sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Hoscars 2009

O Guardian acaba de divulgar mais uma listinha feliz!

A edição eletrônica do dia 27 traz os dez ganhadores do Hoscars (HOStelworld Customer Annual Ratings), o Oscar dos hostels. Os dez melhores do mundo foram eleitos entre mais de vinte mil outros hostels pelos votos de aproximadamente oitocentos mil clientes do Hostelworld.com que, nos últimos doze meses, avaliaram os lugares em que estiveram de acordo com os seguintes critérios: apresentação, segurança, localização, equipe, diversão e limpeza.

Além dos dez vencedores das categorias melhores/mais desejados e melhor rede de hostels do mundo, divulgados pelo Guardian, é possível visualizar, no Hostelworld.com, os eleitos das categorias melhores hostels de cada continente e os das categorias especiais limpeza, segurança, diversão, melhor localização, melhor equipe, melhor apresentação, melhor hostel pequeno, melhor hostel grande e hostel mais bem equipado.

Agora é só fechar a mochila!

Os 10 Melhores Hostels do Mundo

1 - Travellers House, Lisboa, Portugal

2 - Rossio Hostel, Lisboa, Portugal

3 - Lisbon Lounge Hostel, Lisboa, Portugal

4 - The Riverhouse Backpackers, Cardiff, País de Gales

5 - Greg & Tom Hostel, Cracóvia, Polônia

6 - Sitting on the Citty Walls Courtyard House, Pequim, China

7 - Academy Hostel, Florença, Itália

8 - Goodnight Backpackers Hostel, Lisboa, Portugal

9 - Flamingo Hostel, Cracóvia, Polônia

10 - Mambo Tango Backpackers, Barcelona, Espanha


Os Melhores Hostels de Cada Continente

América do Norte

1 - Clarence Castle, Toronto, Canadá

2 - Hostel Seattle, Seattle, Estados Unidos

3 - Alexandrie-Montréal, Montreal, Canadá


América Latina

África

Ásia

Oceania

Categorias Especiais

3 - Mais divertido: Rossio Hostel, Lisboa, Portugal

4 - Melhor localização: Travellers House, Lisboa, Portugal

6 - Melhor apresentação: Travellers House, Lisboa, Portugal

7 - Melhor hostel pequeno (máx. 50 camas): Rossio Hostel, Lisboa, Portugal

8 - Melhor hostel grande (mín. 500 camas): Wombat's City Hostel, Berlin, Alemanha

9 - Mais bem equipado: Marlborough Hostel, Dublin, Irlanda

Melhor Rede de Hostels

1 - Wombats, Áustria e Alemanha

2 - Hatters Hostels, Inglaterra

3 - St Christopher's Hostels - Bélgica, Inglaterra, França, Holanda e Escócia

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

"Os companheiros"

Não resisti e, inspirada pela lista do Guardian, elaborei uma lista com livros que, recentemente ou há muitos anos, entraram na minha vida e acabaram, por uma ou por outra razão, permanecendo em algum cantinho de mim.

Acredito que alguns não menos importantes tenham ficado escondidos, esperando a publicação deste post para, logo em seguida, aparecerem; há também aqueles ainda não lidos, cujos exemplares dispostos na estante dão um sentido todo especial aos dias vindouros, ao longo dos quais eles serão apreciados.

Assim, se hoje a lista é formada por sessenta e seis indicações, considerando os lapsos de memória e a qualidade do que me espera, estou certa de que, em breve, terei que elaborar uma nova relação com livros que, como estes, podem ser bons companheiros.

  1. A caverna (José Saramago)
  2. A convidada (Simone de Beauvoir)
  3. A descronização de Sam Magruder (George Gaylord Simpson)
  4. A filha do canibal (Rosa Montero)
  5. A hora da estrela (Clarice Lispector)
  6. A idade da razão (Jean Paul-Sartre)
  7. A instrução dos amantes (Inês Pedrosa)
  8. A náusea (Jean Paul-Sartre)
  9. A via crucis do corpo (Clarice Lispector)
  10. Agosto (Rubem Fonseca)
  11. Alucinando Foucault (Patricia Dunker)
  12. As meninas (Lygia Fagundes Telles)
  13. Bartleby, o escrivão (Herman Melville)
  14. Bella y oscura (Rosa Montero)
  15. Budapeste (Chico Buarque)
  16. Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)
  17. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento (Paulo Emílio Sales Gomes)
  18. Comer, rezar, amar (Elizabeth Gilbert)
  19. Como Proust pode mudar sua vida (Alain de Botton)
  20. Contato (Carl Sagan)
  21. Contraponto (Aldous Huxley)
  22. Criação (Gore Vidal)
  23. Demian (Hermann Hesse)
  24. Discurso da servidão voluntária (Etienne de La Boétie)
  25. Divórcio em Buda (Sándor Márai)
  26. Doze contos peregrinos (Gabriel Garcia Márquez)
  27. 2001 – Odisséia no espaço (Arthur C. Clarke)
  28. Em águas profundas (David Lynch)
  29. Ensaios de amor (Alain de Botton)
  30. Esta noite a liberdade (Dominique Lapierre e Larry Collins)
  31. Extremamente alto & incrivelmente perto (Jonathan Safran Foer)
  32. Fazes-me falta (Inês Pedrosa)
  33. Feliz ano novo (Rubem Fonseca)
  34. Fica comigo esta noite (Inês Pedrosa)
  35. François Truffaut, uma biografia (Antoine de Baecque e Serge Toubiana)
  36. Gandhi – autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade (Gandhi)
  37. Henfil na China (antes da coca-cola) (Henfil)
  38. Juliano (Gore Vidal)
  39. Kafka a beira Mar (Haruki Murakami)
  40. Kitchen (Banana Yoshimoto)
  41. Memórias de uma moça bem-comportada (Simone de Beauvoir)
  42. Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)
  43. 1984 (George Orwell)
  44. Minha querida Sputnik (Haruki Murakami)
  45. Não me abandone jamais (Kazuo Ishiguro)
  46. Nas tuas mãos (Inês Pedrosa)
  47. O alienista (Machado de Assis)
  48. O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio (Charles Bukowski)
  49. O estrangeiro (Albert Camus)
  50. O evangelho segundo Jesus Cristo (José Saramago)
  51. O idiota (Fiódor Dostoiévski)
  52. O livro das ilusões (Paul Auster)
  53. O martelo de Deus (Arthur C. Clarke)
  54. O movimento romântico (Alain de Botton)
  55. Palimpsesto (Gore Vidal)
  56. Paris é uma festa (Ernest Hemingway)
  57. Paris não tem fim (Enrique Vila-Matas)
  58. Pergunte ao pó (John Fante)
  59. Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda)
  60. Sidarta (Hermann Hesse)
  61. Trilogia suja de Havana (Pedro Juan Gutierrez)
  62. Um grande garoto (Nick Hornby)
  63. Um, nenhum e cem mil (Luigi Pirandello)
  64. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector)
  65. Uma história da razão – entrevistas com Émile Noël (François Châtelet)
  66. Vidas secas (Graciliano Ramos)

sábado, 24 de janeiro de 2009

1000 livros

Assim como nas telas, a vida, para mim, sempre esteve nos livros. Principalmente neles.

Deitadas sobre a grama numa tarde fria com céu azul luminoso e sem nuvens, Gigi observava as pessoas e os outros cães que circulavam pelo parque e eu lia, ou melhor, degustava, uma edição da Vintage (cuja capa, por si só, já me deixa loucamente feliz) de Kafka à beira-mar, romance do escritor japonês Haruki Murakami, quando deparei com um trecho em que o protagonista, um garoto de nome fictício Kafka, compara as sensações que tem em meio a uma multidão apressada numa estação de trem e aquela ocasionada, logo depois, numa biblioteca tranquila, pela leitura das Mil e uma noites. Ao fazer a comparação, ele diz mais ou menos o seguinte:

“Comparada àquela multidão de pessoas correndo pela estação de trem, estas histórias loucas e absurdas de milhares de anos atrás são, ao menos para mim, muito mais reais. Como isto é possível, eu não sei. É muito estranho.” (tradução livre)

Na hora tive aquele espasmo de surpresa e alegria que se tem quando se reconhece, num livro ou em qualquer outro lugar, uma idéia que já estava em você e que, de repente, expressa de maneira clara e irretocável, passa a ter a forma quase concreta das palavras.

A partir daí, sempre que pergunto a mim mesma por que preciso tão desesperadamente dos livros, me vem à mente a cena da estação de trem, tão parte do cotidiano desprovido de um sentido mais fundamental, e aquilo que se encontra nos bons livros, onde a vida parece adquirir mais intensidade e beleza.

Como não poderia deixar de ser, também adoro as listas de livros: os melhores já lidos, os que
eu preciso comprar, os que, adquiridos ou emprestados por algum amigo, já estão na fila de leitura, etc.

Para o meu deleite, a edição eletrônica do Guardian de ontem trouxe uma lista com os “1000 romances que todo mundo deve ler”, o que, claro, me levou a fazer listas dos que li e adorei, daqueles que estão na estante esperando para serem lidos, dos que estão na relação das próximas aquisições e daqueles até então para mim desconhecidos e pelos quais me interessei.

Delas, fica, como sugestão, a partir da “listona” do Guardian, a minha listinha, com livros que li e que recomendo:
  • A insustentável leveza do ser (Milan Kundera)
  • A montanha mágica (Thomas Mann)
  • Admirável mundo novo (Aldous Huxley)
  • Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)
  • Alta fidelidade (Nick Hornby)
  • As ligações perigosas (Choderlos de Laclos)
  • Cândido ou o otimismo (Voltaire)
  • Cem anos de solidão (Grabriel Garcia Márquez)
  • Crime e castigo (Fiódor Dostoiévski)
  • Dom Casmurro (Machado de Assis)
  • Ensaio sobre a cegueira (José Saramago)
  • Eugénie Grandet (Honoré de Balzac)
  • Fim de caso (Graham Greene)
  • Frankenstein (Mary Shelley)
  • Grande sertão – veredas (João Guimarães Rosa)
  • Grandes esperanças (Charles Dickens)
  • Madame Bovary (Gustave Flaubert)
  • Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • O amante (Marguerite Duras)
  • O amor nos tempos do cólera (Grabriel Garcia Márquez)
  • O caçador de pipas (Khaled Rosseini)
  • O estranho caso do cachorro morto (Mark Haddon)
  • O lobo da estepe (Hermann Hesse)
  • O nome da rosa (Umberto Eco)
  • O pequeno príncipe (Antoine de Sainte-Exupéry)

  • O perfume – a história de um assassino (Patrick Süskind)
  • O processo (Franz Kafka)
  • O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)
  • Os irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski)
  • Os sofrimentos do jovem Werther (Johann Wolfgang Goethe)

  • P.S. Para consultar a lista do Guardian, dividida em war & travel, science fiction & fantasy, state of the Nation, family & self, comedy, crime e love, acesse http://www.guardian.co.uk/books/series/1000novels.

    Rock Werchter 2009

    Ainda sobre a Bélgica, se você está planejando passar por lá no começo de julho (especificamente nos dias 2, 3, 4 e 5) e já andava pensando em pegar uns showzinhos bacanas pela Europa, fique de olho na edição de 2009 do Rock Werchter, que rola na cidade de Louvain e que, segundo especialistas como o Carlos, é um dos melhores festivais da Europa.

    A programação deste ano ainda não saiu, mas, para ter uma idéia do que pode estar esperando por você, é só dar uma passadinha pelo site
    http://www.rockwerchter.be/RW2008/site/index.asp, onde, em Report 08, é possível ver quem andou tocando por lá.

    Mas, prepare-se: depois de ver o que rolou em 2008, você provavelmente será capaz de mudar a data da viagem, o roteiro e até gastar uma grana extra. Depois me conta!

    segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

    Cervejas, chocolates e marionetes

    Foto: Camila Guido/Bruges

    Chegamos à Bélgica sem maiores expectativas para uma estada de menos de vinte e quatro horas. Vínhamos de Paris e estávamos encarando nossa passagem por Bruxelas, sua "vizinha", como uma espécie de bônus. Já havia anoitecido e chovia um pouco quando saímos da estação de metrô Ste-Catherine/St-Katelijne e começamos a caminhar em busca do escritório onde deveríamos apanhar as chaves dos apartamentos reservados pela internet. Embora tivéssemos algumas coordenadas, estávamos um pouco perdidas quando recebemos a ajuda de dois cavalheiros, que, apesar de não serem da cidade, empreenderam todos os esforços para nos colocar na rota certa. E conseguiram.

    Chegando ao escritório, recebemos instruções acerca dos nossos apartamentos e, de posse das chaves e de um precioso mapa, reiniciamos a caminhada. Na rua, uma senhora pergunta se precisamos de ajuda, verifica o endereço e o nosso “plano de rota” e, certa de que estamos na direção correta, segue seu caminho.

    Encontramos facilmente o nosso novo endereço e, ao abrir as portas dos apartamentos, não conseguimos conter os gritinhos de contentamento: l i n d o s!

    Após a chegada do último membro da aventura, saímos, ainda sem grandes expectativas - mas, sem dúvida, já satisfeitas por termos optado pelo bônus -, para dar uma volta pela cidade, comer alguma coisa e, claro, beber algumas cervejas.

    Apesar da chuva e do frio, há bastante gente nas ruas e a nossa primeira parada é a fonte do Manneken Pis, estátua de um garotinho fazendo xixi que, acredite, é um símbolo nacional. Além de ser uma sensação para as câmeras dos inúmeros turistas que se reúnem para vê-lo, o Manneken Pis possui um guarda-roupas com mais de cem roupinhas que são trocadas de acordo com a festividade ou a data. Mas o Manneken não é o único a fazer pose; embora menos famosa e bem mais escondida (tanto que, enquanto estávamos lá, não conseguimos encontrá-la), há a Jeanneke Pis
    , estátua de uma garotinha que, como a versão masculina na qual foi inspirada, também passa os dias a fazer xixi em público.

    É curta a distância que separa a fonte do Manneken Pis da Grand Place, tida por alguns como a praça mais bonita da Europa. Mais uma vez, recorro à minha edição do Europe on a Shoestring Guide e descubro que o Hôtel de Ville, edifício em estilo gótico - que, como diz o próprio guia, é esplêndido – localizado na praça, foi o único prédio a escapar do bombardeio francês em 1695 (o que, conforme assinala o guia, é irônico, já que ele era o alvo).

    Foto: Camila Guido/Bruxelas, Grand Place, Hôtel de Ville

    Além de linda, a Grand Place tem atrativos importantíssimos, como as lojas da Godiva (não deixe de tomar o chocolate quente) e da Neuhaus, cujos chocolates são estonteantes. Agora, você não precisa gastar seus euros em nenhuma delas (que são mais caras do que as demais) para saborear um ótimo chocolate belga, que, na realidade, pode ser encontrado em qualquer esquina da Bélgica. E eu aposto que, andando pelas ruas “alucinógenas” de Bruxelas, com o perfume do chocolate insistindo em acompanhá-lo durante a caminhada, você entrará não em uma, mas em várias lojinhas de chocolates.

    Ainda na seara das melhores invenções da humanidade (entre as quais, a meu ver, figuram o chocolate e a cerveja), os belgas - povo lindo, simpático e multilíngue – criaram as melhores cervejas do planeta, cuja estrela absoluta (na minha modesta e obcecada opinião) em sabor, cor, cheiro, gosto, efeito, formato do copo e da garrafa, é a Duvel (em Português, diabo). Há outras, claro, que merecem toda a nossa atenção, mas a Duvel é imperdível.

    E para degustar a Duvel e outras preciosidades, o bar eleito foi o Toone (que ganhou meu coração e minha preferência absoluta em termos de bar em Bruxelas, embora, segundo o Carlos, existam outros com mais opções de cervejas), localizado na 6 Impasse Schuddevelde, numa entradinha que, exceto por uma faixa suspensa indicando o teatro de marionetes, é de difícil visualização. Sim, há um teatro de marionetes no local e, dentro do bar, na sala intermediária, há bonecos numa espécie de palco e arquibancadas de madeira recolhidas, dando a impressão de que o bar pode se transformar num teatro a qualquer momento. Os espetáculos de marionetes (a peça em cartaz era Drácula) podem ser vistos por volta das oito horas da noite, creio que numa sala separada do bar. Infelizmente, não conseguimos vê-los em nenhuma das ocasiões em que estivemos lá, pois não chegamos a tempo. O Toone conta ainda com um simpático morador felino que costuma fazer suas aparições no final da noite, quando o bar já está ficando vazio, e que é uma graça.

    Certamente Bruxelas tem muitas outras surpresas agradáveis e o que era para ser apenas um bônus se transformou em um dos pontos altos da trip; apesar de não ser estonteante e de não ter tantas atrações como Paris ou Londres, Bruxelas é uma cidade alegre e luminosa, que continua a brilhar dentro de mim. Voltarei.

    P.S.1 Com relação à hospedagem, recomendo a reserva, pelo Booking.com ou pelo Brussels ApartmentsApart.com, de um apartamento da rede ApartmentsApart. São excelentes e, se reservados com bastante antecedência, têm preços ótimos.

    P.S.2 Sobre cervejas na Europa, aconselho uma passada pelo blog do Mac
    ; em categorias, clicar em bebidinhas.

    P.S.3 Para trem entre Bélgica, França, Alemanha e Holanda, consultar o site da Thalys.

    P.S.4 Para trens na Bélgica, clique aqui.

    terça-feira, 13 de janeiro de 2009

    Em Bruges

    Foto: Camila Guido/ Bruges, Belfort

    Faz muito calor em São Paulo e, embora noite e com as janelas escancaradas, eu e a Gigi, duas almas idosas e rabugentas, estamos, como sempre, nos sentindo um pouco desconfortáveis com a temperatura. Olho para a Gigi deitada sobre o sofá com os olhos fechados, a barriga para cima e as patas dobradas junto ao corpo num estado de profunda abstração e tenho certeza que, em poucos segundos, ela vai começar a levitar. Ótimo truque para focar em outra coisa que não seja o calor. Eu, por outro lado, estava entre ler e ver um filme, quando senti que talvez escrever fosse uma opção melhor, pois a tarefa exigiria de mim uma espécie de abstração e concentração semelhantes às da Gigi no momento. Aí, quem sabe, o calor ficaria em segundo ou em terceiro plano e eu o esqueceria por algum tempo.

    Além disso, em um dos primeiros posts deste blog, eu prometi que divulgaria, além de dicas de sites e informações que foram úteis para mim antes e durante meu rolê pela Europa, alguns relatos baseados nas minhas impressões e experiências e acho que já é hora de começar a falar um pouco sobre isso. Senão pela promessa, também pelo fato incontestável e cada vez mais evidente de que talvez a melhor parte do meu coração tenha ficado perdida por lá.

    Dentre as cidades que me arrebataram, algumas me deixaram sem fôlego, sem fala e com taquicardia. Não foi o caso de Bruges (Brugge), na Bélgica, que, embora tenha entrado na lista das cinco cidades mais lindas e legais que eu já conheci, ao contrário de algumas outras, me conquistou também pela sua beleza, mas, principalmente, pelo seu jeito discreto, calmo e acolhedor.

    Bruges fica a mais ou menos uma hora de Bruxelas de trem e, dizem, é a cidade medieval mais bem conservada da Bélgica. Consultando a quinta edição do Europe on a Shoestring, da Lonely Planet, acabo de descobrir que “a sua reputação como uma cidade perfeitamente preservada é parcialmente fabricada – boa parte da cidade foi reconstruída nos séculos XIX e XX para refletir o período medieval” (tradução livre). Fabricada ou não, Bruges é linda.

    Para se ter uma idéia da cidade, uma boa pedida é assistir ao filme Na Mira do Chefe (In Bruges, 2008), todo rodado em Bruges e com muitas tomadas externas. Vi o filme após ter ido e, como já disse a alguns amigos, caso não tivesse estado lá, teria achado que tudo aquilo era cenário. Não é!

    Foto: Camila Guido/Bruges

    Em Bruges, chegamos na estação de trem e fomos caminhando em direção às torres (de lá se veem três). Mais ou menos dez minutos de caminhada por ruas lindinhas e encantadoras e já estávamos na catedral; mais um pouco e deparamos com um dos canais (Bruges tem diversos canais). Depois, chegamos à praça, onde está a Torre Belfort, cujos 366 degraus levam a uma vista incrível da cidade (em Na Mira do Chefe é possível ver o interior da Belfort e também ter uma idéia do que se vê quando se está lá em cima).

    Trezentos e sessenta e seis degraus para subir mais trezentos e sessenta e seis para descer... Bom, setecentos e trinta e dois degraus após ter tomado apenas um chocolate quente em Bruxelas, sentamos, com fome e com sede, em um dos cafés da praça e acompanhamos nosso desjejum com Duvel, a melhor cerveja do mundo (na minha opinião, sempre exagerada, mas é). Não fosse suficiente, fomos atendidos por um garçon extraordinariamente simpático. (Sobre os belgas, sua cerveja e seu chocolate, aguardem os próximos posts. Por enquanto, basta dizer que eles são o povo mais bacana, que faz a melhor cerveja e o chocolate mais incrível. Do planeta.)

    Felizes após uma ótima refeição e três ou quatro garrafinhas de Duvel, andamos a esmo pelas ruas de Bruges, encantados pelas construções medievais e seus reflexos nos belos canais, pela vista da Belfort, pela ótima música que vinha de caixinhas de som discretamente colocadas nas paredes de algumas ruas, pelas lojas de chocolates. Hora de ir embora ou não chegaremos a tempo de pegar nosso trem em Bruxelas. Foi aí que lamentamos, e muito, não poder passar aquela noite lá. Havia anoitecido e, quase chegando à estação de trem, nos viramos em direção à cidade e avistamos as três torres iluminadas. Senti uma pontada no peito, como se estivesse me despedindo de alguém muito querido. Bruges é assim, querida.

    P.S.1 Para fotos de Bruges, clique aqui.

    P.S.2 Para trens na Bélgica, clique aqui.

    sábado, 10 de janeiro de 2009

    "Um Homem Bom"

    Rio de Janeiro. O céu está cinza e enevoado e chove sem parar. Preguiça de flanar pela cidade desviando das gotas e dos guarda-chuvas. É segunda-feira e o Centro Municipal de Arte com a exposição do Oiticica que eu adoraria ver está fechado. O MAM também. E agora? Agora vamos ao cinema, claro; é cedo e de repente dá para pegar duas sessões seguidas. Ah, maravilha!

    Fechamos a programação e aportamos no Espaço de Cinema da Rua Voluntários da Pátria (um dos meus refúgios prediletos no Rio), onde, após termos percorrido as prateleiras do sebo que funciona ali, estamos prestes a “fazer hora” na livraria e café que fica ao lado do cinema quando vemos, afixado em frente à bilheteria, um recorte de jornal a respeito do filme Um Homem Bom (Good, 2008), do diretor Vicente Amorim.

    Eram, na realidade, dois recortes. Um deles, uma matéria jornalística comum a respeito do filme e o outro, a coluna do Contardo Calligaris, publicada na Folha de São Paulo de primeiro de janeiro deste ano. Embora a nossa programação fosse outra, bastou lermos os recortes para decidirmos comprar ingressos para a próxima sessão de Um Homem Bom, que estava prestes a começar.

    Ao entrar na sala, percebi que uma palavra, lida na coluna do Contardo, havia arrebatado um pedacinho dos meus pensamentos e, com eles, ia e vinha à minha mente, a todo momento. E foi assim que assisti ao filme, com a palavra complacência “pulsando” em mim.

    Luzes acesas, nossa reação a Um Homem Bom foi a melhor possível; não bastassem a excelente direção de Vicente Amorim e as ótimas atuações (especialmente a de Viggo Mortensen), o roteiro, por si só, já valeria a ida ao cinema.

    Saímos do Espaço e nos pusemos a caminhar sob a chuva em direção à Praia de Botafogo, para mais uma sessão em outra sala. O filme da vez era Gomorra (2008), que, depois de Um Homem Bom, acabou ficando completamente ofuscado.

    São Paulo, sábado. Fim da primeira semana “útil” do ano e aquela palavra continua “pulsando”, insistente; com ela, cenas de Um Homem Bom surgem e se apagam. Não sei por quanto tempo ela vai permanecer junto a mim, mas, embora às vezes um pouco desconfortável, desejo, para o meu próprio bem, que a lembrança do que pode significar, no mundo real, a complacência, não me abandone tão cedo.

    P.S. A quem possa interessar, o título da coluna do Contardo Calligaris a que eu me referi é “Um Ano Novo Feliz e Desconfiado”, onde ele deseja aos leitores “... um Ano Novo corajoso, sem as pequenas complacências do nosso dia-a-dia”.

    quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

    Na tela em dezembro de 2008

    Os amigos já sabem: sempre tenho algumas listas na ponta da língua, como, por exemplo, os cinco ou os dez melhores filmes e livros de todos os tempos, as bandas e as músicas mais incríveis do planeta, as cidades mais lindas do mundo e por aí afora.

    Não sei ao certo quando começou essa mania, ou seja, quando comecei a pensar compulsivamente nas tais listas (desconfio que o Alta fidelidade, livro do escritor inglês Nick Hornby, tenha alguma coisa a ver com isso, já que o protagonista da história passa boa parte do tempo ocupado com listas muito semelhantes às minhas), mas posso assegurar que os critérios para a sua elaboração são todos de ordem absolutamente subjetiva e, muitas vezes, até emocional.

    Assim, o que era para ser apenas uma indicação “inocente” do que eu ando assistindo, em casa ou no cinema, acabou virando lista; a partir de agora, no início de cada mês, pretendo listar, a título de sugestão e com base em uma classificação leiga e parcial, os filmes vistos no mês anterior.

    A seguir, o que esteve na tela em dezembro de 2008:

    Classificação: imperdível; excelente; muito bom; bom; regular; ruim; péssimo.

    quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

    "A vida estava na tela"

    Lembro de ter lido, há muitos anos, em uma biografia do diretor de cinema François Truffaut (François Truffaut, uma biografia, de Antoine de Baecque e Serge Toubiana), que “a vida estava na tela”. Eu andava por volta dos vinte e três anos e creio que talvez tenha sido naquela época que descobri que era portadora de uma quase doença denominada “cinefilia”. Quando exatamente fui acometida pelo “vírus” da enfermidade eu nunca pude divisar; o que eu sei, com absoluta certeza, é que passei a adolescência frequentando locadoras de filmes e esperando ansiosamente pelas tardes de sexta-feira, em que, após o término das aulas, eu tinha permissão para alugar quantos filmes quisesse e depois passar o resto do dia e todo o final de semana em frente à televisão e ao vídeo cassete.

    Naqueles tempos eu morava no interior e por muitos anos houve apenas uma sala de cinema na cidade, cuja programação nunca foi, digamos, das mais convidativas. Mesmo assim, confesso, eu assistia a todas as estréias. Sempre.

    Mais tarde, em São Paulo, passei a ir ao cinema com frequência: duas a três vezes por semana, sendo que, muitas vezes, de acordo com o tempo disponível e com o humor, saía de uma sessão e entrava em outra. A doença foi se acentuando e houve períodos em que eu precisava assistir a todos os filmes que me interessavam e que estavam em cartaz, pois, do contrário, suava frio e ficava extremamente ansiosa.

    Separações, problemas profissionais, questões existenciais de toda ordem? Lá ia eu para o cinema, onde, em frente à tela, nada disso tinha importância. Sim, a vida, para mim, estava na tela.

    Provavelmente foi por essa razão que nunca esqueci a frase lida na biografia do Truffaut e porque, nas últimas cenas de Rebobine, Por Favor (Be Kind Rewind, 2008), do diretor Michel Gondry, fui surpreendida por uma espécie de emoção que talvez só os cinéfilos consigam entender.

    Contar o que acontece estragaria toda a surpresa; o que eu posso dizer é que Rebobine, Por Favor superou as minhas expectativas e fez com que, por mais de uma hora, eu revivesse os meus bons tempos de VHS e, simultaneamente, sentisse a alegria que se tem quando se sabe que a vida, por mais estranha e difícil que possa ser em alguns momentos, pode sempre estar nas telas.