sábado, 18 de março de 2017

Médecin de campagne

Uma sequência onde se ouve um cover de Hallelujah, de Leonard Cohen, e a eclosão da voz de Nina Simone cantando Wild is the Wind num momento em que Nina e o piano, sempre tão poderosos, não roubam a cena mas harmonizam-se com ela, produzindo um sorriso, eventualmente algumas lágrimas e uma sensação de terna satisfação no telespectador que havia entrado desavisado na sala de cinema certamente foram dois toques especialíssimos que me fizeram apreciar enormemente Insubstituível (Médecin de campagne), mas não foram a principal razão.

O filme trouxe à baila um assunto que não por coincidência eu havia discutido com uma das minhas melhores amigas no dia anterior (sou uma dessas pessoas sortudas que tem melhores amigas de longa data, as quais são fontes inesgotáveis de conversas não só divertidas e acolhedoras como também instigantes e inteligentes): a relevância do trabalho dos médicos.

Comentávamos que nada parece ser mais importante e essencial do que a atividade exercida por um médico. Comparados à medicina nossos próprios trabalhos e alguns outros que imaginamos pareciam não fazer grande diferença, pois partíamos da premissa de que no fim o que realmente importa é o que alguém pode fazer por você ou por alguém querido quando o assunto é vida ou morte.

Claro que estávamos pensando naqueles médicos que tratam seus pacientes sem preconceitos e com o respeito e a dignidade que lhes são devidos não só pela sua condição de seres humanos mas principalmente por serem pessoas que estão mais vulneráveis e fragilizadas pelos males que as afligem no momento em que procuram ajuda médica. E é exatamente esse tipo de médico que aparece no filme.

Após voltar do hospital onde estou tratando um pequeno acidente de percurso, eu contava para a minha amiga como estava feliz com o tratamento que vinha recebendo desde o dia em que procurei o pronto socorro. Naquela ocasião confesso ter ficado impressionada e aliviada com a acolhida de todos, da recepcionista ao médico. Mais do que simpáticos, gentis e eficientes, eles pareciam sensíveis ao fato de eu poder estar tensa com a situação e voluntariamente procuravam me tranquilizar. Além disso, a calma e a atenção do médico foram fundamentais para que eu saísse de lá segura de que, após quase uma semana de outros tratamentos que não estavam funcionando, agora eu estava no caminho certo.

As idas subsequentes ao hospital e o contato com outros médicos e médicas da equipe só confirmaram a sensação de empatia e aumentaram minha admiração pela maneira pela qual eles exercem a medicina naquele local.

Mas além da minha satisfação na qualidade de paciente (e de ser humano), eu e a minha amiga conversávamos sobre o outro lado, ou seja, o do médico. Imaginávamos que deve ser uma sensação ímpar ver um paciente sorrindo como eu sorri de alegria ao perceber o quanto estava melhorando. Por que, de novo, o que pode ser mais importante do que resolver os males de alguém, sejam eles resultado de uma doença ou de um acidente?

Felizmente essa não foi minha única experiência com médicos que muito mais do que executarem procedimentos agem como seres humanos conscientes de estarem com a vida de outros seres humanos em suas mãos e posso dizer que a mais importante delas já dura pelo menos trinta e cinco anos. Mas isso é outro roteiro. Por enquanto, o filme do título deve bastar. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Boston - parte 2

Arredores da Universidade de Harvard

O arrependimento por não ter programado uma estada mais extensa em Boston surgiu na minha primeira manhã por lá. Eu havia curtido o astral do local logo de cara, tinha uma lista considerável de coisas que queria fazer e, para agravar a sensação de quem vai perder um pedaço da festa, tinha agora duas companheiras de viagem na mesma sintonia que eu, a Ju e a Ana, que iriam ficar um pouco mais na cidade.

Arrependimentos à parte, a festa ainda estava no começo e havia muito o que ver. Unimos nossas programações e decidimos que iríamos começar nosso passeio pela Universidade de Harvard, onde optamos por uma versão independente de visita e dispensamos os tours oficiais que são oferecidos pela universidade e os não oficiais, oferecidos por hostels como o HI Boston (The Unofficial Harvard Tour) ou por alunos, The Hahvahd Tour.

 Campus de Harvard

 A famosa estátua de John Harvard


Campus de Harvard


Campus de Harvard 


Campus de Harvard

Depois de Harvard nosso destino era o MIT (Massachusetts Institute of Technology), onde novamente optamos por um tour não guiado e baseado num mapa distribuído no próprio campus.


MIT

"Casinha do Ursinho Pooh", MIT

MIT

 MIT

MIT

Confesso que Harvard e o MIT estavam no topo da minha lista de desejos e eu já estava bem feliz por ter ido até eles. Mas o dia ainda não havia acabado e, após um almoço onde dividimos muitas histórias e risadas, sobrou espaço na nossa concorrida agenda de viagem para irmos a um dos vários museus que existem na cidade, o Isabella Stewart Gardner Museum.

Interior do Isabella Stewart Gardner Museum

Ao sairmos do museu deparamos com uma noite fria e chuvosa. O dia seguinte seria predominantemente ao ar livre, dedicado à Freedom Trail, e a nossa torcida era para que o The Weather Channel não estivesse errado e o sol aparecesse. Boston estava sendo tão legal até aquele momento que no íntimo eu duvidava que qualquer coisa pudesse dar errado. Em todo caso, esperei amanhecer.

domingo, 5 de março de 2017

As coisas mais difíceis

Mas eu sabia perfeitamente que esse não fora o verdadeiro motivo. O motivo havia sido um gesto sem sentido, sobre o qual, justamente por ser sem sentido, decidi não contar a ninguém. As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.
Elena Ferrante, A filha perdida


Venho pensando nisso desde ontem, quando li A filha perdida de um só fôlego, nas coisas que nós não conseguimos entender e que por isso mesmo são as mais difíceis de falar.

Acho muito difícil falar. Usar o tom certo, dizer verdades cortantes sem machucar, encontrar as palavras que transmitam de maneira inequívoca o que sinto e o que penso, falar de mim sem lacunas e sem recuar.

Após uma conversa tenho quase sempre a impressão de que algo ficou pelo caminho, de que alguma coisa se sobrepôs a outra, como se uma vez ditas as palavras escorregassem pelo abismo do intangível e do irrecuperável.

A certa altura de A amiga genial (primeiro livro da série napolitana), a mesma Elena Ferrante menciona "as escórias de quando se fala" e a "confusão oral", expressões com as quais me identifiquei de imediato, eu, que não consigo livrar minha fala do supérfluo e ordená-la na ordem exata do meu raciocínio.

Mais difícil ainda quando se trata de coisas que não consigo entender. Nesse caso, toda a escória da oralidade se manifesta, arrasando qualquer intenção de honestidade e de coerência. Falar chega a me fazer mal.

Muito melhor é escrever. Escritas as palavras não só expressam o que deveriam como também se alinham na ordem exata do meu raciocínio, dando a cadência certa para o pensamento. Na tela ou no papel, há a proteção do tangível, como um anteparo entre mim e o outro ou como uma garantia de que nenhuma palavra ou intenção irá se perder. Aqui não há lacunas nem recuos, há somente eu.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Boston - parte 1

Boston

Duas frases surgem imediatamente na minha cabeça quando penso em Boston: "Adorei!" e "Dois dias foi pouco."

Boston foi uma bonus track num disco cujo tema era Nova York. Talvez seja algum desvio de personalidade ou coisa do gênero, mas acho estranho viajar e conhecer uma só cidade (mesmo que essa cidade seja Nova York). Assim, para satisfazer minha mania e pensando que essa seria uma boa faixa bônus para aquele disco, inseri dois dias em Boston no final da viagem.

Logo no começo do percurso do trem de Nova York para Boston percebi que havia feito a escolha certa. Coloquei os fones de ouvido e passei o tempo todo olhando pela janela ao invés de imergir em um dos livros que carregava comigo. Lá fora a paisagem era mais bonita do que eu esperava e dentro de mim, Smile, de Cole Porter, interpretada por John Pizzarelli e reproduzida nos fones que estavam nos meus ouvidos, soava mais extraordinária que o habitual. Naqueles dias em Nova York eu havia lido O sal da vida, de Françoise Héritier, e ainda dentro do trem não pude conter um sorriso ao perceber que aqueles momentos estavam carregados desse sal que dá tempero à vida e cujo sabor sinto até hoje.

Na chegada notei algo diferente e demorei alguns minutos para entender o que estava acontecendo. Eu respirava melhor e estava mais solta porque, claro, havia relaxado! Enquanto Nova York é aquela loucura de sons, carros, luzes, pessoas apressadas falando ao celular, lojas que funcionam como ímãs, comida aqui e acolá, mais pessoas apressadas olhando para os seus celulares, muitas atrações para pouco tempo, turistas por todos os lados, Boston é menor e mais tranquila (mas nada provinciana), o que foi apreendido rapidamente pelo meu corpo.

Ainda estava claro quando desembarquei na South Station, que fica a uma pequena caminhada do HI Boston, onde me hospedei e cuja estrutura e localização são formidáveis. Após os trâmites da chegada e de um bom banho fui dar um rolê pelos arredores e procurar um lugar para comer.

Eu tinha em mente o Legal Sea Foods cuja forte recomendação recebi de um californiano habitué da costa leste enquanto dividíamos um pedaço do disputado balcão do Lobster Place, no Chelsea Market, em Nova York, e compartilhávamos impressões sobre as patas de king crab que tínhamos diante de nós.

No começo da caminhada passei por um restaurante tailandês para o qual fingi não dar muita bola. Segui em frente e não demorou muito para eu topar com uma unidade do Legal Sea Foods, que continha implícita a promessa certeira de uma noite agradável com sabor de maresia. Para minha própria surpresa, não entrei.

Meio titubeante, dei meia-volta e parei na porta do Montien Thai Restaurant, o restaurante tailandês para o qual eu havia fingido não estar nem aí, mas que havia despertado em mim uma espécie de pensamento obsessivo: pato. Crispy duck, com aquela carne tenra por dentro e crocante por fora. Havia uma crítica de jornal afixada na entrada e uma onda de excitação cruzou meu corpo quando vi que o texto mencionava justamente o duck de maneira muito positiva. Simultaneamente, uma das partes de um casal que estava chegando no local e que provavelmente percebeu meu misto de interesse e hesitação me disse, como quem não quer nada, que a comida era ótima. A partir daí não pude mais ignorar os sinais que prometiam uma noitada feliz em companhia do pato e, resoluta, entrei.

Minha segurança durou pouco. Ao correr os olhos pelo cardápio deparei não com um, mas com dois patos interessantes: Crispy Duck ou Chili-Chili Duck? Ambos pareciam tão bons, cada um com suas potencialidades... Incapaz de decidir, deixei a escolha aos cuidados da garçonete que estava me atendendo e de Crispy Duck eu fui.

O resultado é que bastou provar a primeira garfada do pato para que eu esquecesse de vez durante aquela noite as maravilhas gastronômicas que o mar pode proporcionar. Quando levantei da mesa para deixar o restaurante o casal da entrada discretamente acenou e perguntou se eu havia gostado. Boston estava só começando, mas já tinha me ganhado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Valença do Minho, Viana do Castelo e Tui: as três "joinhas"

Quando estive em Portugal pela primeira vez, em 2009, num roteiro que foi de Lisboa a Braga, ainda em Lisboa, enquanto eu planejava a segunda etapa da viagem, um dos donos do Travellers House me disse que Portugal tinha duas "joinhas": Valença do Minho e Viana do Castelo, ambas localizadas no Minho, no norte do país.

Considerei, então, a quantidade de dias dos quais ainda dispunha para viajar, as cidades que já estavam na minha lista de desejos, as distâncias e, no fim das contas, deixei ambas as joias para uma próxima oportunidade, que não demorou muito a chegar.

Em 2011, ao fazer o Caminho (Francês) de Santiago de Compostela e emendá-lo com um trecho ao contrário de um dos Caminhos Portugueses, tive o prazer de passar tanto por Valença do Minho quanto por Viana do Castelo, ocasião na qual pude verificar, por mim mesma, que a indicação recebida em 2009 estava corretíssima, especialmente com relação a Valença do Minho, pela qual fiquei encantada.

Valença fica na belíssima fronteira entre Portugal e Espanha, outrora países inimigos, razão pela qual, na segunda metade do século XVII, foi construída a Fortaleza de Valença, preservada até hoje e que é a grande estrela da cidade. Andar pelo seu interior, observando a agitação turística diurna, o comércio vibrante, a arquitetura e a paisagem é uma delícia.

Da fortaleza, que fica no alto de uma colina, tem-se um panorama de tirar o fôlego: o caudaloso Rio Minho (que divide os dois países), o verde espalhado por toda parte, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional e, do lado espanhol, a cidade de Tui, que nada mais é do que outra "joinha".

Detalhe: dá para atravessar a ponte que divide Portugal e Espanha a pé e passear em Tui, que é uma cidade medieval toda feita de pedra e com a força característica desse tipo de edificação. De lá, mais uma vista de cair o queixo: o rio, o vale verde, a ponte e a Fortaleza de Valença do Minho, sob outra perspectiva. Além de curtir o visual do entorno a partir do ponto de vista espanhol e de vagar pelas ruas da bela cidadezinha de pedra, uma vez em Tui, não deixe de entrar na Catedral de Santa Maria de Tui. Vale muito a visita.

Já Viana do Castelo, à beira-mar, é uma joia azul. Uma de suas atrações mais famosas é o Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia, no Monte de Santa Luzia, cuja vista panorâmica já foi considerada pela National Geographic como a terceira mais bonita do mundo.

Além do super visual que o Monte de Santa Luzia oferece, o mar, as belas ruas de Viana do Castelo e a comida deliciosa que provei por lá (ainda lembro de um arroz de polvo que fumegava ao chegar à mesa e que estava simplesmente divino) também me cativaram. No quesito programa inusitado, uma visita ao Navio Hospital Gil Eannes, um navio museu em exposição na antiga doca comercial da cidade, tornou-se uma surpresa agradável, que eu recomendo.

Felizmente essas são joias que, apesar de já estarem na minha coleção, podem ser compartilhadas; espero que você também goste de usá-las...

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho

Vista a partir da Fortaleza de Valença do Minho. Na foto, a Ponte Rodo-Ferroviária Internacional.

Comércio agitado no interior da Fortaleza de Valença

Jardim no interior da Catedral de Santa Maria de Tui

Vista da Fortaleza de Valença a partir de Tui

 Vista a partir de Tui

Vista a partir das dependências externas da Catedral de Santa Maria de Tui

Funicular que leva ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Santa Luzia

Fim de uma cerimônia de casamento que estava sendo realizada no santuário

Fim de cerimônia e, ao fundo, um pedacinho da famosa vista panorâmica do Monte de Santa Luzia

 Navio museu Gil Eannes

Navio museu Gil Eannes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Brooklyn Ice Cream Factory

Foto: Camila Guido

Eu poderia escrever "eu amo NY" quatrocentas e cinquenta e uma vezes e, mesmo assim, não seria o suficiente para expressar o quanto eu amo Nova York; da mesma forma, dizer o quanto eu adoro sorvete não basta para realmente dizer o quanto eu adoro sorvete!

Agora, imagine a minha alegria ao encontrar o sorvete perfeito na cidade perfeita. Há alguns meses, antes de me jogar em Nova York, vi na internet, numa matéria que continha dicas sobre a cidade (infelizmente não tenho mais a fonte da informação), a indicação de uma sorveteria no Brooklyn, pertinho da Ponte do Brooklyn. Mais do que depressa, meu cérebro registrou a informação e, uma vez em Nova York, estabeleci como uma das minhas prioridades uma visita à Brooklyn Ice Cream Factory, localizada no Fulton Ferry Landing pier, praticamente à margem e sob a ponte (okay, ficou um pouco estranha essa indicação, mas não sei como fazer melhor). Para otimizar o tempo, associei a travessia da Ponte do Brooklyn com a ida à sorveteria, já que o único problema de uma viagem a Nova York é controlar a angústia gerada pelo fato quase enlouquecedor de que você não vai conseguir ver e fazer tudo o que quer de uma só vez.

Após cumprir a primeira meta do dia dedicado ao Brooklyn, que era atravessar a ponte, cheguei na Brooklyn Ice Cream Factory, que, atenção, só aceita pagamento em espécie e tem outro endereço no Brooklyn, mais distante da ponte. A sorveteria é simples e oferece poucos sabores de sorvete: vanilla, chocolate, strawberry, vanilla chocolate chunk, peaches & cream, butter pecan, coffee e chocolate chocolate chunk. Optei por chocolate chocolate chunk e butter pecan, que saboreei no píer, curtindo a paisagem.

Veja, sou apenas uma pessoa gulosa e não tenho conhecimentos mais sofisticados sobre alimentação, mas, talvez pela cremosidade extraordinária, talvez pelo ótimo estado de espírito no qual eu me encontrava, aquele sorvete definitivamente deixou para trás muitos gelatos italianos que eu já havia provado. Aliás, é muito provável que eu seja execrada pelo que vem a seguir, mas nem o gelato da Gelateria Dondoli, em San Gimignano, na Toscana, tido como o melhor gelato do mundo, teve sobre o mim o mesmo efeito do sorvete da Brooklyn Ice Cream Factory, pelo qual até hoje eu derreto de amores.

Sobre os sabores que provei, chocolate chocolate chunk, com pedaços de chocolate de sabor intenso e textura impecável, estava divino. Porém, apesar da minha "chocolatria" (aonde que que eu vá, sempre peço uma bola de chocolate para acompanhar algum outro sabor de sorvete), confesso que eu voltaria à Brooklyn Ice Cream Factory só para poder provar novamente o de butter pecan, que, como diriam os personagens da minha série de televisão preferida, was awesome!!!

(Sim, a série é How I Met Your Mother, cujo cenário, talvez não por acaso, é Nova York...)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Bye bye zona de conforto

Tomar iniciativas nem sempre é fácil, não é mesmo? E mais difícil ainda se você não tem consciência de que precisa agir.

Foi exatamente o que aconteceu comigo nesta semana. Tudo parecia bem e, de fato, estava. Porém, na manhã de um determinado dia, após uma conversa com amigas onde o assunto surgiu en passant, decidi que iria, depois de muitos meses longe da bicicleta, pedalar naquela noite. Fiz uma rápida busca na internet e encontrei um grupo de pedal noturno que, aparentemente, era perfeito. Terminado o dia, ressuscitei minha bike e lá fomos nós.

Pouco tempo após começar a pedalar com o grupo percebi que, apesar da ótima recepção e de tudo estar correndo bem, eu estava um pouco incomodada e ligeiramente tensa, sem que, no entanto, repito, houvesse qualquer motivo objetivo para dramas. Subitamente, então, veio o clique: eu tinha saído da minha zona de conforto e, obviamente, alguma coisa em mim não estava gostando nada daquilo.

A partir daí, consciente do que estava acontecendo, respirei e procurei relaxar. Durante o passeio, percebi mais uma coisa: eu não só estava me divertindo como também estava sentindo algo que há tempos não sentia. Após pedalar uns bons quilômetros concentrada apenas nas exigências requeridas pelo pedal, minha mente naturalmente falante estava quietinha, meu corpo estava presente, vivo, e eu sentia uma felicidade tranquila e genuína que, aliás, perdurou por todo o dia seguinte. Naquela mesma noite, chegando em casa, outro clique: eu precisava sair da minha zona de conforto e fazer aquilo, porém, até aquele momento, eu não tinha consciência disso.

Basicamente, eu estava presa à ideia de uma condição anterior, de lesões e de desilusões. Eu estava de bode. E, embora essa condição já estivesse superada, eu insistia nela, pois não tinha consciência da superação. A consciência só veio quando eu agi, muito embora, acredito, ela já estivesse latente em mim, faltando apenas um empurrãozinho para que finalmente saísse do seu esconderijo e desse as caras.

Creio que a consciência, ou seja, a chave para abrir as portas das salinhas escuras e monótonas onde estão localizadas as nossas muitas zonas de conforto, já esteja dentro de nós, mas, nem sempre, muito acessível. Eventualmente, é preciso um empurrão ou algum outro ajuste, vindo de fora ou de dentro, para que a consciência se manifeste e abra as portas das salinhas escuras.

No exemplo acima, uma pergunta inócua feita por uma amiga durante uma conversa despreocupada foi o suficiente para cutucar aquela consciência latente e, consequentemente, para fazer com que eu me mobilizasse; em outras situações, confesso (e foram muitas), eu mesma dei um pontapé no meu traseiro e me obriguei a fazer coisas que me colocaram numa situação desconfortável antes ou durante o processo, mas que, ao fim e ao cabo, resultaram em experiências prazerosas, necessárias ou úteis.

Por exemplo, como é praticamente de conhecimento geral, eu adoro viajar. Mas, antes de cada viagem, eu sinto um frio no estômago e isso só piora com o passar dos anos. Claro que uma viagem para a praia com as minhas amigas não tem esse efeito, mas, saber que vou desembarcar, muitas vezes sozinha, em outro país, pode até me fazer perder o ar durante uma ou duas madrugadas. Mesmo assim, eu vou, já que sei que a ansiedade vai se desfazer assim que eu colocar os pés no aeroporto e que, invariavelmente, a viagem acabará sendo um sucesso. Ou seja, eu tenho consciência de que o frio no estômago e a falta de ar são apenas truques arquitetados pelo meu monstro do medo (não se iluda, pois todo mundo tem o seu), que não quer que eu o deixe em casa sozinho enquanto saio por aí para conhecer lugares e pessoas diferentes e para viver experiências distintas daquelas oferecidas pelo meu cotidiano.

Outro exemplo pessoal clássico diz respeito ao ato de dirigir. Basicamente, eu odiava dirigir. Eu dirigia mal e era insegura. Minha mãe, a super mulher que super dirige incrivelmente bem não tinha condições de andar dentro de um carro comigo sem gritar o tempo todo. Nasci e cresci no interior e aprendi a dirigir por lá. Pois bem. Quando finalmente comprei um carro, eu já morava em São Paulo há alguns anos, mas não dirigia por aqui. Quando comecei a fazê-lo, sentia pânico, tinha calafrios e suava em bicas; ficava confusa, queria chorar e ao mesmo tempo pedir por favor para as pessoas serem mais legais e mais gentis e para as motos sumirem da face da Terra. Mesmo com todo esse perrengue, não desisti do carro, pois sabia que o fato de conseguir dirigir decentemente (ou seja, com segurança e sem pânico) faria de mim uma pessoa mais independente. Por anos a fio, o monstro do medo esteve ao meu lado, confortavelmente acomodado no banco do passageiro. A princípio, eu o olhava quase em prantos (sim, era um drama); depois, com uma certa revolta. Tivemos inclusive a fase da comédia, quando eu não conseguia mais deixar de rir do meu próprio medo, que, a propósito, não tem senso de humor. Até que, por fim, desgastada a relação (especialmente pelas piadas), chegamos à indiferença e, agora, não só dirijo sem monstrinhos imaginários dentro do carro como também ouço música, canto, como uma fruta, bebo água, converso e até me divirto dirigindo! Porém, isso só foi possível porque eu queria ser uma pessoa totalmente independente e tinha consciência de que, para tanto, era importante saber dirigir.

Último exemplo: este blog. Quando comecei a escrever, eu morria de vergonha. Ao publicar um post, ondas de calor percorriam meu corpo e eu sentia o meu rosto corar. Objetivamente falando, eu tinha um medo brutal da exposição. Porque escrever é se expor. Tinha medo de estar sendo ridícula, de parecer arrogante, de não estar sendo inteligível. O monstro do medo estava lá o tempo todo, gritando nas minhas orelhas. No início, claro, fiquei acuada, mas, com o tempo, percebi que, mais uma vez, o monstro estava levando tudo muito a sério e fazendo o maior drama (caso não tenha ficado claro, o drama é o principal recurso do tal monstrinho). Foi nesse ponto que um detalhe que até então passara despercebido acabou se revelando: não há espaço para drama neste blog, cuja única função é ser um meio para que eu possa fazer uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida, ou seja, escrever. Portanto, não fazia o menor sentido sofrer em função destes pensamentos inadequados! Uma vez consciente desse fato, parei de corar e de me preocupar e, hoje, simplesmente escrevo.

Sobre o medo, aliás, a escritora norte-americana Elizabeth Gilbert (sim, a famosa autora de Comer, Rezar, Amar), em seu último livro, Grande Magia: Vida criativa sem medo, conta que, até a adolescência, era extremamente medrosa e que, quando criança, muito provavelmente adoraria ter tido uma mãe que a colocasse sob as suas asas. Contudo, ao que parece, sua mãe não possuía uma única célula condescendente em seu corpo e não tolerava uma vírgula do drama da filha (que tinha medo de tudo), forçando Elizabeth a fazer as coisas que ela mais temia. Por motivos óbvios, Gilbert confessa que essa foi possivelmente a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido, afinal, dá pra imaginar a protagonista de Comer, Rezar, Amar como um ser humano medroso e chorão?

Agora, por favor, peço que ninguém me entenda mal. Não estou dizendo que as pessoas devem abandonar os seus monstrinhos do medo para saírem por aí fazendo todo tipo de coisas que antes as assustava. Não é nada disso! O grande lance é manter o monstrinho vivo (já que em muitas situações ele é a melhor companhia que alguém poderia almejar), porém, sob controle, de forma que ele se manifeste apenas quando realmente for necessário. Do contrário, o medo certamente tomará todo o espaço disponível em nossas mentes com bobagens inúteis, obnubilando nossa consciência. Quanto mais falante for o monstrinho, mais distração e confusão ele trará com o seu blá-blá-blá incessante, menos clara e distinta será a nossa percepção da realidade e de nós mesmos e mais difícil será tomar iniciativas transformadoras e construtivas em nossas vidas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Viaggiando nos livros

Foi muito depois do seu início que tomei conhecimento do projeto A volta ao mundo em 198 livros, da Camila Navarro, autora do blog Viaggiando. O projeto, que começou em 2013 e que, pelo seu andamento, parece estar no fim, consiste na leitura, pela sua idealizadora, de 198 livros, sendo cada um deles de um país diferente (estão sendo considerados os 193 países membros da ONU e seus dois Estados observadores, Palestina e Vaticano, bem como Kosovo, Taiwan e Saara Ocidental).

Como achei o projeto encantador, não resisti à tentação de compartilhá-lho aqui; além disso, a Camila acabou criando uma super lista de livros (e eu adoro listas), inclusive com resenhas, prontinha para ser consultada por quem quiser indicações de romances escritos por escritores do mundo todo, por meio dos quais sempre é possível ter um vislumbre das especificidades sociais, econômicas, políticas, geográficas e culturais de cada povo.

Felizmente, como se não bastasse o mundo, em janeiro deste ano a Camila criou outro projeto, o Lendo o Brasil, no qual ela pretende ler um livro de cada um dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal. E assim temos mais uma lista!!! Obrigada, Camila!

No mais, fique de olho nos projetos da Camila Navarro e aproveite as dicas de leitura, afinal, em cada livro há sempre uma nova viagem, em forma de palavras, esperando por cada um de nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Antes que Anoiteça


Sendo uma daquelas pessoas às quais a simples visão de um livro é capaz de oferecer alívio e conforto imediatos diante do inevitável tédio que ronda a existência humana, é natural que eu sinta também um leve frenesi de felicidade todas as vezes que coloco as mãos num livro para, em seguida, lê-lo ou levá-lo para a pilha de livros a serem lidos.

E foi justamente a eterna e sempre crescente pilha de livros a serem lidos o destino, há muitos anos, de Antes que Anoiteça, comprado num dos muitos sebos que eu frequentava na época das vacas magras da faculdade.

Numa tarde de garimpagem literária, deparei com o livro numa estante bagunçada e empoeirada de um dos tais sebos poucos dias após ter assistido a Antes do Anoitecer numa pretensa sala de cineclube improvisada em algum dos espaços teatrais da Praça Roosevelt. O filme, baseado no livro de Reinaldo Arenas, com Javier Bardem no papel do escritor, me deixou impressionadíssima, de forma que, ao dar de cara com aquele volume já meio capenga e amarelado numa estante insólita, tive que levá-lo para casa, onde ele ficou hospedado durante anos a fio na famigerada pilha.

Recentemente, decidi que estava na hora de lê-lo e não pude deixar de achar curioso o fato de que, tantos anos depois de tê-lo comprado, estava lendo suas primeiras páginas quando foi anunciada a morte de Fidel Castro.

Antes que Anoiteça são as memórias do escritor cubano Reinaldo Arenas, que cresceu sob a ditadura de Fulgêncio Batista e viveu sob a ignomínia da inominável ditadura castrista.

Reinaldo Arenas, filho de camponeses pobres, homossexual e escritor, foi, por esses mesmos motivos, perseguido, censurado, preso, humilhado e torturado das formas mais abjetas e inimagináveis possíveis pelo regime de Fidel Castro, que mais parecia um circo incontrolável de atrocidades do que propriamente um regime político, mesmo que ditatorial.

A regra do regime em Cuba era a arbitrariedade, a violência, o aumento e a manutenção da miséria para os miseráveis, o incentivo à traição e à deslealdade, a perseguição a homossexuais e a mulheres, o aniquilamento completo da criatividade e da liberdade. Parece ser incontável o número de artistas que tiveram suas vidas e carreiras destruídas, que foram mortos diretamente pelas mãos da ditadura ou que, desesperados, puseram fim às próprias vidas.

À medida que a leitura avança cresce também a perplexidade do leitor diante da inexplicável loucura e crueldade do regime castrista. Contudo, mesmo com o estômago um pouco revirado, é impossível largar o livro de Reinaldo Arenas, que, como só um escritor brilhante e obstinado consegue fazer, agarra o leitor, desde a primeira página, com a firmeza própria de quem ousa libertar o seu demônio interior.

Muito mais que os livros do também escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor do famoso Trilogia suja de Havana, Antes que Anoiteça é literatura definitiva na desmistificação do regime de Fidel Castro e também um daqueles livros que, uma vez lidos, passam sem grandes esforços da "pilha de livros a serem lidos" para a "lista dos dez mais".

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

All or Nothing at All

Tarde nublada de domingo e as três gerações de mulheres do meu pequeno e principal núcleo familiar estão reunidas em frente à televisão. As idades variam, de 36 a 90 anos, e a programação rolando é a do Canal Off. Avó, mãe e filha de olho na tela, comentamos sobre os lugares deslumbrantes que vemos nela, sobre o quão legal é fazer uma trilha, sobre o tamanho das mochilas que as garotas que apresentam o programa de trekking estão usando; ficamos todas encantadas com o azul turquesa da água, com os tubos formados pelas ondas e com as baleias que aparecem no programa subsequente, gravado na Polinésia Francesa. Nossa empolgação termina quando a programação desemboca no universo do skate; bate uma preguiça e acabamos deixando a TV de lado. Talvez um cochilo geral? Minha mãe sai de cena, se joga na cama e, no sofá, ficamos eu e a minha avó. Abro Livre, o relato da escritora norte-americana Cheryl Strayed sobre a sua caminhada, sozinha, nos anos 90, pela Pacif Crest Trail, trilha que atravessa toda a costa oeste dos Estados Unidos, posteriormente adaptado para o cinema, mas rapidamente desisto da leitura. Estou com muito sono para ler, mas com pouco para dormir. 

Ligo a TV novamente e aperto o botão do Netflix no controle remoto. Por algum motivo, o documentário Sinatra: All or Nothing at All parece ser ideal para aquele momento. Começo a assistir à primeira parte do documentário e pouco tempo depois a minha avó, que parecia já estar dormindo, abre os olhos e, juntas, passamos a seguir a história. À medida que a narrativa vai se desenrolando e que os anos e décadas que contêm os acontecimentos que constituíram a vida de Frank Sinatra vão passando, minha avó começa timidamente a fazer observações, os fatos do mundo e da carreira de um dos maiores cantores de todos os tempos se misturando àqueles de sua própria vida, como a dificuldade para conseguir farinha de trigo durante a Segunda Guerra Mundial, o que a levava a fazer pão com farinha de milho, a situação na fábrica de tecidos onde ela trabalhava e o dia da chegada dos pracinhas brasileiros na principal rua da minha cidade natal após o término da guerra, os hábitos, os costumes e o moralismo que vigiam nos anos 40. Ao ver os penteados e os cortes dos vestidos das mulheres, minha avó relembrou seus próprios penteados e contou que as mulheres chegavam a usar o mesmo cabelo, arrumado e armado com palha de aço por dentro dos rolos de cabelo que faziam parte do penteado, por uma semana inteira, e roupas, frisando a proibição do uso de calça. Mulher não usava calça. A tecnologia entra em pauta e minha avó detalha o vagaroso e hoje inimaginável processo de comunicação por meio do telefone há aproximadamente seis décadas, fala sobre a ausência da televisão e sobre a sua chegada. Comenta que, naquela época, os teatros e cinemas ficavam lotados, menciona as matinês frequentadas pela minha mãe e pelo meu tio, que eram levados por minha tia-avó, que, a propósito, presenteou todas as suas gerações de sobrinhos com sua autenticidade, liberdade de pensamento e com livros, filmes, passeios e mimos diversos.

Mas, não pense que parou por aí; a certa altura do campeonato, minha mãe, a mais tecnológica das três, juntou-se a nós novamente e, alternando entre o celular e eu e minha avó, passou a fazer pequenas intervenções na conversa, colocando ainda mais lenha no fogo da memória da D. Cida, que, a despeito de todo o brilho de Sinatra, roubou a cena naquela tarde de domingo.

O resultado é que Sinatra: All or Nothing at All, foi, sem dúvida, a melhor escolha para aquele momento, não somente por ser impecável do ponto de vista documental, mas por ter me proporcionado uma das tardes mais acolhedoras e agradáveis dos últimos tempos. Obrigada, vovó, obrigada, Frank.

P.S.: Para saber mais sobre o documentário, clique aqui.