sexta-feira, 15 de maio de 2026

Temporária

Estamos andando por uma das ruas do centro histórico da cidade onde eu nasci no início da tarde de um dia de feriado muito quente e iluminado, o calor do sol apressando os nossos passos e afugentando os turistas das praças e das calçadas, quando, em resposta a algo que eu acabara de dizer, uma amiga me diz, mas quando é que você não esteve temporária? Naquele momento ela se referia, implicitamente, ao fato, para ela muito curioso, de eu nunca ter desejado comprar uma casa na cidade onde nos conhecemos e onde eu havia vivido os primeiros vinte anos da minha idade adulta, assim como ao fato, também um tanto inexplicável do ponto de vista dela, de eu ter vendido a única casa que comprei, em outra cidade, poucos anos após adquiri-la.

O comentário me pegou de surpresa e, com o olhar posto nas paredes brancas do prédio histórico de arquitetura colonial cujo jardim externo, ao longo da minha infância, me encantava, e pelo qual agora passávamos, concordei com a minha amiga, dizendo, é, você tem razão, quando é que eu não estive temporária?

Naquela noite, porém, ao deitar na minha cama recentemente comprada, no quarto de uma casa onde moro há poucos meses, na mesma cidade onde nasci e para a qual nunca havia planejado voltar, cercada pelos meus dois cachorros e por novos e velhos objetos, pensei, mas quando é que todos nós não estivemos temporários?

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Eram os anos finais do século XX, 1999, talvez o ano 2000, quando o meu tio, o único irmão da minha mãe, foi morto. Na época, eu fazia estágio num escritório de advocacia muitíssimo badalado - onde, entre almoços e jantares em restaurantes caros, clientes famosos, dias, noites e madrugadas de trabalho em Inglês e Português e assédio moral com uma pitadinha de assédio sexual por parte do meu chefe direto, um homenzinho frustrado, asqueroso e insuficientemente competente - e fui avisada pela secretária do meu setor de que devia ir imediatamente para casa, a dos meus pais, em outra cidade. A minha mãe havia ligado, algo havia acontecido com o meu tio, eu devia ir e isso era tudo. Peguei a minha bolsa e fui, levando a tiracolo Mal secreto - inveja, livro do Zuenir Ventura que eu estava lendo naquele momento e que me fez companhia no ônibus, no trajeto entre as cidades. Ao chegar, desci antes do ponto final, que seria a rodoviária de Itu, e caminhei até a casa da minha avó, que lá estava sozinha, em seu quarto, sentada na cama e com a luz apagada. Ao me ver, ela disparou, o Nei matou seu tio. Do instante do disparo e dos segundos subsequentes, além da frase, o Nei matou seu tio, lembro da maçaneta da porta do quarto, junto da qual eu estava parada, em pé; da sua forma, redonda, e da sua cor, prateada, contrastando com a madeira da porta. Lembro da frase, da maçaneta e de ser tomada pela sensação inequívoca de que o tempo, o curso do tempo, após uma breve suspensão, havia sido alterado.

Na volta ao trabalho, conversando com um dos meus chefes, ele me falou, a respeito do assunto, algo como, é melhor não contar. Afinal, um homicídio na família, ainda que se tratasse da vítima e não do assassino, era uma mácula que um membro daquele escritório tão distinto não podia carregar. Poucos meses depois, mandei o badaladíssimo escritório e as expectativas que os outros e que eu mesma tínhamos a meu respeito às favas. A vida era curta, frágil e temporária demais para não poder ser contada.

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No início de 2020, quando a pandemia chegou, a primeira coisa que me veio à cabeça foi, ainda bem que eu viajei. Eu havia passado os últimos muitos anos planejando e executando viagens, com direito a todos os experimentos que olhar para fora do meu próprio umbigo podia incluir (que é o que eu entendo por viagem), custasse o que custasse. Cheguei, em alguns momentos, a não ter um sofá, por exemplo, e a abrir mão de uma série de coisas, de conforto e de segurança patrimonial, inclusive. Como servidora pública, tinha e tenho um emprego estável, é verdade, mas nunca tive dinheiro para tudo. De maneira que escolhi viajar.

No dia 17 de julho de 2019, pouco antes, portanto, do início da pandemia, ao colocar os pés no Brasil de volta de uma viagem à China, fiquei sabendo que minha avó, a mãe da minha mãe e do meu tio morto, havia morrido e estava sendo velada. Do aeroporto fui direto para o velório. Em outubro do mesmo ano, a Gigi, minha filha-cachorra que era também uma extensão do meu corpo, morreu. Tanto a minha avó quanto a Gigi estavam em fase de cuidados paliativos, ambas muito velhas, de maneira que as suas mortes foram, num certo sentido, tragédias anunciadas, o que, do ponto de vista do meu inconsciente, não teve a menor serventia, já que ambas as perdas me afetaram profundamente.
 
Em 2024, no auge de uma crise reumática, voltei a nadar, coisa que eu não fazia desde o início da vida adulta, quando conseguir dar o maior número de braçadas sem respirar, ou seja, sem colocar a cabeça para fora da água, era um desafio, uma diversão, algo natural a se tentar fazer. Depois da morte da minha avó, da Gigi e da pandemia, contudo, as coisas mudaram, e passar muito tempo com a cabeça sob a água me deixa extremamente ansiosa. Embora eu seja capaz de dar mais de dez braçadas sem respirar e até mesmo de atravessar vinte e cinco metros de piscina de forma submersa, sou tomada durante grande parte dos treinos por pensamentos relacionados à possibilidade de, no futuro, morrer asfixiada, de alguma doença que me deixe sem ar, e sozinha. Nesses momentos, penso imediatamente na minha avó e no que eventualmente se passava pela cabeça dela durante as noites, sabendo que a sua vida estava no fim, ela que tinha um medo imenso da morte e de morrer e que ao longo da vida sofreu de inúmeras crises de pânico e de ansiedade. Imagino o sofrimento dela e me vejo na mesma situação, até que me forço a parar de pensar na morte e passo a lembrar do meu avô, para quem todo o mundo tinha que saber nadar e dirigir e que nadava e dirigia divinamente, o meu avô, que quando mergulhava na piscina da casa onde cresci se assemelhava, para mim, a uma linda baleia-jubarte, a água da piscina respingando aos montes para fora das bordas, a expressão de satisfação do meu avô ao emergir. Penso no meu avô e no quão orgulhoso e feliz ele ficaria se pudesse saber que eu nado, e bem, e fico imaginando o prazer que ele sentia ao nadar, que talvez seja o mesmo que eu sentia quando era jovem e que ainda sinto quando consigo parar de pensar em morrer asfixiada.

Ontem, enquanto nadava, me dei conta da minha ambivalência; eu, que, como salientou a minha amiga, sempre estive e que estou temporária, com tanto medo de morrer asfixiada, eu, que nunca me fixei em lugar algum, tão fixada na morte.

Itu, 10 de maio de 2026.

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