Trecho do Caminho Francês
Como eu disse aqui, as cicloviagens têm sido uma constante na minha vida e o Caminho de Santiago de Compostela, que eu imaginava um dia fazer a pé, foi, talvez, a mais maravilhosa dessas experiências sobre rodas movidas a energia humana.
Pensando em cumprir o que prometi ao Ari e ao Luciano, companheiros de pedal de Londrina, aí vão algumas dicas e impressões sobre a viagem que eu e o Paulo fizemos em julho de 2011.
Trecho do Caminho Francês
Para começar, há vários caminhos que levam a Santiago de Compostela. A escolha de um deles, bem como do ponto de início da jornada, dependerá do desejo e da disponibilidade de cada um. Nós fizemos o chamado Caminho Francês, tido como o mais tradicional, e iniciamos a bicigrinação em Saint-Jean-Pied-de-Port. Depois de alcançar Santiago, pedalamos até o Porto, percorrendo também um trecho de um dos Caminhos Portugueses, porém ao contrário.
O primeiro passo foi buscar informações na internet e comprar um guia de viagem. Após uma pesquisa e algumas dúvidas, optamos pelo El Camino de Santiago en tu mochila, de Antón Pombo. Apesar de não ser diretamente voltado aos cicloturistas, o guia traz várias dicas para quem vai percorrer o Caminho de bicicleta, como avisos relativos a trechos onde a bike fica meio inviável em função do terreno. Outros fatores que nos levaram a escolher o guia do Antón Pombo foram o seu peso e tamanho (que compensam o fato da encadernação não ser em espiral). Além disso, os comentários do autor sobre os “atentados” ao Caminho são um show à parte; Pombo é tão fiel e entusiasmado que faz questão de marcar aqueles desvios e construções que são tidos por ele como violações ao Caminho. No final da viagem, estávamos de pleno acordo com suas observações e felizes com a integridade de seus comentários.
Para nos ajudar no percurso de Portugal, utilizamos o El Camino de Santiago Portugués, da El Pais Aguilar, comprado numa livraria de Santiago de Compostela.
Outro guia bacana para os peregrinos en bici e que pode ser obtido gratuitamente pela internet é o Passaporte Bicigrin@, que também pode ser adquirido em versão impressa e encadernada de forma bem prática e compacta. Nós o compramos na ACACS-SP – Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela, no dia em que fomos até lá para entregar os formulários da credencial preenchidos e obter nossas Credenciais do Peregrino (um dos itens fundamentais para a realização da viagem).
Vale lembrar que eu e o Paulo moramos em São Paulo, onde está localizada a ACACS-SP; se você mora em outros Estados do Brasil, faça uma pesquisa no site da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago para saber qual é o melhor local para obter a sua Credencial do Peregrino.
Aproveitando a menção à ACACS-SP, a Associação promove palestras sobre o Caminho, algumas em parceria com a Mundo Terra (que, até junho do ano passado, dava desconto para peregrinos nas compras realizadas em suas lojas).
Tanto a passagem de ônibus quanto o transporte de táxi de Pamplona a Saint-Jean-Pied-de-Port já estavam okay antes da nossa chegada.
Quanto ao táxi, obtivemos o contato do Juan com um taxista indicado no Passaporte Bicigrin@; como ele não poderia nos levar, sugeriu que escrevêssemos para o Juan, cujo e-mail é icaro111@ozu.es. Deu certo e, no dia e hora combinados, lá estava ele, com sua vã suficientemente grande para transportar duas bicicletas embaladas nos respectivos malas bike, dois ciclistas e seus respectivos pertences.
Durante o percurso, o Juan, sempre sorrindo, nos explicou e contou mil histórias, deu dicas sobre o Caminho, colocou-se à disposição para resolver qualquer problema que tivéssemos ao longo da viagem e pediu para que escrevêssemos assim que chegássemos ao Brasil, para dizer que estávamos bem. Além disso, nos deu a mais preciosa das dicas: “que tal parar em Roncesvalles e deixar a maior parte das nossas coisas lá, na Posada de Roncesvalles”? Explico:
Roncesvalles, nosso destino no dia seguinte, fica entre Pamplona e Saint-Jean-Pied-de-Port (o carro segue por uma estrada diferente daquela por onde viajam os peregrinos), ponto inicial da nossa bicigrinação. De Saint-Jean a Roncesvalles, a ascensão é de aproximadamente mil metros em vinte e oito quilômetros. Ou seja, no dia seguinte, teríamos não uma subida, mas um paredão pela frente. Acatamos a sugestão do Juan e deixamos algumas coisas em Roncesvalles. Sugiro, meu caro bicigrino, que, sendo possível, você deixe não algumas, mas quase todas as suas coisas lá. Leve só o essencial e não subestime os Pireneus!
Trecho do Caminho Francês: Saint-Jean-Pied-de-Port a Roncesvalles
Ao chegar em Saint-Jean, por volta das onze e meia da noite, Danièle, a dona do Auberg du Pèlerin, o excelente e mais que recomendável albergue que tínhamos reservado, já nos aguardava na porta. Como havíamos dito que chegaríamos por volta desse horário e que estávamos preocupados com o barulho que inevitavelmente faríamos, ela, além de ficar nos esperando, nos alojou num quarto coletivo, porém vazio. Ou seja, éramos os únicos ocupantes da habitação e não atrapalhamos os peregrinos que já estavam dormindo. No dia seguinte, depois do ótimo café da manhã, desembalamos e montamos as bikes no quintal do albergue, com toda a tranquilidade do planeta, e demos início ao nosso pedal peregrino.
O restante do nosso Caminho (incluindo outros aspectos práticos) você acompanhará nos posts que estão por vir e, não é por nada não, mas vale a pena nos acompanhar!
P.S. Fotos: Pepê Esteves e Camila Guido.
P.S. Fotos: Pepê Esteves e Camila Guido.