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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Holy Spider*

Tenho sonhos elétricos, o pai diz à filha, a movimentação no entorno da mesa à qual estão sentados intensificando a necessidade de foco do espectador na cena que se desenrola no primeiro plano.

E você, quais são os seus sonhos?

Acordo e percebo que algo havia se perdido. Tive um sonho ruim, falo, enquanto conto com palavras as imagens que me fizeram acordar angustiada, aliviada, foi apenas um sonho.

Ruas escuras, muros altos, vielas, labirinto. Outro sonho, cabeças e cabelos cobertos, rostos apreensivos. Procuro, não tem saída. Eu vou arrebentar a sua boceta, diz a legenda, traduzindo o intraduzível. Quem inventou as palavras? Como foi que elas vieram parar nas nossas bocas? Paradoxos do enlouquecimento, elas parecem nunca estar à toa, nunca ser à toa.

A minha casa é dos meus filhos, não é lugar para levar mulher, e os meus olhos se fixam com mais atenção na cena para depois se desviarem do resto do filme. Muito barulho por nada seria um bom título para ele, penso, enquanto os resquícios do áudio derramam uma cagação de regra que levanta uma parede de certezas em dry wall - alvenaria é luxo de outros tempos -, mas aquele título já foi usado há centenas de anos, no século dezesseis, salvo engano, por um texto, esse sim, contemporâneo.

Tenho uma amiga muito poderosa na vida que pelo menos na cama quer ser mulher, ou seja, estar abaixo do homem. Suspendo a respiração para ler com atenção até constatar que é isso mesmo o que está escrito. Inspiro, expiro pela boca, uma, duas, três, quatro vezes. Mas que legenda é essa? De qual roteiro saiu essa lógica? Quem escreveu esse filme longo, repetitivo e chato? Lippy e Hardy, o desenho, penso nele sem parar. A hiena que, ao invés de rir, passa os dias a se lamentar, a se ressentir.

O melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui, a voz do Caetano muito alta reverbera dentro do carro, os rastros deixados pelos meus pensamentos marcando o tempo que fica na estrada, Trilhos Urbanos que sucedem uma Elegia, nudez total, todo prazer provém do corpo, como a alma sem corpo, sem vestes, como encadernação.

No final das contas somos vazos preenchidos por vazios de tempo e por palavras que entregam todas as nossas sementes. Aniquilação, destruição, desprezo, humilhação. Medo, ressentimento. Mas do quê? O esforço constante, eterno, derrapante das palavras. Exceto quando cortam, como facas. Annie Ernaux, Virginia Woolf, a recusa da escrita como feminina ou masculina; Cixous, o contraponto. Inspiro e expiro pela boca novamente. Estou cansada. Não sou homem nem mulher, sou gente, e também sou bicho. É assim que eu escrevo, é assim que eu vivo. Gente, como qualquer outra mulher.

O problema é que eles não sabem ler.


domingo, 28 de janeiro de 2024

A madeleine

Vienne/França
 

Às vezes penso que todas as minhas invenções são subterfúgios para não escrever. Invento isso, aquilo e aquele outro e então fico sem tempo, sem parada, sem energia. O fato é que tenho medo da escrita, da verdade que ela traz à tona, das horas durante as quais ela me mastiga para depois me cuspir.


A madeleine

Recentemente eu viajei. Fiz um intercâmbio, como fazem, em maior número, os adolescentes e os jovens adultos. Passei um mês vivendo sozinha num pequeno apartamento localizado num prédio que abriga residências estudantis, para o qual, confesso, cheguei a pensar em comprar uma planta. Fiquei encantada com Lyon, a cidade que escolhi para passar esse período, com os dois rios que a cortam, e me habituei a diariamente olhar para cima em busca do conforto e da orientação geográfica oferecida pela vista da Basílica de Notre-Dame de Fourvière, que paira sobre a cidade como uma bússola. Dormi e acordei pensando em comida, fotografei inúmeras vitrines de doces e comi, com a boca e com os olhos, as obras de arte açucaradas mas nem tanto que os franceses expõem em suas padarias e confeitarias. Provei em quantidades diárias o mais novo beaujolais nouveau que era acabado de chegar, flanei por livrarias e quase pedi um emprego em uma delas, que expunha os lançamentos acompanhados de bilhetes com uma crítica e uma recomendação da loja, bilhetes escritos à mão. Melhorei o meu Francês e fiz tudo o que mais gosto de fazer: fui ao cinema, ao teatro, a museus, à ópera local, a um espetáculo de circo, saí para beber com colegas de curso, viajei para cidades próximas e observei as pessoas com vagar e com cuidado, o que sempre me permite inventar e contar para mim mesma as histórias das suas vidas. Ouvi novas músicas, percebi o meu corpo impregnado de novos cheiros, andei até os meus pés quase não suportarem mais, me deliciei com a maciez das lãs que envolviam o meu pescoço, comprei um casaco novo e também novos livros. Proferi a expressão “c’est très mignon” umas duas centenas de vezes e passei dias felizes, com poucas noites de insônia, mergulhada numa cultura que me abraçava com o mesmo calor produzido pela degustação de uma madeleine acompanhada de uma xícara de chá. Na véspera da partida, em meio ao frio cortante e a uma chuva de gotas largas que insistia em cair das nuvens que acinzentavam o céu, andei pela cidade como quem está prestes a deixar uma pessoa muito querida. E de fato eu estava na iminência de abandonar não só uma cidade que havia se encaixado em mim como uma roupa feita sob medida, macia e muito confortável, mas também as pessoas desconhecidas que ali viviam e que eu tanto gostava de observar e aquelas que em tão pouco tempo passaram a fazer parte do meu cotidiano, como a adorável dona da lavandaria na qual eu lavava as minhas roupas e a do restaurante vietnamita que havia se tornado o meu preferido. Até agora sinto a estranheza daquela véspera, da tarde que passei com novos amigos num café trocando impressões e histórias tristes e outras engraçadas, até que uma das pessoas precisou ir e se despediu quase como se fôssemos nos ver amanhã no mesmo lugar. E então de três restaram dois e seguimos com o nosso falatório até o cinza do céu virar grafite e nós nos virarmos um para o outro em pé na calçada do lado de fora do café para nos despedirmos com uma dupla de abraço e beijo calorosos que eu não esperava, não eu, que já fazia tão parte daquilo tudo e para quem uma despedida de braços quentes e olhos úmidos não fazia o menor sentido. Foi somente no dia seguinte, quando o meu olhar se chocou, na saída do metrô, contra a placa indicativa do caminho para a parada do trem que me levaria ao aeroporto, que o sem sentido se abateu sobre a minha cabeça como realidade cheia de conteúdo lógico. Caiu como uma pedra que vem rolando lá de cima e provoca dor daquelas que fazem a gente ter vontade de chorar de aflição.


Uma mulher incomoda muita gente; uma mulher sozinha incomoda muito mais

Antes de viajar, e eu viajei quase que imediatamente após o meu aniversário de quarenta e cinco anos, o que foi um erro, pois agora percebo que deveria ter ido antes, fiquei intrigada com a quantidade de votos de suposta felicidade recebidos cujo teor era basicamente o mesmo, espero que você encontre um francês por lá! O frisson com essa fantasia era tamanho que até o novo marido de uma amiga, o qual me viu não mais que duas vezes na vida, enviou os seus votos casamenteiros ou coisa que o valha por meio da esposa, a mesma que ao longo da viagem, que ela acompanhava virtualmente, ficou horrorizada com a quantidade de doces que eu ingeria diariamente, ela, que tanto preza pela magreza e abomina a gordura, especialmente quando alojada numa mulher, pois que homem vai querer uma mulher gorda, e pouco importava se a comida era parte indissociável daquela cultura, se era gostosa a não mais poder, se boa parte do prazer e do aprendizado relacionados àquela viagem estavam necessariamente ligados ao ato de comer, o importante mesmo é se manter bonita dentro dos padrões, fundamental é ser convencional, é ser magra e ter um homem, e eu fui e voltei sem nenhum.

Que pena que você não achou um francês bem rico por lá, rezei tanto para você voltar casada com um homem rico, tem muitos franceses por lá, são bonitos os franceses, não conheceu nenhum, ah, que pena, sério, mas nenhum mesmo, e o assunto viagem, a despeito de todo o resto, a despeito da própria viagem, cessava aí, com a minha incapacidade de ter encontrado, como se fosse um canivete cheio de utilidades que se acha ou não disponível numa loja, um homem que me salvasse, que me acompanhasse, que eventualmente viesse a pagar as minhas contas e viagens e cursos e livros e as sessões de análise e o plano de saúde e os médicos particulares e o veterinário e o IPVA do meu carro que é o que sobra pois que o carro em si foi integralmente pago com o meu próprio dinheiro sem que houvesse qualquer homem envolvido além do vendedor da concessionária com o qual sigo em débito por não ter ainda preenchido a pesquisa de satisfação com nota dez que é algo que segundo ele lhe será muito útil, enfim, um homem que viesse a me dar coisas que eu não sei quais são mas que as pessoas que me desejam tanto um homem canivete obviamente devem saber e que provavelmente são apenas o acessório da fantasia principal, aquela de que uma mulher precisa de um homem para ser completa, válida, para ser uma mulher de verdade e se fosse simples assim, meu deus, se fosse simples assim a completude que é uma coisa que não existe para ninguém nem mesmo para os homens imaginariamente completos que saem por aí estufando o peito e exibindo um pau, e para eles ninguém deseja ou pergunta se encontraram uma mulher para casarem e serem felizes pelo resto da vida quando viajam.

Pensando sobre o assunto eu várias vezes me perguntei se não passou pela cabeça de ninguém que eu estaria sozinha num país distante e que por mais que os homens na França sejam menos machistas e sexistas do que os homens no Brasil, eles ainda assim são machistas e sexistas e por origem das coisas misóginos e que eventualmente me aventurar com um estranho qualquer poderia incorrer em riscos desnecessários ou em situações desagradáveis que poderiam melar todo aquele delicioso caldo no qual eu estava me refestelando, eu e a minha solitude, eu e a minha paz, mas é claro que não, pois como uma mulher sozinha pode ter paz e prazer, só posso estar mentindo mas não estou, eu só estou cansada, tão cansada de tanto pensamento flácido e bobo e pueril que demorei a escrever, que me irritei com vagar, que tive uma coisa crescendo no peito e subindo pela garganta que só falei para a analista e para o outro médico, o que às vezes me faz sentir criança e chorar como se fossa outra e não eu a verter lágrimas que ele arranca de mim com alguma frase certeira naquele consultório que ao longo de quarenta anos ocupou várias salas mas que segue sendo o mesmo, a mesma pequena estatueta de uma santa sobre a mesa, a mesma caneta Montblanc, as mesmas folhas de papel pautado onde ele anota todas as palavras que formam o livro no qual vem se transformando o meu prontuário, falei mas não deixei, até agora, que a coisa descesse até os dedos, e quando desce é um alívio, é um complemento, é um vazio preenchido de palavras contornadas que podem ser vistas e lidas e relidas e pensadas no mesmo ritmo em que foram nascendo.

E durante uma conversa uma amiga observou que eu provavelmente estou sozinha em razão dos meus posicionamentos femininos e eu tenho certeza que ela trocou feministas por femininos e então na hora eu não disse nada, só fiquei ali me deliciando com a troca de palavras, com o ato falho, pois a psicanálise, como recentemente constatou a minha analista, não sai de mim, nem tampouco a escrita, não consigo me livrar nem de uma nem de outra, não quero me livrar, e achei curioso e muito bom isso do meu dito posicionamento feminista ser inconscientemente reconhecido como um posicionamento feminino pois que o meu posicionamento feminista é só o desejo expresso em atos e palavras de ser reconhecida como um ser humano e que se foda o sexo, o gênero, só quero ser humana que é o que sou antes de ser qualquer outra coisa e eu não fico o tempo todo pensando ah, eu sou uma mulher então tal coisa, ah, eu sou uma mulher então tal outra coisa, eu sou uma mulher então eu preciso de um homem, eu sou uma mulher então eu preciso viver assim ou assado, eu sou uma mulher então eu não posso fazer isso ou aquilo, eu sou uma mulher, eu sou uma mulher, eu sou uma mulher, não, o tempo todo eu penso eu preciso fazer porque eu vou morrer, eu preciso viajar porque eu vou morrer, eu preciso escrever porque eu vou morrer, eu preciso viver porque eu vou morrer, sendo eu um sujeito quase indeterminado, sendo eu essa coisa que jorra palavras que vêm sabe-se lá de onde e que não tem tempo nem nome nem sexo nem gênero nem nada que seja classificável ou nominável, só eu.

Eu continuo pensando muito na morte e o outro médico então me diz você pensa tanto na morte que aí você não vive e é verdade eu andei pensando muito na morte e deixei de viver por estar meio morta mas agora a morte tomou um outro nome que é o luto e que inclusive parece estar em alta e numa sequência eu li memória de ninguém que é um luto só e assisti anatomia de uma queda que é outro luto que obviamente se instaura de fato quando o processo tem fim, o processo, essa nódoa jurisdicional que foi inventada talvez por aqueles que tinham o desejo mas não o talento literário para contar histórias, e agora estou em meio ao desenrolar de não fossem as sílabas do sábado, no qual me vejo mergulhada no luto daquela mulher e daquelas mulheres e o andré em alguns momentos é quase como se fora meu o marido que morreu e eu vou ficando mais dentro e dentro e dentro de mim e o luto da ana é como se fossem os meus e então eu preciso acabar logo com isso e sair desse lugar que me consome, deprime e me deixa estatelada olhando para a luz do abajur refletida no teto.

Ana está ressentida com a sua perda, em anatomia de uma queda pergunta-se à protagonista se ela se ressentiu com o marido por ocasião do acidente com o seu filho. Eu dizendo que não, que um homem não poderia compor a mesa naquela situação, e de repente ouço precisamos ter cuidado para não nos tornarmos mulheres ressentidas, e depois dessa frase, dita no mais improvável dos contextos, para além da perplexidade que me tomou, pensei no quão curioso era o fato de que há muito tempo penso em escrever um texto justamente intitulado os ressentidos, uma homenagem às avessas a todos os homens trasbordantes de ressentimento que passaram pela minha vida e que não foram poucos e pela de muitas mulheres que eu conheço e de outras que desconheço mas cujas histórias estão aí, nos livros, nos filmes, nas revistas, nas matérias de jornais, nas histórias que ouvimos alguém contar. Ressentidos que ao longo dos séculos vêm tentando nos manter belas, mudas, cegas, burras, recatadas e do lar e em relação aos quais, na opinião de algumas mulheres, nós precisamos ter cuidado para não nos tornarmos ressentidas. E aqui eu retomo o meu posicionamento feminista apenas para afirmar que se o desejo de que nós mulheres tenhamos voz, dignidade, autonomia e liberdade na mesma medida dos homens fizer de mim uma mulher ressentida, eu estou completamente tomada de ressentimento e penso que a frase, especialmente no contexto em que foi dita, deveria ter sido outra, precisamos tomar cuidado para não nos transformarmos em mulheres mortas, literal ou metaforicamente, por todos aqueles que não querem ouvir as nossas vozes.

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Escrever é muito perigoso, eu sei, e essa frase não é minha, é da Olga Tokarczuk, mas ao mesmo tempo que amedronta, acolhe, como a madeleine com chá, como o brinquedo preferido de uma criança, como Lyon ou outra cidade que possa ser narrada dentro de uma história, seja ela inventada ou não, como esta tarde de domingo, que me foi inspirada também pelas sílabas de um sábado.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Dogville

Fiquei com muita raiva de você, mas agora passou. Nasci com muita raiva, ou melhor, não. Quando criança, vejo nas fotos um olhar de um brilho que só pode ser de alegria. Eu tinha muita alegria e só uma semente de raiva, plantada, provavelmente, pelo alheamento do meu pai. Autista, será, como atualmente tem me parecido a maioria dos homens? No início a raiva era só essa semente que, depois, com o tempo, com os anos, com o deixar de ser aquela criatura falante, simpática, curiosa e cercada por pessoas que me enchiam de cuidados, de amor e de proteção, foi crescendo. Deixei de ser essas e tantas outras coisas mas, curiosa, preciso corrigir, ainda sou. Além de precisar desesperadamente ler, ver, estar em outros lugares, gosto de escutar, embora ultimamente esteja sem paciência para ouvir. Paciência, convenhamos, é um negócio que a vida nos enfia goela abaixo, mas paciência para ouvir é diferente, é de outra ordem, não se adquire à força, por mera resignação. Exige uma série de requisitos, sendo que dormir talvez seja o principal deles. Dormir num contínuo, sem interrupções. Eu não tenho dormido assim, você sabe. Eu mal tenho dormido e, sem dormir, quem é que consegue pensar direito, fazer conexões, inteligir as coisas? Curiosidade, aliás, é outro nome que estou dando para inteligência, porque se eu fosse homem teria dito desde o início que eu era simpática, falante e inteligente. Mas sou mulher e aí você sabe, nós, mulheres, por melhores que sejamos, raramente nos autorizamos a nos colocarmos nos nossos devidos lugares. Diferente dos homens que, para dizerem de si maravilhas (que no mais das vezes não são verdades), não hesitam por um instante sequer. Mulher inteligente não é socialmente bem-vista nem bem-quista. Existem as bolhas, claro, que, nessa qualidade, são lugares de exceção, ilhas no meio do oceano. Um ex-amigo que após muitos anos viajando pelo mundo deu descarga na nossa amizade com uma cantada barata e uma proposta indecente, um dia me disse, você precisa fingir que é mais burrinha para os caras gostarem de você. Noventa e tantos por cento dos meus amigos teriam medo de você. Os amigos, claro. Ela parece uma esponja, a minha mãe disse ao médico, na minha frente, quando eu era muito pequena. Entendi na hora. Talvez isso fosse difícil para ela, lidar com uma criança assim, você falou quando lhe contei. Eu não sei, mas acho que não, acho que era bom para ela ter quem a ouvisse, pois eu a escutava com muita atenção. Diferente do meu pai, que era indiferente a nós duas. Você andou cedo, com um ano não usava mais fraldas, foi o que ela me contou recentemente. Não pode ser. Tem certeza? Sim, tenho. E um pouco depois não queria que ninguém limpasse você. Nessa época, com menos de dois anos, passou na frente da escola com a sua tia e quis ficar. Olhou por baixo do portão e quis ficar. As suas palavras eram bem articuladas, lembra daquela gravação que o seu avô fez, você cantando com perfeição o hino nacional? Lembro, claro, ouvi infinitas vezes essa fita num pequeno gravador de fitas cassete que tinha um microfone e que eu achava genial, assim como achava genial o meu avô. Aliás, até uma certa idade, eu nutria uma grande admiração pelos homens; tinha muitos amigos, gostava da companhia masculina, achava os homens mais livres e mais descolados de certas formalidades. Como eu. Demorei para ser mulher e, desde então, os homens têm me parecido criaturas muito, muito primitivas e até certo ponto, desprezíveis. Todos os dias da minha vida, aliás, lamento não ter feito a escolha certa de objeto, que seria, sem sombra de dúvida, a homossexualidade, pois ser uma mulher heterossexual nos dias de hoje é praticamente uma maldição.

Olhando daqui, o parágrafo acima pode ser considerado um resumo da minha vida, ou seja, há quarenta e quatro anos venho absorvendo do mundo tudo o que posso, venho tentando articular bem as palavras, exortando as pessoas ao meu redor a me deixarem em paz com a minha própria bunda e vendo crescer uma raiva que em determinados dias me faz ter vontade de dizer para muita gente, como no título daquele livro da Ariana Harwicz, morra, amor.

A raiva que fiquei de você foi a mesma que tenho quando alguém não se responsabiliza pela própria merda, ou não é responsabilizado por ela. Coloquei essa vírgula antes do ou e fiquei pensando nas vírgulas da minha ex-amiga, a que queria que eu escrevesse como o noivo, agora possivelmente marido, dela. Nunca mais a vi, nunca mais nos falamos, essa nunca me fez falta. Ao contrário da outra, você sabe quem. Por esta, chorei muito. Raiva tenho mesmo só da das vírgulas. Da outra tenho uma interrogação. Voltando, você não devia ter dito que o problema era meu; ainda que esteja incomodada, não fui eu que caguei aquela merda toda e esse tipo de frase é boa de escrever mas difícil, no começo, de bancar. Porém, como eu já disse, e o divã é minha testemunha, nem sexo nem escrita limpinhos me interessam.

Aliás, nada que tenta parecer o que não é me interessa. Contei para uma colega e amiga que todos os dias me vê e que vem acompanhando a saga da insônia há meses sobre a reação dos presentes na reunião na qual expus a situação causadora não só da minha impossibilidade de dormir como também da minha angústia e do meu desespero, e ela disse, nossa, parece Dogville!, assim, com uma exclamação. Foi aí que descobri que vivo em Dogville e fiquei com mais raiva ainda. Gosto justamente muito do verbo descobrir pois ele vem com esse descortinado de tirar algo que está em cima de outra coisa, e aí, nessa reunião, enquanto um homem dizia que talvez fosse interessante ter alguém de fora para fazer o que tinha que ser feito sem desagradar aos outros, descobri que não daria para conversar. Por mais que eu goste das conversas que eventualmente tenho com crianças, o assunto em questão, a responsabilidade pela merda alheia, envolvendo incapazes, criaturas indefesas, era assunto para ser tratado pelo psiquismo de um adulto.

Criança é assunto sagrado, não é? Ai de quem apontar um limitezinho que seja para uma criança desconhecida. Limite não pode mas deixar a criança ilimitadamente exposta a ruídos enlouquecedores, dia e noite, todos os dias, aí ninguém tem nada a ver com isso, porque dentro das quatro paredes da casa dos outros, o que se passa na casa dos outros, é só do outro. Bateu, espancou, gritou, matou? Fazer o quê? Agora, no ambiente externo, bom, a piscina lá de Dogville, por exemplo, é um lugar que muitas vezes fica repleto de crianças. Eu estava lá numa tarde dessas, estendida sobre a minha canga e quase absorta num livro, quando ouço, Marcelo*, você é chato, gordo e está com sobrepeso. Olho para a piscina por cima do ombro e vejo Marcelo com o rosto contraído, a poucos graus de derreter e de se esvair da sua boia. Simultaneamente, o outro garoto, o que havia proferido aquela espécie de sentença, o olhava com indisfarçável desprezo e sem qualquer nesga aparente de remorso. Na outra extremidade da piscina, pequena - ela é bem pequena, assim como as casas e sobrados, mas alguma coisa existente talvez na água que abastece algumas das unidades faz com que os seus moradores acreditem não pertencer à classe média, bem média, da população -, duas mulheres, provavelmente mães de algumas das crianças, observavam seus filhos saltando e despejando boa parte da água da piscina para fora dela, e eventualmente diziam, num tom lasso, sem a menor convicção, não pulem, vão molhar a moça, olha o livro dela. E aqui tem uma coisa que me intriga e que não é a lassidão em si, mas a lassidão vestida com aquele verniz parental de cor opaca e com roupas em plena tarde muito quente de verão. Mãe não coloca biquíni para olhar o filho na piscina por quê? Os pais, em geral, aparecem por lá em trajes de banho. Será que as mulheres, quando são mães, ficam exaustas demais até para se bronzearem ou para se refrescarem? O que é que nós, mulheres, afinal, estamos fazendo com as nossas vidas?

Chega então o dia oito de março, o dia internacional da mulher, que obviamente só existe em razão do fato de que há séculos nós somos massacradas, silenciadas, oprimidas, espancadas, exploradas menosprezadas, rebaixadas à qualidade de cidadãs de milésima classe, estupradas, mortas etc., etc., e a temperatura medida no termômetro da minha raiva sobe. Sobe, sobe, sobe. Fotografia das mulheres no trabalho. Fotografia, como um animal exótico num zoológico? Mulheres que trabalham, uau, que interessante, vejam essa possibilidade que lhes foi concedida, apesar de serem o que são. Vamos lá, vamos fotografar, vamos registrar esse fato tão digno de nota, esse fato que nos torna homens melhores, que permitem que vocês, mulheres, tenham um trabalho remunerado para além daquele escravo que vocês exercem em casa. Com raiva, recuso-me. Leio então o texto de uma postagem numa rede social escrito no melhor estilo esquerdomacho por um homem que um dia frequentou a minha casa e para o qual, a uma certa altura do campeonato, tive que explicar que o mínimo que ele poderia fazer era tirar o próprio prato da mesa. Claro que aqui se trata, além de machismo, de falta de educação, mas vamos nos ater apenas ao primeiro elemento. Esse mesmo homem insistia em transar sem camisinha, mesmo sabendo que estava saindo com outras mulheres, literalmente cagando, assim, para a saúde alheia, já que o importante, no caso, era única e exclusivamente o prazer dele, sua majestade o rei homem (adorei essa expressão que você usou na nossa última sessão, então a peguei emprestada). Criatura desnorteada que um dia teve a audácia de dizer, deitada na minha cama, que queria mesmo era comer todo mundo e que pediu para voltar alegando que não era qualquer um mas sabendo, de antemão, só por essa frase, ser apenas mais um desclassificado, fato por mim provado e comprovado. 

Como amar os homens, pergunta Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo, quando todos são machistas? O texto, sinceramente, poderia ter sido mais incisivo, mas o título é bom. Como, você me pergunta, e me fala das diferenças. Devolvo a pergunta. Como seguir amando um homem que um dia me diz, você fala Inglês, Espanhol e agora vai falar Francês? Como assim, e eu? Um homem quinze anos mais velho que eu, com o qual vivi por cinco anos, e que era um poço de insegurança e de indiferença camuflado de marido exemplar. Vocês eram um casal exemplar, ouvi repetidas vezes após a separação. Exemplar para quem? O que é exemplar? Quem era aquele homem com quem eu tinha constantemente que pisar em ovos? Quem era aquele homem que precisava se pavonear de tudo o tempo todo? Quem era aquele homem que afastava de mim todos que me queriam bem, da minha família aos meus amigos pessoais, aqueles que não eram amigos em comum? Quem era aquela criatura que não conseguia aceitar o fato de ter uma companheira que lhe fosse intelectualmente superior? Sim, porque o cérebro por trás de todas aquelas viagens era o meu, jamais o dele. Isso sem falar no dinheiro. Quantos homens não "posam de bacanas" por aí às custas também do trabalho e do dinheiro de suas companheiras, sem lhes darem os devidos créditos? Quantas vezes não ouvi, nem ferrando que eu vou deixar de viajar neste final de ano, frase que vinha acompanhada de um bico, mesmo quando a grana estava curta? E a fatídica frase, dita no cartório, no dia da dissolução formal daquele buraco no qual havia se transformado a minha vida, agora vou ter que voltar a trabalhar às sextas-feiras. Até hoje, fico pensando se ele se deu ou não conta do que estava dizendo, aquele homem mimado e vaidoso.

Retomando a escuta, ontem ouvi uma fala maravilhosa, de uma mulher, Tania Rivera, sobre psicanálise antropofágica, título de um dos livros dela, e sobre mulheres. Ela citou um estudo dirigido por uma outra mulher, Rita Segato, num determinado presídio, no qual foram ouvidos, durante um período, homens que foram condenados por terem estuprado mulheres. A conclusão da pesquisa é que, no geral, esses homens, que levavam uma vida normal, um dia simplesmente foram levados a estuprar uma mulher por algo que na verdade tinha a ver com o olhar de um outro homem. Em outras palavras, o que estava em jogo na cena era o olhar de outros homens, como se o estupro fosse uma forma de validação da masculinidade do estuprador por outros homens. Surpreendente? Para mim, não. O que vejo, na vida real, é que os homens adoram os outros homens, basta observá-los juntos. Há um brilho, uma coisa, uma tensão, uma energia entre eles que não se vê entre mulheres ou entre homens e mulheres. Os homens gostam mesmo é dos homens, poucos são aqueles que gostam das mulheres. E o mesmo, infelizmente, pode-se dizer das mulheres. Poucas são aquelas que gostam das mulheres, a começar de si mesmas.

E sabe o que me ocorreu durante esse encontro de ontem? Que, seja lá o que isso for, a caneta é um objeto fálico. Pensei então na Cixous, nas nossas sessões, nos nossos fragmentos. Lembrei de você dizendo, é por isso que as mulheres precisam escrever, falar sobre si mesmas, quando eu disse ter ouvido de pelo menos três psicanalistas homens que os aplicativos de relacionamento haviam sido uma ótima invenção para as mulheres, principalmente para as mais velhas. Ótima invenção, como assim? Esses aplicativos, ferramentas que funcionam a partir de uma lógica capitalista grotesca totalmente moldada por aquilo a que hoje se dá o nome de masculinidade tóxica são bons somente para os homens, para mais ninguém. O machismo, a misoginia, os absurdos, as aberrações que se veem ali, quando você é uma mulher, é algo da ordem do aviltante, do obsceno (e eu não estou falando em termos morais). Eu, na condição de mulher, sobre os aplicativos, posso dizer apenas que tudo o que eu mais queria é que eles não existissem, pois de capitalismo selvagem, narcisismo primário, burrice, machismo e misoginia este inferno que é a nossa sociedade já transbordou.

Quem me lê pode até pensar, ah, ela odeia os homens, mas sabemos que não é disso que se trata. Sinto falta dos homens, daqueles que estejam dispostos a se posicionarem como sujeitos e não como objetos. Alguém que não se vê como um sujeito não consegue ver o outro, ou melhor, a outra, dessa forma. Na posição de objeto a vida fica restrita a poucas possibilidades, que estão infinitamente aquém daquelas que a posição de sujeito, com toda a sua complexidade, carrega. Algo muito comum nos aplicativos, e na vida real, é ouvir dos homens, quero leveza, quero uma relação leve, pessoas leves, mulheres leves. Ao que eu sempre penso, se você quer leveza, vá comer isopor. Converse com um isopor, viaje com um isopor, tome uma bebida ao lado de um isopor, vá ao cinema com um isopor. A resposta está aí, fácil, num pedaço de isopor. A pessoa não precisa se dar ao trabalho de fazer uma conta num aplicativo ou de interagir com qualquer outro ser humano seja por qual meio for. Basta um isopor. Também é muito comum, praticamente uma regra, ouvir, mulher enche o saco, mulher pega no pé, mulher tira a paz. Ao que eu penso, ótimo, então fique em casa, sozinho (ou com um pedaço de isopor), batendo uma punheta. Nós, mulheres, sendo tão inconvenientes assim, de fato, vocês devem mesmo se abster de qualquer contato conosco. Até porque, imagine só, sua majestade o rei bebê tendo que abrir mão, ainda que de uma parte ínfima, da sua rotina, do seu desejo, do seu dinheiro, das suas coisinhas, para escutar uma mulher? Sua majestade o rei homem tendo que abrir a mão para pegar na mão de uma mulher? Essa realmente parece ser uma hipótese que traz consigo fortes indícios de crime de lesa-majestade.

Você me diz, mas tem caras legais, e eu pergunto, onde estão? Aliás, onde estão as pessoas que não vivem em Dogville? Você então poderia me perguntar o que uma coisa tem a ver com a outra, ao que eu responderia que tem tudo a ver, que Dogville só é Dogville graças a isso que que está ali, permeando a sua base e mantendo as suas estruturas em pé. Sendo mulher, eu sei, eu sinto, que é impossível dissociar todo o mal que nos sufoca do mal que existe no sistema patriarcal, no machismo e na misoginia. Talvez a questão seja apenas ter olhos para ver e ouvidos para escutar. Dormir e acordar com um novo olhar para ver as coisas como elas são e não da forma pretensamente leve, com textura de isopor, que a nossa fantasia nos incita a imaginar. Meu corpo, aliás, está pesado e a raiva, a raiva estou cuspindo, exatamente como eu disse que faria. Aliás, para a minha surpresa, no final do encontro de ontem, a palestrante, enquanto empunhava a caneta e escrevia a dedicatória no livro que eu havia comprado, falou, vomite! Aqui estou, aqui estamos.
 
Itu, 12 de março de 2023.


*O nome do garoto foi trocado.