quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

São Paulo my love?

Interiorana vivendo em São Paulo há 12 anos e por ela fascinada há muito mais que isso, encontrei o resumo dos meus sentimentos pela cidade na introdução da versão de “Desafinado”, do disco “João Gilberto ao vivo – eu sei que vou te amar”, onde João inesperadamente declara – e se declara – “São Paulo my love”.

Foi pensando nessa frase que retornei a São Paulo após quase todas as viagens que fiz nos últimos anos. À visão da cidade, a voz suave de João dizendo “São Paulo my love” vinha instantaneamente à minha mente – e algumas vezes também à minha boca – e eu sentia uma espécie de alívio e de felicidade legítima por estar voltando para casa. Aliás, eu me sentia em casa. Nada, nem o cheiro moribundo dos rios em absurda putrefação que atinge os nossos narizes quando estamos em certos trechos das marginais, nem os montes de outdoors que nos obrigavam a pensar, mesmo que por segundos, nessa ou naquela marca de calça jeans, me fazia pensar em deixar de gostar de São Paulo, onde a vida, apesar de tudo, era repleta de bares, cinemas, sebos e livrarias.

Mas, às vésperas de entrar no décimo terceiro ano de vida em Sampa, admito, após meses de resistência, que o que antes era uma vida cheia de nuances coloridas agora assumiu – não vou dizer que definitivamente, pois sou peremptoriamente contra a idéia de que as coisas não têm solução – o preto e o branco, com algumas variações de cinza entre um e outro.

Atualmente, evito dirigir e toda vez que ouço uma buzina acionada desnecessariamente – e agressivamente, claro – sinto uma mistura de raiva, tristeza e tensão; penso um milhão de vezes antes de ir a algum lugar muito longe (moro no centro e “muito longe”, na atual circunstância, é algo que eu meço pelo trânsito que vou enfrentar para chegar ao local e não pela distância em si mesma) e fico transtornada com a falta de educação dos motoristas e com a imprudência dos pedestres. Também me mortificam minha tentativa frustrada de me locomover pela cidade de bicicleta (temi pela minha vida após algumas experiências e acabei deixando a bike de lado), a sujeira e os buracos nas calçadas, os semáforos de pedestres que levam séculos para abrir (quando abrem), o descaso dos motoristas de ônibus com a integridade física das pessoas, o empurra-empurra no metrô em determinados horários e linhas, a escassez de parques e de praças.

Entretanto, do ponto de vista do meu antigo amor pela cidade, todos os seus problemas não seriam suficientes para causar o desalento que venho sentindo se não fosse a última volta para casa, quando, ao ver São Paulo pelo vidro do carro, não senti rigorosamente nada.

Mais de duas semanas se passaram e o nada se transformou em estranhamento. E só agora me dei conta de que, nessa volta para “casa”, não ouvi a voz do João.

2 comentários:

  1. Super Legal.
    O nome do blog, a poesia, o texto sobre sampa, enfim tudo !!

    :)

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  2. Hey, thank you!
    Não devia, mas vou dizer: você é meio suspeito, né? :)

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