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domingo, 26 de abril de 2026

Sem despedidas

O motivo não vem ao caso aqui, mas o fato é que andei lendo e relendo alguns filósofos. Em Montaigne encontrei uma passagem que me fez retomar uma questão que me afligiu nos últimos tempos: como é possível que alguém que tenha passado anos quase que ininterruptos viajando pelo mundo (estamos falando de aproximadamente uma década), conhecendo pessoas, culturas e paisagens as mais diversas, siga sendo, ao retornar para casa, exatamente a mesma pessoa que era antes de viajar?

Pois bem, a uma certa altura de seus Ensaios, Montaigne traz Sócrates à baila mencionando que este, ao ser informado de que alguém não tinha se emendado ao longo de uma viagem, disse acreditar perfeitamente no caso, já que quem tinha viajado havia levado a si mesmo junto consigo.

Apesar de fornecer uma explicação bastante razoável e fácil de entender para a minha questão, ou seja, a de que a viagem por si só não é capaz de operar milagres com relação ao caráter do viajante, a afirmação de Sócrates me deixou ainda mais confusa, pois, se o problema e a solução residem simultaneamente no viajante e não na viagem, o que é que eu havia deixado passar ao longo dos anos nos quais mantive relações com o viajante e que agora, quando da retomada do contato após um período considerável de afastamento, me causou tanta decepção? O que ou quem eu não enxerguei? Ou ainda, quem eu era ao longo daqueles anos? Seria a mesma pessoa que está aqui, agora, se fazendo essas perguntas?

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Quase todas as manhãs, ao acordar, ainda tomada pelo torpor do sono (do qual, diga-se de passagem, levo horas para me livrar), me esforço para tentar reter o sonho que, nem bem sequer abri os olhos, já começou a se dissipar. Sou uma grande entusiasta dos meus próprios sonhos e o responsável por isso não é Freud, ou não somente ele; a verdade é que depois de ler um trecho sobre o assunto contido na introdução de Um apartamento em Urano, de Paul Preciado, passei a considerar que os sonhos são universos paralelos, mundos nos quais existimos e vivemos outras vidas enquanto dormimos. Por essa razão, ao longo de muito tempo, me senti frustrada por normalmente não me lembrar dos meus ao acordar. Repentinamente, contudo, isso mudou e é com grande felicidade que há alguns meses venho lembrando quase que diariamente dos meus sonhos, sejam eles bons ou ruins. Embora eu tenha pistas dos motivos em razão dos quais essa alteração do meu funcionamento onírico se deu, penso ser desnecessário explorá-los aqui. O que realmente importa, no caso, é a constatação de que a censura caiu.
 
Alguns sonhos se dissipam facilmente, outros permanecem por algumas horas ou por dias inteiros comigo, e há aqueles que me acompanham por semanas, meses e até por anos a fio. O relato que vem a seguir diz respeito a uma produção onírica que se encaixa na última categoria, à qual darei o nome de categoria dos sonhos persistentes.

Pois bem, o sonho em questão se repetiu duas vezes numa mesma noite, com pequenas diferenças entre as suas versões. Dei a ele o nome de AMARELO, pois, além da rua da casa onde cresci (que aparece em vários dos meus sonhos), da Amora (minha filha-cachorra, que também aparece em vários sonhos) e da escadaria que os protagonistas de Amor à Flor da Pele, filme de Wong Kar-Wai, descem para comprar comida, havia um cartaz preto colado num poste da tal rua da minha infância com uma palavra em letras maiúsculas garrafais escrita em amarelo. De forma resumida (não vou abordar todos os seus aspectos), no sonho, eu subia a rua com a Amora que, como de hábito, caminhava sem a guia, quando deparamos com o poste e com o cartaz colado nele. Amora, então, me lançou um olhar sarcástico e saltou em direção ao cartaz, atingindo a palavra escrita em amarelo com as quatro patas. De volta ao chão, ela saiu correndo e eu a perdi de vista. A partir daí, o sonho se transformou numa busca pela Amora.

Naquela noite, eu dormia ao lado do viajante e, entre as duas diferentes versões do sonho, acordei e olhei para ele, intrigada. Longe da cama, protegida pela privacidade do banheiro e ao som do jato de urina que se chocava contra a água do vaso sanitário, eu soube que o sonho tinha a ver com aquele homem, para quem, inclusive, cheguei a relatá-lo. Ao longo do dia seguinte, não pude evitar as ondas que traziam a sensação de urgência em descobrir qual era a palavra que estava escrita, em amarelo, no cartaz, e que me faziam oscilar.

Nos dias subsequentes, o sonho continuou a me intrigar, mas não com a mesma urgência. Eu ainda queria descobrir qual era a palavra e passei a apostar fortemente em algo escrito em Alemão. Mas o quê? Então, num ímpeto, escrevi, numa folha de papel qualquer, em letras maiúsculas, a cor da palavra, AMARELO. Mal terminei de escrever, pensei em Freud, em Lacan e na minha analista, para quem, numa sessão imediatamente anterior ao Carnaval deste ano, eu levaria o sonho. Apesar da homofonia que a escrita da palavra me revelou, nem tudo estava resolvido; tanto o significado do sonho quanto a programação do meu Carnaval, inicialmente ditada exclusivamente pelo desejo e pela agenda do viajante, para mim, seguiam em aberto.

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Todo ano é a mesma coisa: eu digo (mas só para mim mesma) que dessa vez vou pular Carnaval, que será como antigamente, que vai ser ótimo, que de repente até arrisco um bloquinho, que eu preciso aproveitar a vida e que o Carnaval, essa coisa toda pulsante, é o momento certo para isso. Então ele chega, se impondo, tomando rádios, TVs, redes sociais, ruas, avenidas, bares, conversas, notícias, a aula de spinning, podcasts, as agendas, e tudo o que eu consigo fazer se resume ao ato de desejar, com todo o meu ser, desaparecer entre livros e filmes, derretida, talvez, pela luz do sol intenso sob o qual eu gosto de me deitar, sem pudor e sem protetor, somente com um livro nas mãos.

Sem despedidas, da sul-coreana Han Kang, foi o título do meu Carnaval de 2026.

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Retomemos as perguntas iniciais, mais precisamente aquelas que dizem respeito a quem eu era e a quem eu sou agora. Tendo refletido bastante, me vejo obrigada a confessar que, exceto pelo amor que ambas tínhamos pelos livros e pela escrita, eu e a pessoa que no passado manteve uma relação de amizade com o viajante ao qual venho me referindo neste ensaio somos, hoje, criaturas completamente distintas. Os anos de sessões de análise que, especialmente no princípio, pareciam me colocar num liquidificador, as muitas pesquisas e indagações sobre o que é ser uma mulher, as pessoas que eu perdi, as crises reumáticas e de ansiedade, as mudanças de cidades, de casas, de estilo de vida e, finalmente, a menopausa, têm feito de mim alguém muito diferente de quem eu fui no passado e meu breve reencontro não só com um suposto amigo mas também com trechos da história da minha vida que não mais me interessam só confirmou a mudança.
 
O mais interessante é que no começo eu não percebi nada disso. Assim que voltamos a nos ver, achei que a nossa relação seria exatamente como antes. A ficha de que eu havia mudado tanto só caiu quando a analista me perguntou o que, em termos românticos, havia me atraído nele, pois havíamos passado a dormir juntos e eu não andava exatamente satisfeita com os desdobramentos da situação. Respondi que eu o admirava muito, que a coisa toda da viagem, de largar tudo e sair viajando pelo mundo, sempre havia tido um grande apelo para mim, mas que agora eu percebia que não via mais as coisas dessa forma. Eu também achava estranho que ele tivesse ido, voltado, e que seguisse dizendo e fazendo exatamente as mesmas coisas de antes, coisas essas que, eu também havia me dado conta, não cabiam mais em mim.
 
A título de ilustração, eu me perguntava como iria superar o fato de ele ter ido conversar, sem me consultar, com o meu ex-marido, com quem, só depois eu soube, ele ainda tem amizade, sobre uma viagem que nós iríamos fazer. Como eu iria superar o fato de ele ter me dito isso poucas horas antes do voo, sem que houvesse tempo para eu processar a situação? Como eu iria superar o fato de ele ter praticamente me dito para calar a boca durante uma ligação telefônica no momento em que abordei novamente a questão da conversa dele com o meu ex, que, uma vez mal resolvida, seguia se impondo, para mim, como um muro entre nós? Como eu iria superar o choque de não ter conseguido reagir e de não ter mais parado de pensar: quem ele pensa que é para falar assim comigo? Admito que, no passado, por mais que determinadas palavras e ações me machucassem, eu era capaz, por diversos motivos, de deixar para lá. Da falta de consciência, de letramento de gênero, de entendimento acerca de mim mesma e do que aquelas palavras e ações significavam, fui capaz de passar pano para muita coisa. Para coisas, inclusive, há muitos anos ditas pelo viajante, como quando ele me disse que um determinado comportamento meu “parecia coisa de mulher separada”. Lembrei da frase, que eu parecia ter apagado da memória, por acaso, há pouco tempo, enquanto caminhava pelo estacionamento do shopping onde fica a minha academia, indo em direção a ela.

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Na minha vida, muitas coisas vêm caindo: a censura do meu inconsciente com relação aos meus sonhos, a admiração pelos homens que abandonam, a necessidade de agradar, o meu ideal de eu. É um despencar de coisas que, felizmente, graças à minha adição em dopamina e à minha obsessão por saúde, não posso associar à queda do meu corpo, cada vez mais firme e mais íntegro. Ele também vai cair, eu sei, como no título do romance de Milena Busquets, Isso também vai passar, escrito por ela após a morte de sua mãe. A capa da edição brasileira do livro, editado pela Companhia das Letras, é a imagem de uma mulher imersa até a cintura nas águas translúcidas e aparentemente calmas de um mar verde esmeralda, com pedras ao fundo e galhos de árvores na parte inferior da foto, tirada de cima. É uma imagem leve, bonita, para um livro que não deixa de ser uma despedida, ou uma forma de lidar com ela.

sábado, 20 de novembro de 2021

Lascas de palavras

Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

Renato Russo em Índios


Hoje eu lembrei daquele seu sonho onde a gente dança, aquele em que você está a caminho de me ver mas não vem e no qual, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, a gente dança. Pensei então no quão extraordinária é essa onipotência lasciva do sonho, tão diametralmente oposta à impotência brochante da realidade. No sonho a gente é como um deus, a gente pode tudo, e a gente nunca morre. A gente pode tudo menos morrer. Como um deus. Você já morreu nos seus sonhos? Eu, nos meus, sou muito imortal.

Eu não te contei, mas tenho sonhado intensamente nos últimos dias. E sabe o que eu descobri? Que os meus sonhos, não só os de agora, mas os que eu sonho desde sempre, são todos como feiras livres, neles tem sempre muita gente. Irônico, você não acha? Fiquei pensando que talvez isso tenha a ver com as pessoas que moram dentro de mim e que eu desconfio serem muitas. Acho que são tantas que me dá até uma certa vertigem. Te dá vertigem pensar sobre a multidão que mora dentro de você? Eu sinto vertigem com tantas coisas... A morte, por exemplo, me dá muita vertigem. Nunca morri, mas só de pensar em morrer... Um dia desses ouvi alguém contando que havia lido num determinado livro uma coisa a respeito da morte dita por um garotinho. Era algo mais ou menos assim, que quando a gente morre, a gente deixa de ser a gente. Ou seja, eu, quando morro, deixo de ser eu, deixo de existir. Você, quando morre, deixa de ser você. O eu acaba, o você acaba. E aí a pessoa falava também daquela música do Gil onde ele diz que não tem medo da morte, mas que ele tem medo de morrer. Eu tenho medo de morrer, igual ao Gil, igual a muita gente. Você tem medo de morrer?

Mas não é só a morte que me dá vertigem, a vida também, acredita? A vida me dá uma puta vertigem. Quando eu estava viva e, apesar dos parafusos, ainda me sentindo quebrada ali na maca da fisioterapeuta, ela com a mão no meu pé, vi o preto da vertigem total chegar. Você tem claustrofobia? Não, não sei, não tinha, mas agora eu não sei. Agora eu sei que eu tenho náuseas e um medo enorme de nunca mais conseguir dormir. Logo eu, que dormia como uma pedra, logo eu que, quando ficava acordada de madrugada, achava o ritmo da noite o suprassumo da magia. Agora eu tenho horror do anoitecer e uma vontade insuportável de fugir da madrugada. A noite, quando cai, tingindo tudo de sombra, é a chave que me tranca num quarto onde me falta o ar. Eu quero acender o sol mas não consigo porque fora do sonho eu não sou deus e para ser deus eu tenho que dormir. Você quer que eu deixe a porta aberta? Quero, por favor.

Mas o que eu queria mesmo era poder sair correndo dali ou de qualquer outro lugar porque o meu real desejo era andar bem rápido, como eu sempre fiz, andar quase correndo, andar muito até ficar exausta e conseguir dormir. O que eu queria também era saber fazer o que me diziam que eu podia fazer com todo aquele tempo que passava a conta gotas. A ansiedade é como uma névoa que desce a qualquer momento, foi o que a mulher que me atendeu na farmácia de manipulação disse. Aí eu pensei, uau, é isso, ela sabe. Ela certamente sabia que de repente a tal névoa aparecia, pesada, cobrindo tudo com uma camada viscosa, abafando os sons, provocando náuseas e trazendo uma série bem descontrolada de pensamentos vertiginosos. Durante o dia eu olhava para o espelho e tentava descobrir ali os sinais da loucura. Porque para mim não havia dúvidas, era óbvio que eu estava enlouquecendo. Durante a madrugada, deitada na cama ou no sofá, eu esperava o momento em que eu deixaria de ser eu, o início da loucura, da alienação. E então eu pensava sem parar que a loucura seria uma prisão, que enlouquecer seria passar para um lugar onde ninguém, nem você, me entenderia, e ali ficar, sem conseguir encontrar a saída. Ficar louca era deixar de ser eu, era morrer. Você está com medo de morrer, a analista me disse, e ela invariavelmente acerta.

A morte, como a loucura, é uma grande interrupção. Logo que eu saí da casa dos meus pais, aos dezoito anos, eu achava que poderia enlouquecer a qualquer momento. Eu sempre tive medo de morrer. Lembra daquele filme, Garota Interrompida? Sabe qual é o título dele em italiano? Lascas de loucura. Fiquei sabendo disso ao ler um livro de uma escritora chamada Claudia Durastanti. Lascas de loucura, dito assim, não parece tão ruim, não é? Acho que todos nós fomos feitos em lascas nos últimos tempos, todos fomos interrompidos. Isso eu te contei, que eu ainda não sei de tudo que aconteceu comigo nos últimos meses, que eu ainda estou pensando nisso. Ainda estou juntando as lascas, entende? Como essas lascas de palavras que unem e organizam as coisas que eu tenho para te contar.

Fui à exposição da Clarice, você já sabe. A Clarice juntou as lascas como ninguém mas você acredita que eu tenho medo dela? Sim, eu tenho medo da humanidade divina que é a Clarice, das lascas que ela produziu. Medo, assombro, desejo, admiração, susto, fascinação. Eu tenho tudo isso por ela, e eu não queria ser ela. Tem um livro de entrevistas com a Hilda chamado Fico besta quando me entendem e a Clarice para mim é isso, ela é a grande vertigem do entendimento. Do início ao fim.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Sonhos da quarentena ou Édipo

As pessoas gritam e erguem furiosamente os braços. Há gente na calçada e no meio da rua e placas sendo erguidas na frente daquele que era o prédio da prefeitura. De São Paulo? Eu me aproximo do portão de grades e olho mais detidamente a fachada do prédio, não sem notar, num relance, a corrente com cadeado que mantém unidas as duas folhas do portão. O que significam o som e a fúria ao meu redor? O cadeado está trancado? Quando dou por mim, havia acabado de colocar o pé no chão. E agora?

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A casa dela, eu não a reconheço, e o lugar para aonde vamos é distante e movimentado. Você consegue ir? Sim, claro, eu respondo. As pessoas andam de um lado para o outro e nós paramos por um momento numa elevação que fica sob uma cobertura de alvenaria que nos oferece uma boa visão do entorno. A temperatura, os cheiros, os sons e até algumas cores e formas são os mesmos do lugar em que ficava a lanchonete da minha escola primária. Avistamos um amigo por ali vestindo amarelo. Falamos com ele? De repente eu me pergunto se coloquei o pé no chão. Eu não posso colocar o pé no chão, eu não posso colocar o pé no chão... Vamos, tem a festa! Quando entramos na casa dela eu penso que deixei S. sem água e imediatamente o vejo beber a água misturada com espuma de shampoo que corre pelo chão de uma estrutura azulejada em forma de quadrado que toma quase todo o espaço da sala. Eu o vejo, eu falo, mas ele parece não me perceber ali. Festa? Mas se eu não posso colocar o pé no chão... 

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Durmo e quando acordo vejo que os pontos ficaram quase todos sobre o lençol branco. São pedaços de linhas escuras, espessas e brilhantes que se desprenderam de mim enquanto eu dormia e movia propositadamente meu pé contra a cama. Dormindo, eu via as linhas se desprenderem com uma alegria infantil e pensava, sorrindo, que agora faltaria pouco.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Nonsense

Era a Rita Lee ali, na primeira fila, vestindo um tailleur Chanel preto e branco e usando uns óculos que em nada se pareciam com ela, dizendo, com o ar mais sério do mundo, que iria ao cinema. Enquanto dizia isso para as duas pessoas que estavam sentadas ao seu lado, um homem e uma mulher, ela olhava para mim, que estava em pé a uma certa distância, na sua diagonal.

Será que esse sonho tem a ver com aquele disco onde ela canta Flagra? Aquele em cuja capa a Rita, com uma flor cor-de-rosa no cabelo, e o Roberto de Carvalho aparecem num fundo azul que simula um efeito meio água, meio mercúrio, meio celofane amassado? Passei sei lá quanto tempo da minha meninice olhando para o azul, o da capa e o dos olhos da Rita, e para aquela flor, e ouvindo aquele disco, que eu adorava e que levava comigo para cima e para baixo junto da minha vitrola portátil que, quando fechada, parecia uma malinha de espião de filme americano, só que branca e com uns furinhos em uma das extremidades. Rita, não sei se vou, mas estou doida de vontade de entrar no escurinho de um cinema, seja para ver se a Deborah Kerr que o Gregory Peck (na época eu não sacava a brincadeira ainda) ou seja lá o que for; qualquer coisa, na real, que me transporte, mesmo que só por um tempinho, para o mundo de antes.

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Fico atônita quando ouço alguém dizer que a vida está melhor agora, que o mundo pandêmico lhe é preferível ao mundo de antes, que tanto faz etc. Assombrada, só consigo pensar no estrago geral e no meu próprio desconforto. Quanto mais o tempo passa, mais eu penso que eu daria tudo, qualquer coisa para ter o mundo de antes e a minha vida de volta.

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Tenho andado pelas ruas noturnas da cidade onde eu nasci como quem pisa num sonho. Fico imaginando que por trás do concreto das edificações e por baixo das calçadas existe um outro universo, um outro tempo, separado do atual pela matéria bruta que constitui a cidade tal como ela se apresenta. Como se por trás de tudo houvesse uma outra realidade, como se o presente não fosse uma continuação do passado e sim um sonho cujo sentido eu não estou conseguindo decifrar.

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Sabe aquele filme A Vida Marinha com Steve Zissou? Eu pensava nele quando vi uma pessoa carregando suas coisas em dois grandes sacos plásticos. O homem atravessou a rua e caminhou na direção do coração da praça, onde jaz uma edificação que outrora foi uma escola. Quando o vi novamente, ele estava se preparando para passar a noite de Natal ali, encostado no muro da antiga escola, sobre a grama que recobre o chão e aparentemente sem nada que pudesse recobrir o seu coração.

O Sig estava no meu sonho. Já era o terceiro dia que estávamos naquela torre que ficava fora e ao mesmo tempo dentro do mar. Era uma espécie de apartamento muito pequeno e confuso, com paredes pintadas de amarelo e uma pequena área externa, colocado sobre a estrutura de uma plataforma marinha. Havia uma amiga conosco e no terceiro dia eu disse a ela que nós não poderíamos mais ficar ali pois o Sig estava saltando e pedindo para sair. Ele também havia feito xixi dentro do apartamento durante a noite, o que significava que ele não estava mais aguentando e, se ele não aguentava, nós também não aguentaríamos por muito mais tempo. Tínhamos que ir embora. Mas havia um motivo para estarmos ali. Havia? Lá fora era sempre noite, mesmo durante o dia, e as águas do mar eram agitadas e muito escuras. Havia botes cor de laranja espalhados no entorno e também outras pessoas, que apareciam quando nós saíamos. Sim, nós havíamos saído antes. Estávamos ali por algum motivo. Mas qual era o motivo? O Sig saltava no meio da sala e olhava para a porta e para mim. Acordei pensando nas palavras A Vida Marinha com Steve Zissou e sem saber o motivo pelo qual construímos uma realidade nonsense para viver.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Três pequenos fragmentos

Bidimensional

Tenho sonhado com telas, todas as noites, com telas de tamanhos diferentes. No começo eu sei que estou a uma distância razoável, mas de repente elas começam a se mover na minha direção, numa diagonal crescente. São várias, completamente escuras, exceto pelo contorno verde luminoso. Saltam uma de dentro da outra e não param de crescer, de subir, de virem de encontro ao meu rosto. Quando chegam, elas me perpassam com o seu contorno e eu me sinto acuada o tempo todo, tomada por uma sensação da infância cuja descrição sempre me foi impossível. Algo físico, na garganta, no estômago, no tronco. Um arrepio que não arrepia, um formigamento, um gosto que não vem. M., eu estou me sentindo desesperadamente bidimensional.


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O não dito

Eu ligo e ele não atende. Ao mesmo tempo, ouço a sua voz e vejo o seu rosto do outro lado da linha. Tomo um susto. Entre outras palavras perdidas, ele diz o meu nome, sempre o meu nome, num tom que sempre me afligiu. O que ele diz é também sempre o mesmo, como faria um autômato programado para nunca dizer a palavra filha. O sonho acaba aí, na surpresa eterna do não dito.


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Sobremesa ou em Sampa, Narciso acha feio o que não é espelho
 
Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você traria Freud para a conversa. Ao que eu poderia ter dito que mais cedo ou mais tarde eu também sabia que ele traria Deus, talvez um daqueles com tantos braços e pernas ou com o formato de uma serpente, para a conversa. Mas eu não disse. Agora porém me pergunto o que Freud teria a dizer a Deus durante a sobremesa. O mesmo que ele não disse ao Presidente Schreber, já que este também estava morto? Mas seria Deus um louco ou só mais um desesperado que se agarra ao paraíso perdido enquanto tenta fugir do inferno do desamparo?

De quem, afinal, é o reflexo que aparece na mesa quando Deus é trazido na bandeja?



P.S.: O título do último fragmento é claramente inspirado na música de Caetano Veloso e Giberto Gil, Sampa.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Sonhos da quarentena

Estou num quarto estreito, obscuro, onde há três beliches feitos de uma estrutura de madeira muito escura. Dois dos beliches estão dispostos em linha na mesma parede enquanto o outro está na parede oposta. No beliche que está sozinho na parede há duas mulheres além de mim. Eu as conheço.

Uma delas fala comigo, muito e provavelmente em tom acusatório, mas eu não a escuto. Vejo seus lábios se moverem e até imagino o que ela está dizendo, mas não a escuto. Eu olho mas não a vejo. A presença dela naquele quarto me incomoda. O que ela está fazendo ali?

A outra mulher está sentada no colchão, quieta ou balbuciando algo, com o rosto coberto por uma felicidade triste, enquanto a que fala parece estar o tempo todo em pé ao lado dela, porém não muito próxima.

Eu estou do lado oposto, junto dos dois beliches. Atrás deles, na parede, não há, a princípio, nada, mas depois percebo que o guarda-roupa do quarto da minha infância está lá, dentro e através da parede. Uma antiguidade restaurada, também em madeira muito escura. Eu mexo nas prateleiras enquanto vejo, de relance, a mulher que fala. Onde estão as portas do guarda-roupa? E como é possível que eu esteja mexendo naquelas prateleiras através da parede? Há outra dimensão de sonho dentro do sonho?

Angustiada com tudo ao meu redor, o tamanho do quarto, os beliches, o escuro da madeira e do quarto e, principalmente, com a mulher que fala, eu desperto.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sonhos da quarentena

A rua é aquela que se repete. A servidão de passagem, a galeria. Os buracos que são as portas dos outros mundos que existem lá. A porta em forma de arco, os espinhos plantados no canteiro de pastilhas azuis que se estende da calçada até o fim do comprido passeio. Na calçada, outro buraco, outra porta em forma de arco, maior que aquela que fica na servidão. Paredes brancas, detalhes azuis cor de azulejo português. Carros estacionados em vagas de quarenta e cinco graus. Há vagas sobrando? A lateral da igreja em amarelo sépia descascado. Toda a cena tem sempre uma pincelada de sépia, nada é tão translúcido assim. Esse sonho se concentra em uma extremidade da rua. Há outros onde o meio é o cenário. A outra extremidade raramente aparece. Na de agora, há poucas pessoas fora. Eu sei que elas estão nos buracos, mas fora, só eu transito. Eu e aquele que divide a cena comigo. Há um passeio com ele e a certa altura uma bifurcação. Eu digo, agora vou por aqui e você vai por ali. Então é mesmo assim? É, você sabe que é.

Outra cena, frenesi de pessoas que eu não vejo. Há duas com as quais interajo e que interagem entre si, mas não sei o que dizem, não sei o que eu digo. De repente a Gigi está ali em meio àquela confusão difusa, a algo que se agita e que eu não consigo discernir. Ela pisa num filhote, primeiro com uma pata, depois com a outra. O filhote chora, grita, e ela parece não perceber o que está acontecendo. Depois, outro filhote. De novo, ela parece alheia. E então ela está muito próxima, deitada, e eu olho para ela e a toco com a minha mão esquerda. No início sinto a textura do pelo macio e quase posso sentir o cheiro de pelúcia que era o dela. Mas logo em seguida percebo que há algo errado. O pelo solto fica grudento e, ao tocá-lo, eu sei que há sangue, que agora vejo seco e escuro ao longo dos fios amarelos. O corpo está diferente e o olhar é ausente e parece morto de pavor dentro das órbitas. Ela olha através de mim e não sabe que estou ali. Ela não é a Gigi. Ela não me vê. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Sonhos da quarentena

Estou numa loja estreita, crua, e entrego o pagamento em dinheiro ao homem que me atende, postado numa linha diagonal, do outro lado do balcão. Há pouco espaço para manter distância e ele é obrigado a inclinar o corpo na minha direção para pegar o dinheiro que quero lhe entregar e para o qual ele olha como se não acreditasse no que vê. Eu digo que não tenho outra forma de pagar e ele olha para uma nota de dez reais que há entre as outras notas e diz que ela é nova e que, portanto, deve estar contaminada. Titubeia algumas vezes mas pega o dinheiro, não sem um toque de horror no rosto. Não sei o que estou comprando. Talvez shampoo. Aquela loja vende shampoo? Não deveria vender, pois eu a conheço desde a infância e lá não se vende shampoo. Faço uma incursão mental até a mesa onde ele costumava sentar e eu também, às vezes. Mental? Vou até o fundo. Caixas de papelão. O cheiro do pó e do papelão. Eu conheço todo aquele espaço, dentro e fora da loja. Fora, antes, eu tomava banho e meu shampoo acabou. Antes ou depois do banho? Eu estava trabalhando, havia um colega que não ajudava. Era uma espécie de dormitório. Estávamos todos ali. O dia todo? O que fazíamos? O banheiro era coletivo. Mulheres e homens? Ou só mulheres e só homens? Tomei banho mais de uma vez e eram banheiros diferentes a cada vez. Mais escuros, mais claros. A claridade tinha o tom do amarelo. Esse colega me exasperava. Por que ele se expandia tanto?

Corte. Outra cena. Estou numa cidade do nordeste do Brasil. Faço incursões pela água, de uma forma bidimensional, como já aconteceu em outro sonho. Mas nesse não vejo a viagem. Sei que há o mar. Num retorno, acesso a entrada do transporte público, terrestre. Como a entrada de uma estação de metrô. Não é a primeira vez que estou ali mas só nesse momento acesso um local retirado da circulação e vejo, por um vidro imenso, crateras como as da lua em torno das quais há pessoas sentadas. Não muitas, esparsas. Elas observam a paisagem. As crateras são preenchidas com água azul quase bic e todo o mar se estende a partir dali. Todo ele é azul muito forte. O céu não, o céu é amarelo, é vermelho, é laranja. Alguém me diz que sim, que aquilo está ali, que é só ir até lá. Volto para algum outro lugar e falo sobre o azul e as crateras. Com quem eu falo? Depois procuro uma forma de acessar a paisagem. Entro por uma porta e deparo com uma escada. Branca. Começo imediatamente a subir e me desculpo pela invasão com uma mulher que está ali. Eu a conheço. Quem é ela? Ela diz que tudo bem, que muita gente passa por ali. Então isto é uma servidão de passagem, pergunto. Ou será que afirmo? Ela diz que sim, que mais ou menos. Acesso a rua e caminho. O colega exasperante está ali. Mas não é ele. É um amigo. Uma amizade breve. Ele fica pelo caminho mas não completamente. Sigo e entro num local parecido com um abrigo de acesso a algum tipo de transporte público. Há vidros. Não nada além de paredes e de vidros. Olho por eles e as crateras estão ali. O mar terrivelmente azul também. O homem reaparece e eu não sei o que dizer. Ele fala muito e me exaspera. Por que aquele mar é tão azul?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Sonhos da quarentena

Dois homens, uma máquina grande. De lavar roupas? Olho para o buraco que há no centro dela e fixo meu olhar ali. Eu não quero olhar para os olhos de um dos homens pois, se olhar, farei algo que eu não quero. Eles discutem sobre algo. Eu digo que não quero, que não vou olhar. Um carro. Há uma casa ali, rua, calçada, tudo perto e ao mesmo tempo longe. Um deles vai e volta. Volta para o carro? Quem são eles? Eu os conheço.

Outra casa, outra cena, outro carro. Verde no ferro fundido. Portões de grade, corrente, cadeado. Um outro homem. Ele sai do carro? E eu, estou no carro? Olho por entre as grades do portão e falo com alguém. Uma mulher. Não tem ninguém lá? Está tudo vazio? A cena é triste e fechada, a casa é triste.

Outra cena, outra casa, uma chácara. Mesmo lugar de um outro sonho. Há sol, árvores, gramado, piscina. A casa é marrom, quadrada. Só vejo uma parte dela. Há um caramanchão.

Estou de volta à casa triste e o outro homem está lá. Ele se aproxima, por dentro, do portão. Fala algo sobre caixas de ovos. Caixas de ovos? Eu não entendo. Eu quero entender que ovos, que caixas. Do que é que ele está falando? E de repente a casa triste se abre em chácara, em caramanchão, e o homem caminha para lá. O espaço todo adquire um ar sinistro e eu não quero estar lá. O homem é o meu pai.

terça-feira, 31 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Uma escola, eu carrego uma mochila. Pequena. A que eu carrego para a praia. Mas há outra mochila, que insiste em escorregar. Onde ela está? Na mochila que vai nas minhas costas há comida. E só. A escola é branca. As paredes de alvenaria, as portas, brancas. Sou surpreendida pela quantidade de azulejos brancos que a revestem e que me incomodam. Caminho por um corredor aberto mas não tão largo. Subo uma escada branca e acesso as arquibancadas do que parece ser um estádio. Há outras pessoas ali, talvez um colega ou uma colega de trabalho. Falamos algo a respeito do que está acontecendo. O que está acontecendo? Haverá uma palestra? Uma reunião? As pessoas estão esparsas pelas arquibancadas, em pequenos grupos ou sozinhas. Muitos espaços estão vazios. Lá embaixo, na arena, há outras pessoas. O que elas dizem? Elas dizem alguma coisa? Levanto e volto a descer as escadas brancas. Ao meu redor, paredes de azulejos brancos. Eu estou ali a trabalho. Saio em busca da mochila que está nas minhas costas. Preciso comer. Preciso? Encontro os banheiros, masculino e feminino, e me confundo. Em qual deles devo entrar? Qual é o feminino? Entro no banheiro e encontro a comida na mochila. Eu como? Eu falo com alguém. Alguém me encontra. Estou trabalhando? Sigo para outro ponto da escola, aberto. Ao meu redor as paredes são brancas e tudo é quase branco. A claridade me entristece.

Outro corredor aberto, mais vivo. Cores. Um corrimão de ferro verde, linhas retas, disposto quase no meio do passeio. Pessoas caminham na direção oposta mas sei que há alguém atrás de mim. A via está disposta num ângulo diferente do que até então vinha se apresentando. Caminho apressada por ela. Estou na universidade e preciso chegar no dormitório. Eu moro lá? O quarto não está arrumado, há coisas sobre a cama. Um item vermelho, um pedaço de pano que eu reconheço. Saio e ando novamente por ali. Desço uma escada. Branca, mas só ela. Os azulejos brancos desapareceram. Estou à procura de alguém? Uma amiga que de repente se calou. Ela está lá. Frequentamos as mesmas universidades. Onde ela está? Ela fala comigo? Ouço que é necessário voltar. O vírus. Volto para o quarto. Bagunça. A cama, as coisas. Mas vou ter que ficar lá. As pessoas transitam apressadas, confusas, pelos espaços da universidade. No quarto, começo a arrumar a mochila e falo, pelo telefone, com a minha mãe. Ela anuncia que terei que ir embora. A universidade será fechada.

sábado, 28 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Vejo o clube por dentro, vazio. Estou numa espécie de ilha de edição e é de lá que eu o vejo e falo com alguém. Talvez comente o fato de que está vazio, só as cadeiras dispostas no salão, arranjadas em filas, como numa igreja ou num auditório. O clube é amarelado e tem a atmosfera da capa do disco da Marina Lima, Abrigo. As pessoas na ilha de edição, duas além de mim, não têm rostos conhecidos. Eu mal vejo os seus rostos. A entrada do clube é pomposa e também está vazia. No salão há uma passagem para os fundos, pela qual ninguém passa. Como se a passagem pudesse ser utilizada só de fora para dentro ou como se fosse inútil, só um detalhe, ou um entalhe. Nos fundos há outro ambiente, aberto, mas que ainda conserva o mesmo tom amarelado do interior e da entrada. Há pessoas lá, e uma piscina. Eu estou na piscina? Quem são aquelas pessoas? Há crianças, barulho, água sendo jogada para cima. Não, eu não estou lá, eu continuo na ilha de edição. Depois uma garagem. Agora, um portão branco, vazado em alguns trechos. Muito branco. A garagem é larga mas não muito grande. O interior da casa parece escuro. Fora há sol. Não há carros na garagem, só um fora dela. Há pessoas na garagem, concentradas num lado dela. Uma garagem como a de casas conhecidas da minha infância, onde eram feitas festas de aniversário. Há apreensão no ar, mas talvez também venha a haver uma festa. Quem sai abre o portão, que já está meio aberto, mas nunca completamente. O cachorro não pode sair, alguém diz. Mas quem está saindo? O portão é irregularmente vazado. Alguém, um homem, que passa pelo portão a fim de sair, o abre e o recolhe com a mão, a qual eu noto com atenção. Ele fala algo e sorri. Alguém, eu talvez, ou uma outra mulher, fala com ele. Ou falamos ambas. E as pessoas no canto falam de maneira difusa, às vezes olhando para a cena central. Estou de volta ao clube, agora na entrada. Há duas pessoas em pé na porta e outras me acompanham. Agora estou lá. A porta está aberta, não há porta, e sim uma entrada de alvenaria arredondada à minha esquerda. A entrada do clube continua pomposa, como a do clube da minha adolescência. Mesmo não havendo porta, eu tenho uma chave e tento usá-la. Onde? Numa fechadura? O interior continua amarelo e eu falo com alguém. Caminhamos para o fundo, vestidos para uma festa, descontraídos. Estou de volta à garagem, onde o portão continua escandalosamente branco. As pessoas continuam lá, mas há uma sutil diferença na cena. O cachorro não pode sair. Alguém, um homem que se parece com o ator que faz o personagem Doug, da série Atypical, fala conosco sorrindo. E sai. O carro está lá fora.

terça-feira, 24 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Essa cachorrinha não vai embora, repetia meu colega de trabalho. Ela não vai embora. Eu não a vi ainda, eu dizia.

O cenário não era azul, não era claro, talvez fosse escuro. Talvez fosse sempre quase noite. Podia ser aberto. Um corredor, um pequeno gramado entre edificações, uma loja sem portas. Ela não quer ir embora, ele dizia. Uma pequena sala de estar, a entrada de uma casa, eu afastava uma cortina e olhava através da janela. Eu não a vi ainda. Até que a vi. Ele dizia um nome. Eu não lembro qual. Ela não era grande e estava se afastando. Seu corpo era largo, quadrado. Os pelos pretos e encaracolados, o rabo cortado. Ela olhava para trás e o seu olhar era o de um humano. Eu estava ali, só eu. Por que eu não estava trabalhando com os outros? Ele dizia novamente que a cachorrinha não queria sair de lá. Mas eu não estava lá. Estava em outro lugar, separada. Agora eu a vi, contei, mas ela não está mais aqui.

Rua, eu estava num espaço que era como o de uma loja de rua. Sem portas, paredes amarronzadas, vazio e triste. Agora eu via a cachorrinha, mas era outra. Os pelos caíam sobre o seu rostinho, que tinha uma configuração inusitada. Deitada, encostada numa parede, ela lambia as patas e de repente olhou para mim. Então os pelos que tapavam seu rosto ficaram curtos. Agora eu via o focinho, via melhor o rosto, mas não via os olhos. Onde estavam os olhos? Ela não quer ir embora, ele dizia. Eu vou ficar com ela. E pegava o celular para ligar. A cachorrinha é de uma menininha. Onde ela está? Está por aí. Ela também não vai embora. A menina aparece, e some. Indago duas mulheres que passam na frente da loja a respeito da menina. Mulheres que um dia foram personagens do cenário da praça da minha infância. Sim, nós a conhecemos. Onde ela está? E então o dia estava claro, estávamos ali ao lado, eu sobre a calçada, olhando para as três. Quantos anos você tem? A garotinha responde, três. E ela se parece com a primeira cachorrinha do sonho.