilogia de Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-noite) eu pensava justamente na transitoriedade daqueles instantes quando deparei com a inscrição "cet éphémère moment présent" ("é efêmero o momento presente") pintada num pilar. Pensei, sorrindo com a coincidência: hoje eu sei.

Sei também que a despeito de qualquer fugacidade dias como o do parágrafo anterior são como combustíveis que ajudam a manter aceso o brilho da minha galáxia interior. A questão é se permanecerão de alguma forma inteligíveis quando as minhas estrelas virarem pó ou desaparecerão em algum buraco negro da existência. Seja qual for a resposta o importante é sempre lembrar que somos todos pó de estrela. O resto é surpresa.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Enjoy the Silence

Claramente inspirado na música de mesmo nome da banda inglesa Depeche Mode o título deste post andou explodindo na minha cabeça em duas ocasiões recentes onde, apesar do pretenso perrengue e do aparente sofrimento, o que de fato predominava em mim era uma enorme curtição do silêncio.

Quando digo que até gosto de um perrengue e que me sentir exausta depois de um treino tem um quê de prazeroso é possível que tais revelações remetam o interlocutor diretamente às ideias de desafio e de superação pessoal. Mas ambos são apenas coadjuvantes numa história cujo protagonista é algo ou alguém maior e mais fundamental.

O fato é que após um tempo de esforço contínuo ouvindo as batidas do meu coração e a minha respiração eu desencano de mim, ou melhor, daquele ser que fica o tempo todo falando dentro da minha cabeça, ao qual muitos dão o nome de ego. É em momentos como esse que, pedalando numa subida hardcore no meio de uma trilha na mata, por alguns segundos ou por uma fração deles, o tempo para, o espaço perde a consistência habitual e a mente fica quieta.

Quando o pensamento volta e, como de hábito, começa a analisar a experiência, percebo não só que tudo o que eu queria era estar exatamente ali naquele momento e naquela subida, aproveitando o silêncio de dentro e o de fora, como também que nada, ao fim e ao cabo, é mais importante que isso.

Costumo dizer que adoro as palavras, principalmente as escritas, mas ao mesmo tempo acredito que nenhuma delas, em tempo algum, será capaz de expressar as coisas mais fundamentais. Estas só o silêncio (com a ajuda de uma boa piramba) pode revelar.