quarta-feira, 26 de julho de 2017

Stardust

"Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim. (...) O primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de mundos, aniquila, por assim dizer, a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo), depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo, ao contrário, eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência, por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível."

Kant, Crítica da razão prática.


Faz duas décadas que deparei pela primeira vez com esse trecho da Crítica da razão prática emoldurado no topo de uma página do livro de François Châtelet, Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël, e imediatamente fui arrebatada pela força imagética das palavras e pela expressão precisa e quase poética de um dos paradoxos da existência humana, qual seja, o fato de sermos a um só tempo insignificantes perante o Universo cuja matéria nos constitui e absolutamente dotados de valor no âmbito dos nossos universos singulares.

Mais ou menos na mesma época eu estava encantada com o filme de Richard Linklater, Antes do Amanhecer (Before Sunrise), no qual os personagens Céline (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) se conhecem num trem na Europa e decidem desembarcar no meio do caminho, em Viena, para passarem o único dia do qual dispõem juntos.

A certa altura das perambulações do casal por Viena uma cigana os aborda e, depois de ler suas mãos, sai de cena dizendo: "Vocês são estrelas, não esqueçam. Quando as estrelas explodiram há bilhões de anos, formaram tudo o que há neste mundo. Tudo o que nós conhecemos é poeira estelar. Então não esqueçam, vocês são poeira estelar." (Tradução livre.)

A conexão entre a fala da cigana e o texto de Kant foi imediata e desde então penso com maior ou menor intensidade em ambos.

Saber que sou poeira de estrela me deixa simultaneamente maravilhada e assustada pois não consigo dissociar essa condição da minha própria insignificância e, em última análise, da minha mortalidade. Quando penso que um dia vou voltar a ser pó as estrelas do meu universo interior se agitam e mudam de pulsação, resistindo à ideia de deixar de brilhar.

A resistência e o temor são tão grandes que há alguns anos muitas das minhas madrugadas são permeadas pelo sobressalto da consciência visceral do fim irremediável da minha constelação interior.

Com o passar dos anos a sensação de pequenez e a angústia gerada pela certeza consciente do fim da minha inteligência e de tudo o que acho que sou vêm se acentuando e mudando a minha percepção das coisas. Hoje sei que assim como eu todos os momentos que formam o fio da minha existência possuem sua carga própria de importância e de fugacidade, razão pela qual merecem toda a minha atenção mas jamais o meu apego.

Durante uma viagem recente, andando pela cidade de Québec num dia que me pareceu, em certos aspectos, similar àquele protagonizado por Céline e Jesse no primeiro filme da trilogia de Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-noite) eu pensava justamente na transitoriedade daqueles instantes quando deparei com a inscrição "cet éphémère moment présent" ("é efêmero o momento presente") pintada num pilar. Pensei, sorrindo com a coincidência: hoje eu sei.

Sei também que a despeito de qualquer fugacidade dias como o do parágrafo anterior são como combustíveis que ajudam a manter aceso o brilho da minha galáxia interior. A questão é se permanecerão de alguma forma inteligíveis quando as minhas estrelas virarem pó ou desaparecerão em algum buraco negro da existência. Seja qual for a resposta o importante é sempre lembrar que somos todos pó de estrela. O resto é surpresa.

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