Deserto do Saara/Marrocos
São cinco horas da manhã, o mesmo horário do meu fuso ao contrário. Do outro lado do mundo eu despertava - literalmente, já que me punha de pé com todos os sentidos prontos para se atirarem do quadragésimo andar -, todos os dias, às cinco horas da manhã.
Eram cinco horas da manhã quando olhei as horas no relógio. Relógio não, celular, pois atualmente quem é que olha as horas num relógio? Posso até responder que eu sim, mas somente às vezes, no mesmo relógio que aquele homem plantado no meio de um deserto insistentemente pediu que eu lhe desse em troca de algo, o homem que eu pude ver, enquanto o carro saía, despido da túnica com a qual havia nos recebido e que nos olhava com um misto de sentimentos que eu não quero nomear aqui. Senti pena dele, senti pena deles.
Cinco horas da manhã, os meus olhos agora muito abertos olham diretamente para a parede depois de terem olhado para a tela. Aprendi que a forma, em associação livre, é tão importante quanto o conteúdo, e que o tempo cronológico, dentro dessa forma, é puramente lógico. Procuro dentro da minha cabeça um lugar para me instalar, um espaço em branco onde nenhum tempo exista, mas o som que atravessa as paredes do quarto me confunde e eu fico girando em falso pelas vielas que me compõem, buscando sem encontrar uma origem e um sentido para o barulho que havia me acordado.
São cinco as pontas da estrela, são cinco as orações diárias. Eram sempre cinco as horas quando eu ouvia o chamado.
Azul cor de mar de revista, verde e vermelha a bandeira, telhados também. Um carneiro é arrastado e grita ladeira abaixo em meio à multidão multicor. Véus, túnicas, rostos expostos e cobertos, olhos que olham com a mesma curiosidade que os nossos. Estranhamento. Um chá muito verde, a menta que me faz lembrar, antes e agora, das coisas mentoladas das quais desde criança eu gostei. Gosto. O chocolate, o chiclete, o sorvete, o cigarro. Familiaridade. Ruas estreitas, um labirinto incrustado numa joia moderna. O nome é lindo e eu gosto de tê-lo dentro da minha boca. Escolho cidades também pelos seus nomes e homens também pelas suas vozes, pelas palavras que utilizam. Mesmo não entendendo nada do que é dito no seu idioma materno eu tento repetir as poucas palavras que ele me ensina como só uma aluna muito aplicada faz. Pronuncio e repito até tentar acertar, até talvez acertar e sentir uma pontada de um imenso prazer íntimo com aquele feito aparentemente simples.
Outra cidade, pintada com a cor do mar da primeira, cujo nome eu giro na minha língua e engulo nos dias seguintes com o sol que cai atrás da montanha que carrega as casas pintadas de azul e com o sangue dos carneiros sacrificados que escorre, abundante, pelo meio-fio. Na outra grande festa não se matam animais, ele me explica depois de alguns quilômetros, o meu esforço para não apagar pesando no ar condicionado.
A terra absorve o sangue, mas não por completo. Eu quero, mas é difícil engolir o carneiro naquela noite. Emagreço. Mais. Muito magra, ela me diz, e eu lembro de um sonho ocre que sonhei ter escrito. Fragmentos, os nossos, abandonados na porta de um quarto. Mais uma vez o tempo lógico. O escritor brinca com as palavras, cria oásis verdejantes no deserto, sóis muito amarelos, dunas que mudam de cor ao longo do dia, da noite, da lua, montanhas cujas formas nos fazem parecer mais insignificantes do que olhar para o céu em noites estreladas. O escritor cria até o que não existe, cria o tempo. Fiat lux, duas palavras, e o mundo começou, da mesma maneira que o jorro de água quente que alcançou o meu corpo inerte sobre a bancada me levou até o início, até o lugar que era somente corpo a ser embalado por mãos macias besuntadas em óleo de oliva e depois esfregado, a pele arrancada, peau de bébé, ela me dizia rindo, um riso genuinamente alegre e doce, diante do meu espanto ao ver pedaços de pele soltos pelos meus braços. Doux, ela falava enquanto me esfregava como a um bebê, como se eu fosse uma boneca agora sentada sobre a bancada, as pernas soltas no ar, os braços abandonados ao longo do tronco, e eu ficava ainda mais espantada ao sentir a lateral direita do pescoço arder sob a bucha com a qual ela me esfoliava, espantada com a força da suavidade e com a minha entrega ao não dizer nada, ao não querer controlar nada, ao desejar apenas que o calor, o cheiro de azeitonas e de argan e as mãos e o riso daquela mulher durassem a eternidade que pudessem durar.
O controle se desfaz como a areia do deserto, que eu devia ter colocado num potinho para trazer comigo. Não, não é como a da praia, é diferente, tem outro movimento, outra textura, outras cores. Escorre pelos dedos num outro tempo, de outra forma. Invade todos os poros, todas as reentrâncias, para depois desaparecer. Não sei aonde vai parar, onde começa, onde termina. Perco o controle, choro ao ver o sol despontar no horizonte, uma meia-lua amarela exuberante, a sensação de poder apanhá-lo e comê-lo como se fosse um quindim, doce, macio, úmido. O sol do deserto é úmido e o das montanhas canta, venta, se faz presente a cada parada, a cada mirante, a cada fotografia. Choro novamente, o controle que vá para o inferno, não me interessa mais saber itinerários, cardápios, não quero mais ter sinal de celular nem notícias de um mundo que não está ali, tátil, visual, sonoro. Quero apenas conjugar tempo e espaço, transformá-los em verbos e pronunciá-los em todas as pessoas.
Toco por alguns segundos com os meus dedos cheios de areia o impossível, o sentido do absoluto sem sentido que é a vida, a pele do meu pescoço, sensível como a de um bebê, recebendo o sol que entra pelo vidro dianteiro do carro. O sol quindim, perecível como a vida, se não comer estraga, a minha pele sabe disso e o engole com todas as letras para depois derramá-lo onde e como bem entender. O eterno retorno, as minhas ausências, as minhas certezas, todas revolvidas.
O parafuso que afrouxa mais uma volta.