quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Toscana e Provence em livro e No Pé e No Pedal

Ainda digerindo o impacto de uma viagem de bicicleta pelos Lagos Andinos, concluída na penúltima semana, tenho pensado muito em outra viagem, também de bicicleta, que eu e o Paulo fizemos em julho de 2012 e que eu já havia mencionado aqui: Toscana, Ligúria e trechos do sul da França, incluindo as exuberantes Gorges du Verdon.

Os dois livros que acabo de ler, um após o outro, certamente são, em conjunto com outros fatores, responsáveis por essas lembranças tão intensas sobre uma viagem que, de qualquer forma, sei que vou lembrar para sempre.


Um ano na Provence, de Peter Mayle, é talvez o melhor livro que li em 2013. Permeado por um humor delicioso, leve, instrutivo e incrivelmente apetitoso (comidas e bebidas estão presentes em grande parte do texto), o relato de Mayle sobre o primeiro ano junto de sua mulher e de suas duas cachorras como residentes da Provence é impagável.


O famoso Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes, não é menos instrutivo nem menos apetitoso e minha vontade, enquanto o lia, era a de fazer as malas e me mudar imediatamente para a Toscana, pela qual eu já havia morrido de amores em 2012. (A ponto de ter escolhido uma de suas cidades como o primeiro lugar no mundo onde eu gostaria de morar.)

O fato é que ambos transcendem seus próprios temas, pois tratam de questões muito mais essenciais e universais, como a comida, a bebida, a natureza, o comportamento e as relações entre as pessoas. Assim, a despeito do fato de você já ter visitado esses lugares, de planejar fazê-lo ou de ainda não ter pensado sobre o assunto, ambos são livros deliciosamente interessantes.

Agora, se você pensa em conhecer esses lugares, além dos livros de Peter Mayle e de Frances Mayes, que tal dar uma passadinha pelo No Pé e No Pedal, blog onde eu e o Paulo, meu companheiro de vida e de aventuras, relatamos algumas delas? Dê um pulinho lá e se inspire! 

Quanto ao meio de transporte que utilizamos para passear pela Toscana e pela Provence, vale dizer que, embora nossa viagem tenha sido feita de bicicleta, o roteiro que escolhemos pode perfeitamente ser percorrido de trem ou de carro, com as devidas adaptações. Ou seja, você não precisa ser um cicloturista para dar uma espiadinha na nossa trip.

E, além do relato da viagem, que fizemos enquanto viajávamos, as nossas fotos preferidas também estão disponíveis para visualização, no Facebook. Impossível ver e não ficar com água na boca. :) 

Para ler o relato da viagem, clique aqui.

Para ver as fotos, clique aqui.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A arte de viajar

Foto: Pepê Esteves

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio - com toda a sua empolgação e seus paradoxos - quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos - ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir - embora a arte de viajar pareça evocar naturalmente uma série de questionamentos nem tão simples ou triviais, cuja análise poderia contribuir, de forma modesta, para uma compreensão daquilo que os filósofos gregos chamavam lindamente de eudaimonia, ou desabrochar humano."

                                                                                                    Alain de Botton em A arte de viajar

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Noruega By Bike

Você já pensou em ir à Noruega? Tem alguma ideia das paisagens, da geografia, da cultura, da culinária ou do clima noruegueses?

Caso a sua resposta para as duas questões anteriores seja meio incerta, a dica para conhecer melhor o país e provavelmente ficar com vontade de se aventurar por ele é o Noruega By Bike, livro escrito por Aurélio Magalhães após passar 96 dias viajando de bicicleta pela Noruega.

Ao longo desse período, Aurélio pôde conhecer o país com a riqueza de detalhes que só uma cicloviagem proporciona e, de forma leve e descontraída, relata em seu livro as experiências vividas em solo norueguês e as impressões sobre o povo, os costumes, o relevo e sobre outros elementos que compõem a Noruega.

É importante deixar claro que Noruega By Bike não é um livro dirigido apenas a cicloturistas. Ao contrário, as informações fornecidas pelo relato do autor são dados preciosos para qualquer pessoa que queira viajar pela Noruega, independente do meio de transporte escolhido.

Além das fotos que nos fazem ter vontade de pegar o próximo voo para o país, o livro traz receitas da culinária norueguesa, provadas e eventualmente incrementadas pelo autor, que também é chefe de cozinha! Uma delícia!

Mas deliciosa, mesmo, é a combinação entre bicicleta, viagem e boa comida, para ser degustada ao longo das páginas de Noruega By Bike. Bon appétit!

No Pé e No Pedal na Pedra das Flores

Foto: Camila Guido

O final de semana está chegando e, pra quem mora em São Paulo e está precisando respirar um pouco de ar puro, entrar em contato com a natureza e ver uma paisagem linda de morrer, a dica é dar um pulinho em Extrema, MG, pra fazer uma caminhada na Serra do Lopo pela trilha que leva até a Pedra das Flores e a Pedra do Cume. É imperdível!!

Depois da caminhada, a pedida é uma parada no Armazém Bertolotti para saborear as deliciosas iguarias servidas pela família Bertolotti em seu armazém centenário. É bom demais!!

Mais fotos e informações sobre a trilha na Serra do Lopo e sobre Extrema, aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

No Pé e No Pedal

Recentemente, eu e o Pepê decidimos compartilhar as viagens (grandes ou pequenas) e experiências vividas e conduzidas por nossas próprias pernas num blog conjunto, o No Pé e No Pedal.

A aventura mais recente foi uma viagem de bike pela Itália e pela França, cujo relato, incluindo algumas dicas práticas, você encontra aqui.

Além do blog, nossas aventuras, fotos e outras coisinhas mais podem ser vistas e seguidas no facebook. É só clicar aqui!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Caminho é lindo!

Preciso confessar que, antes da viagem, nem de longe eu esperava que o Caminho de Santiago fosse tão bonito e que reservasse tantas surpresas boas.

Revendo as fotos da trip para editar as dicas práticas parte III, mais uma vez fiquei encantada com a mistura de rusticidade e delicadeza que encontramos por lá.

A seguir, pedacinhos de algumas cenas que nos fizeram parar a bicicleta:








Fotos: Camila Guido e Pepê Esteves

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Santiago de Compostela de bike - dicas práticas parte III

Trecho do Caminho Francês

Como eu prometi aqui, as dicas deste post tratam exclusivamente de duas questões básicas de sobrevivência: comer e dormir.

O Caminho de Santiago (Francês) conta com uma excelente estrutura para os peregrinos. Há hospedagem e alimentação para todos os gostos e bolsos. Albergues, pensões, pousadas, hotéis, campings e menus peregrinos em abundância contribuem imensamente para a tranquilidade da bicigrinação/peregrinação.

Eu e o Paulo não experimentamos muitos dos famosos albergues do Caminho mas podemos afirmar que eles são uma ótima alternativa de hospedagem, especialmente para quem está sozinho e não tem com quem dividir gastos; os albergues, sem dúvida, viabilizam a peregrinação (afinal, para fazer o percurso a pé desde Saint-Jean-Pied-de-Port, são necessários mais de trinta dias) e é maravilhoso que eles existam.

Nos albergues municipais (alguns incrivelmente estruturados, como o de Santo Domingo de la Calzada), a princípio, não se cobra pela hospedagem. Neles, o peregrino pode fazer uma contribuição voluntária no valor que escolher.

Já os albergues particulares cobram tarifas bastante acessíveis - mais baixas, inclusive, que as tarifas de hostels em geral - e podem ser mais confortáveis que os municipais.

Apesar de extremamente providenciais, os albergues apresentam algumas desvantagens que, no nosso caso, por interferirem diretamente na rotina da viagem, nos levaram a optar por outras formas de hospedagem.

Em primeiro lugar, fecham, em geral, às dez e meia da noite e, segundo relatos, após o fechamento, não há meios de entrar novamente. Para nós, que pedalávamos até oito, nove horas (era verão, demorava para escurecer e era maravilhoso pedalar enquanto a tarde caía), era muito complexo estarmos prontos para dormir às dez e meia!!!!!! Depois de "bicigrinar" o dia todo, precisávamos muito de um bom banho, um menu peregrino "harmonizado" por um vinho nacional e, para finalizar, uma caminhadinha pelos arredores para relaxar um pouco e explorar o local (essas caminhadas eram ótimas e, não raro, nos surpreendíamos com algo que estava rolando na cidade, como uma festa típica com touros de mentira em chamas correndo por uma praça).

Outro grande problema era a quantidade de pessoas alojadas num mesmo quarto; descobri que vinte pessoas dormindo equivalem a uma orquestra, cuja sinfonia me acordava por volta das duas horas da madrugada e não me deixava mais dormir.

Para quem está em busca de maior liberdade e privacidade, acampar pode ser a solução; poucos dias antes de viajar, desistimos de levar a barraca pois as informações que encontramos sobre a viabilidade de fazer o Caminho acampando não nos convenceram. Posteriormente, viemos a saber que a Eliana Garcia e o Rodrigo Telles, fundadores do sensacional Clube de Cicloturismo do Brasil e fabricantes dos alforges e equipamentos para cicloturismo Arara Una, haviam, poucos meses antes de nós, percorrido o Caminho de Santiago acampando. A seguir, duas fotos gentilmente cedidas por eles:

Foto: Rodrigo Telles

Foto: Eliana Garcia

Com relação a nós, experimentamos praticamente todos os tipos de hospedagem: albergues (poucos), pensões, pousadas e hotéis e, no cômputo geral, todos, a seu modo, corresponderam e, não raro, superaram nossas expectativas. Eu indicaria todos os lugares em que ficamos, com destaque para os seguintes:

Duques de Nájera, em Nájera: no passado, o prédio foi um palácio. Excelente recepção, conforto total e linda decoração (tivemos um surto de alegria fashion quando abrimos a porta do quarto). Vale mais do que custa.

La Puerta del Perdón, em Villafranca del Bierzo: acolhida simpática, um restaurante que não tivemos a sorte de experimentar devido ao horário em que chegamos, o melhor bolo de café da manhã de toda a viagem, quartos temáticos confortáveis e decorados com capricho. A cidade é um show à parte.

La Puerta del Perdón

Hotel Jakue, em Puente la Reina: hotel e albergue, que fica junto do hotel. Optamos pelo albergue que, para nossa surpresa, tinha quarto duplo com banheiro por um valor pra lá de camarada. O menu peregrino servido pelo hotel era, na realidade, um buffet peregrino, com pratos e sobremesas deliciosos.

Hotel La Puebla, em Burgos: excelente localização e funcionários gentis, educados e descolados. Apesar da edificação não ter muito espaço sobrando, as bicicletas foram excepcionalmente bem recebidas.

Em nenhum momento, tanto ao longo do Caminho Francês quanto do Caminho Português, tivemos problemas com as bikes; mesmo em cidades maiores, como Burgos, León, Santiago, Porto, onde há menos espaço disponível nos hotéis, as bicicletas foram bem acolhidas (foram acomodadas em escadarias, saguões, depósitos etc., numa boa). Perguntávamos se elas eram aceitas e, imediatamente, ouvíamos um "sim".

Burgos

León

Santiago de Compostela

Porto

No quesito alimentação, o Caminho Francês é uma maravilha gastronômica. Os menus peregrinos, compostos por cesta de pães, uma garrafa de água, outra de vinho, entrada, prato principal e sobremesa, são uma boa demonstração da culinária local, consistente em pratos formulados com frutos do mar, pescados como truta e bacalhau, legumes e verduras frescos e saborosos, carne de carneiro, entre outros. Os pratos variam à medida que se muda de região e que se aproxima de Santiago. O preço também é variável: entre nove e treze euros por pessoa (o mais comum eram dez euros), valor que, inclusive, é bastante inferior ao dos menus turísticos existentes em algumas cidades da Europa, os quais, a propósito, não costumam incluir bebida.

Em León, não deixe de visitar o delicioso Café Gotico, cujo menu peregrino vegetariano contém pratos mais elaborados e muito bem preparados, além de vinho de qualidade um pouco superior.

Para comemorar a chegada em Santiago, corra para A Taberna do Bispo. Ambiente alto astral e tapas INESQUECÍVEIS. E, em se tratando de menu peregrino, o da Casa Camilo tem opções com frutos do mar que são de comer rezando. As mesas do pequeno terraço são excelentes para curtir o movimento da agitada Santiago.

P.S. Fotos Camila Guido e Pepê Esteves (com exceção, claro, das fotografias cedidas por Eliana Garcia e Rodrigo Telles).

quinta-feira, 15 de março de 2012

I love bike!

Além de me “converter” ao cicloturismo, notei que estou cada vez mais aficionada por bicicletas, já que modelos, cores, tamanhos, formas, designs são elementos que têm feito minha mente dar piruetas.

Por isso, achei bem bacana estas duas aquisições meio recentes do Paulo, feitas numa passada rápida pela livraria antes de pegarmos a estrada num final de semana:












No carro, devorei os dois livros e deixei só os restinhos pro Pepê. :)

Recomendações: essenciais na vida de qualquer "bike obcecado" e fortemente inspiradores.

Precauções: ao terminar a leitura, podem ocorrer fortes impulsos de correr para a primeira bicicletaria de plantão e comprar mais uma bici. Controle-se. Ou não!

terça-feira, 13 de março de 2012

Santiago de Compostela de bike - dicas práticas parte II

 Trecho do Caminho Francês

Uma dúvida bastante frequente diz respeito ao transporte da bicicleta no avião.

É necessário desmontar algumas peças da bike e embalá-la, seja num mala bike, seja de alguma outra forma. Nós sempre despachamos as bicicletas nos seus respectivos malas bike (que, depois de usados, ficam dobrados dentro de uma bolsa e são transportados conosco durante todo o percurso) e já fizemos vários experimentos para tentar aumentar a proteção durante o transporte, utilizando recursos como papelão, plástico bolha etc. Mesmo assim, o quadro da bike do Paulo, a Enterprise, já chegou a sofrer uma leve avaria, numa outra ocasião. Importante: quando se trata de transporte aéreo, esvazie um pouco os pneus da bicicleta pois, caso estejam cheios, a pressão poderá fazer com que estourem.

Por essas e outras, pensando no bem estar de El Diablo e da Enterprise, optamos pela Iberia, que, conforme informações, tinha caixas de papelão próprias para transporte de bike (segundo as mesmas informações, a KLM também dispunha das tais caixas).

No geral, foi tudo tranquilo: na ida (São Paulo – Madri), ao realizar o check-in, pedimos as caixas, pagamos o valor esdrúxulo cobrado por elas (já estávamos psicologicamente preparados e já tínhamos conversado sobre o assunto) e ficamos felizes ao ver as bicis encaixotadas.

Na volta (Porto – Madri – São Paulo) não tivemos a mesma sorte, pois a companhia aérea não tinha caixas disponíveis para as bicicletas. Aliás, a princípio, a funcionária da Iberia queria cobrar um adicional de muitos euros por elas. Alguma conversa depois, uma ligação dela para alguém e tudo se esclareceu: era um equívoco e, claro, não foi necessário pagar nada.

Vale registrar que, em alguns outros aspectos, a Iberia também não foi muito legal. Foi bem chato, por exemplo, o mega atraso da tripulação para chegar ao aeroporto na ida (mais de uma hora) e o super atraso na decolagem na volta (passageiros embarcados e manutenção do avião sendo feita na pista, por mais de uma hora). O curioso é que eu já havia utilizado a Iberia e tinha tido uma boa impressão da companhia. Talvez tenham sido problemas isolados, mas confesso que não pretendo tirar a teima.

Ainda sobre transporte, se você pretende sair de algum ponto da Europa diferente de Saint-Jean-Pied-de-Port ou ir para outro lugar depois de chegar a Santiago sem utilizar a bicicleta, fique atento: há trens nos quais a bike não é permitida e eu aposto duas cervejas como a imagem de um trem foi a primeira coisa que veio à sua cabeça quando você teve essa ideia. Acertei? :)

Descobrimos isso enquanto planejávamos a viagem, já que a proposta inicial era começar nossa bicigrinação em Lourdes e não em Saint-Jean. Assim, ao chegar, iríamos de Madri a Lourdes de trem. Ao simular a compra dos bilhetes pela internet, havia símbolos de bicicleta em alguns trechos do percurso e em outros não. Para descobrir o que significava aquilo, recorremos ao Bicigrino e a resposta foi: “nos trens de larga distância da Espanha não são admitidas bicicletas”. Moral da história: ao planejar o roteiro, verifique, antes, a sua viabilidade, para evitar surpresas desagradáveis.

Aproveitando que o tema em destaque nestas dicas práticas é a locomoção, vale deixar registrado que o Caminho Francês é muito bem sinalizado. Claro que mapas e guias ajudam bastante, mas a sinalização do Caminho, frequente e bem aparente, é praticamente suficiente para guiar os bicigrinos/peregrinos. 
  
Trecho do Caminho Francês

Trecho do Caminho Francês

Trecho do Caminho Francês

Buen Camino e continue conosco; nas dicas práticas parte III, um tema que interessa a todos: comer e dormir. Aguarde!

P.S.1 A seguir, mais algumas fotos de trechos do Caminho Francês, só pra dar um pouquinho de água na boca e aumentar a expectativa da viagem.










P.S. 2 Mais sobre trens na Europa, aqui.

P.S.3 Fotos: Pepê Esteves e Camila Guido.

domingo, 11 de março de 2012

Santiago de Compostela de bike - dicas práticas parte I

Trecho do Caminho Francês

Como eu disse aqui, as cicloviagens têm sido uma constante na minha vida e o Caminho de Santiago de Compostela, que eu imaginava um dia fazer a pé, foi, talvez, a mais maravilhosa dessas experiências sobre rodas movidas a energia humana.

Pensando em cumprir o que prometi ao Ari e ao Luciano, companheiros de pedal de Londrina, aí vão algumas dicas e impressões sobre a viagem que eu e o Paulo fizemos em julho de 2011.

Trecho do Caminho Francês

Para começar, há vários caminhos que levam a Santiago de Compostela. A escolha de um deles, bem como do ponto de início da jornada, dependerá do desejo e da disponibilidade de cada um. Nós fizemos o chamado Caminho Francês, tido como o mais tradicional, e iniciamos a bicigrinação em Saint-Jean-Pied-de-Port.  Depois de alcançar Santiago, pedalamos até o Porto, percorrendo também um trecho de um dos Caminhos Portugueses, porém ao contrário.

O primeiro passo foi buscar informações na internet e comprar um guia de viagem. Após uma pesquisa e algumas dúvidas, optamos pelo El Camino de Santiago en tu mochila, de Antón Pombo. Apesar de não ser diretamente voltado aos cicloturistas, o guia traz várias dicas para quem vai percorrer o Caminho de bicicleta, como avisos relativos a trechos onde a bike fica meio inviável em função do terreno. Outros fatores que nos levaram a escolher o guia do Antón Pombo foram o seu peso e tamanho (que compensam o fato da encadernação não ser em espiral). Além disso, os comentários do autor sobre os “atentados” ao Caminho são um show à parte; Pombo é tão fiel e entusiasmado que faz questão de marcar aqueles desvios e construções que são tidos por ele como violações ao Caminho. No final da viagem, estávamos de pleno acordo com suas observações e felizes com a integridade de seus comentários.

Para nos ajudar no percurso de Portugal, utilizamos o El Camino de Santiago Portugués, da El Pais Aguilar, comprado numa livraria de Santiago de Compostela

Outro guia bacana para os peregrinos en bici e que pode ser obtido gratuitamente pela internet é o Passaporte Bicigrin@, que também pode ser adquirido em versão impressa e encadernada de forma bem prática e compacta. Nós o compramos na ACACS-SP – Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela, no dia em que fomos até lá para entregar os formulários da credencial preenchidos e obter nossas Credenciais do Peregrino (um dos itens fundamentais para a realização da viagem).

Vale lembrar que eu e o Paulo moramos em São Paulo, onde está localizada a ACACS-SP; se você mora em outros Estados do Brasil, faça uma pesquisa no site da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago para saber qual é o melhor local para obter a sua Credencial do Peregrino.

Aproveitando a menção à ACACS-SP, a Associação promove palestras sobre o Caminho, algumas em parceria com a Mundo Terra (que, até junho do ano passado, dava desconto para peregrinos nas compras realizadas em suas lojas).

Escolhido o ponto de partida do Caminho, surge a questão do transporte da bicicleta até o local de início da bicigrinação. No nosso caso, desembarcamos em Madri e, no próprio aeroporto, pegamos um ônibus até Pamplona, onde o Juan Gonzalez, um taxista mais que especial, já nos aguardava.

Tanto a passagem de ônibus quanto o transporte de táxi de Pamplona a Saint-Jean-Pied-de-Port já estavam okay antes da nossa chegada.

Compramos a passagem de ônibus pela internet, no site da ALSA. Detalhe: ao realizar a compra, na página de escolha dos assentos, marque a opção Bicicleta em Servicios Adicionales (atualmente, são cobrados dez euros pelo transporte da bicicleta). A compra teve que ser realizada pelo PayPal.

Quanto ao táxi, obtivemos o contato do Juan com um taxista indicado no Passaporte Bicigrin@; como ele não poderia nos levar, sugeriu que escrevêssemos para o Juan, cujo e-mail é icaro111@ozu.es. Deu certo e, no dia e hora combinados, lá estava ele, com sua vã suficientemente grande para transportar duas bicicletas embaladas nos respectivos malas bike, dois ciclistas e seus respectivos pertences.

Durante o percurso, o Juan, sempre sorrindo, nos explicou e contou mil histórias, deu dicas sobre o Caminho, colocou-se à disposição para resolver qualquer problema que tivéssemos ao longo da viagem e pediu para que escrevêssemos assim que chegássemos ao Brasil, para dizer que estávamos bem. Além disso, nos deu a mais preciosa das dicas: “que tal parar em Roncesvalles e deixar a maior parte das nossas coisas lá, na Posada de Roncesvalles”? Explico:

Roncesvalles, nosso destino no dia seguinte, fica entre Pamplona e Saint-Jean-Pied-de-Port (o carro segue por uma estrada diferente daquela por onde viajam os peregrinos), ponto inicial da nossa bicigrinação. De Saint-Jean a Roncesvalles, a ascensão é de aproximadamente mil metros em vinte e oito quilômetros. Ou seja, no dia seguinte, teríamos não uma subida, mas um paredão pela frente. Acatamos a sugestão do Juan e deixamos algumas coisas em Roncesvalles. Sugiro, meu caro bicigrino, que, sendo possível, você deixe não algumas, mas quase todas as suas coisas lá. Leve só o essencial e não subestime os Pireneus!

Trecho do Caminho Francês: Saint-Jean-Pied-de-Port a Roncesvalles

Ao chegar em Saint-Jean, por volta das onze e meia da noite, Danièle, a dona do Auberg du Pèlerin, o excelente e mais que recomendável albergue que tínhamos reservado, já nos aguardava na porta. Como havíamos dito que chegaríamos por volta desse horário e que estávamos preocupados com o barulho que inevitavelmente faríamos, ela, além de ficar nos esperando, nos alojou num quarto coletivo, porém vazio. Ou seja, éramos os únicos ocupantes da habitação e não atrapalhamos os peregrinos que já estavam dormindo. No dia seguinte, depois do ótimo café da manhã, desembalamos e montamos as bikes no quintal do albergue, com toda a tranquilidade do planeta, e demos início ao nosso pedal peregrino.

O restante do nosso Caminho (incluindo outros aspectos práticos) você acompanhará nos posts que estão por vir e, não é por nada não, mas vale a pena nos acompanhar!

P.S. Fotos: Pepê Esteves e Camila Guido.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mochilar ou pedalar?

Colônia do Sacramento, Uruguai

Nada melhor que o conteúdo deste blog para testemunhar o quanto eu sempre adorei e fui fiel praticamente da modalidade “sair por aí com uma mochila nas costas”. Sozinha ou bem acompanhada, a mochila sempre foi a encarregada do transporte das minhas coisas mundo afora.

Contudo, já faz um tempo, conheci, entre uma viagem e outra (de mochila, fique claro), o Paulo, de quem comecei a ouvir histórias sobre pessoas que não só viajavam de bicicleta, como também davam voltas ao mundo com ela!

Intrigada mas ainda meio desconfiada, topei fazer uma trip de bike com ele, apostando que eu não abandonaria minha mochila por bicicleta alguma, que as viagens de bike não seriam frequentes e, o mais importante, que mochilar era sem dúvida mais prático e proporcionava maior liberdade do que viajar de bicicleta.

Aposta lançada, comprei uma bike (batizada El Diablo pelo querido amigo Cacá e assim chamada até hoje, graças ao seu espírito guerreiro) e, algumas trilhas e uma viagem não realizada depois, fiz minha primeira (mini) viagem de bicicleta.

Três dias pela Serra do Caparaó culminaram, posteriormente, no desejo e no desafio de uma viagem mais longa, de aproxidamente quinze dias pelo Uruguai. Na volta, a decisão de passar um mês pedalando por Espanha e Portugal pelos Caminhos de Santiago. No final do último ano, não pensei duas vezes: mais uma cicloviagem, agora pelo Paraná. E, no último carnaval, o Circuito Vale Europeu, que teve o brilho e a alegria da companhia de novos amigos.

Desnecessário dizer, a essa altura, que perdi a aposta; no último encontro do Clube de Cicloturismo - momento bastante especial na minha existência de cicloturista – eu finalmente disse ao Paulo que, experimento realizado, a bicicleta superou a mochila em vários quesitos.

É fácil entender: a hospitalidade e a simpatia das pessoas (e aqui as histórias são muitas e algumas invariavelmente me fazem rir ou chorar até hoje), os finais de tarde de tirar o fôlego, o cheiro da terra e o barulho das rodas da bicicleta deslizando sobre ela, a água de uma torneira ou de uma pequena bica trazendo alívio em meio ao esforço, a sensação de superação depois de uma subida que mais parece um paredão, de pedalar horas sentindo dor e, mesmo assim, chegar ao destino planejado, um banho de rio no meio do caminho, um misto frio que, depois de alguns quilômetros de pedal, adquire o sabor de uma iguaria, a adrenalina e o banho de endorfina que acompanham o percurso, entre muitos outros fatores transcendem qualquer dificuldade e fazem da cicloviagem uma experiência inesquecível e transformadora.

Ainda que um pouco de escanteio, é claro que continuo nutrindo um carinho especial pela minha mochila; porém, ela vai ter que esperar mais um pouquinho antes de sair do armário pois, para as férias deste ano, El Diablo foi novamente a escolhida. :)