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domingo, 10 de agosto de 2025

Os homens que não viam as mulheres

Tenho estado ocupada demais comigo mesma, chocada e maravilhada em demasia com as mudanças, nada lentas e graduais, que me acometem no momento. Você está na menopausa, a minha ginecologista me diz, olhando o resultado da repetição dos exames. Menopausa, eu? Não pode ser. A minha mãe tinha cinquenta e tantos anos quando entrou na menopausa e eu tenho quarenta e seis. Não é possível. Com essa taxa hormonal é possível sim. Você está na menopausa. Com esse veredicto, a médica declarou o início da minha nova vida, ou seja, a de uma mulher que está envelhecendo, ou melhor, que está sentindo na pele, nos ossos, nos músculos e no cérebro os efeitos do envelhecimento e fazendo o possível para lidar com eles da melhor forma, o que significa dedicar tempo e recursos, principalmente financeiros, para tornar a situação menos desesperadora.

Nesse aspecto, a propósito, a dureza do envelhecimento e o fato de haverem várias velhices, a depender da condição socioeconômica de quem envelhece, ficam ainda mais patentes quando penso que eu, na condição de uma mulher privilegiada, posso lançar mão de médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, suplementos, medicamentos, comida de boa qualidade, exercícios físicos diversos etc. para de alguma forma remediar o irremediável. Mas e quem não pode? E quem não tem acesso a isso tudo?

Num primeiro momento, senti uma mistura de culpa, vergonha, medo e ressentimento. Culpa por achar que meu corpo havia falhado, que era cedo demais para envelhecer e que talvez eu tivesse feito algo errado, algo que tivesse contribuído para esse envelhecimento imaginariamente precoce; culpa também por estar bastante preocupada com isso, por estar dedicando tempo e dinheiro a essa questão pessoal quando, como dito acima, a maioria das mulheres do planeta não podiam se dar a esse luxo. Vergonha por ter supostamente falhado na missão de ser jovem para sempre, por, de acordo com a ginecologista, estar com uma osteopenia fodástica, pelo meu assoalho pélvico, junto dos meus hormônios, estar despencando. Medo do fim, do fim de tudo. Mais medo de morrer. Quer dizer então que acabou, eu me perguntava. Acabou tudo? É o fim da vida como eu a conhecia? Existe vida depois da menopausa? Se existir, qual é o tipo de vida que se vive depois desse acontecimento? Ressentimento pois, após devorar livros, podcasts e artigos, e de bombardear as minhas amigas, a minha mãe e as amigas dela com uma série de perguntas, concluí que muitos dos sofrimentos físicos e psíquicos pelos quais passei nos últimos cinco anos muito provavelmente tinham relação direta com a perimenopausa. Só que isso ninguém me contou antes.

Paradoxalmente, passado um breve período de tempo após o choque causado pela notícia que marcou o fim da minha vida como eu a conhecia até então, mais precisamente parte da atual estação do ano, ou seja, do inverno no hemisfério sul, eu me peguei em paz, em poesia e em liberdade, tomada pelo desejo de um novo projeto, encaixada como nunca antes. De repente senti, a posteriori (como não poderia deixar de ser), o clique de algo que se encaixou. Mais ou menos como se um aglomerado de pessoas confusas, barulhentas e ansiosas tivessem finalmente conseguido se organizar em linha, não necessariamente uma atrás da outra, mas uma ao lado da outra, cada uma no seu melhor lugar, todas mais calmas, mais silenciosas, menos ansiosas. Todas com um livro nas mãos.

Acho curioso tudo isso estar acontecendo ao mesmo tempo e venho passando dias maravilhada com não sei bem o quê. Comecei então a perceber que a minha análise, aquele momento pelo qual eu esperava toda semana com muita ansiedade, não andava mais surgindo como uma necessidade assim tão premente. Pensei a respeito e decidi perguntar para a minha analista, pela primeira vez em muitos anos (ao longo dos quais, exceto em alguns períodos de férias, nunca perdi uma sessão), se ela achava que seria possível passarmos a nos encontrar de quinze em quinze dias. Ao que, para minha surpresa, ela respondeu, claro que sim! É que estamos juntas há muito tempo, de maneira que podemos fazer de quinze em quinze até você parar. Parar? Se acalme, eu disse a ela, rindo, a risada disfarçando o choro que vinha de um lugar que ainda não sei definir, provavelmente do espaço que um dia foi ocupado pelo mais absoluto desamparo, que agora deixou de ser tão absoluto assim.

Dois dias antes de expressar meu desejo para a minha analista, vi um comentário deixado em uma das publicações deste blog, o qual não publiquei (nenhum comentário é postado sem a minha mediação). Nele, um homem que conheci há muitos anos se dirige a mim como se eu ainda estivesse no colegial, onde ele foi meu professor. Ele diz que espera o meu texto sobre o Ozzy, o Osbourne, morto recentemente, do qual eu há trinta anos realmente gostava muito. Há trinta anos. O homem aparentemente se dirige a mim com alguma intimidade, como se me conhecesse, como se algum dia realmente tivesse me conhecido intimamente, como se eu ainda fosse uma presa fácil, uma adolescente supostamente encantada pelo professor dez anos mais velho, casado, que se achava o bonitão da bala Chita e que não economizava esforços na hora de jogar charme para a(s) aluna(s).

Entre a visualização do comentário e a sessão de análise, tenho um sonho “em níveis”. É como se o sonho em si fosse uma coisa concreta, um edifício, uma estrutura física, com níveis. Eu passo de um andar a outro, não há paredes, o sonho edifício flutua. Como um móbile. Há outras pessoas ali, não sei quem são, talvez sejam bonecos ao invés de pessoas, talvez sejam dançarinos, sombras que se movimentam. Acordo com a frase “no adro da Fundação Casa de Jorge Amado” e o restante de Haiti, música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, se desenrolando na minha cabeça. Levanto, vou até o banheiro e, enquanto o meu xixi escorre vaso sanitário abaixo, penso na primeira frase, “no adro da Fundação Casa de Jorge Amado”. Desse professor certa vez ganhei um CD do Caetano que tinha essa música; há décadas trabalhei no que agora é a Defensoria Pública do Estado de São Paulo e também em ONGs que atendiam adolescentes infratores e, nesse período da minha vida, inúmeras vezes fui à Febem, hoje Fundação CASA, onde vi, conversei, atendi e defendi adolescentes espancados e queimados. Foi um período difícil, sobre o qual já escrevi um pouco, um tempo em que eu sonhava quase todas as noites com os espancamentos.

Conto o sonho para a minha analista; não foi um sonho de angústia, não foi ele que me fez acordar. Mas o sonho tem a ver com o comentário do professor, eu sei disso, digo a ela. Conto também que senti asco e incômodo ao deparar com aquele lembrete de algo que eu prefiro esquecer num lugar que, apesar de compartilhado, é meu. Mais uma vez, me senti invadida, assim como aconteceu quando, na véspera de um Natal, essa criatura apareceu na porta da minha casa acompanhado do cunhado! A posteriori, a presença daquele homem em forma de provocação para que eu escrevesse sobre algo que ele julgava ainda ser relevante para mim me fez perceber que naquela época eu também sentia asco e incômodo (revividos agora), os quais não sabia nomear. Não sabia organizar os meus sentimentos, tampouco entendia a situação. Eu me imaginava talvez apaixonada pelo professor, outros me diziam isso, mas a verdade é que nunca estive realmente apaixonada por ele. Naquela época namorei outras pessoas e, naquele mesmo período, a esposa do tal professor (e eu sinto muito por ela ter passado por essa situação) descobriu uma carta de amor escrita por ele para mim. Não sei se cheguei a ler a carta. Não lembro. Uma pessoa me disse que aquilo havia sido um ato falho da parte dele e me perguntou o que eu ia fazer. Fiquei surpresa com a pergunta e respondi, nada. Eu nunca tive qualquer intenção de ficar com aquela pessoa casada e dez anos mais velha do que eu. A bem da verdade, nunca tive a menor intenção de ficar “para sempre” com qualquer uma das pessoas que namorei no colegial, exceto uma, que não quis ficar comigo. E ponto. Quando eu já morava em outra cidade e estava no primeiro ano da faculdade, esse professor quis ir até mim. Nos encontramos num parque que eu nunca frequentava e que hoje me pergunto, por que naquele parque? Não lembro o que foi dito, lembro apenas de um bilhete, um verso de uma música. Lembro do asco que senti. Dele, de mim, não sei ao certo. Nunca mais nos vimos ou nos falamos, até ele me encontrar numa rede social da qual não faço mais parte, até ele, pela segunda vez, ousar comentar algo num texto meu num tom de suposta intimidade.

Tudo isso para dizer que a impressão que eu tenho é a de que esse homem nunca me viu. Assim como outros que passaram pela minha vida, o tal professor jamais me viu de verdade. Ele nunca enxergou o meu desconforto, o meu asco. Aparentemente ele também não via a própria esposa. E aqui não dá pra deixar de citar Caetano novamente, quando ele diz que “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Para jogar mais lenha na fogueira, um livro vem me fazendo pensar tremendamente no meu pai e no meu ex-companheiro, com quem vivi durante cinco anos. Meu pai, o homem mais egoísta que conheci na vida; meu ex, o segundo homem mais egoísta com o qual convivi (houve outros depois, claro, mas desses eu fugi rapidinho). Conto para a minha analista que Philippe Toussaint, um personagem de Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, me faz lembrar do meu ex, ao que ela responde, pesado, hein? Sim, pesado. Sigo a leitura e agora percebo mais fortemente o meu pai no mesmo personagem. Também passo a ver a minha mãe no lugar de Violette, a protagonista da história, e a mim mesma. Das muitas coisas que eu percebo, a principal é o fato de que, assim como Philippe Toussaint não via Violette, sua esposa, meu pai jamais viu a minha mãe (que inclusive sempre foi areia demais para a carrocinha dele, em todos os sentidos), assim como meu ex-companheiro nunca, mas nunquinha mesmo me enxergou, sendo essa realidade muito mais comum e sintomática do que possa parecer. Basta deixar o celular de lado e olhar ao redor (muitas vezes dentro da sua própria casa).

Desde que me separei, voltei, evidentemente, a me envolver com homens que não me viam ou que eventualmente me viam como uma possível mãe (o que dá na mesma), já que esse parece ser um dos meus clichês amorosos; por muito tempo, sofri com a ansiedade, a falta de ar e o desespero advindos de uma sensação de total rejeição, de absoluto desamparo. Até o dia em que, entre braçadas dadas em uma das raias laterais da piscina (prefiro as centrais, de forma que evito as duas laterais extremas, as que beiram as paredes), a falta de ar derivada de uma decepção amorosa recém-sofrida apareceu como outra coisa. Não era aquela pessoa, não era aquela relação. Era outra coisa, outra pessoa, outra (não) relação. Era e sempre tinha sido aquele homem que, lá atrás, não nos via, nem a mim, nem à minha mãe. O resto não importava, era só repetição, o gozo insaciável da pulsão de morte, esse algo além do princípio do prazer, essa coisa que silenciosamente destrói vidas enquanto faz as nossas engrenagens girarem eternamente em falso.

E essa pessoa com quem você ficaria, onde está, me pergunta a analista. Não sei. Provavelmente morando em algum outro país, fazendo o décimo quinto pós-doc da vida, lendo, escrevendo, enfim, vivendo. Melhor não saber. Melhor não saber? Fico pensando na pergunta e entendo, depois, que sim, melhor não saber, pois essa pessoa não é mais aquela que um dia eu namorei, assim como eu também não sou a pessoa que ele namorou. Hoje, somos absolutos estranhos um para o outro, e não há fantasia nem mistério algum a respeito disso. É como as coisas são e pensar de outra forma seria cometer o mesmo erro do professor, o bonitão da bala Chita que segue vida afora repetindo, repetindo, repetindo.

O fim da tarde se aproxima e hoje o dia estava lindo. É domingo e, ao contrário do habitual, me autorizei a não ir à academia. Pela manhã, observei a luz entrando pelas janelas da sala de maneira a permitir o reflexo das folhas dos grandes vasos do jardim na tela da televisão. Olhei para uma faixa de luz que se destacava no ambiente e só não a toquei por receio de dissipar, prematuramente, a delicadeza daquele instante. Tomei o café da manhã, minha refeição preferida, devagar, aproveitando cada gole, cada garfada. Li um romance, abracei e beijei meus filhos caninos, escrevi. Agora é hora de caminhar com a Amora, que anda solta e livre pelas ruas do condomínio, essa estrutura absurda criada pela nossa sociedade igualmente absurda. Enquanto ela anda na minha frente, observo os pássaros, a vegetação, as tonalidades do céu, a lua e as estrelas quando estas estão visíveis. Vivo o mundo ao meu redor e dentro de mim, independentemente do olhar de qualquer outro.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Pequenas Coisas Como Estas

Para Sempre Lilya é o nome do filme que eu vinha tentando lembrar. Dei de cara com ele nas páginas de O amigo, livro de Sigrid Nunez, no qual a protagonista, ao falar com seu amigo suicida, discorre sobre assuntos diversos. A uma certa altura do romance é mencionada uma oficina literária oferecida a mulheres que estavam num abrigo para vítimas de escravidão sexual. (Enquanto escrevo me pergunto, uma vítima de escravidão sexual algum dia deixa de sê-lo?) É nesse ponto do livro que Sigrid menciona Para Sempre Lilya, o filme mais triste que já vi na vida, assim como é também nessa parte do romance que deparo com outra palavra que de alguma forma eu andava buscando, uma palavra que pudesse carregar o sentido do que eu havia sentido ao reler, por aqueles dias, A feminilidade, texto escrito por Freud em 1933.


Humilhação.


Um homem, seja ele quem for, jamais vai saber o que uma mulher sente. Virginia Woolf, Hélène Cixous, elas sabiam, e sabiam do que se tratava quando nos diziam para escrever. Mulheres, escrevam, como um imperativo, uma possibilidade.


Sigo estranhando a escrita masculina, que me soa chata e entediante com mais frequência do que eu gostaria. Abandono romances, retomo alguns. Paul Auster, A invenção da solidão, foi deixado de lado por um tempo. Felizmente o retomei. Édouard Louis, uma exceção. Fico completamente tomada pelo seu ritmo, encorajada pelo seu método. Uma exceção.

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Ela já havia tido três filhos quando engravidou do quarto. O primeiro deles, S., morreu logo após nascer (ou talvez tenha nascido morto). Ao engravidar pela quarta vez, não desejava ter mais um filho; é inclusive provável que nunca tenha de fato desejado ter algum. Mas será que alguma vez ela teve a oportunidade de saber o que desejava para si?

Contou ao marido que estava grávida e que não ia ter o bebê. Uma cunhada do interior sabia de um médico que resolvia essas questões e o dia e o horário já estavam agendados, ela iria se livrar daquilo, eles iriam se livrar, ao que o marido respondeu que não a acompanharia, que ele não poderia levá-la. Ele jamais a levaria.

No dia marcado, ela tomou a menina, caçula, e o menino mais velho pelas mãos e saiu de casa. Por que nós vamos de ônibus para a casa da tia G., mãe? Porque o seu pai não pode nos levar, ele está trabalhando. Ao desembarcarem na rodoviária da pequena cidade, ao contrário das expectativas das crianças, que imaginavam que seu destino seria um lugar familiar, rumaram num táxi para o consultório do médico, onde a menina e o menino foram deixados na sala de espera, um relógio de parede emitindo o ruído das horas, as mãos da menina se abrindo e se fechando sobre o sofá grosseiro, duro como as paredes que sustentavam quadros onde se viam cenas campestres emolduradas por madeira cor de mogno, os dedos falhando na tentativa de se agarrarem a algo.

Décadas mais tarde, a menina conta o ocorrido para a sua filha, uma mulher para a qual a ideia de engravidar sempre soou estranha. A filha imagina se o aborto foi feito como em O acontecimento - livro no qual Annie Ernaux relata a experiência dolorosa e praticamente indizível de um aborto que lhe aconteceu na juventude, quando a França, país onde vivia, ainda proibia a prática - ou de outra forma. Imagina o que passava pela cabeça da avó quando estava no ônibus, com duas crianças, a caminho de uma cidade do interior, e o que ela pensou e sentiu depois de sair do consultório. Ao imaginar, a filha escreve, podendo agora se agarrar a alguma coisa.

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A minha avó era um bebê quando foi levada para um internato de freiras, junto da sua irmã, pouco mais velha que ela. A mãe delas, acometida pela hanseníase, havia sido encarcerada num hospital, no qual, anos depois, viria a morrer, sem nunca ter saído de lá. O pai das meninas, meu bisavô, prontamente se casou com outra mulher e, dos três filhos que havia tido com a minha bisavó, ficou somente com o mais velho, um homem. 
 
Minha tia-avó se tornou ateia; minha avó odiava freiras, ou o que elas representavam, com todas as suas forças. Cresci ouvindo as duas relatarem algumas das coisas que haviam visto e vivido no internato e, das frases que ficaram na minha memória, a que me veio agora, enquanto escrevo, na voz da minha tia H. é “as freiras não tinham coração”. 
 
Já ao terminar de assistir Pequenas Coisas Como Estas, filme adaptado do romance homônimo de Claire Keegan que aborda a questão das atrocidades ocorridas nas lavanderias de Madalena na Irlanda, a imagem que imediatamente me veio à mente, junto com os créditos do filme, foi minha avó. Duas palavras formando uma imagem corrida, por extenso. E depois, a do internato, que  não conheci, somente imaginei a partir das palavras que me foram ditas.

Minha tia H., que quando criança teve o mesmo destino da irmã, talvez pelos tantos livros que ocupavam as suas paredes de adulta e pela sua inteligência apurada, sempre me pareceu mais forte do que a minha avó; ou talvez não fosse a inteligência, mas a sensibilidade, a afetividade que nos dirigia, a nós, sobrinhas e sobrinhos, a maneira como se derretia conosco e com qualquer outra criança, a forma como sentia compaixão pelas pessoas, que, paradoxalmente, a fizessem parecer mais forte, mais coesa, mais humana. Tia H. era muito diferente da minha avó, que gostava de me presentear com brinquinhos de ouro, bolinhos de espinafre, doce de abóbora sem coco e farpas, muitas farpas. Dois bicudos não se bicam, ela dizia. Nós não nos bicávamos e pouco nos afagávamos. E ainda assim, por todos os outros motivos do mundo, são essas as duas palavras que mais me fazem falta.

Minha avó.

domingo, 9 de julho de 2023

Isso também é viver

Há livros que nos atravessam como estacas que se fincam forte no peito. Numa madrugada recente, um desses livros, A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, fez meu peito esquentar e arder de aflição enquanto o meu estômago dava voltas ao redor de si e o restante do meu sistema digestivo se desarranjava, assim como o meu sono.

De novo não, eu pensava, de novo não. Eu pensava em outras noites de aflição semelhante. Eu pensava descontroladamente na morte, na minha, na da minha mãe, na falta de ar que eu temia sentir, na casa que eu não sabia querer ou não querer mais, na cidade que eu não sabia querer ou não querer mais, na vida que eu não sabia querer ou não querer mais, na angústia que eu sabia não querer mais. Eu pensava no casal que transava em um dos quartos de um imenso e belíssimo prédio situado numa praça de Florença, aquela próxima ao mercado, cujo entorno é enfeitado por cobiçados itens de couro feitos à mão. Os dois jovens mal disfarçavam o ato enquanto olhavam pela janela, ora ambos, ora somente ela, a vida que pulsava lá embaixo, a vida que os fazia pulsar com ainda mais intensidade diante daquela janela aberta para um mundo inteiro de vozes e de olhares, de texturas e de cores, de palavras pronunciadas em muitas línguas. Eu pensava na cena e tentava adivinhar qual era o sabor do sorvete que eu levava aos lábios enquanto os observava, encantada com a ideia que haviam tido. Eu pensava em mim, no jogo que um dia, fazendo parte de um casal, havíamos estabelecido entre nós, a contagem das cidades nas quais havíamos transado. Quantas, quais? Era o melhor jogo do mundo, o que mais me aprazia. E contudo, acabou, como acaba tudo. Eu não quero que acabe, eu pensava, e pensava nas noites que viriam, num outro idioma, numa outra cama, num outro quarto, sem o peso do corpo da Amora junto ao meu, sem o ressonar do Sig ao meu lado. Como serão as noites, se forem como esta? Como vou suportar, sozinha, tamanha angústia, eu pensava.

Eu pensava, mas isso somente depois, que angústia é uma palavra vazia, diferente do medo, que é cheia do medo de algo. Angústia é nada e ao mesmo tempo é uma palavra toda que se espalha pelo corpo, que desenha linhas espiraladas ao redor do peito, dos olhos, dos maxilares, das têmporas. Angústia, eu pensava, é um nada que envolve tudo e que faz o corpo arder de calor e de horror diante do vazio.

Eu pensava no sexo. Pensava na janela que nós abríamos nas madrugadas, uma fenda no espaço, o tempo em suspensão. Você pensava que nós tínhamos todo o tempo do mundo, você dizia que nós tínhamos todo o tempo do mundo, mas era mentira. Ninguém tem todo o tempo do mundo. Nós vamos todos morrer, talvez hoje, talvez amanhã. Será que você não pensava nisso? Você pensava que sabia tudo sobre o sexo, que uma mulher, mais velha, havia ensinado tudo para você. Você dizia, essa tatuagem foi um presente, esse quadro foi um presente, e eu pensava em você como um gigolô, essa palavra que, como todo clichê, soa engraçada e triste. Certa vez você me disse que houve um vazamento de água no seu apartamento e que, mesmo avisado e sabendo que os seus cachorros estavam lá, você esperou a balada terminar para voltar para casa. Quando chegou, havia muita água e os animais estavam assustados. Nós, humanos, somos como os peixes, morremos pela boca. Assim como a chave do sonho está no seu detalhe mais ínfimo, as chaves de uma pessoa estão nas palavras escapadas, nas confissões que não se sabem confissões. Eu pensava, agora, que o mais importante sobre o sexo você nunca soube.

Eu pensava que, mais jovem, eu nunca pensava em nada disso. Eu não pensava, só sentia. Sentia a náusea da existência de quando em quando, de bar em bar. Deparava com ela estampada nas páginas escritas por Sartre, no canto superior direito de uma página preenchida com o pensamento de Wittgenstein num livro cujo nome era azul, num romance de Simone de Beauvoir onde a morte, ela novamente, aparecia como a convidada. Você faz muitas citações, assim fica mais difícil as pessoas entenderem o que você escreve. Será? Pois se as citações são parte de mim. É com os livros que eu converso de verdade, e com os filmes. Escrever talvez seja uma forma de exibir uma pretensa cultura, já me foi dito também. Pois se me mostrar, ocupar o meu espaço, sempre foi o mais difícil. Falar, escrever, ter voz. E se eu não souber ser de outra forma, se eu só puder ser assim, extravasada das vozes dos outros que me fizeram companhia, que me ajudaram a transformar, aqui e ali, o balde de água turva da angústia na cartola do mágico, da qual eu posso tirar palavras para brincar, para preencher, com algo que não seja nada, o caminho entre o viver e o morrer? Como eu gosto de dizer, mesmo sem saber se essa frase é minha ou a quem ela pertence, cada um dá o jeito que pode com o que tem. Aliás, será que as frases, depois de soltas por aí, pertencem a alguém?

Quando eu era mais jovem e me via, na véspera de uma viagem, ou às vezes poucas horas antes do voo, fazendo a mala, eu não pensava nas noites que teria pela frente, em como elas seriam. Eu pensava somente nos dias e, apesar de dizer que sim, não sentia medo. Você não tem medo de viajar sozinha para outro país? Eu respondia que sim, mas no fundo não. Bastava fechar a porta do táxi que me levaria ao aeroporto e tudo estava resolvido, a viagem, outra das mágicas disponíveis dentro da cartola, estava começando e isso era tudo o que importava naquele momento. O que importava era o momento. Não havia celular como o conhecemos hoje, smartphone. O momento, que não podia ser compartilhado, era, por si só, delicioso, glorioso até. Eu pensava, sem conseguir mais ficar deitada na minha cama, mas ainda insistindo em permanecer ali, eu pensava, olhando para o teto, na penumbra, que o mundo atual, o mundo onde o momento não existe mais, onde o momento passa diante da tela de um celular, é o mundo mais triste e odioso do mundo, um mundo no qual se compartilha nada com ninguém, no qual selfies e stories parecem ser uma tentativa desesperada de afirmarmos, para nós mesmos, que existimos, que a nossa vida, por mais ordinária que seja, tem algum propósito, que não estamos tão sozinhos assim. As redes sociais são as igrejas do nosso mundo derretido, volátil, envolto num vapor barato. Eu pensava, então, que o melhor seria rezar. Eu rezava e nada acontecia, a angústia não passava, ninguém me ouvia, ninguém respondia, o peito ardia cada vez mais. Eu andava pela casa e pensava nas noites de insônia da minha mãe, nas noites em que ela perambulava pela casa na minha infância e adolescência. Será que se eu deitar no sofá passa? A minha mãe fazia isso às vezes. Mãe, você está acordada? Eu andava pela casa e pensava que eu precisava parar de pensar. Como será, um mês, um mês sozinha, longe de toda a rotina da qual eu reclamo mas que me serve de anteparo de mim mesma? E se eu enlouquecer e não houver ninguém lá para dizer o meu nome, para me lembrar de mim? E se eu me abandonar para sempre? Mas essa não é a primeira vez que você viaja sozinha por um mês, eu pensava. Não é, mas é a primeira vez depois da pandemia, e isso deve ter algum significado. Antes da pandemia eu não havia sido apresentada ao véu da ansiedade. Antes da pandemia eu não havia ficado duplamente imobilizada pela ameaça de um vírus e por três parafusos que precisavam se fixar à minha carne antes de eu poder voltar a colocar os dois pés no chão. Eu pensava, eu venho pensando muito sobre isso, na ferida ainda não cicatrizada que a pandemia deixou em mim. Ninguém mais fala sobre elas, sobre a pandemia, sobre as marcas, as feridas, ninguém mais quer saber disso. O problema é que isso volta, a todo instante, volta, eu pensava. Será que vai voltar quando eu não estiver aqui? Talvez o melhor fosse mesmo me render a um remédio, a algo que coloque uma tampa nesse buraco. O telefone então tocou, como uma panela de pressão que explode, filha, aconteceu alguma coisa? Não, mãe, não aconteceu nada. É só que eu estou com insônia, estou ardendo, estou ansiosa, estou angustiada. Filha, você está viva, é só isso. Isso também é viver.

Sorocaba, 8 e 9 de julho de 2023.

domingo, 25 de junho de 2023

Titane

Jacques Hold é um homem que chora diante de uma janela. Marguerite Duras o criou assim.

Ouvi, se você fosse um homem, essa situação teria sido rapidamente resolvida, na porrada, pois é assim que os homens resolvem as coisas. É?

Porrada é um substantivo feminino; palavra, lei, simbolização, castração e escolha também o são. A diferença então está no verbo?

Escolhi assistir a um filme chamado Titane. Gosto do nome, gosto do gosto de dizer as palavras na língua do filme. Mas dele inicialmente não gostei. Desgostei tanto do incômodo que ele me causou que falei dele para você com desprezo, com horror. E depois falei de novo, ressentida de mim mesma, da minha negação. Titane é sobre precisar desesperadamente ser amado, só que é sobre isso de uma forma bruta. Ele é brutal e ao mesmo tempo frágil, tão escancaradamente grotesco na sua sensibilidade rosa néon. Cores e sons que não se coadunam com cenas que, se existissem no mundo real, aconteceriam num outro cenário. Titane é uma luta, seus protagonistas lutam por algo que mal parecem perceber. Desejam sem saber o quê. Lutam dentro da banalidade da vida, pela vida, que no fim é vencida por ela mesma. Titane, titã.

De novo voltei a pensar muito na morte. Vou manter esse pleonasmo pois gostei dele. Vou repeti-lo, inclusive, agora com uma vírgula: de novo, voltei a pensar muito na morte. Ouvi a Mariana Salomão Carrara dizer numa entrevista que ela também pensa muito na morte, que a ela soa como um descalabro. Descalabro. Nunca alguém expressou tão bem o que é a morte. São maravilhosas as escritoras, não são? Encontram palavras até para a morte. Eu tenho acordado de madrugada e pensado, será que na hora da minha morte estarei cansada da vida a ponto de querer morrer? Será que é assim que acontece? Estou assumindo que morrerei muito velha, mas muito mesmo, pois sou incapaz de aceitar qualquer outra possibilidade. Então, o que você tem a dizer sobre isso, você acha que no momento dessa morte velha o que a gente mais quer é morrer? Eu acho que não. Estou certa de que na hora da minha morte vou ficar puta, puta inclusive por não ter mais a possibilidade de desejar ser uma puta. Aquele comentário entre Lol V. Stein e Jacques Hold sobre Tatiana Karl, sobre a puta que ela é, a propósito, é o exemplo perfeito de cena literária que desenha a cumplicidade entre dois personagens. Eu a li hoje, enquanto almoçava, eu, o gato sem rabo sentado no meio do restaurante, assustada ao ser interpelada pela garçonete com uma pergunta que me pareceu absolutamente descabida naquele momento, a ponto de eu mal compreendê-la, você quer mais alguma coisa? O que mais eu poderia querer, eu poderia ter respondido, com o meu deslumbramento, mas não, disse somente, com os olhos, não, obrigada. Como são maravilhosas as escritoras que nos induzem a agir com a mesma loucura das suas personagens, você não acha?

Uma mulher que trabalha num restaurante no qual almoço com frequência me disse que olhar para mim, com o meu livro, a faz sentir calma. Achei divertido e confessei a ela que, caso ela estivesse me vendo por dentro, teria outra sensação. É isso o que lhe parece quando eu falo com você, que eu sou um amontoado de coisas desconexas e apressadas? A mim, é.

Tentando conectar as pontas dos fios das histórias que ouço desde sempre, perguntei para a minha mãe, mas por que você vive dizendo que cresceu nos corredores do Hospital Matarazzo? Ela então me contou que era para lá que a minha avó era levada pelo meu avô nas inúmeras vezes, madrugadas, em que apresentava crises de pânico, ocasiões nas quais minha mãe e meu tio iam junto. Lá, A., o grande amigo do meu avô, cuidava dela. A. morava no hospital desde a época da faculdade. Muito pobre, não tinha dinheiro para viver em outro lugar durante os seus estudos, de maneira que o hospital permitiu que ele se alojasse em um quartinho que ficava no porão. Ao terminar a faculdade de Medicina, tendo adquirido tuberculose em razão das condições nas quais vivia, prometeu que, caso se curasse, jamais cobraria por uma cirurgia. E assim foi feito, até o fim da sua vida. Considerado um dos melhores cirurgiões da sua área, nunca cobrou pela realização de uma cirurgia, fosse quem fosse o paciente, pobre ou milionário. Ele, que depois também cursou a faculdade de Direito e entrou para a vida política (não sei se necessariamente nessa ordem), jamais deixou a Medicina e sempre teve o seu quarto no Hospital Matarazzo. Mas, para além dos feitos interdisciplinares do nosso personagem (o dinamismo é algo que me encanta nas pessoas que são muitas, ou seja, que não se identificam com ou se interessam por apenas uma coisa), há uma história dentro da história de A. que insiste em voltar a minha mente. Uma história, aliás, de (des)amor.

A., um rapaz paupérrimo do interior, apaixonou-se por uma moça rica de sua cidade, e ela por ele. Contudo, dadas as circunstâncias econômicas dele à época do surgimento da paixão, ambos não ficaram juntos. Findos os estudos de Medicina, A., agora um médico, reencontrou a moça que, por sua vez, estava noiva de um forasteiro surgido sabe-se lá de onde, o qual havia convencido aquela sociedade de que era um homem rico. Pois bem, a moça, ainda que nutrindo sentimentos por A., disse-lhe que se casaria com o seu noivo, o forasteiro supostamente rico. Porém, após a consumação do casamento, não tardou para que o noivo, além de infiel, se revelasse também um golpista, detentor apenas de uma grande perfídia. Aqui você deve estar se perguntando, bom, nesse caso, a moça se separou do rapaz e ficou com o grande amor da sua vida, agora médico, advogado e deputado de reputação ilibada, não?

Penso que até poderia ter sido, caso estivéssemos falando de um romance, por exemplo, desses escritos para terem seus direitos comprados por uma grande produtora de cinema. Mas, não sendo este o caso e estando em jogo a vida real (que, como costumo dizer, não imita a arte que a recria, no mais das vezes, com toques mais sutis), a resposta é não. Repito: se a história de A. fosse o roteiro de um filme, é óbvio que um dia, ainda que fosse em seu leito de morte, ele ficaria com a mocinha. Porém, no asfalto duro e cinza da vida que é a real, ele, ao saber da separação do casal, disse, ela fez a escolha dela. Ponto. E nunca se casou. Segundo os relatos que ouvi, A. se relacionou com mulheres interessantes, inteligentes, bonitas e, a vida é mesmo irônica, muito ricas, mas nunca se comprometeu com nenhuma delas. Aqui, meu lado romântico (que por mais pisoteado que esteja de vez em quando ainda dá o ar da graça) fica imaginando se A. para sempre amou a moça do interior. Será? Considerando que ele está morto há muitos anos, jamais terei a oportunidade de lhe perguntar. De qualquer forma, fico pensando que, em seu lugar, eu teria agido da mesma maneira, ou seja, não teria ficado com a moça após a recusa (que, convenhamos, foram duas, uma pela falta de dinheiro e a outra pelo noivado com um pretenso bom partido), o que talvez não fizesse de mim uma pessoa mais feliz caso eu ainda a desejasse.

Alice Ayres ou Jane Jones? Quebrou não tem mais jeito, mesmo? Tenho pensado…

Itu, 9 de junho de 2023.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Então eu chorei

Eu vinha há tanto tempo pensando em chorar, até que então eu chorei. Mas sem pensar. As lágrimas simplesmente escorreram, tais quais as palavras simples de Natalia Ginzburg que as fizeram brotar. As pequenas virtudes, o último ensaio do livro de mesmo nome, termina com palavras que fazem chorar não tanto pelas pequenas, mas principalmente pela grande virtude.

Chorei pelo tempo que ainda tenho para deixar de me trair; chorei pelo espaço e pelo silêncio que me foram roubados nos últimos meses; chorei por saber que, por mais doloroso que seja sofrer uma injustiça, muito pior é cometê-la; chorei por já ter percebido que na vida há poucas recompensas para os esforços e quase nenhuma punição para a crueldade, a perfídia, o cinismo e a mentira. Chorei pelo sofrimento de quem não pode mais do que chorar e latir, de quem jamais abraçará e receberá o abraço e o beijo de seu pai humano como vi acontecer hoje com o cão Vitório Augusto na rua da minha casa, pela qual também chorei. Chorei pela avareza, pela pobreza de espírito, pela pequenez do quintal no qual vi uma cidade se transformar. A cidade onde eu moro não passa de um pequeno quintal cercado por muros tristes e desbotados, dentro dos quais os seus habitantes se protegem, com falsa moral e ladainha religiosa, da liberdade de uma vida estrangeira.

Eu vinha há tanto tempo pensando em chorar, mas não tinha coragem. Estava, como se costuma dizer, sem coragem. Então ontem a lembrança de um livro veio junto da memória da exclamação que precedeu a inscrição da dedicatória do seu autor. Coragem!, foi-me dito, olhos brilhantes e curiosos encarando os meus. A coragem, então, veio antes das lágrimas.

Foi a minha mãe quem me fez lembrar do livro e foi nela em quem eu pensei do início ao fim enquanto lia o ensaio e comparava as pequenas às grandes virtudes. A minha mãe, pude então constatar, é uma pessoa afeita às grandes virtudes. Quem tem e não gasta não merece ter, eu a ouço dizer com frequência dentro da minha cabeça; nela, na minha mãe, nunca vi a palavra mesquinhez. Dela sempre ouvi, a vida é boa; é difícil, mas é boa. Dela ouço o imperativo insistente do verbo, escreva, escreva, escreva. Ela nunca me recompensou pela execução das tarefas domésticas ou dos meus deveres escolares; nunca sentou comigo para estudar, nunca fingiu que a vida seria, para mim ou para qualquer outra pessoa, algo que ela sabia que a vida não é. A vida dela não foi fácil, mas ela não abandonou a sua vocação. Apesar de todos os seus pedaços mortos e da mãe que ela só tem agora nas nossas lembranças, a minha mãe é, com tudo dela que lhe foi tirado, inteira. A minha mãe é toda amor.

Então eu chorei com a palavra amor.

Sorocaba, 6 de maio de 2023.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Moral da história: eu não só sou conservadora como adoro fracassos

A minha cabeça é como água agitada e turva de mar e há dias nos quais desejo loucamente ter nascido mais plana e menos revolta, menos capaz de tantas conexões e de tanto barulho dentro do silêncio que deveria ser o interior da minha caixa craniana, o qual não raro é tomado por uma espécie de ruído branco ou por aquele som que se ouve quando se tem os ouvidos imersos na água e que, ao fim e ao cabo, no meu caso, talvez não seja outra coisa além do trabalho das cracas aderindo às paredes do meu crânio.

Cracas que vão se acumulando e crescendo desordenadamente, tomando conta de superfícies rochosas que não são tão duras assim. Água mole em pedra dura... E eu estou tão exausta que não consigo me livrar delas. Há um muro, um anteparo de realidade demasiado concreto me impedindo de alcançá-las. Numa manhã dessas acordei e, mal abri os olhos, vi a realidade estampada no lençol. Tomei um susto. Então a vida é isso? Mas e se agora eu quiser que seja outra coisa?

Eu me comparo mais uma vez à protagonista de A Pior Pessoa do Mundo, aquela que deseja tanto, e a analista me diz que não, que não sou como a Julie, e então eu choro. Choro e no fundo não acredito. E tudo o que eu quero, atualmente, é ficar em posição fetal até o meu próximo aniversário chegar, até o dia em que todos os santos são comemorados amanhecer. Quero que um adulto de verdade assuma o controle e me deixe ficar quieta com uma pilha de livros ao meu lado e nada mais. Quero furar as ondas que se formam sem descanso dentro da minha cabeça, passar da arrebentação, sentir o meu corpo voltando a ser leve na água salgada. Andei convocando o meu Buda mas ele ainda não compareceu. 

Meu quadril dói, meus ombros, as escápulas, o pescoço, os meus braços e, no lugar do peito, tem um pedaço de concreto. Cimentaram tudo e a carne vermelha virou cinzas. Eu me olho de perfil no espelho e penso, minha bunda caiu. Viro de frente e o tríceps, que é o termômetro da coisa toda, está tão caído quanto a bunda. Certa vez perguntei a um professor de musculação se aquilo que eu tinha sobrando ali nos braços perto das axilas era gordura. Surpreso, ele disse que não, que era pele, e na sequência me perguntou se por acaso eu andava vomitando. Bulimia nunca foi a minha praia mas não seria de todo incorreto afirmar que uma certa dismorfia corporal sempre me acompanhou.

Para fugir do meu corpo, vou para a tela plana e termino a última temporada de Girls. Adam, o namorado de Hanna, é tão esquisitão quanto o esquisitão que eu namorei no terceiro colegial (não sei se nós de fato fizemos o funeral de um hamster chamado Ernesto ou se estou apenas imaginando coisas) e que depois foi e voltou da minha vida até o dia em que declinei, intimamente, do convite para a comemoração da defesa da tese de doutorado dele. Nós dividíamos filmes, livros e músicas e até hoje guardo uma coletânea tripla dos Rolling Stones que ele comprou para mim quando um amigo próximo resolveu vender toda a sua coleção de CDs. Sempre gostei mais dos Stones do que dos Beatles e ele, cuja preferência não obedecia a essa mesma ordem, sabia disso. Tomei o ato como uma declaração de amor. Também guardo um livro que ele me deu que traz uma dedicatória, do pequeno amigo M. Foi essa história cheia de razões, incluindo aquelas cantadas por João Gilberto, que me levou, poucos anos mais tarde, a decidir prestar o vestibular para Filosofia (e também a sair correndo do sofá onde eu e M., ambos comprometidos com outras pessoas, fingíamos interesse inocente num filme que retratava a mais pura essência dos anos 1980 até começarmos a nos pegar loucamente, numa noite que mais parecia carregar o dilúvio nas suas nuvens, e que me carregou tanto para o arrependimento da traição quanto para o de não tê-la perpetrado a contento, mais para este do que para aquele).

Além disso, Girls também me fez sentir saudades de São Paulo. Saudades de andar pelas ruas, de protagonizar dramas domésticos e de ter as minhas amigas comigo. Mas aí me ocorreu que as ruas de São Paulo não são as de Nova Iorque e que as nossas vidas, a minha e as das minhas amigas, são hoje a lembrança daquilo que um dia nós fomos combinada com aquilo que entre nós não sabemos mais o que é. Curiosamente, Hannah e eu nos mudamos para o interior.

São Paulo, repito, não é Nova Iorque e com esta flerto desde os meus dezessete anos. Enquanto alternava a minha paixão pelo esquisitão do terceiro colegial com um caso com o professor de História, um flerte com a irmã gata e mais velha de um colega de classe e um namoro com um rapaz que havia acabado de abandonar o curso de História e voltado a viver na mesma cidade que eu (e que, a uma certa altura do campeonato, para me dissuadir de terminar o relacionamento, resolveu me presentear com um filhote de Husky Siberiano), eu pensava que, caso não entrasse em alguma faculdade naquele mesmo ano, iria me mudar para Nova Iorque. Feliz ou infelizmente, jamais saberei, passei no vestibular e troquei a fantasia de Nova Iorque pela concretude de São Paulo. E o resumo da ópera aqui é o seguinte: mesmo levando uma vida emocionalmente confusa e promíscua, aos dezessete anos eu jamais pensei em levar qualquer relacionamento a sério. Eu pensava, é só por agora, e não quis sequer ver a cara do Husky, conversar com o professor de História sobre a carta de amor endereçada a mim que a esposa dele havia encontrado "por acaso" ou contestar a carta do esquisitão na qual ele estabelecia o término do nosso namoro com base nas nossas idas para cidades diferentes mas, sobretudo, com base na opinião do pai dele, que havia profetizado que esse era o caminho lógico a ser seguido por nós dois. Senti uma raiva imensa desse homem e uma vontade louca de chacoalhar M., mas mantive a compostura e a firmeza no meu propósito de uma vida universitária que me levasse para longe da casa dos meus pais, mais precisamente para longe do meu pai, ainda que o meu coração estivesse partido em alguns pedaços. 

E por que Nova Iorque? Não sei, não faço a mínima ideia. Talvez fosse, desde então, uma questão estética, mais precisamente a que se vê em filmes de diretores como Woody Allen e que, naquela época, já viviam rodopiando na minha cabeça. Aliás, Hannah, ou melhor dizendo, Lena Dunham, é o meu novo Woody Allen. Definitivamente, não é sempre que se veem cenas como a do final do episódio em que Shoshanna está no Japão e segue se distanciando da câmera enquanto caminha, arrasada, por uma rua, ao som de Life On Mars, ou um giro narrativo como o que Lena constrói no episódio em que Hannah visita o escritor famoso acusado de abuso sexual. Resolvo então ler o livro que ela escreveu, Não sou uma dessas: uma garota conta tudo o que "aprendeu", e encontro, logo nas primeiras páginas, a seguinte frase: "Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher", que vai exatamente na mesma direção de outra que, não raro, surge espontaneamente na minha cabeça: para que serviria a vida, senão para escrevê-la? Mas afinal, qual é a vida que eu quero escrever? Em qual mundo eu quero viver? Dá para escolher?

A analista me diz que parece haver uma dificuldade de adequação, uma resistência aos novos tempos, ao mundo como ele hoje se apresenta. Será que não tem um pouco disso, ela pergunta, ao que eu me vejo obrigada a responder, como assim um pouco, não é que tem um pouco disso, isso é só o que tem. Quem, por exemplo, eu seria em meio aos personagens de Girls? (Eu deveria de fato fazer essa pergunta a ela antes de respondê-la aqui mas, vá lá, de nada adiantaria pois, além de não responder, ela me devolveria a pergunta.) Ainda que com algumas pitadas de Jessa, é claro que eu seria o Ray. Numa série chamada Girls, com quatro mulheres em cena, eu obviamente seria o cara rabugento e antiquado que está sempre lendo.

Um homem, antes mesmo de me conhecer pessoalmente, me disse exatamente isso, você é conservadora. Quando finalmente nos encontramos, ele disse novamente, e não se explicou. Simplesmente agiu como um cavalheiro do início ao fim do nosso almoço, ao longo do qual, aliás, tentou, com êxito, me agradar. Eu o olhava e pensava em como a neurose obsessiva pode eventualmente ser encantadora, até o momento em que ele disse, como quem tira uma máscara, eu sou todo bagunçado. Pronto. Foi aí que eu pensei, pode vir que eu mato a sua neurose no peito, dou a minha para você, faço qualquer negócio. Uma frase, acompanhada de um movimento do tronco contra o encosto da cadeira e de um dar de ombros sutil, os olhos fixos nos meus e um tom de quem não tem outro remédio senão a própria bagunça, e ele me fisgou. Moral da história: eu não só sou conservadora como adoro fracassos, pois mesmo que esse encontro não tenha dado em nada, ele pode muito bem vir a ser o início de um romance.

Há pouco tempo, instada a escrever sobre um tema em psicanálise, escolhi o fracasso, ou melhor dizendo, escolhi o Projeto para uma psicologia (1950/1895), que Freud abandonou sem terminar, julgando-o um fracasso. Aliás, não por acaso, das coisas mais enternecedoras a respeito de Freud são justamente as suas confissões de fracassos. Eu o leio e, ao fim das histórias, dos casos fracassados, só o que tenho vontade de fazer é abraçá-lo. Assim como fiz com o cavalheiro todo bagunçado.

sábado, 16 de julho de 2022

Um ser que a si mesmo se nina

"O que é mesmo que isso me ensina?
Um ser que a si mesmo se nina
Um quase lamento
Já é nota de tom
E tem cor de jasmim

Eu nunca tinha visto nada assim"

Caetano Veloso em Autoacalanto



É possível que seja somente a minha imaginação, mas me lembro de ter lido, embalada pelos sacolejos de um trem desses mais ordinários que fazem, ou pelo menos faziam, o trajeto entre Guimarães e Braga, em La loca de la casa, Rosa Montero dizer que se ela tivesse que escolher entre ler ou escrever, e apenas entre uma dessas coisas, ela escolheria ler. Embora eu tenha acabado de cometer um ato falho ao ver surgir na tela escrever ao invés de ler, eu diria que escolheria como Rosa.

Também me recordo de ter escutado, sentada à beira-mar, Nora Ephron falar sobre o enlevo que lhe era causado pelos livros. À medida que a sua voz me percorria, eu tinha vontade de ressuscitar a Nora e de abraçá-la ali mesmo, na borda do litoral, ela que, com o seu extravasamento, conversava de além-túmulo comigo. O enlevo de Nora era o meu, e não só o de ler. Nora Ephron transformava em riso, em beleza e às vezes em lágrimas as coisas mais prosaicas. Ela escrevia sobre a vida dela e, ao fazê-lo, sobre a de todos nós. Nora e outros como ela que ousaram e seguem ousando jogar no liquidificador da tal da autoficção a sua percepção e a sua autopercepção entregam um caldo para o leitor que acredita que, ao engoli-lo, está engolindo a mais pura verdade sobre a vida daquele autor, o que, apesar de não ser uma trapaça, não deixa de ser uma enganação, um jogo de espelhos. Afinal, a autoficção é de quem?

Passei anos escrevendo sem saber o porquê e mal sabendo sobre o quê. Amigas, médico, terapeuta, ex-namorado, ex-marido e afins me diziam as mais diversas coisas a respeito. Você usa vírgulas demais, você deve escrever sobre isso ou sobre aquilo, você deveria escrever só sobre uma coisa, você não escreve tão bem quanto o fulano que eu tanto admiro, qual é o objetivo disso, isso é para você se exibir, nossa, você escreve, então eu também vou escrever. Vivi em intervalos, entre a escrita e a vergonha de escrever, achando que eu não tinha nada a dizer a ninguém, especialmente a mim mesma.

Só que escrever, bom, escrever é uma outra história, que não tem nada a ver com aquilo que é dito por quem não sabe o que é estar na pele de alguém cuja carne é feita de palavras. É um ato que resume um acontecimento, que pode ser simplesmente o de existir ou o de existir para ler os livros que estão no mundo. Escrever é o extravasamento de algo muito singular e precioso e confesso guardar um eterno leve rancor de todas as criaturas que desprezaram a minha escrita. Perdoar, a propósito, nunca foi o meu forte.

Escrever é algo tão pessoal e livre que fico no mínimo intrigada quando vejo tantos cursos de escrita sendo oferecidos por aí. Alguém consegue mesmo imaginar, por exemplo, Clarice Lispector sendo ensinada a escrever? Escrever não se ensina nem se aprende, é apenas algo que acontece.

Outra coisa que me intriga sobremaneira são os homens, os homens que, ao depararem com uma mulher que escreve, dizem, sem o menor constrangimento e sem pensarem duas vezes, eu sou um escritor. A criatura escreveu alguns e-mails, eventualmente dois textos e algumas redações escolares ao longo de quase cinquenta anos de vida e num estalar de língua se autointitula escritor. Enquanto isso, escritoras brilhantes como Elena Ferrante declaram ter passado décadas escrevendo sem nunca terem mostrado nada a ninguém. Por que é que nós, mulheres, invariavelmente achamos que não temos nada a dizer ou que aquilo que nós dizemos não tem o mesmo valor que aquilo que os homens dizem, com a fala ou com a escrita?

Os anos que eu passei pensando que eu nada tinha a dizer só passaram realmente quando encontrei uma outra mulher que insistiu, ao longo de alguns outros anos, que eu tinha a minha escrita. Ela dizia e eu desconversava. Ela repetia e eu fingia que não elaborava. Mas eu sabia, e ela também. Se aprender a ler foi o grande acontecimento da minha vida, escrever é o ato principal. É o que me mantém unida a mim mesma e, simultaneamente, ao mundo. Eu falo o tempo todo com o meu bloco mágico mental e escrevo a minha vida enquanto ela acontece, no momento mesmo em que ouço um latido ou um gemido. Olho um corpo nu e penso na cena a ser escrita enquanto ela se escreve. Ouço um amigo dizer que ouviu do seu filho que a vida é um raio de luz que rasga o meu peito, que faz uma fenda no meu peito, e digo que preciso escrevê-la, repetindo, mais uma vez, que viver é se rasgar e, no meu caso, costurar-se depois em palavras. Tanto faz o corte, o que importa é saber que existe uma forma de curá-lo.

Ouço tantas vezes o Caetano, muitas e repetidas vezes, ao longo da vida, ao longo de um dia inteiro, só para ver a beleza cinza da feia fumaça que sobe apagando as estrelas ou a doçura da franja da encosta cor de laranja e do capim rosa-chá atravessarem aquela minha curva aberta, aquela coisa certa que não dá pra entender e que é tão real quanto a fenda que já vem rasgada no peito de quem nasce. O Caetano escreve imagens com palavras e me faz dizer à mulher que repete em mim a coragem de escrever que quando escuto um ser que a si mesmo se nina eu penso na minha escrita.

Uma amiga certa vez me perguntou, estupefata, o porquê de eu ter parado com as minhas práticas de ioga e com a prática de qualquer meditação que seja. Na época eu dei respostas que hoje considero tortas. O papo reto é que, para mim, é perda de tempo. Hoje, eu não suportaria passar segundos, minutos, horas ouvindo a minha respiração enquanto há tantos livros por ler ou tantas coisas para escrever. Quando leio e quando escrevo eu pulso, eu viro página, eu viro letra e encontro substância para tentar virar gente.

Freud, um escritor magnífico que por sua vez amava os escritores e que os citava a todo momento, diz, a uma certa altura de Psicologia das massas e análise do eu, que aquele que escreveu o mito e o contou aos outros se libertou na sua imaginação. Nessa levada eu começo a pensar, olhando para as mãos da mulher que escreve, que, se o mesmo Freud nos mostrou que nós não somos senhores em nossa própria morada, a salvação da escritora talvez seja ser a inventora da sua própria loucura.

terça-feira, 28 de junho de 2022

Aliens

"Donadio Qual é a coisa mais importante que a senhora gostaria que ficasse em seus leitores após terem lido suas obras?
Ferrante Que, mesmo sob a tentação contínua de baixar a guarda - por amor, por cansaço, por simpatia ou gentileza -, nós, mulheres, não devemos fazê-lo. Podemos perder em um instante tudo o que conquistamos."

Elena Ferrante em Frantumaglia



Penso em ter um filho e imagino alien, o oitavo passageiro, crescendo dentro de mim. Como eu suportaria esperar, por meses a fio, para ver quem seria o estranho que, depois de me habitar por tanto tempo, romperia a minha carne?

Penso no leite inflamando a pele dos meus seios e num pequeno tirano me ordenhando ao seu bel-prazer e sinto o horror que só as coisas muito reais provocam. Certa vez um homem me disse que pediu a uma colega de trabalho que estava amamentando que lhe desse um copo do leite que era destinado ao bebê. Ele tomou, mas não gostou. Será que os homens, mesmo aqueles que cresceram até alcançar quase dois metros de altura, são pequenos édipos para sempre? 

Ouço desse mesmo homem que se relacionar comigo era como estar com um dos seus amigos. Eu falava gírias, dizia o que pensava. Era seca, como um corte. Ele parecia permanentemente confuso, talvez e principalmente pelo sexo, onde, não havendo meias-palavras, aos olhos dele, eu curiosamente me tornava uma mulher. Quem foi que inventou a mulher? 

Ouço de uma colega de trabalho que uma mulher que não tem filhos não é uma mulher completa. E o que é uma mulher completa? O que é uma mulher? O que mais além de um filho pode ser um falo para uma mulher? O que é falo? De quem é?

Ouço de uma amiga que seja qual for a sua escolha entre dois homens, ela estará em boas mãos. A cada conversa que nós temos penso mais e mais em Emma Bovary e me pergunto, em nome de que ela precisa estar nas mãos de um homem?

Leio O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, e de todas as suas páginas a frase que me marca com ferro em brasa é, a mulher é escrava da espécie. Sendo escrava, dá para ser livre?

Leio Maternidade, de Sheila Heti, e deparo com a ideia de que, se a proibição do aborto é uma forma de controle dos corpos das mulheres pelos homens, a gravidez é uma forma de controle dos corpos das mulheres pelas mulheres. Lembro então das vezes nas quais ouvi de uma amiga, mãe de dois filhos, num tom maldisfarçado, que vida miserável era a minha, que não tenho filhos. Uma mulher sem filhos, liberdade demais para uma escrava?

Vejo uma filha trepar, escalar e grudar numa mãe que tenta manter uma conversa com outras pessoas. A mesma cena se repete entre um pai e um filho. Fico nauseada. Penso, como alguém pode viver assim, expropriado do próprio corpo?

Vejo Cenas de um Casamento, a nova versão produzida pela HBO, e Please Like Me, e em ambas há personagens que, após engravidarem, decidem abortar. Para tanto, simplesmente são orientadas pelo sistema de saúde com relação aos procedimentos, ou seja, tomar os remédios que lhes são fornecidos. E fim de papo. Penso na eterna faca que vive sobre o meu pescoço, que é o risco de engravidar e de ter que me haver com isso num país que não me dá o direito de exercer sobre o meu corpo as minhas próprias escolhas. Eu, uma mulher branca e privilegiada, vivo assim. Como vivem as mulheres que não estão nessas mesmas condições? O que acontece quando elas engravidam sem desejar? A quem pertencem os nossos corpos?
 
Vejo Intimidade, série da Netflix, e penso que talvez os dois maiores tabus da humanidade não sejam o sexo e o dinheiro e sim a sexualidade da mulher e o dinheiro. Misoginia e machismo, apesar dos tons e das cores dos nossos tempos, que pintam a sexualidade feminina como algo muito mais livre, seguem firmes e fortes, sendo denunciados pela arte e escancarados pela vida pública e pelas tragédias da vida privada. Embrulhados como um presente de grego nos lençóis, revelam-se sob a forma de impotência, ejaculação precoce e inibições que estão ali dizendo aos homens que eles tampouco são completos. Isso quando não se transformam em violência física e psíquica ou em feminicídio. O que vocês homens têm entre as pernas não é falo, é só um pênis.

Vejo, hoje, que a minha colega de trabalho não fazia a menor ideia do que é uma mulher ou, pelo menos, não da mulher que ela era ou da mulher que eu era. Eu também não fazia. Completude é só mais uma das ilusões que nós criamos para tentar fugir desse monstro sem nome e sem rosto ao qual damos o nome genérico de angústia. Dele todo o mundo quer mesmo escapar. Mas daí a afirmar que uma mulher precisa ser mãe para lidar com a própria falta existe uma distância que só poderia ser medida em anos-luz. E por uma mulher. Afinal, quem melhor do que cada uma de nós para nos inventarmos?


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Que porra é essa?

Mas sutilezas insignificantes são a única diferença entre uma coisa que é especial e uma pilha enorme de lixo vagando pelo espaço.

Elif  Batuman em A idiota



O que é o amor?

Será que é aquilo que a Piper, de Orange Is the New Black, diz quando fazem a ela e às outras detentas essa mesma pergunta? Ou será que é o momento em que o padre gato olha para o mesmo interlocutor invisível da Fleabag (no caso, ela mesma), aquele com o qual ela interage o tempo todo sem que mais ninguém perceba? Ou talvez seja o instante em que ela é capturada pelo pescoço do padre enquanto os dois caminham pela rua ou, quem sabe, o momento em que ela, ao contrário do que sempre acontecia com outros caras, bate na câmera e tira de cena o interlocutor invisível (e também o espectador) quando os dois estão transando? Ou será que o amor é aquilo que está nos filmes do Truffaut e do Rohmer, nas definições de Lacan e de Espinosa, em Platão, na definição que bell hooks empresta de alguém... Você saberia, afinal, dizer o que é o amor com as suas próprias palavras?

E atualmente, será que o amor se resume ao resumo de tudo um pouco que está nos quadrinhos de Liv Strömquist? Será que é possível amar alguém e querer ter todos os outros ao mesmo tempo? Quem tem a certeza de que dá para ter tudo é o quê? E quem acredita que o outro está aí existindo com a finalidade única de ameaçar a sua paz, aquela que de tão intensa o faz tomar indutores do sono para poder dormir em paz durante as madrugadas e que, para suportar a paz dos seus dias, precisa terminá-los se anestesiando?

Alguém tão maravilhoso, detentor de algo tão desejado, por que não seria conveniente que todas tivessem um pouquinho dele para si, mesmo que por apenas algumas horas, alguns dias, de vez em quando, quando ele pudesse lhes dar aquilo que elas querem tanto e tão desesperadamente? Mas ele, tão honesto, não vê as coisas assim, não está acostumado com as relações plásticas de hoje em dia. Desconhece, mas odiaria o Bauman. Que história é essa de amor líquido? Com ele não, com ele não é assim, com ele as relações superficiais são profundas, complexas.

E por que será que Freud falou do amor num texto sobre o narcisismo? O que o amor teria a ver com o narcisismo? Com o primário, com o secundário? E aquele que vive no reino da paz inabalável, será que já passou do primário? E quem anda por aí arrastando correntes de outras vidas e projetando os seus medos e fracassos naquele outro que é uma ameaça em potencial à sua tão preciosa paz, quem seria ele? Aquele personagem dos quadrinhos que vive o luto eterno da morte dos pais dentro de uma caverna? Ou talvez aquele famoso personagem da literatura que, na linguagem popular, dá nome ao conquistador barato? Ou, simplesmente, um desconhecido, alguém sem grandes distinções?

Mas a pergunta, afinal, era outra.

A pergunta é, o que é o amor, com as suas próprias palavras?

domingo, 24 de maio de 2020

Entendam o que puderem

"As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"

Coisas do Mundo Minha Nega, Paulinho da Viola


"You can´t start a fire without a spark"

Dancing in the Dark, Bruce Springsteen



Você pulou, eu dizia, e, cansada da batida do dia, ela se via obrigada a voltar a página e ler o que havia faltado da história, pensando, caramba, se ela já sabe, por que quer que eu volte?

Minha mãe começou a me contar histórias enquanto eu estava dentro dela. Tinha as que ela contava em voz alta e as que chegavam até mim por meio do cordão umbilical, como a que é contada em Esta noite a liberdade, que vim a ler depois, na adolescência, e que, junto com outras, serviu de faísca para tantas coisas pela minha vida afora.

Criança, eu tinha baús de madeira para guardar meus tesouros, que sempre foram meus livros, gibis e revistas (a lembrança daquela edição da Superinteressante com o holograma de um cavalo-marinho na capa me faz abrir um sorriso até hoje), e acesso irrestrito às prateleiras que continham livros em casa, onde nada que contivesse páginas encadernadas me era proibido ou negado.

Mas o mais genial, o que de melhor eu tinha, era minha tia Helena. Irmã da minha avó materna, tia Helena era o fino do fino. Ela era, para mim, a encarnação dos livros na Terra, mas não só. Ela era livros e era liberdade. Vivia como queria, lia o que a maioria das pessoas ao meu redor não lia e era capaz de falar sobre tudo, sobre qualquer fato ou personagem, fictício ou não.

Ex-militante do Partido Comunista, ela tinha atos e ideias progressistas e muitos livros fascinantes cujo conteúdo eu não entendia, parcial ou completamente. Ela cuidou de mim desde os meus primeiros anos e até os últimos de sua vida conversou comigo sobre as coisas do mundo. Na infância, ela me cobria de gibis, de revistas e de livros. A partir do início da minha adolescência, trocávamos impressões semanais sobre o convidado do Roda Viva, sobre a entrevista feita por Marília Gabriela no Cara a Cara, sobre as invariavelmente excelentes conduções feitas pelo Roberto d´Ávila no programa que levava no título o seu nome e, assim como acontecia com alguns dos livros que ela tinha, eu também não entendia tudo o que era dito na televisão. Só que isso nunca me desanimou; pelo contrário, o ininteligível me encantava e me envolvia como se eu estivesse sob o efeito de um feitiço ou de uma droga, e eu queria mais, sempre mais daquele mistério, daquelas faíscas, daquelas coisas todas que estavam ali no mundo e que eu precisava aprender.

Eventualmente, confesso, eu me achava um pouco estranha, já que, afinal de contas, qual era o sentido daquilo? Por que eu lia livros e ouvia debates que pareciam estar além da minha compreensão? Até que um dia, assistindo a uma edição do Roda Viva que trazia José Saramago no centro do debate eu o ouvi dizer que sim, que se deve ler livros que não se entende, que se deve lê-los mesmo sem entendê-los completamente e que tudo bem não entender tudo. A partir daí nunca mais me estranhei, pelo menos não nesse sentido, e segui sem culpa sob o efeito amplificador das palavras.

É por isso que quando ouço alguém dizer, em tom desencorajador, que tal ou qual livro ou autor é difícil ou até impossível, que ainda não é hora de ler aquilo ou aquele outro, que um dia, talvez, mas que até lá... Eu agonizo. Fico prostrada por alguns minutos e indignada para todo o sempre, porque a pobreza de espírito, a tentativa de reduzir e de conter o intelecto numa caixa de fósforos é das coisas mais tristes e revoltantes que existem. O que nós todos deveríamos dizer uns aos outros é leia tudo o que quiser e entenda o que puder! Aproveite a faísca do novo e do desconhecido e incendeie o seu mundo; deixe o fogo retorcer a fita do seu pensamento e simplesmente observe o que acontece.

Como disse o Cazuza (sempre ele), o tempo, o tempo não para, e as coisas que estão no mundo não vão esperar por nós. Viver apenas dentro dos limites do que se entende é perda de tempo. E o tempo, o tempo não para.


P.S.: O último parágrafo faz referência à música de Cazuza e Arnaldo Pires Brandão, O Tempo Não Para.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit e o real surreal

"Nothing makes sense anymore."

Jojo, a certa altura do filme, para seu amigo Yorki.



Levo uns segundos para entender o que está acontecendo mas, assim que a ficha do jogo de som e imagens cai, penso, putz, que sacada! Isso é Psicologia das massas e análise do eu na veia!

É assim o início da minha experiência com Jojo Rabbit, um filme que se vale da sátira, do surreal e da inteligência para mostrar algo que, justamente pelo formato, atinge em cheio (espero) o espectador.

Durante o filme, entro na onda do protagonista e começo a fantasiar, não com um amigo imaginário, mas com uma entrada relâmpago de Jojo Rabbit em cadeia nacional, bem ao modo de uma intervenção mais do que necessária.

O filme termina e as palavras que saem, baixinho, da minha boca, não se ajustam às que eu ouço. Ops, em alemão não rola. Sinto muito, Bowie, mas dessa vez não consigo te acompanhar.

Não canto mas, livre, também eu saio do cinema dançando.


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Há determinados acontecimentos da complexa e às vezes demasiadamente surreal história humana para os quais sou bem bundona. O Holocausto é um deles. Minha covardia é tamanha que, mesmo sendo uma leitora obsessiva compulsiva (eu dava um jeito de ler meus gibis no chuveiro quando criança), nunca tive coragem de ler O diário de Anne Frank, assim como nunca tive coragem de visitar um campo de concentração durante alguma viagem. Certa vez, porém, em Amsterdã, após muitas discussões internas, resolvi que iria encarar uma ida ao Museu Anne Frank (Anne Frank House).

No museu, à medida que transitava pelos cômodos na ordem estabelecida para a visitação, passei a pensar, mas que bobagem, não acredito que eu estava com medo, nada a ver, até que é tranquilo, desnecessário todo o drama que eu fiz etc. Imbuída desse espírito okay, fui passando devagar pelos cômodos até alcançar o último, onde, sem aviso, comecei a chorar, ou melhor, a soluçar. Hoje, revendo aquele momento, tenho a sensação de estar ali em pé, sozinha, sem lenços suficientes, com o rosto todo encharcado e melado, num desamparo que muito provavelmente nem sequer encosta naquele no qual se viu a família que morava naquela casa.

A exposição estava organizada de maneira similar àquela pela qual o ódio aos judeus, com todas as suas consequências, foi sendo naturalizado e institucionalizado na sociedade alemã quando da ascensão do nazismo, ou seja, gradualmente, por meio de proibições que de início pareciam não serem assim tão absurdas e que foram se agravando e se tornando cada vez maiores (e mais surreais).

Até que os judeus perderam, para aquela sociedade em transe hipnótico, o direito de existir.


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Moral da História:

um absurdo nunca é só um absurdo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Desler Ricardo ou comentários de leitora

"Six months isn´t so long
Not everybody gets corrupted
You have to have a little faith in people."

Tracy para Isaac em Manhattan, última cena.


"Eis-nos, pois, acuados contra o muro, contra o muro da linguagem. Estamos em nosso lugar, isto é, do mesmo lado que o paciente, e é nesse muro, que é o mesmo para ele e para nós, que tentaremos responder ao eco de sua fala."


Jacques Lacan, Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, em Escritos



"Que outra coisa a gente aprende em uma análise a não ser a amar?"


Ricardo Goldenberg, Uma carta de amor, em Do amor louco e outros amores



Do amor louco e outros amores. Só o título já seria o suficiente para que eu o desejasse mas o que bateu mesmo foi uma história de amor. Levantei o livro da bancada e, ao abri-lo aleatoriamente, dei de cara com BLADE RUNNER. O nome do filme e uma frase de Deckard escritos. Sem pensar e sem levantar os olhos da página, disse ao vendedor, vou levar este também. E o levo, mesmo depois de, há semanas, lido.

Dos textos que o compõe, Uma carta de amor é daqueles que eu sei que vão me acompanhar por ainda muito tempo, em leituras e desleituras periódicas. A seu respeito, Ricardo escreve, duas páginas depois da menção a Blade Runner, que para alguns amigos a quem o deu para ler disse "que o tinha escrito antes com as tripas que com o teclado" (p. 13). Pois bem, eu o li antes com as tripas que com a razão. Sobre Uma carta de amor chorei algumas entranhas.


Ouvi de P. que quem procura análise quer ser amado. Quer (e agora sou eu porém não sem as referências dela a Bartleby) que alguém se sente ao seu lado e olhe para o mesmo muro, seja ele qual for, numa aposta de conexão. Assim talvez como Deckard quando senta ao lado de Rachael ao piano, desencadeando o movimento da possibilidade impossível do amor (entre androide e caçador de androide), numa cena que de tão simbólica é quase palpável (e também dessas que alguém carrega por décadas e que relê de tempos em tempos).


Partindo do pressuposto de que a análise é, entre outras coisas, uma aposta na conexão gerada pelo amor (ou na construção do amor que se ergue sobre as fundações de uma possível conexão), venho pensando que as mágicas acontecidas no processo analítico, tão surpreendentes, nada mais são que a expressão dessa conexão que, há mais de cem anos exposta pela descoberta que nos martelou com o veredicto da impossibilidade do controle absoluto, pode vir a quebrar o clichê mortífero da repetição infinita. Como se a faixa que se acreditava riscada num disco passasse, com um sopro, a tocar sem que a agulha voltasse a emperrar nos montinhos de poeira que até então vinham sendo confundidos com um risco irremediável.


Impossibilidade de controle que, quando se desvela, parece, não por uma feliz coincidência, descobrir também a possibilidade do amor que, uma vez edificado entre analista e analisando, permite que este olhe pelas janelas do edifício construído por ambos de uma altura que, se por um lado é vertiginosa, por outro é aclaradora. Dentro e fora do setting analítico, percebe-se que o amor só é amor quando confessa e tolera fragilidades e fracassos. Quando não, é outra coisa e a maior das vertigens, acredito, pode advir da descoberta de se ver, num supetão, sem nunca ter amado, e sim de ter feito, sem saber mas sempre sabendo, essa outra coisa, esse borrão familiar que pode cegar uma vida inteira sem que esta se dê conta das fantasias que a recobrem.


E com relação às minhas fragilidades, femininas, as quais ando me permitindo confessar e viver, Todas as noites mais uma, De volta ao jardim (A propósito de O Cântico dos Cânticos) e O ameaçado, outros textos que compõem o livro de Ricardo Goldenberg, fizeram com que eu virasse um pouco a chave dos meus pensamentos para encarar uma lógica que, por mais que um dia eu tenha vindo a achar que conhecesse, desconheço tão amplamente que cheguei a sentir raiva desse não saber escancarado durante a leitura. O meu, sobre o masculino.


Aliás, se há algo que me pegou na escrita de Ricardo foi o seu movimento rock and roll, na melhor analogia que a expressão possa ter com as ideias de originalidade e de liberdade. É nesse movimento que, inclusive literalmente, suas muitas referências pops me falam direto, como ficou claro logo no início deste texto. Afinal, está na cara que Do amor louco e outros amores foi amor à primeira vista ou, em outras palavras, a conexão mágica do amor pelas palavras escritas de alguém.



P.S.: O título deste texto é uma brincadeira com o título de Desler Lacan, outro livro de Ricardo Goldenberg.