sábado, 1 de março de 2025

A estranha familiar

"Alma-menina no tempo? Não, ela não se envergonhava de seu narcisismo. Era com ele que ela compunha e recompunha toda a sua dignidade. Encarou novamente o espelho e se lembrou de um poema, em que uma mulher, contemplando a sua imagem refletida, perguntava angustiada onde é que ela deixara a sua outra face, a antiga, pois não se reconhecia naquela que lhe estava sendo apresentada naquele momento."

Do conto Luamanda, de Conceição Evaristo, em Olhos d'água


Eu tinha trinta e nove anos quando olhei no espelho e não me reconheci. Foi então que a dermatologista que procurei alguns dias depois me contou, como quem revela o óbvio a alguém muito distraído, que chega uma hora em que o rosto derrete.

Desde então, venho acompanhando o derretimento dos meus traços e só agora, ao escrever, percebo que o esgarçamento dos meus tecidos não seria tão ruim assim se a coisa toda se restringisse ao corpo. O grande problema é que o desabamento muscular vem acompanhado de uma espécie de esmagamento narcísico por uma bigorna que despenca, sem aviso prévio e pesando toneladas, sobre o aparelho psíquico. Para além da realidade, o real, aquilo que não pode ser nomeado exceto talvez pelo nome de angústia, desabou recentemente sobre a minha cabeça, deixando claro, mais do que nunca e por vias que não passam pelo intelecto e pelo pensamento racional, que não é o rosto que escorre, mas a vida.

Olho novamente no espelho e pergunto para essa nova mulher de quarenta e seis anos que apresenta uma ruga persistente sobre a sobrancelha esquerda, marcas do chamado bigode chinês, alguma flacidez sob o queixo, olheiras mais fundas e aparentes e que não sabe se e quando vai menstruar novamente, o que você fez até aqui, o que você vai fazer daqui pra frente, com o tempo que resta?

Envelhecer dói. É como cortar bem fundo a pele em duas metades. A metade jovem e a metade velha. É o corte que se abre nas costas de Elisabeth em A Substância, para que a jovem Sue possa nascer. Sue, uma outra que é também Elisabeth mas que ao mesmo tempo é uma completa estranha. Paradoxalmente, no filme, a estranha que nasce é uma jovem; na vida real, a estranha que está nascendo em mim vestirá a metade velha da pele, o pedaço novo que surgiu a partir do corte. Assim posto, de repente me parece que envelhecer talvez seja algo da ordem do impossível e tautologia é a palavra que me ocorre, embora muito provavelmente ela não seja a correta. Envelhecer é sempre verdade, mas também é uma grande mentira.

Envelhecer dói. Nascer também.

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