O motivo não vem ao caso aqui, mas o fato é que andei lendo e relendo alguns filósofos. Em Montaigne encontrei uma passagem que me fez retomar uma questão que me afligiu nos últimos tempos: como é possível que alguém que tenha passado anos quase que ininterruptos viajando pelo mundo (estamos falando de aproximadamente uma década), conhecendo pessoas, culturas e paisagens as mais diversas, siga sendo, ao retornar para casa, exatamente a mesma pessoa que era antes de viajar?
Pois bem, a uma certa altura de seus Ensaios, Montaigne traz Sócrates à baila mencionando que este, ao ser informado de que alguém não tinha se emendado ao longo de uma viagem, disse acreditar perfeitamente no caso, já que quem tinha viajado havia levado a si mesmo junto consigo.
Apesar de fornecer uma explicação bastante razoável e fácil de entender para a minha questão, ou seja, a de que a viagem por si só não é capaz de operar milagres com relação ao caráter do viajante, a afirmação de Sócrates me deixou ainda mais confusa, pois, se o problema e a solução residem simultaneamente no viajante e não na viagem, o que é que eu havia deixado passar ao longo dos anos nos quais mantive relações com o viajante e que agora, quando da retomada do contato após um período considerável de afastamento, me causou tanta decepção? O que ou quem eu não enxerguei? Ou ainda, quem eu era ao longo daqueles anos? Seria a mesma pessoa que está aqui, agora, se fazendo essas perguntas?
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Quase todas as manhãs, ao acordar, ainda tomada pelo torpor do sono (do qual, diga-se de passagem, levo horas para me livrar), me esforço para tentar reter o sonho que, nem bem sequer abri os olhos, já começou a se dissipar. Sou uma grande entusiasta dos meus próprios sonhos e o responsável por isso não é Freud, ou não somente ele; a verdade é que depois de ler um trecho sobre o assunto contido na introdução de Um apartamento em Urano, de Paul Preciado, passei a considerar que os sonhos são universos paralelos, mundos nos quais existimos e vivemos outras vidas enquanto dormimos. Por essa razão, ao longo de muito tempo, me senti frustrada por normalmente não me lembrar dos meus ao acordar. Repentinamente, contudo, isso mudou e é com grande felicidade que há alguns meses venho lembrando quase que diariamente dos meus sonhos, sejam eles bons ou ruins. Embora eu tenha pistas dos motivos em razão dos quais essa alteração do meu funcionamento onírico se deu, penso ser desnecessário explorá-los aqui. O que realmente importa, no caso, é a constatação de que a censura caiu.
Alguns sonhos se dissipam facilmente, outros permanecem por algumas horas ou por dias inteiros comigo, e há aqueles que me acompanham por semanas, meses e até por anos a fio. O relato que vem a seguir diz respeito a uma produção onírica que se encaixa na última categoria, à qual darei o nome de categoria dos sonhos persistentes.
Pois bem, o sonho em questão se repetiu duas vezes numa mesma noite, com pequenas diferenças entre as suas versões. Dei a ele o nome de AMARELO, pois, além da rua da casa onde cresci (que aparece em vários dos meus sonhos), da Amora (minha filha-cachorra, que também aparece em vários sonhos) e da escadaria que os protagonistas de Amor à Flor da Pele, filme de Wong Kar-Wai, descem para comprar comida, havia um cartaz preto colado num poste da tal rua da minha infância com uma palavra em letras maiúsculas garrafais escrita em amarelo. De forma resumida (não vou abordar todos os seus aspectos), no sonho, eu subia a rua com a Amora que, como de hábito, caminhava sem a guia, quando deparamos com o poste e com o cartaz colado nele. Amora, então, me lançou um olhar sarcástico e saltou em direção ao cartaz, atingindo a palavra escrita em amarelo com as quatro patas. De volta ao chão, ela saiu correndo e eu a perdi de vista. A partir daí, o sonho se transformou numa busca pela Amora.
Naquela noite, eu dormia ao lado do viajante e, entre as duas diferentes versões do sonho, acordei e olhei para ele, intrigada. Longe da cama, protegida pela privacidade do banheiro e ao som do jato de urina que se chocava contra a água do vaso sanitário, eu soube que o sonho tinha a ver com aquele homem, para quem, inclusive, cheguei a relatá-lo. Ao longo do dia seguinte, não pude evitar as ondas que traziam a sensação de urgência em descobrir qual era a palavra que estava escrita, em amarelo, no cartaz, e que me faziam oscilar.
Nos dias subsequentes, o sonho continuou a me intrigar, mas não com a mesma urgência. Eu ainda queria descobrir qual era a palavra e passei a apostar fortemente em algo escrito em Alemão. Mas o quê? Então, num ímpeto, escrevi, numa folha de papel qualquer, em letras maiúsculas, a cor da palavra, AMARELO. Mal terminei de escrever, pensei em Freud, em Lacan e na minha analista, para quem, numa sessão imediatamente anterior ao Carnaval deste ano, eu levaria o sonho. Apesar da homofonia que a escrita da palavra me revelou, nem tudo estava resolvido; tanto o significado do sonho quanto a programação do meu Carnaval, inicialmente ditada exclusivamente pelo desejo e pela agenda do viajante, para mim, seguiam em aberto.
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Todo ano é a mesma coisa: eu digo (mas só para mim mesma) que dessa vez vou pular Carnaval, que será como antigamente, que vai ser ótimo, que de repente até arrisco um bloquinho, que eu preciso aproveitar a vida e que o Carnaval, essa coisa toda pulsante, é o momento certo para isso. Então ele chega, se impondo, tomando rádios, TVs, redes sociais, ruas, avenidas, bares, conversas, notícias, a aula de spinning, podcasts, as agendas, e tudo o que eu consigo fazer se resume ao ato de desejar, com todo o meu ser, desaparecer entre livros e filmes, derretida, talvez, pela luz do sol intenso sob o qual eu gosto de me deitar, sem pudor e sem protetor, somente com um livro nas mãos.
Sem despedidas, da sul-coreana Han Kang, foi o título do meu Carnaval de 2026.
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Retomemos as perguntas iniciais, mais precisamente aquelas que dizem respeito a quem eu era e a quem eu sou agora. Tendo refletido bastante sobre elas, me vejo obrigada a confessar que, exceto pelo amor que ambas tínhamos pelos livros e pela escrita, eu e a pessoa que no passado manteve uma relação de amizade com o viajante ao qual venho me referindo neste ensaio somos, hoje, criaturas completamente distintas. Os anos de sessões de análise que, especialmente no princípio, pareciam me colocar num liquidificador, as muitas pesquisas e indagações sobre o que é ser uma mulher, as pessoas que eu perdi, as crises reumáticas, as mudanças de cidades, de casas, de estilo de vida e, finalmente, a menopausa, têm feito de mim alguém muito diferente de quem eu fui no passado e meu breve reencontro não só com um suposto amigo mas também com trechos da história da minha vida que não mais me interessam só confirmou a mudança.
O mais interessante é que no começo eu não percebi nada disso. Assim que voltamos a nos ver, achei que a nossa relação seria exatamente como antes. A ficha de que eu havia mudado tanto só caiu quando a analista me perguntou o que, em termos românticos, havia me atraído nele, pois havíamos passado a dormir juntos e eu não andava exatamente satisfeita com os desdobramentos da situação. Respondi que eu o admirava muito, que a coisa toda da viagem, de largar tudo e sair viajando pelo mundo, sempre havia tido um grande apelo para mim, mas que agora eu percebia que não via mais as coisas dessa forma. Eu também achava estranho que ele tivesse ido, voltado, e que seguisse dizendo e fazendo exatamente as mesmas coisas de antes, coisas essas que, eu também havia me dado conta, não cabiam mais em mim.
A título de ilustração, eu me perguntava como iria superar o fato de ele ter ido conversar, sem me consultar, com o meu ex-marido, com quem, só depois eu soube, ele ainda tem amizade, sobre uma viagem que nós iríamos fazer. Como eu iria superar o fato de ele ter me dito isso poucas horas antes do voo, sem que houvesse tempo para eu processar a situação? Como eu iria superar o fato de ele ter praticamente me dito para calar a boca durante uma ligação telefônica no momento em que abordei novamente a questão da conversa dele com o meu ex, que, uma vez mal resolvida, seguia se impondo, para mim, como um muro entre nós? Como eu iria superar o choque de não ter conseguido reagir e de não ter mais parado de pensar: quem ele pensa que é para falar assim comigo? Admito que, no passado, por mais que determinadas palavras e ações me machucassem, eu era capaz, por diversos motivos, de deixar para lá. Da falta de consciência, de letramento de gênero, de entendimento acerca de mim mesma e do que aquelas palavras e ações significavam, fui capaz de passar pano para muita coisa. Para coisas, inclusive, há muitos anos ditas pelo viajante, como quando ele me disse que um determinado comportamento meu “parecia coisa de mulher separada”. Lembrei da frase, que eu parecia ter apagado da memória, há pouco tempo, por acaso, enquanto caminhava pelo estacionamento do shopping onde fica a minha academia, indo em direção a ela.
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Na minha vida, muitas coisas vêm caindo: a censura do meu inconsciente com relação aos meus sonhos, a admiração pelos homens que abandonam, a necessidade de agradar, o meu ideal de eu. É um despencar de coisas que, felizmente, graças à minha adição em dopamina e à minha obsessão por saúde, não posso associar à queda do meu corpo, cada vez mais firme e mais íntegro. Ele também vai cair, eu sei, como no título do romance de Milena Busquets, Isso também vai passar, escrito por ela após a morte de sua mãe. A capa da edição brasileira do livro, editado pela Companhia das Letras, é a imagem de uma mulher imersa até a cintura nas águas translúcidas e aparentemente calmas de um mar verde esmeralda, com pedras ao fundo e galhos de árvores na parte inferior da foto, tirada de cima. É uma imagem leve, bonita, para um livro que não deixa de ser uma despedida, ou uma forma de lidar com ela.
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