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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Sonhos da quarentena ou Édipo

As pessoas gritam e erguem furiosamente os braços. Há gente na calçada e no meio da rua e placas sendo erguidas na frente daquele que era o prédio da prefeitura. De São Paulo? Eu me aproximo do portão de grades e olho mais detidamente a fachada do prédio, não sem notar, num relance, a corrente com cadeado que mantém unidas as duas folhas do portão. O que significam o som e a fúria ao meu redor? O cadeado está trancado? Quando dou por mim, havia acabado de colocar o pé no chão. E agora?

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A casa dela, eu não a reconheço, e o lugar para aonde vamos é distante e movimentado. Você consegue ir? Sim, claro, eu respondo. As pessoas andam de um lado para o outro e nós paramos por um momento numa elevação que fica sob uma cobertura de alvenaria que nos oferece uma boa visão do entorno. A temperatura, os cheiros, os sons e até algumas cores e formas são os mesmos do lugar em que ficava a lanchonete da minha escola primária. Avistamos um amigo por ali vestindo amarelo. Falamos com ele? De repente eu me pergunto se coloquei o pé no chão. Eu não posso colocar o pé no chão, eu não posso colocar o pé no chão... Vamos, tem a festa! Quando entramos na casa dela eu penso que deixei S. sem água e imediatamente o vejo beber a água misturada com espuma de shampoo que corre pelo chão de uma estrutura azulejada em forma de quadrado que toma quase todo o espaço da sala. Eu o vejo, eu falo, mas ele parece não me perceber ali. Festa? Mas se eu não posso colocar o pé no chão... 

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Durmo e quando acordo vejo que os pontos ficaram quase todos sobre o lençol branco. São pedaços de linhas escuras, espessas e brilhantes que se desprenderam de mim enquanto eu dormia e movia propositadamente meu pé contra a cama. Dormindo, eu via as linhas se desprenderem com uma alegria infantil e pensava, sorrindo, que agora faltaria pouco.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Nonsense

Era a Rita Lee ali, na primeira fila, vestindo um tailleur Chanel preto e branco e usando uns óculos que em nada se pareciam com ela, dizendo, com o ar mais sério do mundo, que iria ao cinema. Enquanto dizia isso para as duas pessoas que estavam sentadas ao seu lado, um homem e uma mulher, ela olhava para mim, que estava em pé a uma certa distância, na sua diagonal.

Será que esse sonho tem a ver com aquele disco onde ela canta Flagra? Aquele em cuja capa a Rita, com uma flor cor-de-rosa no cabelo, e o Roberto de Carvalho aparecem num fundo azul que simula um efeito meio água, meio mercúrio, meio celofane amassado? Passei sei lá quanto tempo da minha meninice olhando para o azul, o da capa e o dos olhos da Rita, e para aquela flor, e ouvindo aquele disco, que eu adorava e que levava comigo para cima e para baixo junto da minha vitrola portátil que, quando fechada, parecia uma malinha de espião de filme americano, só que branca e com uns furinhos em uma das extremidades. Rita, não sei se vou, mas estou doida de vontade de entrar no escurinho de um cinema, seja para ver se a Deborah Kerr que o Gregory Peck (na época eu não sacava a brincadeira ainda) ou seja lá o que for; qualquer coisa, na real, que me transporte, mesmo que só por um tempinho, para o mundo de antes.

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Fico atônita quando ouço alguém dizer que a vida está melhor agora, que o mundo pandêmico lhe é preferível ao mundo de antes, que tanto faz etc. Assombrada, só consigo pensar no estrago geral e no meu próprio desconforto. Quanto mais o tempo passa, mais eu penso que eu daria tudo, qualquer coisa para ter o mundo de antes e a minha vida de volta.

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Tenho andado pelas ruas noturnas da cidade onde eu nasci como quem pisa num sonho. Fico imaginando que por trás do concreto das edificações e por baixo das calçadas existe um outro universo, um outro tempo, separado do atual pela matéria bruta que constitui a cidade tal como ela se apresenta. Como se por trás de tudo houvesse uma outra realidade, como se o presente não fosse uma continuação do passado e sim um sonho cujo sentido eu não estou conseguindo decifrar.

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Sabe aquele filme A Vida Marinha com Steve Zissou? Eu pensava nele quando vi uma pessoa carregando suas coisas em dois grandes sacos plásticos. O homem atravessou a rua e caminhou na direção do coração da praça, onde jaz uma edificação que outrora foi uma escola. Quando o vi novamente, ele estava se preparando para passar a noite de Natal ali, encostado no muro da antiga escola, sobre a grama que recobre o chão e aparentemente sem nada que pudesse recobrir o seu coração.

O Sig estava no meu sonho. Já era o terceiro dia que estávamos naquela torre que ficava fora e ao mesmo tempo dentro do mar. Era uma espécie de apartamento muito pequeno e confuso, com paredes pintadas de amarelo e uma pequena área externa, colocado sobre a estrutura de uma plataforma marinha. Havia uma amiga conosco e no terceiro dia eu disse a ela que nós não poderíamos mais ficar ali pois o Sig estava saltando e pedindo para sair. Ele também havia feito xixi dentro do apartamento durante a noite, o que significava que ele não estava mais aguentando e, se ele não aguentava, nós também não aguentaríamos por muito mais tempo. Tínhamos que ir embora. Mas havia um motivo para estarmos ali. Havia? Lá fora era sempre noite, mesmo durante o dia, e as águas do mar eram agitadas e muito escuras. Havia botes cor de laranja espalhados no entorno e também outras pessoas, que apareciam quando nós saíamos. Sim, nós havíamos saído antes. Estávamos ali por algum motivo. Mas qual era o motivo? O Sig saltava no meio da sala e olhava para a porta e para mim. Acordei pensando nas palavras A Vida Marinha com Steve Zissou e sem saber o motivo pelo qual construímos uma realidade nonsense para viver.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Três pequenos fragmentos

Bidimensional

Tenho sonhado com telas, todas as noites, com telas de tamanhos diferentes. No começo eu sei que estou a uma distância razoável, mas de repente elas começam a se mover na minha direção, numa diagonal crescente. São várias, completamente escuras, exceto pelo contorno verde luminoso. Saltam uma de dentro da outra e não param de crescer, de subir, de virem de encontro ao meu rosto. Quando chegam, elas me perpassam com o seu contorno e eu me sinto acuada o tempo todo, tomada por uma sensação da infância cuja descrição sempre me foi impossível. Algo físico, na garganta, no estômago, no tronco. Um arrepio que não arrepia, um formigamento, um gosto que não vem. M., eu estou me sentindo desesperadamente bidimensional.


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O não dito

Eu ligo e ele não atende. Ao mesmo tempo, ouço a sua voz e vejo o seu rosto do outro lado da linha. Tomo um susto. Entre outras palavras perdidas, ele diz o meu nome, sempre o meu nome, num tom que sempre me afligiu. O que ele diz é também sempre o mesmo, como faria um autômato programado para nunca dizer a palavra filha. O sonho acaba aí, na surpresa eterna do não dito.


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Sobremesa ou em Sampa, Narciso acha feio o que não é espelho
 
Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você traria Freud para a conversa. Ao que eu poderia ter dito que mais cedo ou mais tarde eu também sabia que ele traria Deus, talvez um daqueles com tantos braços e pernas ou com o formato de uma serpente, para a conversa. Mas eu não disse. Agora porém me pergunto o que Freud teria a dizer a Deus durante a sobremesa. O mesmo que ele não disse ao Presidente Schreber, já que este também estava morto? Mas seria Deus um louco ou só mais um desesperado que se agarra ao paraíso perdido enquanto tenta fugir do inferno do desamparo?

De quem, afinal, é o reflexo que aparece na mesa quando Deus é trazido na bandeja?



P.S.: O título do último fragmento é claramente inspirado na música de Caetano Veloso e Giberto Gil, Sampa.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Sonhos da quarentena

Estou num quarto estreito, obscuro, onde há três beliches feitos de uma estrutura de madeira muito escura. Dois dos beliches estão dispostos em linha na mesma parede enquanto o outro está na parede oposta. No beliche que está sozinho na parede há duas mulheres além de mim. Eu as conheço.

Uma delas fala comigo, muito e provavelmente em tom acusatório, mas eu não a escuto. Vejo seus lábios se moverem e até imagino o que ela está dizendo, mas não a escuto. Eu olho mas não a vejo. A presença dela naquele quarto me incomoda. O que ela está fazendo ali?

A outra mulher está sentada no colchão, quieta ou balbuciando algo, com o rosto coberto por uma felicidade triste, enquanto a que fala parece estar o tempo todo em pé ao lado dela, porém não muito próxima.

Eu estou do lado oposto, junto dos dois beliches. Atrás deles, na parede, não há, a princípio, nada, mas depois percebo que o guarda-roupa do quarto da minha infância está lá, dentro e através da parede. Uma antiguidade restaurada, também em madeira muito escura. Eu mexo nas prateleiras enquanto vejo, de relance, a mulher que fala. Onde estão as portas do guarda-roupa? E como é possível que eu esteja mexendo naquelas prateleiras através da parede? Há outra dimensão de sonho dentro do sonho?

Angustiada com tudo ao meu redor, o tamanho do quarto, os beliches, o escuro da madeira e do quarto e, principalmente, com a mulher que fala, eu desperto.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sonhos da quarentena

A rua é aquela que se repete. A servidão de passagem, a galeria. Os buracos que são as portas dos outros mundos que existem lá. A porta em forma de arco, os espinhos plantados no canteiro de pastilhas azuis que se estende da calçada até o fim do comprido passeio. Na calçada, outro buraco, outra porta em forma de arco, maior que aquela que fica na servidão. Paredes brancas, detalhes azuis cor de azulejo português. Carros estacionados em vagas de quarenta e cinco graus. Há vagas sobrando? A lateral da igreja em amarelo sépia descascado. Toda a cena tem sempre uma pincelada de sépia, nada é tão translúcido assim. Esse sonho se concentra em uma extremidade da rua. Há outros onde o meio é o cenário. A outra extremidade raramente aparece. Na de agora, há poucas pessoas fora. Eu sei que elas estão nos buracos, mas fora, só eu transito. Eu e aquele que divide a cena comigo. Há um passeio com ele e a certa altura uma bifurcação. Eu digo, agora vou por aqui e você vai por ali. Então é mesmo assim? É, você sabe que é.

Outra cena, frenesi de pessoas que eu não vejo. Há duas com as quais interajo e que interagem entre si, mas não sei o que dizem, não sei o que eu digo. De repente a Gigi está ali em meio àquela confusão difusa, a algo que se agita e que eu não consigo discernir. Ela pisa num filhote, primeiro com uma pata, depois com a outra. O filhote chora, grita, e ela parece não perceber o que está acontecendo. Depois, outro filhote. De novo, ela parece alheia. E então ela está muito próxima, deitada, e eu olho para ela e a toco com a minha mão esquerda. No início sinto a textura do pelo macio e quase posso sentir o cheiro de pelúcia que era o dela. Mas logo em seguida percebo que há algo errado. O pelo solto fica grudento e, ao tocá-lo, eu sei que há sangue, que agora vejo seco e escuro ao longo dos fios amarelos. O corpo está diferente e o olhar é ausente e parece morto de pavor dentro das órbitas. Ela olha através de mim e não sabe que estou ali. Ela não é a Gigi. Ela não me vê. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Sonhos da quarentena

Estou numa loja estreita, crua, e entrego o pagamento em dinheiro ao homem que me atende, postado numa linha diagonal, do outro lado do balcão. Há pouco espaço para manter distância e ele é obrigado a inclinar o corpo na minha direção para pegar o dinheiro que quero lhe entregar e para o qual ele olha como se não acreditasse no que vê. Eu digo que não tenho outra forma de pagar e ele olha para uma nota de dez reais que há entre as outras notas e diz que ela é nova e que, portanto, deve estar contaminada. Titubeia algumas vezes mas pega o dinheiro, não sem um toque de horror no rosto. Não sei o que estou comprando. Talvez shampoo. Aquela loja vende shampoo? Não deveria vender, pois eu a conheço desde a infância e lá não se vende shampoo. Faço uma incursão mental até a mesa onde ele costumava sentar e eu também, às vezes. Mental? Vou até o fundo. Caixas de papelão. O cheiro do pó e do papelão. Eu conheço todo aquele espaço, dentro e fora da loja. Fora, antes, eu tomava banho e meu shampoo acabou. Antes ou depois do banho? Eu estava trabalhando, havia um colega que não ajudava. Era uma espécie de dormitório. Estávamos todos ali. O dia todo? O que fazíamos? O banheiro era coletivo. Mulheres e homens? Ou só mulheres e só homens? Tomei banho mais de uma vez e eram banheiros diferentes a cada vez. Mais escuros, mais claros. A claridade tinha o tom do amarelo. Esse colega me exasperava. Por que ele se expandia tanto?

Corte. Outra cena. Estou numa cidade do nordeste do Brasil. Faço incursões pela água, de uma forma bidimensional, como já aconteceu em outro sonho. Mas nesse não vejo a viagem. Sei que há o mar. Num retorno, acesso a entrada do transporte público, terrestre. Como a entrada de uma estação de metrô. Não é a primeira vez que estou ali mas só nesse momento acesso um local retirado da circulação e vejo, por um vidro imenso, crateras como as da lua em torno das quais há pessoas sentadas. Não muitas, esparsas. Elas observam a paisagem. As crateras são preenchidas com água azul quase bic e todo o mar se estende a partir dali. Todo ele é azul muito forte. O céu não, o céu é amarelo, é vermelho, é laranja. Alguém me diz que sim, que aquilo está ali, que é só ir até lá. Volto para algum outro lugar e falo sobre o azul e as crateras. Com quem eu falo? Depois procuro uma forma de acessar a paisagem. Entro por uma porta e deparo com uma escada. Branca. Começo imediatamente a subir e me desculpo pela invasão com uma mulher que está ali. Eu a conheço. Quem é ela? Ela diz que tudo bem, que muita gente passa por ali. Então isto é uma servidão de passagem, pergunto. Ou será que afirmo? Ela diz que sim, que mais ou menos. Acesso a rua e caminho. O colega exasperante está ali. Mas não é ele. É um amigo. Uma amizade breve. Ele fica pelo caminho mas não completamente. Sigo e entro num local parecido com um abrigo de acesso a algum tipo de transporte público. Há vidros. Não nada além de paredes e de vidros. Olho por eles e as crateras estão ali. O mar terrivelmente azul também. O homem reaparece e eu não sei o que dizer. Ele fala muito e me exaspera. Por que aquele mar é tão azul?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Sonhos da quarentena

Dois homens, uma máquina grande. De lavar roupas? Olho para o buraco que há no centro dela e fixo meu olhar ali. Eu não quero olhar para os olhos de um dos homens pois, se olhar, farei algo que eu não quero. Eles discutem sobre algo. Eu digo que não quero, que não vou olhar. Um carro. Há uma casa ali, rua, calçada, tudo perto e ao mesmo tempo longe. Um deles vai e volta. Volta para o carro? Quem são eles? Eu os conheço.

Outra casa, outra cena, outro carro. Verde no ferro fundido. Portões de grade, corrente, cadeado. Um outro homem. Ele sai do carro? E eu, estou no carro? Olho por entre as grades do portão e falo com alguém. Uma mulher. Não tem ninguém lá? Está tudo vazio? A cena é triste e fechada, a casa é triste.

Outra cena, outra casa, uma chácara. Mesmo lugar de um outro sonho. Há sol, árvores, gramado, piscina. A casa é marrom, quadrada. Só vejo uma parte dela. Há um caramanchão.

Estou de volta à casa triste e o outro homem está lá. Ele se aproxima, por dentro, do portão. Fala algo sobre caixas de ovos. Caixas de ovos? Eu não entendo. Eu quero entender que ovos, que caixas. Do que é que ele está falando? E de repente a casa triste se abre em chácara, em caramanchão, e o homem caminha para lá. O espaço todo adquire um ar sinistro e eu não quero estar lá. O homem é o meu pai.

terça-feira, 31 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Uma escola, eu carrego uma mochila. Pequena. A que eu carrego para a praia. Mas há outra mochila, que insiste em escorregar. Onde ela está? Na mochila que vai nas minhas costas há comida. E só. A escola é branca. As paredes de alvenaria, as portas, brancas. Sou surpreendida pela quantidade de azulejos brancos que a revestem e que me incomodam. Caminho por um corredor aberto mas não tão largo. Subo uma escada branca e acesso as arquibancadas do que parece ser um estádio. Há outras pessoas ali, talvez um colega ou uma colega de trabalho. Falamos algo a respeito do que está acontecendo. O que está acontecendo? Haverá uma palestra? Uma reunião? As pessoas estão esparsas pelas arquibancadas, em pequenos grupos ou sozinhas. Muitos espaços estão vazios. Lá embaixo, na arena, há outras pessoas. O que elas dizem? Elas dizem alguma coisa? Levanto e volto a descer as escadas brancas. Ao meu redor, paredes de azulejos brancos. Eu estou ali a trabalho. Saio em busca da mochila que está nas minhas costas. Preciso comer. Preciso? Encontro os banheiros, masculino e feminino, e me confundo. Em qual deles devo entrar? Qual é o feminino? Entro no banheiro e encontro a comida na mochila. Eu como? Eu falo com alguém. Alguém me encontra. Estou trabalhando? Sigo para outro ponto da escola, aberto. Ao meu redor as paredes são brancas e tudo é quase branco. A claridade me entristece.

Outro corredor aberto, mais vivo. Cores. Um corrimão de ferro verde, linhas retas, disposto quase no meio do passeio. Pessoas caminham na direção oposta mas sei que há alguém atrás de mim. A via está disposta num ângulo diferente do que até então vinha se apresentando. Caminho apressada por ela. Estou na universidade e preciso chegar no dormitório. Eu moro lá? O quarto não está arrumado, há coisas sobre a cama. Um item vermelho, um pedaço de pano que eu reconheço. Saio e ando novamente por ali. Desço uma escada. Branca, mas só ela. Os azulejos brancos desapareceram. Estou à procura de alguém? Uma amiga que de repente se calou. Ela está lá. Frequentamos as mesmas universidades. Onde ela está? Ela fala comigo? Ouço que é necessário voltar. O vírus. Volto para o quarto. Bagunça. A cama, as coisas. Mas vou ter que ficar lá. As pessoas transitam apressadas, confusas, pelos espaços da universidade. No quarto, começo a arrumar a mochila e falo, pelo telefone, com a minha mãe. Ela anuncia que terei que ir embora. A universidade será fechada.

sábado, 28 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Vejo o clube por dentro, vazio. Estou numa espécie de ilha de edição e é de lá que eu o vejo e falo com alguém. Talvez comente o fato de que está vazio, só as cadeiras dispostas no salão, arranjadas em filas, como numa igreja ou num auditório. O clube é amarelado e tem a atmosfera da capa do disco da Marina Lima, Abrigo. As pessoas na ilha de edição, duas além de mim, não têm rostos conhecidos. Eu mal vejo os seus rostos. A entrada do clube é pomposa e também está vazia. No salão há uma passagem para os fundos, pela qual ninguém passa. Como se a passagem pudesse ser utilizada só de fora para dentro ou como se fosse inútil, só um detalhe, ou um entalhe. Nos fundos há outro ambiente, aberto, mas que ainda conserva o mesmo tom amarelado do interior e da entrada. Há pessoas lá, e uma piscina. Eu estou na piscina? Quem são aquelas pessoas? Há crianças, barulho, água sendo jogada para cima. Não, eu não estou lá, eu continuo na ilha de edição. Depois uma garagem. Agora, um portão branco, vazado em alguns trechos. Muito branco. A garagem é larga mas não muito grande. O interior da casa parece escuro. Fora há sol. Não há carros na garagem, só um fora dela. Há pessoas na garagem, concentradas num lado dela. Uma garagem como a de casas conhecidas da minha infância, onde eram feitas festas de aniversário. Há apreensão no ar, mas talvez também venha a haver uma festa. Quem sai abre o portão, que já está meio aberto, mas nunca completamente. O cachorro não pode sair, alguém diz. Mas quem está saindo? O portão é irregularmente vazado. Alguém, um homem, que passa pelo portão a fim de sair, o abre e o recolhe com a mão, a qual eu noto com atenção. Ele fala algo e sorri. Alguém, eu talvez, ou uma outra mulher, fala com ele. Ou falamos ambas. E as pessoas no canto falam de maneira difusa, às vezes olhando para a cena central. Estou de volta ao clube, agora na entrada. Há duas pessoas em pé na porta e outras me acompanham. Agora estou lá. A porta está aberta, não há porta, e sim uma entrada de alvenaria arredondada à minha esquerda. A entrada do clube continua pomposa, como a do clube da minha adolescência. Mesmo não havendo porta, eu tenho uma chave e tento usá-la. Onde? Numa fechadura? O interior continua amarelo e eu falo com alguém. Caminhamos para o fundo, vestidos para uma festa, descontraídos. Estou de volta à garagem, onde o portão continua escandalosamente branco. As pessoas continuam lá, mas há uma sutil diferença na cena. O cachorro não pode sair. Alguém, um homem que se parece com o ator que faz o personagem Doug, da série Atypical, fala conosco sorrindo. E sai. O carro está lá fora.

terça-feira, 24 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Essa cachorrinha não vai embora, repetia meu colega de trabalho. Ela não vai embora. Eu não a vi ainda, eu dizia.

O cenário não era azul, não era claro, talvez fosse escuro. Talvez fosse sempre quase noite. Podia ser aberto. Um corredor, um pequeno gramado entre edificações, uma loja sem portas. Ela não quer ir embora, ele dizia. Uma pequena sala de estar, a entrada de uma casa, eu afastava uma cortina e olhava através da janela. Eu não a vi ainda. Até que a vi. Ele dizia um nome. Eu não lembro qual. Ela não era grande e estava se afastando. Seu corpo era largo, quadrado. Os pelos pretos e encaracolados, o rabo cortado. Ela olhava para trás e o seu olhar era o de um humano. Eu estava ali, só eu. Por que eu não estava trabalhando com os outros? Ele dizia novamente que a cachorrinha não queria sair de lá. Mas eu não estava lá. Estava em outro lugar, separada. Agora eu a vi, contei, mas ela não está mais aqui.

Rua, eu estava num espaço que era como o de uma loja de rua. Sem portas, paredes amarronzadas, vazio e triste. Agora eu via a cachorrinha, mas era outra. Os pelos caíam sobre o seu rostinho, que tinha uma configuração inusitada. Deitada, encostada numa parede, ela lambia as patas e de repente olhou para mim. Então os pelos que tapavam seu rosto ficaram curtos. Agora eu via o focinho, via melhor o rosto, mas não via os olhos. Onde estavam os olhos? Ela não quer ir embora, ele dizia. Eu vou ficar com ela. E pegava o celular para ligar. A cachorrinha é de uma menininha. Onde ela está? Está por aí. Ela também não vai embora. A menina aparece, e some. Indago duas mulheres que passam na frente da loja a respeito da menina. Mulheres que um dia foram personagens do cenário da praça da minha infância. Sim, nós a conhecemos. Onde ela está? E então o dia estava claro, estávamos ali ao lado, eu sobre a calçada, olhando para as três. Quantos anos você tem? A garotinha responde, três. E ela se parece com a primeira cachorrinha do sonho.