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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Temporária



Estamos andando por uma das ruas do centro histórico da cidade onde eu nasci no início da tarde de um dia de feriado muito quente e iluminado, o calor do sol apressando os nossos passos e afugentando os turistas das praças e das calçadas, quando, em resposta a algo que eu acabara de dizer, uma amiga me diz, mas quando é que você não esteve temporária? Naquele momento ela se referia, implicitamente, ao fato, para ela muito curioso, de eu nunca ter desejado comprar uma casa na cidade onde nos conhecemos e onde eu havia vivido os primeiros vinte anos da minha idade adulta, assim como ao fato, também um tanto inexplicável do ponto de vista dela, de eu ter vendido a única casa que comprei, em outra cidade, poucos anos após adquiri-la.

O comentário me pegou de surpresa e, com o olhar posto nas paredes brancas do prédio histórico de arquitetura colonial cujo jardim externo, ao longo da minha infância, me encantava, e pelo qual agora passávamos, concordei com a minha amiga, dizendo, é, você tem razão, quando é que eu não estive temporária?

Naquela noite, porém, ao deitar na minha cama recentemente comprada, no quarto de uma casa onde moro há poucos meses, na mesma cidade onde nasci e para a qual nunca havia planejado voltar, cercada pelos meus dois cachorros e por novos e velhos objetos, pensei, mas quando é que todos nós não estivemos temporários?

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Eram os anos finais do século XX, 1999, talvez o ano 2000, quando o meu tio, o único irmão da minha mãe, foi morto. Na época, eu fazia estágio num escritório de advocacia muitíssimo badalado - onde, entre almoços e jantares em restaurantes caros, clientes famosos, dias, noites e madrugadas de trabalho em Inglês e Português e assédio moral com uma pitadinha de assédio sexual por parte do meu chefe direto, um homenzinho frustrado, asqueroso e insuficientemente competente - e fui avisada pela secretária do meu setor de que devia ir imediatamente para casa, a dos meus pais, em outra cidade. A minha mãe havia ligado, algo havia acontecido com o meu tio, eu devia ir e isso era tudo. Peguei a minha bolsa e fui, levando a tiracolo Mal secreto - inveja, livro do Zuenir Ventura que eu estava lendo naquele momento e que me fez companhia no ônibus, no trajeto entre as cidades. Ao chegar, desci antes do ponto final, que seria a rodoviária de Itu, e caminhei até a casa da minha avó, que lá estava sozinha, em seu quarto, sentada na cama e com a luz apagada. Ao me ver, ela disparou, o Nei matou seu tio. Do instante do disparo e dos segundos subsequentes, além da frase, o Nei matou seu tio, lembro da maçaneta da porta do quarto, junto da qual eu estava parada, em pé; da sua forma, redonda, e da sua cor, prateada, contrastando com a madeira da porta. Lembro da frase, da maçaneta e de ser tomada pela sensação inequívoca de que o tempo, o curso do tempo, após uma breve suspensão, havia sido alterado.

Na volta ao trabalho, conversando com um dos meus chefes, ele me falou, a respeito do assunto, algo como, é melhor não contar. Afinal, um homicídio na família, ainda que se tratasse da vítima e não do assassino, era uma mácula que um membro daquele escritório tão distinto não podia carregar. Poucos meses depois, mandei o badaladíssimo escritório e as expectativas que os outros e que eu mesma tínhamos a meu respeito às favas. A vida era curta, frágil e temporária demais para não poder ser contada.

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No início de 2020, quando a pandemia chegou, a primeira coisa que me veio à cabeça foi, ainda bem que eu viajei. Eu havia passado os últimos muitos anos planejando e executando viagens, com direito a todos os experimentos que olhar para fora do meu próprio umbigo podia incluir (que é o que eu entendo por viagem), custasse o que custasse. Cheguei, em alguns momentos, a não ter um sofá, por exemplo, e a abrir mão de uma série de coisas, de conforto e de segurança patrimonial, inclusive. Como servidora pública, tinha e tenho um emprego estável, é verdade, mas nunca tive dinheiro para tudo. De maneira que escolhi viajar.

No dia 17 de julho de 2019, pouco antes, portanto, do início da pandemia, ao colocar os pés no Brasil de volta de uma viagem à China, fiquei sabendo que minha avó, a mãe da minha mãe e do meu tio morto, havia morrido e estava sendo velada. Do aeroporto fui direto para o velório. Em outubro do mesmo ano, a Gigi, minha filha-cachorra que era também uma extensão do meu corpo, morreu. Tanto a minha avó quanto a Gigi estavam em fase de cuidados paliativos, ambas muito velhas, de maneira que as suas mortes foram, num certo sentido, tragédias anunciadas, o que, do ponto de vista do meu inconsciente, não teve a menor serventia, já que ambas as perdas me afetaram profundamente.
 
Em 2024, no auge de uma crise reumática, voltei a nadar, coisa que eu não fazia desde o início da vida adulta, quando conseguir dar o maior número de braçadas sem respirar, ou seja, sem colocar a cabeça para fora da água, era um desafio, uma diversão, algo natural a se tentar fazer. Depois da morte da minha avó, da Gigi e da pandemia, contudo, as coisas mudaram, e passar muito tempo com a cabeça sob a água me deixa extremamente ansiosa. Embora eu seja capaz de dar mais de dez braçadas sem respirar e até mesmo de atravessar vinte e cinco metros de piscina de forma submersa, sou tomada durante grande parte dos treinos por pensamentos relacionados à possibilidade de, no futuro, morrer asfixiada, de alguma doença que me deixe sem ar, e sozinha. Nesses momentos, penso imediatamente na minha avó e no que eventualmente se passava pela cabeça dela durante as noites, sabendo que a sua vida estava no fim, ela que tinha um medo imenso da morte e de morrer e que ao longo da vida sofreu de inúmeras crises de pânico e de ansiedade. Imagino o sofrimento dela e me vejo na mesma situação, até que me forço a parar de pensar na morte e passo a lembrar do meu avô, para quem todo o mundo tinha que saber nadar e dirigir e que nadava e dirigia divinamente, o meu avô, que quando mergulhava na piscina da casa onde cresci se assemelhava, para mim, a uma linda baleia-jubarte, a água da piscina respingando aos montes para fora das bordas, a expressão de satisfação do meu avô ao emergir. Penso no meu avô e no quão orgulhoso e feliz ele ficaria se pudesse saber que eu nado, e bem, e fico imaginando o prazer que ele sentia ao nadar, que talvez seja o mesmo que eu sentia quando era jovem e que ainda sinto quando consigo parar de pensar em morrer asfixiada.

Ontem, enquanto nadava, me dei conta da minha ambivalência; eu, que, como salientou a minha amiga, sempre estive e que estou temporária, com tanto medo de morrer asfixiada, eu, que nunca me fixei em lugar algum, tão fixada na morte.

Itu, 10 de maio de 2026.

domingo, 26 de abril de 2026

Sem despedidas

O motivo não vem ao caso aqui, mas o fato é que andei lendo e relendo alguns filósofos. Em Montaigne encontrei uma passagem que me fez retomar uma questão que me afligiu nos últimos tempos: como é possível que alguém que tenha passado anos quase que ininterruptos viajando pelo mundo (estamos falando de aproximadamente uma década), conhecendo pessoas, culturas e paisagens as mais diversas, siga sendo, ao retornar para casa, exatamente a mesma pessoa que era antes de viajar?

Pois bem, a uma certa altura de seus Ensaios, Montaigne traz Sócrates à baila mencionando que este, ao ser informado de que alguém não tinha se emendado ao longo de uma viagem, disse acreditar perfeitamente no caso, já que quem tinha viajado havia levado a si mesmo junto consigo.

Apesar de fornecer uma explicação bastante razoável e fácil de entender para a minha questão, ou seja, a de que a viagem por si só não é capaz de operar milagres com relação ao caráter do viajante, a afirmação de Sócrates me deixou ainda mais confusa, pois, se o problema e a solução residem simultaneamente no viajante e não na viagem, o que é que eu havia deixado passar ao longo dos anos nos quais mantive relações com o viajante e que agora, quando da retomada do contato após um período considerável de afastamento, me causou tanta decepção? O que ou quem eu não enxerguei? Ou ainda, quem eu era ao longo daqueles anos? Seria a mesma pessoa que está aqui, agora, se fazendo essas perguntas?

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Quase todas as manhãs, ao acordar, ainda tomada pelo torpor do sono (do qual, diga-se de passagem, levo horas para me livrar), me esforço para tentar reter o sonho que, nem bem sequer abri os olhos, já começou a se dissipar. Sou uma grande entusiasta dos meus próprios sonhos e o responsável por isso não é Freud, ou não somente ele; a verdade é que depois de ler um trecho sobre o assunto contido na introdução de Um apartamento em Urano, de Paul Preciado, passei a considerar que os sonhos são universos paralelos, mundos nos quais existimos e vivemos outras vidas enquanto dormimos. Por essa razão, ao longo de muito tempo, me senti frustrada por normalmente não me lembrar dos meus ao acordar. Repentinamente, contudo, isso mudou e é com grande felicidade que há alguns meses venho lembrando quase que diariamente dos meus sonhos, sejam eles bons ou ruins. Embora eu tenha pistas dos motivos em razão dos quais essa alteração do meu funcionamento onírico se deu, penso ser desnecessário explorá-los aqui. O que realmente importa, no caso, é a constatação de que a censura caiu.
 
Alguns sonhos se dissipam facilmente, outros permanecem por algumas horas ou por dias inteiros comigo, e há aqueles que me acompanham por semanas, meses e até por anos a fio. O relato que vem a seguir diz respeito a uma produção onírica que se encaixa na última categoria, à qual darei o nome de categoria dos sonhos persistentes.

Pois bem, o sonho em questão se repetiu duas vezes numa mesma noite, com pequenas diferenças entre as suas versões. Dei a ele o nome de AMARELO, pois, além da rua da casa onde cresci (que aparece em vários dos meus sonhos), da Amora (minha filha-cachorra, que também aparece em vários sonhos) e da escadaria que os protagonistas de Amor à Flor da Pele, filme de Wong Kar-Wai, descem para comprar comida, havia um cartaz preto colado num poste da tal rua da minha infância com uma palavra em letras maiúsculas garrafais escrita em amarelo. De forma resumida (não vou abordar todos os seus aspectos), no sonho, eu subia a rua com a Amora que, como de hábito, caminhava sem a guia, quando deparamos com o poste e com o cartaz colado nele. Amora, então, me lançou um olhar sarcástico e saltou em direção ao cartaz, atingindo a palavra escrita em amarelo com as quatro patas. De volta ao chão, ela saiu correndo e eu a perdi de vista. A partir daí, o sonho se transformou numa busca pela Amora.

Naquela noite, eu dormia ao lado do viajante e, entre as duas diferentes versões do sonho, acordei e olhei para ele, intrigada. Longe da cama, protegida pela privacidade do banheiro e ao som do jato de urina que se chocava contra a água do vaso sanitário, eu soube que o sonho tinha a ver com aquele homem, para quem, inclusive, cheguei a relatá-lo. Ao longo do dia seguinte, não pude evitar as ondas que traziam a sensação de urgência em descobrir qual era a palavra que estava escrita, em amarelo, no cartaz, e que me faziam oscilar.

Nos dias subsequentes, o sonho continuou a me intrigar, mas não com a mesma urgência. Eu ainda queria descobrir qual era a palavra e passei a apostar fortemente em algo escrito em Alemão. Mas o quê? Então, num ímpeto, escrevi, numa folha de papel qualquer, em letras maiúsculas, a cor da palavra, AMARELO. Mal terminei de escrever, pensei em Freud, em Lacan e na minha analista, para quem, numa sessão imediatamente anterior ao Carnaval deste ano, eu levaria o sonho. Apesar da homofonia que a escrita da palavra me revelou, nem tudo estava resolvido; tanto o significado do sonho quanto a programação do meu Carnaval, inicialmente ditada exclusivamente pelo desejo e pela agenda do viajante, para mim, seguiam em aberto.

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Todo ano é a mesma coisa: eu digo (mas só para mim mesma) que dessa vez vou pular Carnaval, que será como antigamente, que vai ser ótimo, que de repente até arrisco um bloquinho, que eu preciso aproveitar a vida e que o Carnaval, essa coisa toda pulsante, é o momento certo para isso. Então ele chega, se impondo, tomando rádios, TVs, redes sociais, ruas, avenidas, bares, conversas, notícias, a aula de spinning, podcasts, as agendas, e tudo o que eu consigo fazer se resume ao ato de desejar, com todo o meu ser, desaparecer entre livros e filmes, derretida, talvez, pela luz do sol intenso sob o qual eu gosto de me deitar, sem pudor e sem protetor, somente com um livro nas mãos.

Sem despedidas, da sul-coreana Han Kang, foi o título do meu Carnaval de 2026.

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Retomemos as perguntas iniciais, mais precisamente aquelas que dizem respeito a quem eu era e a quem eu sou agora. Tendo refletido bastante, me vejo obrigada a confessar que, exceto pelo amor que ambas tínhamos pelos livros e pela escrita, eu e a pessoa que no passado manteve uma relação de amizade com o viajante ao qual venho me referindo neste ensaio somos, hoje, criaturas completamente distintas. Os anos de sessões de análise que, especialmente no princípio, pareciam me colocar num liquidificador, as muitas pesquisas e indagações sobre o que é ser uma mulher, as pessoas que eu perdi, as crises reumáticas e de ansiedade, as mudanças de cidades, de casas, de estilo de vida e, finalmente, a menopausa, têm feito de mim alguém muito diferente de quem eu fui no passado e meu breve reencontro não só com um suposto amigo mas também com trechos da história da minha vida que não mais me interessam só confirmou a mudança.
 
O mais interessante é que no começo eu não percebi nada disso. Assim que voltamos a nos ver, achei que a nossa relação seria exatamente como antes. A ficha de que eu havia mudado tanto só caiu quando a analista me perguntou o que, em termos românticos, havia me atraído nele, pois havíamos passado a dormir juntos e eu não andava exatamente satisfeita com os desdobramentos da situação. Respondi que eu o admirava muito, que a coisa toda da viagem, de largar tudo e sair viajando pelo mundo, sempre havia tido um grande apelo para mim, mas que agora eu percebia que não via mais as coisas dessa forma. Eu também achava estranho que ele tivesse ido, voltado, e que seguisse dizendo e fazendo exatamente as mesmas coisas de antes, coisas essas que, eu também havia me dado conta, não cabiam mais em mim.
 
A título de ilustração, eu me perguntava como iria superar o fato de ele ter ido conversar, sem me consultar, com o meu ex-marido, com quem, só depois eu soube, ele ainda tem amizade, sobre uma viagem que nós iríamos fazer. Como eu iria superar o fato de ele ter me dito isso poucas horas antes do voo, sem que houvesse tempo para eu processar a situação? Como eu iria superar o fato de ele ter praticamente me dito para calar a boca durante uma ligação telefônica no momento em que abordei novamente a questão da conversa dele com o meu ex, que, uma vez mal resolvida, seguia se impondo, para mim, como um muro entre nós? Como eu iria superar o choque de não ter conseguido reagir e de não ter mais parado de pensar: quem ele pensa que é para falar assim comigo? Admito que, no passado, por mais que determinadas palavras e ações me machucassem, eu era capaz, por diversos motivos, de deixar para lá. Da falta de consciência, de letramento de gênero, de entendimento acerca de mim mesma e do que aquelas palavras e ações significavam, fui capaz de passar pano para muita coisa. Para coisas, inclusive, há muitos anos ditas pelo viajante, como quando ele me disse que um determinado comportamento meu “parecia coisa de mulher separada”. Lembrei da frase, que eu parecia ter apagado da memória, por acaso, há pouco tempo, enquanto caminhava pelo estacionamento do shopping onde fica a minha academia, indo em direção a ela.

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Na minha vida, muitas coisas vêm caindo: a censura do meu inconsciente com relação aos meus sonhos, a admiração pelos homens que abandonam, a necessidade de agradar, o meu ideal de eu. É um despencar de coisas que, felizmente, graças à minha adição em dopamina e à minha obsessão por saúde, não posso associar à queda do meu corpo, cada vez mais firme e mais íntegro. Ele também vai cair, eu sei, como no título do romance de Milena Busquets, Isso também vai passar, escrito por ela após a morte de sua mãe. A capa da edição brasileira do livro, editado pela Companhia das Letras, é a imagem de uma mulher imersa até a cintura nas águas translúcidas e aparentemente calmas de um mar verde esmeralda, com pedras ao fundo e galhos de árvores na parte inferior da foto, tirada de cima. É uma imagem leve, bonita, para um livro que não deixa de ser uma despedida, ou uma forma de lidar com ela.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Valor Sentimental

Uma história sempre tem um sintoma. O desta é a falta. Gostaria de poder escrever um outro texto, aquele que imaginei logo depois do primeiro dia, do dia primeiro. Ali você me ofereceu e tirou, e eu fingi que não me importava. Eu disse massa, comemos carne. Eu não disse nada sobre os colchões, sobre as minhas dúvidas a respeito do que estava acontecendo, do que ia acontecer. Eu não disse a verdade quando você me perguntou se o que escrevo é verdade. Eu não sei falar sobre isso. Sentei e os meus pés foram automaticamente parar no seu colo, simultâneos ao seu gesto, numa intimidade que até então eu não sabia existir entre nós, a mesma que me constrangeu quando você entrou no quarto enquanto eu me maquiava, a mesma que me espantou quando você me cheirou de fio a pavio, como se eu fosse um animal, um filhote, uma presa. Poucas palavras, eu precisando de mais, mas ao mesmo tempo aliviada por não ter que dizer, pensar, falar. Eu poderia facilmente escrever aquela noite, a vertigem ao reconhecer o corredor que leva até o seu apartamento, a sensação de irrealidade ao bater na sua porta, a ausência de surpresa quando a porta se abriu. Escrever eu posso, sempre posso, ainda que seja depois. A verdade da escrita é como a do desejo, vem depois. Isso eu disse, suas mãos nos meus pés, que eu poderia escrever aquela primeira noite inteira, o texto, naquele momento, já imaginado e não derramado.

Mudamos de ano, eu, de casa, e são tantas as coisas que eu queria contar. Falo que estou carente, mas não é verdade. Estou com falta de palavras, esses tijolos que constroem as histórias, que tecem os laços. Estou à espera de palavras. Queria tanto contar sobre o medo bobo e infantil que tive ao ter que tomar uma injeção; sobre o saquinho de biscoitos amanteigados desses que derretem na boca e que têm gosto de quando a gente é criança e come biscoitos amanteigados quase macios sem pensar em mais nada e que venho comendo aos poucos, alguns ontem, outros hoje, com alguma culpa mas não muita; sobre o meu amigo de infância que se matou na noite de Natal e o meu pânico ao entrar no velório pelo qual passaram alguns dos corpos da família que um dia eu tive; sobre o sabor da minha pizza preferida, que comi ontem à noite, inteira, os quatro pedaços, como quem come a última refeição antes de ser levado ao cadafalso; sobre o prazer da água azul da piscina, o azul da piscina, que é assim desde que eu sou criança, a piscina, para mim, é o azul mais quente, mais bonito, mais letárgico, e invariavelmente eu lembro do meu avô quando estou dentro dela, todo mundo tem que saber nadar e dirigir, a minha mãe diz que ele dizia, e um dos acontecimentos mais gloriosos da minha vida era vê-lo mergulhar, pesado e delicado como uma orca, projetando uma sombra sobre os azulejos e depois provocando uma grande movimentação na água da piscina da casa onde eu cresci, a mesma cuja entrada hoje me é interditada por um pai vivo morto que nunca me chamou de filha, com o qual eu também tenho falta de palavras; sobre o filme ao qual assisti, Valor Sentimental, que traz um pai, uma filha, uma ausência, uma tentativa de suicídio e, por fim, um roteiro cheio de palavras escrito pelo pai, cineasta, que finalmente consegue levar de volta, ou pela primeira vez, a filha até o pai e o pai até a filha, sendo que a última cena do filme, a mais bonita, aquela pela qual todo o resto vale a pena, é o resumo desse encontro silencioso e ainda sem intimidade inicialmente possibilitado pelas palavras escritas. Pensei no meu pai, que nunca me deu nenhuma palavra, com quem nunca tive intimidade, exceto talvez na infância, quando ele me jogava pra cima em dia de futebol ou quando jogava dama comigo, pensei em você e na sua filha e nas suas palavras sobre vocês. Sobre o filme, eu diria, assista, é sobre um pai e uma filha, foi isso o que tive vontade de escrever em uma mensagem depois que os créditos subiram; sobre o convite que recebi há poucas horas e que me deixou feliz, um reconhecimento que é a contrapartida de outros que me são negados; sobre o quanto você me magoou ao ir falar com outro homem (um ex cujo nome por extenso ou abreviado, infantilizado, diz respeito ao mesmo homem ignóbil, não se trata de Jekyll e Hyde, de dois ps diferentes, a letra é uma só) a respeito da nossa viagem sem sequer antes falar comigo, sobre o quanto isso ressoa em mim com palavras que eu não quero escrever, embora saiba nomear, os sentimentos, as palavras. Você falou em obrigação moral, essa moral que no caso eu chamo de masculina, machista, e que é o oposto da ética. Papo de homem, eu fico de fora, excluída da conversa entre um homem que está casado pela ducentésima vez e outro para o qual o importante é o que pensa a respeito dele o homem do ducentésimo casamento e não a mulher que ele cheirou de fio a pavio, como um animal, um filhote, uma presa; sobre a minha surpresa ao ouvir você dizer, eu não quero saber o que aconteceu entre vocês, depois de ter, sim, há tantos anos, querido. Foram tantos os anos, tantas as voltas, e eu deveria seguir me revelando em partes para você? Quais seriam as que interessam e as que não interessam?

Quando saí da sua casa depois do dia primeiro, no dia dois, veio a música do Milton na minha cabeça, não sei se a letra é dele, mas diz assim, o mundo lá sempre a rodar, em cima dele tudo vale, quem sabe isso quer dizer amor, que é um verso e também o nome da música. Eu não sei o que é amor, não sei definir o amor, mas gosto da ideia de que é como voltar para casa ou, de alguma maneira, como estar em casa. Gosto também de uma outra teoria, a de que, quando amamos, queremos saber da pessoa tudo o que dela veio antes de nós e contar a ela tudo o que de nós veio antes dela, especialmente na infância. Isso eu li num livro de uma escritora uruguaia, a Cristina Peri Rossi, o mesmo que eu estava lendo durante a viagem, na cama, ao seu lado, enquanto você dormia e eu me sentia enjaulada como um animal grande demais para o meu próprio tamanho naquele apartamento tomado pelos ruídos do mundo exterior que nos momentos de intimidade e de descanso se assemelhavam a uma invasão. O livro, um romance de formação; o apartamento, mais um equívoco.

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Romance de formação, eu gosto desse nome, e gosto de poder escrever, de encontrar, sem precisar esperar, as minhas próprias palavras.

Itu, 9 de janeiro de 2026.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Alguma poesia

Tenho procurado alguma poesia, nos livros, no céu, nas coisas.


Nos devaneios de uma noite insone, sentindo o estômago enjoado, eu procurava alguma poesia quando peguei o celular para olhar as horas e descobrir que passava das quatro da manhã. Aproveitei para conferir se havia alguma mensagem, uma resposta. Não, ele não havia respondido. Olhei para o teto e tentei me agarrar a pensamento algum, me pendurar num devaneio que me levasse para longe dali, para um lugar onde o falatório daquele dia se dissipasse e cedesse espaço para alguma poesia. Ao invés disso, voltei a pensar na pergunta.


Haverá alguma poesia no momento em que nos acharmos envoltos pela vida nos contornos da morte?



Tenho procurado alguma poesia, mas só a encontro às escondidas, longe das vozes que me rodeiam e que me envolvem num hálito fétido, vozes que fazem com que eu me sinta suja, insensível, morta.



Tenho procurado alguma poesia para colocar no lugar daquela que me escapou no passar dos anos, aquela que deixei vazar, de propósito, para tentar sofrer menos enquanto tentava ser mais. Mais o quê?



Tenho procurado alguma poesia, que segue me escapando quando ouço ressoar a voz que me faz sentir suja, errada, grotesca. A voz do “homenino” - esse termo não é meu, é da Tania Rivera, que um dia me disse, enquanto escrevia a dedicatória em um livro seu que eu acabara de comprar, “vomite” -, do “homenino” de sessenta anos postado, em pé, na minha frente, as mãos apoiadas no encosto da cadeira de outro homem, uma das mãos que minutos atrás ele havia pousado nas minhas costas enquanto dizia algo que eu não podia ouvir pois o asco que eu sentia daquela mão falava muito mais alto, paralisando e calando todos os meus sentidos e movimentos, e na minha cabeça eu só pensava, tira a mão, tira a mão, tira a mão, não coloca a mão em mim, não encosta no meu cabelo, que nojo, que nojo, que nojo, e minutos depois o “homenino” postado na minha frente enuncia, profere, declama, proclama, “uau, fulano, você, hein, mais um homem, você não dorme em serviço, você é foda, hein, uau, uau, uau”, algo assim, o “homenino” disse algo assim para o outro homem, o homem que estava sentado na cadeira esperando o nascimento de mais um homem numa família cujas crianças, até aquele momento, são todas homens, e a palavra “fraquejada” começou a soar dentro da minha cabeça e do meu estômago, que imediatamente enjoou, revirou, apertou.



Procurando alguma poesia, esbarro no tédio e na monotonia de uma vida aparentemente vazia, uma vida que vejo através da porta escancarada da casa de esquina do condomínio repleto de casas indistintas, todas quadradas e (des)coloridas com tons de cinza, e também na tela da televisão, nos planos fechados filmados por Chantal Akerman dentro do apartamento de Jeanne Dielman, onde a personagem se movimenta de forma obsessiva e eficiente, abrindo e fechando portas, acendendo e apagando luzes, abotoando e desabotoando vestimentas, até não aguentar mais, até enlouquecer, pois viver sem poesia enlouquece, ainda que imperceptivelmente, ainda que milimetricamente, dia após dia.



Ao procurar alguma poesia, lembro das horas passadas dentro do meu quarto no último inverno, segurando Inverno da alma, de Katherine May, nas mãos, os olhos grudados nas páginas do livro, o calor dos pequenos corpos do Sig e da Amora contra o meu. Nos amontoamos como imagino que só uma verdadeira matilha faz.



Atualmente, quando procuro alguma poesia, sou levada até o sol, o de quindim, o que me fez chorar no deserto, e vejo a areia rodopiando até sumir, até ser varrida, talvez para as montanhas, pelo vento cujo barulho eu nunca mais parei de ouvir. 



Procurando alguma poesia eu jogo uma garrafa no mar, dentro dela um bilhete direto, um pouco ressentido. Como efetivamente dizer a alguém que os anos de afastamento e de suposta indiferença não foram indiferentes? Como expressar a raiva e a angústia que eu senti?


Fosse eu uma poeta, certamente encontraria, nas pontas dos meus dedos, uma poesia que desenhasse, com palavras e versos concisos, as imagens da minha deriva, o medo de, mesmo sabendo nadar, me afogar sem poder antes falar com você, pois a verdade é que eu estou envelhecendo e morrendo de medo de não ter com quem fazer a última piada.


(E piada, convenhamos, é coisa muito séria, que nem todo mundo entende.)



Tenho me esforçado e procurado alguma poesia, mas nem sempre encontro. Acho que poesia não é coisa que se force, assim como o humor, o amor ou tudo aquilo que eu passei meses percebendo que você queria me dizer, mas só li uma parte. O resto escorregou pelo chão, girou no ar.

domingo, 10 de agosto de 2025

Os homens que não viam as mulheres

Tenho estado ocupada demais comigo mesma, chocada e maravilhada em demasia com as mudanças, nada lentas e graduais, que me acometem no momento. Você está na menopausa, a minha ginecologista me diz, olhando o resultado da repetição dos exames. Menopausa, eu? Não pode ser. A minha mãe tinha cinquenta e tantos anos quando entrou na menopausa e eu tenho quarenta e seis. Não é possível. Com essa taxa hormonal é possível sim. Você está na menopausa. Com esse veredicto, a médica declarou o início da minha nova vida, ou seja, a de uma mulher que está envelhecendo, ou melhor, que está sentindo na pele, nos ossos, nos músculos e no cérebro os efeitos do envelhecimento e fazendo o possível para lidar com eles da melhor forma, o que significa dedicar tempo e recursos, principalmente financeiros, para tornar a situação menos desesperadora.

Nesse aspecto, a propósito, a dureza do envelhecimento e o fato de haverem várias velhices, a depender da condição socioeconômica de quem envelhece, ficam ainda mais patentes quando penso que eu, na condição de uma mulher privilegiada, posso lançar mão de médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, suplementos, medicamentos, comida de boa qualidade, exercícios físicos diversos etc. para de alguma forma remediar o irremediável. Mas e quem não pode? E quem não tem acesso a isso tudo?

Num primeiro momento, senti uma mistura de culpa, vergonha, medo e ressentimento. Culpa por achar que meu corpo havia falhado, que era cedo demais para envelhecer e que talvez eu tivesse feito algo errado, algo que tivesse contribuído para esse envelhecimento imaginariamente precoce; culpa também por estar bastante preocupada com isso, por estar dedicando tempo e dinheiro a essa questão pessoal quando, como dito acima, a maioria das mulheres do planeta não podiam se dar a esse luxo. Vergonha por ter supostamente falhado na missão de ser jovem para sempre, por, de acordo com a ginecologista, estar com uma osteopenia fodástica, pelo meu assoalho pélvico, junto dos meus hormônios, estar despencando. Medo do fim, do fim de tudo. Mais medo de morrer. Quer dizer então que acabou, eu me perguntava. Acabou tudo? É o fim da vida como eu a conhecia? Existe vida depois da menopausa? Se existir, qual é o tipo de vida que se vive depois desse acontecimento? Ressentimento pois, após devorar livros, podcasts e artigos, e de bombardear as minhas amigas, a minha mãe e as amigas dela com uma série de perguntas, concluí que muitos dos sofrimentos físicos e psíquicos pelos quais passei nos últimos cinco anos muito provavelmente tinham relação direta com a perimenopausa. Só que isso ninguém me contou antes.

Paradoxalmente, passado um breve período de tempo após o choque causado pela notícia que marcou o fim da minha vida como eu a conhecia até então, mais precisamente parte da atual estação do ano, ou seja, do inverno no hemisfério sul, eu me peguei em paz, em poesia e em liberdade, tomada pelo desejo de um novo projeto, encaixada como nunca antes. De repente senti, a posteriori (como não poderia deixar de ser), o clique de algo que se encaixou. Mais ou menos como se um aglomerado de pessoas confusas, barulhentas e ansiosas tivessem finalmente conseguido se organizar em linha, não necessariamente uma atrás da outra, mas uma ao lado da outra, cada uma no seu melhor lugar, todas mais calmas, mais silenciosas, menos ansiosas. Todas com um livro nas mãos.

Acho curioso tudo isso estar acontecendo ao mesmo tempo e venho passando dias maravilhada com não sei bem o quê. Comecei então a perceber que a minha análise, aquele momento pelo qual eu esperava toda semana com muita ansiedade, não andava mais surgindo como uma necessidade assim tão premente. Pensei a respeito e decidi perguntar para a minha analista, pela primeira vez em muitos anos (ao longo dos quais, exceto em alguns períodos de férias, nunca perdi uma sessão), se ela achava que seria possível passarmos a nos encontrar de quinze em quinze dias. Ao que, para minha surpresa, ela respondeu, claro que sim! É que estamos juntas há muito tempo, de maneira que podemos fazer de quinze em quinze até você parar. Parar? Se acalme, eu disse a ela, rindo, a risada disfarçando o choro que vinha de um lugar que ainda não sei definir, provavelmente do espaço que um dia foi ocupado pelo mais absoluto desamparo, que agora deixou de ser tão absoluto assim.

Dois dias antes de expressar meu desejo para a minha analista, vi um comentário deixado em uma das publicações deste blog, o qual não publiquei (nenhum comentário é postado sem a minha mediação). Nele, um homem que conheci há muitos anos se dirige a mim como se eu ainda estivesse no colegial, onde ele foi meu professor. Ele diz que espera o meu texto sobre o Ozzy, o Osbourne, morto recentemente, do qual eu há trinta anos realmente gostava muito. Há trinta anos. O homem aparentemente se dirige a mim com alguma intimidade, como se me conhecesse, como se algum dia realmente tivesse me conhecido intimamente, como se eu ainda fosse uma presa fácil, uma adolescente supostamente encantada pelo professor dez anos mais velho, casado, que se achava o bonitão da bala Chita e que não economizava esforços na hora de jogar charme para a(s) aluna(s).

Entre a visualização do comentário e a sessão de análise, tenho um sonho “em níveis”. É como se o sonho em si fosse uma coisa concreta, um edifício, uma estrutura física, com níveis. Eu passo de um andar a outro, não há paredes, o sonho edifício flutua. Como um móbile. Há outras pessoas ali, não sei quem são, talvez sejam bonecos ao invés de pessoas, talvez sejam dançarinos, sombras que se movimentam. Acordo com a frase “no adro da Fundação Casa de Jorge Amado” e o restante de Haiti, música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, se desenrolando na minha cabeça. Levanto, vou até o banheiro e, enquanto o meu xixi escorre vaso sanitário abaixo, penso na primeira frase, “no adro da Fundação Casa de Jorge Amado”. Desse professor certa vez ganhei um CD do Caetano que tinha essa música; há décadas trabalhei no que agora é a Defensoria Pública do Estado de São Paulo e também em ONGs que atendiam adolescentes infratores e, nesse período da minha vida, inúmeras vezes fui à Febem, hoje Fundação CASA, onde vi, conversei, atendi e defendi adolescentes espancados e queimados. Foi um período difícil, sobre o qual já escrevi um pouco, um tempo em que eu sonhava quase todas as noites com os espancamentos.

Conto o sonho para a minha analista; não foi um sonho de angústia, não foi ele que me fez acordar. Mas o sonho tem a ver com o comentário do professor, eu sei disso, digo a ela. Conto também que senti asco e incômodo ao deparar com aquele lembrete de algo que eu prefiro esquecer num lugar que, apesar de compartilhado, é meu. Mais uma vez, me senti invadida, assim como aconteceu quando, na véspera de um Natal, essa criatura apareceu na porta da minha casa acompanhado do cunhado! A posteriori, a presença daquele homem em forma de provocação para que eu escrevesse sobre algo que ele julgava ainda ser relevante para mim me fez perceber que naquela época eu também sentia asco e incômodo (revividos agora), os quais não sabia nomear. Não sabia organizar os meus sentimentos, tampouco entendia a situação. Eu me imaginava talvez apaixonada pelo professor, outros me diziam isso, mas a verdade é que nunca estive realmente apaixonada por ele. Naquela época namorei outras pessoas e, naquele mesmo período, a esposa do tal professor (e eu sinto muito por ela ter passado por essa situação) descobriu uma carta de amor escrita por ele para mim. Não sei se cheguei a ler a carta. Não lembro. Uma pessoa me disse que aquilo havia sido um ato falho da parte dele e me perguntou o que eu ia fazer. Fiquei surpresa com a pergunta e respondi, nada. Eu nunca tive qualquer intenção de ficar com aquela pessoa casada e dez anos mais velha do que eu. A bem da verdade, nunca tive a menor intenção de ficar “para sempre” com qualquer uma das pessoas que namorei no colegial, exceto uma, que não quis ficar comigo. E ponto. Quando eu já morava em outra cidade e estava no primeiro ano da faculdade, esse professor quis ir até mim. Nos encontramos num parque que eu nunca frequentava e que hoje me pergunto, por que naquele parque? Não lembro o que foi dito, lembro apenas de um bilhete, um verso de uma música. Lembro do asco que senti. Dele, de mim, não sei ao certo. Nunca mais nos vimos ou nos falamos, até ele me encontrar numa rede social da qual não faço mais parte, até ele, pela segunda vez, ousar comentar algo num texto meu num tom de suposta intimidade.

Tudo isso para dizer que a impressão que eu tenho é a de que esse homem nunca me viu. Assim como outros que passaram pela minha vida, o tal professor jamais me viu de verdade. Ele nunca enxergou o meu desconforto, o meu asco. Aparentemente ele também não via a própria esposa. E aqui não dá pra deixar de citar Caetano novamente, quando ele diz que “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Para jogar mais lenha na fogueira, um livro vem me fazendo pensar tremendamente no meu pai e no meu ex-companheiro, com quem vivi durante cinco anos. Meu pai, o homem mais egoísta que conheci na vida; meu ex, o segundo homem mais egoísta com o qual convivi (houve outros depois, claro, mas desses eu fugi rapidinho). Conto para a minha analista que Philippe Toussaint, um personagem de Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, me faz lembrar do meu ex, ao que ela responde, pesado, hein? Sim, pesado. Sigo a leitura e agora percebo mais fortemente o meu pai no mesmo personagem. Também passo a ver a minha mãe no lugar de Violette, a protagonista da história, e a mim mesma. Das muitas coisas que eu percebo, a principal é o fato de que, assim como Philippe Toussaint não via Violette, sua esposa, meu pai jamais viu a minha mãe (que inclusive sempre foi areia demais para a carrocinha dele, em todos os sentidos), assim como meu ex-companheiro nunca, mas nunquinha mesmo me enxergou, sendo essa realidade muito mais comum e sintomática do que possa parecer. Basta deixar o celular de lado e olhar ao redor (muitas vezes dentro da sua própria casa).

Desde que me separei, voltei, evidentemente, a me envolver com homens que não me viam ou que eventualmente me viam como uma possível mãe (o que dá na mesma), já que esse parece ser um dos meus clichês amorosos; por muito tempo, sofri com a ansiedade, a falta de ar e o desespero advindos de uma sensação de total rejeição, de absoluto desamparo. Até o dia em que, entre braçadas dadas em uma das raias laterais da piscina (prefiro as centrais, de forma que evito as duas laterais extremas, as que beiram as paredes), a falta de ar derivada de uma decepção amorosa recém-sofrida apareceu como outra coisa. Não era aquela pessoa, não era aquela relação. Era outra coisa, outra pessoa, outra (não) relação. Era e sempre tinha sido aquele homem que, lá atrás, não nos via, nem a mim, nem à minha mãe. O resto não importava, era só repetição, o gozo insaciável da pulsão de morte, esse algo além do princípio do prazer, essa coisa que silenciosamente destrói vidas enquanto faz as nossas engrenagens girarem eternamente em falso.

E essa pessoa com quem você ficaria, onde está, me pergunta a analista. Não sei. Provavelmente morando em algum outro país, fazendo o décimo quinto pós-doc da vida, lendo, escrevendo, enfim, vivendo. Melhor não saber. Melhor não saber? Fico pensando na pergunta e entendo, depois, que sim, melhor não saber, pois essa pessoa não é mais aquela que um dia eu namorei, assim como eu também não sou a pessoa que ele namorou. Hoje, somos absolutos estranhos um para o outro, e não há fantasia nem mistério algum a respeito disso. É como as coisas são e pensar de outra forma seria cometer o mesmo erro do professor, o bonitão da bala Chita que segue vida afora repetindo, repetindo, repetindo.

O fim da tarde se aproxima e hoje o dia estava lindo. É domingo e, ao contrário do habitual, me autorizei a não ir à academia. Pela manhã, observei a luz entrando pelas janelas da sala de maneira a permitir o reflexo das folhas dos grandes vasos do jardim na tela da televisão. Olhei para uma faixa de luz que se destacava no ambiente e só não a toquei por receio de dissipar, prematuramente, a delicadeza daquele instante. Tomei o café da manhã, minha refeição preferida, devagar, aproveitando cada gole, cada garfada. Li um romance, abracei e beijei meus filhos caninos, escrevi. Agora é hora de caminhar com a Amora, que anda solta e livre pelas ruas do condomínio, essa estrutura absurda criada pela nossa sociedade igualmente absurda. Enquanto ela anda na minha frente, observo os pássaros, a vegetação, as tonalidades do céu, a lua e as estrelas quando estas estão visíveis. Vivo o mundo ao meu redor e dentro de mim, independentemente do olhar de qualquer outro.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Pequenas Coisas Como Estas

Para Sempre Lilya é o nome do filme que eu vinha tentando lembrar. Dei de cara com ele nas páginas de O amigo, livro de Sigrid Nunez, no qual a protagonista, ao falar com seu amigo suicida, discorre sobre assuntos diversos. A uma certa altura do romance é mencionada uma oficina literária oferecida a mulheres que estavam num abrigo para vítimas de escravidão sexual. (Enquanto escrevo me pergunto, uma vítima de escravidão sexual algum dia deixa de sê-lo?) É nesse ponto do livro que Sigrid menciona Para Sempre Lilya, o filme mais triste que já vi na vida, assim como é também nessa parte do romance que deparo com outra palavra que de alguma forma eu andava buscando, uma palavra que pudesse carregar o sentido do que eu havia sentido ao reler, por aqueles dias, A feminilidade, texto escrito por Freud em 1933.


Humilhação.


Um homem, seja ele quem for, jamais vai saber o que uma mulher sente. Virginia Woolf, Hélène Cixous, elas sabiam, e sabiam do que se tratava quando nos diziam para escrever. Mulheres, escrevam, como um imperativo, uma possibilidade.


Sigo estranhando a escrita masculina, que me soa chata e entediante com mais frequência do que eu gostaria. Abandono romances, retomo alguns. Paul Auster, A invenção da solidão, foi deixado de lado por um tempo. Felizmente o retomei. Édouard Louis, uma exceção. Fico completamente tomada pelo seu ritmo, encorajada pelo seu método. Uma exceção.

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Ela já havia tido três filhos quando engravidou do quarto. O primeiro deles, S., morreu logo após nascer (ou talvez tenha nascido morto). Ao engravidar pela quarta vez, não desejava ter mais um filho; é inclusive provável que nunca tenha de fato desejado ter algum. Mas será que alguma vez ela teve a oportunidade de saber o que desejava para si?

Contou ao marido que estava grávida e que não ia ter o bebê. Uma cunhada do interior sabia de um médico que resolvia essas questões e o dia e o horário já estavam agendados, ela iria se livrar daquilo, eles iriam se livrar, ao que o marido respondeu que não a acompanharia, que ele não poderia levá-la. Ele jamais a levaria.

No dia marcado, ela tomou a menina, caçula, e o menino mais velho pelas mãos e saiu de casa. Por que nós vamos de ônibus para a casa da tia G., mãe? Porque o seu pai não pode nos levar, ele está trabalhando. Ao desembarcarem na rodoviária da pequena cidade, ao contrário das expectativas das crianças, que imaginavam que seu destino seria um lugar familiar, rumaram num táxi para o consultório do médico, onde a menina e o menino foram deixados na sala de espera, um relógio de parede emitindo o ruído das horas, as mãos da menina se abrindo e se fechando sobre o sofá grosseiro, duro como as paredes que sustentavam quadros onde se viam cenas campestres emolduradas por madeira cor de mogno, os dedos falhando na tentativa de se agarrarem a algo.

Décadas mais tarde, a menina conta o ocorrido para a sua filha, uma mulher para a qual a ideia de engravidar sempre soou estranha. A filha imagina se o aborto foi feito como em O acontecimento - livro no qual Annie Ernaux relata a experiência dolorosa e praticamente indizível de um aborto que lhe aconteceu na juventude, quando a França, país onde vivia, ainda proibia a prática - ou de outra forma. Imagina o que passava pela cabeça da avó quando estava no ônibus, com duas crianças, a caminho de uma cidade do interior, e o que ela pensou e sentiu depois de sair do consultório. Ao imaginar, a filha escreve, podendo agora se agarrar a alguma coisa.

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A minha avó era um bebê quando foi levada para um internato de freiras, junto da sua irmã, pouco mais velha que ela. A mãe delas, acometida pela hanseníase, havia sido encarcerada num hospital, no qual, anos depois, viria a morrer, sem nunca ter saído de lá. O pai das meninas, meu bisavô, prontamente se casou com outra mulher e, dos três filhos que havia tido com a minha bisavó, ficou somente com o mais velho, um homem. 
 
Minha tia-avó se tornou ateia; minha avó odiava freiras, ou o que elas representavam, com todas as suas forças. Cresci ouvindo as duas relatarem algumas das coisas que haviam visto e vivido no internato e, das frases que ficaram na minha memória, a que me veio agora, enquanto escrevo, na voz da minha tia H. é “as freiras não tinham coração”. 
 
Já ao terminar de assistir Pequenas Coisas Como Estas, filme adaptado do romance homônimo de Claire Keegan que aborda a questão das atrocidades ocorridas nas lavanderias de Madalena na Irlanda, a imagem que imediatamente me veio à mente, junto com os créditos do filme, foi minha avó. Duas palavras formando uma imagem corrida, por extenso. E depois, a do internato, que  não conheci, somente imaginei a partir das palavras que me foram ditas.

Minha tia H., que quando criança teve o mesmo destino da irmã, talvez pelos tantos livros que ocupavam as suas paredes de adulta e pela sua inteligência apurada, sempre me pareceu mais forte do que a minha avó; ou talvez não fosse a inteligência, mas a sensibilidade, a afetividade que nos dirigia, a nós, sobrinhas e sobrinhos, a maneira como se derretia conosco e com qualquer outra criança, a forma como sentia compaixão pelas pessoas, que, paradoxalmente, a fizessem parecer mais forte, mais coesa, mais humana. Tia H. era muito diferente da minha avó, que gostava de me presentear com brinquinhos de ouro, bolinhos de espinafre, doce de abóbora sem coco e farpas, muitas farpas. Dois bicudos não se bicam, ela dizia. Nós não nos bicávamos e pouco nos afagávamos. E ainda assim, por todos os outros motivos do mundo, são essas as duas palavras que mais me fazem falta.

Minha avó.

sábado, 1 de março de 2025

A estranha familiar

"Alma-menina no tempo? Não, ela não se envergonhava de seu narcisismo. Era com ele que ela compunha e recompunha toda a sua dignidade. Encarou novamente o espelho e se lembrou de um poema, em que uma mulher, contemplando a sua imagem refletida, perguntava angustiada onde é que ela deixara a sua outra face, a antiga, pois não se reconhecia naquela que lhe estava sendo apresentada naquele momento."

Do conto Luamanda, de Conceição Evaristo, em Olhos d'água


Eu tinha trinta e nove anos quando olhei no espelho e não me reconheci. Foi então que a dermatologista que procurei alguns dias depois me contou, como quem revela o óbvio a alguém muito distraído, que chega uma hora em que o rosto derrete.

Desde então, venho acompanhando o derretimento dos meus traços e só agora, ao escrever, percebo que o esgarçamento dos meus tecidos não seria tão ruim assim se a coisa toda se restringisse ao corpo. O grande problema é que o desabamento muscular vem acompanhado de uma espécie de esmagamento narcísico por uma bigorna que despenca, sem aviso prévio e pesando toneladas, sobre o aparelho psíquico. Para além da realidade, o real, aquilo que não pode ser nomeado exceto talvez pelo nome de angústia, desabou recentemente sobre a minha cabeça, deixando claro, mais do que nunca e por vias que não passam pelo intelecto e pelo pensamento racional, que não é o rosto que escorre, mas a vida.

Olho novamente no espelho e pergunto para essa nova mulher de quarenta e seis anos que apresenta uma ruga persistente sobre a sobrancelha esquerda, marcas do chamado bigode chinês, alguma flacidez sob o queixo, olheiras mais fundas e aparentes e que não sabe se e quando vai menstruar novamente, o que você fez até aqui, o que você vai fazer daqui pra frente, com o tempo que resta?

Envelhecer dói. É como cortar bem fundo a pele em duas metades. A metade jovem e a metade velha. É o corte que se abre nas costas de Elisabeth em A Substância, para que a jovem Sue possa nascer. Sue, uma outra que é também Elisabeth mas que ao mesmo tempo é uma completa estranha. Paradoxalmente, no filme, a estranha que nasce é uma jovem; na vida real, a estranha que está nascendo em mim vestirá a metade velha da pele, o pedaço novo que surgiu a partir do corte. Assim posto, de repente me parece que envelhecer talvez seja algo da ordem do impossível e tautologia é a palavra que me ocorre, embora muito provavelmente ela não seja a correta. Envelhecer é sempre verdade, mas também é uma grande mentira.

Envelhecer dói. Nascer também.

Sobre o futuro

Ata-me, é o que me vem à mente quando olho para o branco estampado na tela do computador. Me dá um nó, me amarra à vida. Não que a sensação de descolamento que venho sentindo ultimamente seja ruim. Não. É como estar permanentemente pisando em uma camada de algodão, como flutuar; é de uma leveza que eu não conhecia, ou melhor, de uma leveza que conheci há muito tempo e da qual já havia me esquecido. As causas eram diferentes, o contexto também, mas o descolamento (quase escrevi deslocamento) já esteve lá, já esteve aqui. Menos leve, pois havia uma fissura mais pronunciada, a do tempo, a da preocupação com o tempo, com o futuro. Eu vivia tão à espera do futuro que, quando ele chegou, mal percebi.

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O futuro, essa coisa lisa e macia, que brilha e explode como as bolhas de sabão sopradas pelas crianças. Horrorizada, maravilhada, eu ando sobre ele.


Sobre o futuro, essa coisa que não existe.

domingo, 8 de setembro de 2024

O lugar

O vestido florido no final, a rua escura no começo. O perdão é mesmo o lugar dos contrastes. Eu não pensava assim, ou pelo menos não com essas palavras, quando falei com você pela primeira vez sobre Tre Piani. O perdão como o lugar do imperdoável, ouvi uma escritora, a Carla Madeira, dizer numa entrevista, mas de outro jeito. Ela disse outra coisa, que em mim saiu diferente, agora, ao escrever. Tudo sai melhor de mim quando escrevo, de forma que às vezes chego a pensar em nunca mais abrir a boca.

É também um filme sobre o perdão, eu falei. O único problema é que a arte imita a vida, mas a vida não imita a arte. Na vida tudo é mais difícil, mais duro, e muitas vezes não há como conversar. Então hoje, passados mais de dois anos da primeira vez que vi o filme, ouvi novamente a entrevista da escritora, o perdão como o lugar do imperdoável, o imperdoável como aquilo para o qual não há conversa que resolva. Ouvi e entendi pois, assim como o filme, eu comecei essa análise muito mais escura, turva, embaralhada, quase embalsamada, de tão mortas algumas partes de mim, a do perdão completamente enterrada, a da esperança e a da confiança perdidas como um náufrago que se vê destituído de sua embarcação. Agora tudo é mais flat, eu disse recentemente, estranhando as sessões, estranhando a mim mesma, estranhando o perdão. Assisti Tre Piani novamente, eu falei, e ultimamente tenho me policiado para não girar o tronco na sua direção para olhar nos seus olhos enquanto falo, para me manter reta no divã, encarando aquele quadro que a cada sessão me diz uma coisa diferente e os livros que querem me dizer tudo, sinto vontade de levantar e puxar alguns da estante, tê-los ao meu alcance, sobre o meu colo, cobrindo o meu ventre, as minhas coxas, vi Tre Piani e dessa vez pensei diferente (ainda teimo em chamar sentimento de razão), pensei que a arte imita a vida e que a vida pode sim imitar a arte.

Na primeira vez eu mal percebi a lei que atravessa a tela a quase todo instante, o processo que é usado como remédio e também como marcador do tempo. Freud amava os escritores e a mim me parece muito claro o porquê. Em Não fossem as sílabas do sábado, a protagonista criada por Mariana Salomão Carrara diz que quando se está com muita raiva de alguém ou não se consegue sentir mais nada, ou ambas as coisas, nada é mais eficiente do que iniciar um processo e eu penso em todas as dores, frustrações, mágoas, em todo o desprezo e em toda a indiferença que já circularam pelas folhas e pelos corredores do poder judiciário, as varas de família, em especial, fazendo o que podem para remediar, de forma mais ou menos capenga, a nossa falta de jeito para nos relacionarmos com os outros e para lidarmos com nós mesmos.

Nanni Moretti disse, numa entrevista, que o escritor israelense Eshkol Nevo, autor do livro homônimo do qual  Tre Piani foi adaptado, declarou, após assistir ao filme, que ele esperava e cria que aquele filme corajoso permitisse aos que o vissem perdoarem a si mesmos e aos outros e eu penso que isso vale para o filme todo e não só para Lucio, o personagem que centraliza a questão do abuso sexual levantada no filme.

O processo que se instaura em razão do ocorrido entre ele e Charlotte, a neta de seu vizinho Renato, a quem Lucio imputava um suposto abuso da sua filha Francesca, parece transcender a esfera judicial e funcionar como o instrumento que a protagonista de Não fossem as sílabas do sábado descreve, essa coisa que vai lentamente sugar e arrogar para si as desavenças e traduzi-las numa língua que quase não é a sua. No filme, o luto de Giovanna, esposa de Renato, os sentimentos da mãe de Charlotte e a rejeição sofrida por esta são despejados num processo cujo julgamento é o marco do final dos primeiros cinco anos do filme, o qual, ao todo, soma dez. Tal extensão no tempo não existe no livro de Eshkol Nevo, tendo sido introduzida no filme por Nanni Moretti, e eu penso que o interessante aqui talvez seja o fato de que da mesma forma que um processo tem seus ritos e tramitações próprios, com prazos contados em medidas de tempo, a estrutura de Tre Piani é montada sobre acontecimentos de vida e de morte, os quais funcionam como marcos temporais que acometem a todos nós e que nos fazem sentir a passagem do tempo. Antes e depois, divisores de águas.

Uma mulher grávida prestes a parir que é posta em cena atravessando a noite em busca de ajuda para ir até o hospital enquanto um carro em alta velocidade é freado por uma parede, não sem antes matar uma pessoa. Entra em cena a lei, os pais do motorista Andrea, Vittorio e Dora, ambos juízes, ele, no dizer de Nanni Moretti, o personagem que usa a máscara da integridade moral, da lei. Dora, a meu ver, a personagem mais interessante do filme e aquela à qual eu mais me afeiçoei. A rigidez do pai com o filho, o espancamento daquele por este, a escolha imposta a Dora, a escolha que ela faz, as consequências. A morte de Vittorio, marcando mais uma vez a passagem do tempo, dez anos, o encontro de Dora com Luigi, o reencontro dela com Andrea. A minha cena preferida, Dora dentro de um carro telefonando para o número de telefone de sua casa e falando com o marido morto por intermédio da secretária eletrônica, por que, ao longo da vida, nós não nos permitimos mais, ela ouve o bip do aparelho e desliga, mais de uma vez faz isso, como se não fosse possível falar com Vittorio sem um intermediário, como se não fosse possível seguir falando, escutando, sozinha, a própria voz.

Monica, a mulher grávida do início do filme, a solidão, o medo da repetição da loucura da própria mãe. A entrada de Dora em sua casa no momento do primeiro banho da bebê, Monica lhe dizendo que com ela ali as coisas pareciam mais reais, e eu me vejo na cena, sem um terceiro, sem um olhar, sem o outro, a realidade fica inefável, insustentável demais para ser real. Monica e o grande pássaro negro, Monica que sonha, delira, alucina, o cunhado, o sexo, a ausência quase permanente do marido, a segunda filha, será que eu vou conseguir, e ela enlouquece. Enlouquece? Ainda não consigo dissociar a sua loucura da liberdade da dança, da música, da festa que invade os cômodos do prédio de três andares e coloca os seus moradores em outra perspectiva, na rua, como observadores, como pessoas alheias às suas próprias realidades por algum tempo.

Dora, de novo ela, a morte de Vittorio abrindo uma janela para outras formas de vida, para as cores, para o amor. É muito difícil amar com rigidez, venho aprendendo, e Dora me lembra a minha mãe, o que só agora, escrevendo, percebo. A minha mãe diz, que vestido deslumbrante, e no final Dora aparece, solar, com o vestido florido, deslumbrante. O filme termina e pela segunda vez eu me emociono, sem saber de que lugar vem o choro.


O imperdoável, o lugar do perdão.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

E a nave vai*

Sentada à mesa de um bar agito a mão na qual seguro um copo de cerveja e digo que daria um dedo para ter de volta o mundo que existia antes da pandemia. No dia seguinte, sentada numa sala de cinema, penso que daria dois dedos para ter de volta o mundo dos objetos ao qual Aksel, o personagem na casa dos 40 anos de A Pior Pessoa do Mundo, faz referência. Lembro então que também já cheguei a pensar, olhando para a água que escorria do chuveiro, que daria um braço para poder me despedir de uma pessoa que eu amava muito e que morreu de repente. O porquê de viver pensando em me fragmentar eu não sei, mas para me conter escrevo com as palavras que vão sendo continuamente projetadas nas paredes do meu crânio, como se fosse eu também uma tela de cinema.


Tentando curar alguma coisa, escrevo uma mensagem na qual se lê que de ressaca a coração partido o cinema sempre foi o meu lugar de cura. Deborah Colker coloca dois homens, uma grande atadura e Leonard Cohen juntos num palco e tenta curar a dor que vem da doença incurável do seu neto Theo. O jeito que ela tem de tentar se curar me faz chorar.

Leonard Cohen me arremessa no corpo das lembranças de uma grande paixão, vivida na mesma intensidade dos festivais de rock e da pulsação inerente às ruas de cidades como Paris, Londres e Berlim, uma paixão que tirou da cartola o mapa do mundo e o colocou nas minhas mãos, não sem antes me mostrar os truques que eu precisava saber para me orientar sozinha nele. Eu sempre penso na raridade desse encontro.

Num outro planeta, mais concreto e ordinário, um homem pelo qual eu estava me apaixonando me diz, nós temos tempo de sobra para ver se vale a pena viver esse amor, e enquanto ele dizia eu escrevia, pensando, que porra é essa, do que é que ele está falando, quem tem tempo sobrando para esperar viver qualquer coisa, quem dirá um amor?

Os créditos de Dor e Glória sobem e eu saio do cinema soluçando e pensando que se Pedro Almodóvar tivesse feito só esse filme ele já teria sido um dos diretores mais fantásticos de todos os tempos. Os créditos de Tre Piani sobem e eu penso, contendo os soluços, em Dor e Glória. Os dois filmes falam sobre o tempo e sobre o envelhecimento, mas isso eu só percebi depois.

Uma personagem de Tre Piani pergunta ao marido morto, enquanto deixa uma mensagem na secretária eletrônica, por que, ao longo da vida, eles não se permitiram mais. Voltando do cinema ouço no carro aquela música que diz que hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir, e que não há tempo que volte, e novamente eu penso, quem é que tem tempo de sobra?

Julie, a protagonista na casa dos trinta anos de A Pior Pessoa do Mundo, tem muitas dúvidas e um pai indiferente. Eu tenho muitas dúvidas mas na casa dos quarenta descobri que escolher também é ser livre. Meu pai continua indiferente.

Com música e dança deslocadas na rua, Nanni Moretti suspende o tempo em uma das cenas finais de Tre Piani e o atravessa com a loucura da personagem que não suportou ser mãe. Eu imediatamente penso em Fellini e me vejo sentada diante de Amarcord e de E la Nave Va. Subi a montanha mágica de Thomas Mann, folheei Mário Schenberg e me encantei com Bergson, mas até agora não descobri o que é o tempo.

Eu digo que não choro nunca mas sempre me pego chorando. Eu digo que não me rasgo mais e logo em seguida passo uma noite e um dia inteiros me rasgando. No carro a caminho de casa ouço a Tati Bernardi dizer que a potência está justamente em se rasgar. Eu entendo, com a carne, e penso que é melhor viver de peito aberto, ainda que rasgado, do que morrendo afogada.
 
 
* Texto originalmente publicado neste blog em 30 de maio de 2022.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Holy Spider*

Tenho sonhos elétricos, o pai diz à filha, a movimentação no entorno da mesa à qual estão sentados intensificando a necessidade de foco do espectador na cena que se desenrola no primeiro plano.

E você, quais são os seus sonhos?

Acordo e percebo que algo havia se perdido. Tive um sonho ruim, falo, enquanto conto com palavras as imagens que me fizeram acordar angustiada, aliviada, foi apenas um sonho.

Ruas escuras, muros altos, vielas, labirinto. Outro sonho, cabeças e cabelos cobertos, rostos apreensivos. Procuro, não tem saída. Eu vou arrebentar a sua boceta, diz a legenda, traduzindo o intraduzível. Quem inventou as palavras? Como foi que elas vieram parar nas nossas bocas? Paradoxos do enlouquecimento, elas parecem nunca estar à toa, nunca ser à toa.

A minha casa é dos meus filhos, não é lugar para levar mulher, e os meus olhos se fixam com mais atenção na cena para depois se desviarem do resto do filme. Muito barulho por nada seria um bom título para ele, penso, enquanto os resquícios do áudio derramam uma cagação de regra que levanta uma parede de certezas em dry wall - alvenaria é luxo de outros tempos -, mas aquele título já foi usado há centenas de anos, no século dezesseis, salvo engano, por um texto, esse sim, contemporâneo.

Tenho uma amiga muito poderosa na vida que pelo menos na cama quer ser mulher, ou seja, estar abaixo do homem. Suspendo a respiração para ler com atenção até constatar que é isso mesmo o que está escrito. Inspiro, expiro pela boca, uma, duas, três, quatro vezes. Mas que legenda é essa? De qual roteiro saiu essa lógica? Quem escreveu esse filme longo, repetitivo e chato? Lippy e Hardy, o desenho, penso nele sem parar. A hiena que, ao invés de rir, passa os dias a se lamentar, a se ressentir.

O melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui, a voz do Caetano muito alta reverbera dentro do carro, os rastros deixados pelos meus pensamentos marcando o tempo que fica na estrada, Trilhos Urbanos que sucedem uma Elegia, nudez total, todo prazer provém do corpo, como a alma sem corpo, sem vestes, como encadernação.

No final das contas somos vazos preenchidos por vazios de tempo e por palavras que entregam todas as nossas sementes. Aniquilação, destruição, desprezo, humilhação. Medo, ressentimento. Mas do quê? O esforço constante, eterno, derrapante das palavras. Exceto quando cortam, como facas. Annie Ernaux, Virginia Woolf, a recusa da escrita como feminina ou masculina; Cixous, o contraponto. Inspiro e expiro pela boca novamente. Estou cansada. Não sou homem nem mulher, sou gente, e também sou bicho. É assim que eu escrevo, é assim que eu vivo. Gente, como qualquer outra mulher.

O problema é que eles não sabem ler.


sábado, 10 de agosto de 2024

Twist in my sobriety

Mas tá um pouco apaixonada? Tem que estar, né, baby, senão não tem graça. Uma paixonite pelo menos, vai? Olho para a frente e depois para o lado fazendo a curva à direita e deixando a Avenida Ipiranga para trás. Engasgo, respondo, não sei se sou sincera. Paixão, paixonite, amor, qual é a diferença entre essas palavras?

A frase diz em voz alta, gravava cartas de amor em vinil, era nítido que estava muito apaixonado. Mas as cartas eram de amor ou de paixão? Enquanto a água escorre e leva a espuma que recobre as facas que seguro sob o jato d’água, deixo escapar em voz baixa, quais são as palavras que alguém usa para dizer eu te amo?

Toda nudez será castigada e no entanto eu me sinto absolutamente impune dentro da minha, exceto pelo espelho muito quadrado que me olha do alto como um juiz, como o duplo que me olhava de cima, imóvel, na diagonal de um dos cantos da biblioteca excessivamente iluminada onde eu lia O Livro Azul.

As suas roupas são predominantemente pretas e cinza, como as minhas, e estou de volta às imediações da Avenida Ipiranga depois de uma caminhada em linha reta pela Higienópolis. No verso da Maria Antônia seus braços, peito e boca são quase uma poesia, exceto pelo que não é. Árido Movie, você assistiu? As câmeras ao nosso redor nos observam inertes de dentro de suas capas. Veja como pesa. Seguro uma delas com as duas mãos e tudo o que vejo é movimento, o Vietnã se abrindo em imagens e palavras, um livro. E depois? Depois seguir e não voltar, fantasia de quem só se sente real em outras realidades, de quem sente o radical da alteridade como um remédio.

O livro que você me entrega é quase tão pesado quanto as suas câmeras e as histórias que ele abriga saltam das páginas para a mesa de um restaurante peruano barato no centro de São Paulo. Certa vez vi um rato passeando por entre as mesas mas não me importei. Lembro do rato e sigo sem me importar. Só o que me interessa são as crianças que nunca veem o sol e a bailarina que são duas, uma que sorri abertamente longe da casa em que cresceu e outra que é triste perto dela. Por cima da mesa o meu olhar engole as Américas que surgem nas suas palavras da mesma maneira que os seus olhos me mastigam quando você me vê andando nua pelo apartamento minúsculo em direção ao banheiro ou desfilando pela sala da sua casa, escova de dentes elétrica em punho. Deixo claro que tenho duas delas e você ri ainda mais, como uma criança que se diverte com um brinquedo novo.

O nosso jogo é uma brincadeira de criança em corpo de adulto onde só não entram os joguinhos infantis. I Drove All Night no repeat intercalada com a sua voz, chamadas telefônicas como as que fazíamos quando éramos adolescentes. Dirijo mais de uma noite assim, numa ligação com você, mas chego mais tarde do que o esperado e não consigo olhar para aquilo que em você é tão diferente do seu corpo. Você de fato poderia me esmagar como a um brinquedo que não se quer mais, mas no fim sou eu quem não consegue segurar aquilo que o peso das suas câmeras não revela. Só as lentes.

Eu sei que eu te machuquei.


O tempo, lógico.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Losing my religion

Deserto do Saara/Marrocos


São cinco horas da manhã, o mesmo horário do meu fuso ao contrário. Do o
utro lado do mundo eu despertava - literalmente, já que me punha de pé com todos os sentidos prontos para se atirarem do quadragésimo andar -, todos os dias, às cinco horas da manhã.

Eram cinco horas da manhã quando olhei as horas no relógio. Relógio não, celular, pois atualmente quem é que olha as horas num relógio? Posso até responder que eu sim, mas somente às vezes, no mesmo relógio que aquele homem plantado no meio de um deserto insistentemente pediu que eu lhe desse em troca de algo, o homem que eu pude ver, enquanto o carro saía, despido da túnica com a qual havia nos recebido e que nos olhava com um misto de sentimentos que eu não quero nomear aqui. Senti pena dele, senti pena deles.

Cinco horas da manhã, os meus olhos agora muito abertos olham diretamente para a parede depois de terem olhado para a tela. Aprendi que a forma, em associação livre, é tão importante quanto o conteúdo, e que o tempo cronológico, dentro dessa forma, é puramente lógico. Procuro dentro da minha cabeça um lugar para me instalar, um espaço em branco onde nenhum tempo exista, mas o som que atravessa as paredes do quarto me confunde e eu fico girando em falso pelas vielas que me compõem, buscando sem encontrar uma origem e um sentido para o barulho que havia me acordado.


São cinco as pontas da estrela, são cinco as orações diárias. Eram sempre cinco as horas quando eu ouvia o chamado.


Azul cor de mar de revista, verde e vermelha a bandeira, telhados também. Um carneiro é arrastado e grita ladeira abaixo em meio à multidão multicor. Véus, túnicas, rostos expostos e cobertos, olhos que olham com a mesma curiosidade que os nossos. Estranhamento. Um chá muito verde, a menta que me faz lembrar, antes e agora, das coisas mentoladas das quais desde criança eu gostei. Gosto. O chocolate, o chiclete, o sorvete, o cigarro. Familiaridade. Ruas estreitas, um labirinto incrustado numa joia moderna. O nome é lindo e eu gosto de tê-lo dentro da minha boca. Escolho cidades também pelos seus nomes e homens também pelas suas vozes, pelas palavras que utilizam. Mesmo não entendendo nada do que é dito no seu idioma materno eu tento repetir as poucas palavras que ele me ensina como só uma aluna muito aplicada faz. Pronuncio e repito até tentar acertar, até talvez acertar e sentir uma pontada de um imenso prazer íntimo com aquele feito aparentemente simples.

Outra cidade, pintada com a cor do mar da primeira, cujo nome eu giro na minha língua e engulo nos dias seguintes com o sol que cai atrás da montanha que carrega as casas pintadas de azul e com o sangue dos carneiros sacrificados que escorre, abundante, pelo meio-fio. Na outra grande festa não se matam animais, ele me explica depois de alguns quilômetros, o meu esforço para não apagar pesando no ar condicionado.

A terra absorve o sangue, mas não por completo. Eu quero, mas é difícil engolir o carneiro naquela noite. Emagreço. Mais. Muito magra, ela me diz, e eu lembro de um sonho ocre que sonhei ter escrito. Fragmentos, os nossos, abandonados na porta de um quarto. Mais uma vez o tempo lógico. O escritor brinca com as palavras, cria oásis verdejantes no deserto, sóis muito amarelos, dunas que mudam de cor ao longo do dia, da noite, da lua, montanhas cujas formas nos fazem parecer mais insignificantes do que olhar para o céu em noites estreladas. O escritor cria até o que não existe, cria o tempo. Fiat lux, duas palavras, e o mundo começou, da mesma maneira que o jorro de água quente que alcançou o meu corpo inerte sobre a bancada me levou até o início, até o lugar que era somente corpo a ser embalado por mãos macias besuntadas em óleo de oliva e depois esfregado, a pele arrancada, peau de bébé, ela me dizia rindo, um riso genuinamente alegre e doce, diante do meu espanto ao ver pedaços de pele soltos pelos meus braços. Doux, ela falava enquanto me esfregava como a um bebê, como se eu fosse uma boneca agora sentada sobre a bancada, as pernas soltas no ar, os braços abandonados ao longo do tronco, e eu ficava ainda mais espantada ao sentir a lateral direita do pescoço arder sob a bucha com a qual ela me esfoliava, espantada com a força da suavidade e com a minha entrega ao não dizer nada, ao não querer controlar nada, ao desejar apenas que o calor, o cheiro de azeitonas e de argan e as mãos e o riso daquela mulher durassem a eternidade que pudessem durar.

O controle se desfaz como a areia do deserto, que eu devia ter colocado num potinho para trazer comigo. Não, não é como a da praia, é diferente, tem outro movimento, outra textura, outras cores. Escorre pelos dedos num outro tempo, de outra forma. Invade todos os poros, todas as reentrâncias, para depois desaparecer. Não sei aonde vai parar, onde começa, onde termina. Perco o controle, choro ao ver o sol despontar no horizonte, uma meia-lua amarela exuberante, a sensação de poder apanhá-lo e comê-lo como se fosse um quindim, doce, macio, úmido. O sol do deserto é úmido e o das montanhas canta, venta, se faz presente a cada parada, a cada mirante, a cada fotografia. Choro novamente, o controle que vá para o inferno, não me interessa mais saber itinerários, cardápios, não quero mais ter sinal de celular nem notícias de um mundo que não está ali, tátil, visual, sonoro. Quero apenas conjugar tempo e espaço, transformá-los em verbos e pronunciá-los em todas as pessoas.

Toco por alguns segundos com os meus dedos cheios de areia o impossível, o sentido do absoluto sem sentido que é a vida, a pele do meu pescoço, sensível como a de um bebê, recebendo o sol que entra pelo vidro dianteiro do carro. O sol quindim, perecível como a vida, se não comer estraga, a minha pele sabe disso e o engole com todas as letras para depois derramá-lo onde e como bem entender. O eterno retorno, as minhas ausências, as minhas certezas, todas revolvidas.

O parafuso que afrouxa mais uma volta.