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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Nonsense

Era a Rita Lee ali, na primeira fila, vestindo um tailleur Chanel preto e branco e usando uns óculos que em nada se pareciam com ela, dizendo, com o ar mais sério do mundo, que iria ao cinema. Enquanto dizia isso para as duas pessoas que estavam sentadas ao seu lado, um homem e uma mulher, ela olhava para mim, que estava em pé a uma certa distância, na sua diagonal.

Será que esse sonho tem a ver com aquele disco onde ela canta Flagra? Aquele em cuja capa a Rita, com uma flor cor-de-rosa no cabelo, e o Roberto de Carvalho aparecem num fundo azul que simula um efeito meio água, meio mercúrio, meio celofane amassado? Passei sei lá quanto tempo da minha meninice olhando para o azul, o da capa e o dos olhos da Rita, e para aquela flor, e ouvindo aquele disco, que eu adorava e que levava comigo para cima e para baixo junto da minha vitrola portátil que, quando fechada, parecia uma malinha de espião de filme americano, só que branca e com uns furinhos em uma das extremidades. Rita, não sei se vou, mas estou doida de vontade de entrar no escurinho de um cinema, seja para ver se a Deborah Kerr que o Gregory Peck (na época eu não sacava a brincadeira ainda) ou seja lá o que for; qualquer coisa, na real, que me transporte, mesmo que só por um tempinho, para o mundo de antes.

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Fico atônita quando ouço alguém dizer que a vida está melhor agora, que o mundo pandêmico lhe é preferível ao mundo de antes, que tanto faz etc. Assombrada, só consigo pensar no estrago geral e no meu próprio desconforto. Quanto mais o tempo passa, mais eu penso que eu daria tudo, qualquer coisa para ter o mundo de antes e a minha vida de volta.

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Tenho andado pelas ruas noturnas da cidade onde eu nasci como quem pisa num sonho. Fico imaginando que por trás do concreto das edificações e por baixo das calçadas existe um outro universo, um outro tempo, separado do atual pela matéria bruta que constitui a cidade tal como ela se apresenta. Como se por trás de tudo houvesse uma outra realidade, como se o presente não fosse uma continuação do passado e sim um sonho cujo sentido eu não estou conseguindo decifrar.

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Sabe aquele filme A Vida Marinha com Steve Zissou? Eu pensava nele quando vi uma pessoa carregando suas coisas em dois grandes sacos plásticos. O homem atravessou a rua e caminhou na direção do coração da praça, onde jaz uma edificação que outrora foi uma escola. Quando o vi novamente, ele estava se preparando para passar a noite de Natal ali, encostado no muro da antiga escola, sobre a grama que recobre o chão e aparentemente sem nada que pudesse recobrir o seu coração.

O Sig estava no meu sonho. Já era o terceiro dia que estávamos naquela torre que ficava fora e ao mesmo tempo dentro do mar. Era uma espécie de apartamento muito pequeno e confuso, com paredes pintadas de amarelo e uma pequena área externa, colocado sobre a estrutura de uma plataforma marinha. Havia uma amiga conosco e no terceiro dia eu disse a ela que nós não poderíamos mais ficar ali pois o Sig estava saltando e pedindo para sair. Ele também havia feito xixi dentro do apartamento durante a noite, o que significava que ele não estava mais aguentando e, se ele não aguentava, nós também não aguentaríamos por muito mais tempo. Tínhamos que ir embora. Mas havia um motivo para estarmos ali. Havia? Lá fora era sempre noite, mesmo durante o dia, e as águas do mar eram agitadas e muito escuras. Havia botes cor de laranja espalhados no entorno e também outras pessoas, que apareciam quando nós saíamos. Sim, nós havíamos saído antes. Estávamos ali por algum motivo. Mas qual era o motivo? O Sig saltava no meio da sala e olhava para a porta e para mim. Acordei pensando nas palavras A Vida Marinha com Steve Zissou e sem saber o motivo pelo qual construímos uma realidade nonsense para viver.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Escrevo como quem manda cartas de amor

Você escreve tão bem; se estivéssemos nos tempos delas, eu gostaria de receber cartas escritas por você vez ou outra.

O significante fica ali, tamborilando, e, passados alguns dias, percebo que nunca deixei de viver como nos tempos das cartas de amor escritas com tinta de caneta em folhas de papel e enviadas, ou não, aos seus destinatários, em envelopes que percorriam, no tempo e no espaço, dias e quilômetros de distância. A diferença é que agora, como tudo o mais, os destinatários são difusos.

Escrevo cartas a quem quiser lê-las, correspondências entre o meu e o mundo de fora de mim apontadas em códigos aos quais damos o nome de palavras. E são talvez todas elas cartas de amor na medida em que dão para o leitor exatamente aquilo que me falta.

Uma amiga certa vez me disse, após ler um dos meus textos, que eu era corajosa. Naquele momento eu não entendi muito bem o que aquilo significava, mas agora penso que escrever, assim como amar, de fato é um ato de coragem.

Sobre as cartas de amor, Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos), suponho, sempre soube disso.


P.S.: O título deste texto é um verso da música Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, composta por Emicida e Vinicius Leonard Moreira.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Três pequenos fragmentos

Bidimensional

Tenho sonhado com telas, todas as noites, com telas de tamanhos diferentes. No começo eu sei que estou a uma distância razoável, mas de repente elas começam a se mover na minha direção, numa diagonal crescente. São várias, completamente escuras, exceto pelo contorno verde luminoso. Saltam uma de dentro da outra e não param de crescer, de subir, de virem de encontro ao meu rosto. Quando chegam, elas me perpassam com o seu contorno e eu me sinto acuada o tempo todo, tomada por uma sensação da infância cuja descrição sempre me foi impossível. Algo físico, na garganta, no estômago, no tronco. Um arrepio que não arrepia, um formigamento, um gosto que não vem. M., eu estou me sentindo desesperadamente bidimensional.


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O não dito

Eu ligo e ele não atende. Ao mesmo tempo, ouço a sua voz e vejo o seu rosto do outro lado da linha. Tomo um susto. Entre outras palavras perdidas, ele diz o meu nome, sempre o meu nome, num tom que sempre me afligiu. O que ele diz é também sempre o mesmo, como faria um autômato programado para nunca dizer a palavra filha. O sonho acaba aí, na surpresa eterna do não dito.


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Sobremesa ou em Sampa, Narciso acha feio o que não é espelho
 
Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você traria Freud para a conversa. Ao que eu poderia ter dito que mais cedo ou mais tarde eu também sabia que ele traria Deus, talvez um daqueles com tantos braços e pernas ou com o formato de uma serpente, para a conversa. Mas eu não disse. Agora porém me pergunto o que Freud teria a dizer a Deus durante a sobremesa. O mesmo que ele não disse ao Presidente Schreber, já que este também estava morto? Mas seria Deus um louco ou só mais um desesperado que se agarra ao paraíso perdido enquanto tenta fugir do inferno do desamparo?

De quem, afinal, é o reflexo que aparece na mesa quando Deus é trazido na bandeja?



P.S.: O título do último fragmento é claramente inspirado na música de Caetano Veloso e Giberto Gil, Sampa.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Thelma ou Louise?

Logo no início da quarentena, do qual alguns meses já nos separam, assisti a Thelma & Louise, filme que por sua vez estava separado de mim por décadas de distância, sendo eu, na ponta de um dos fios desse tempo, ainda adolescente.

A exibição do filme fazia parte de um debate: primeiro a história, depois a conversa, que, no início, resvalou no tema da maternidade, mais precisamente numa especulação sobre a impossibilidade da realização da viagem que constitui um dos elementos do roteiro do filme caso Thelma e Louise tivessem filhos. Embora o debate não tenha se estendido nessa direção, achei o fato curioso e fiquei me perguntando o que um filme sobre duas amigas que não têm filhos e que saem numa road trip nada convencional teria a ver com maternidade.

A resposta é óbvia e confesso que esse tipo de silogismo invariavelmente me incomoda. A questão é que parece quase impossível pensar o feminino sem associá-lo à maternidade, de maneira que um filme sobre duas mulheres, seja qual for o roteiro, tem grandes chances de suscitar algum debate sobre maternidade, ou seja, tem grandes chances de cair num lugar-comum. O problema é que o desejo, sejam quais forem os seus clichês individuais, não cabe num lugar-comum. Ele é bem mais, e também bem menos, que isso.

Penso que Thelma & Louise é um filme que não tem rigorosamente nada a ver com maternidade, não havendo nada ali que diga respeito ao tema, inclusive e principalmente o gênero das protagonistas. É um filme sobre transgressão, liberdade e sobre um dos aspectos mais enigmáticos do feminino, que é a amizade entre duas mulheres.

E a amizade de Thelma e de Louise é daquelas amizades femininas raras, onde a rivalidade cede para o amor, onde a liberdade mútua de transgredir seja lá o que for leva à cumplicidade, onde não há julgamentos.

Quando assisti ao filme pela primeira vez eu não sabia o que era isso. Não como agora, nesse quando de vida que às vezes é tão duro e que magicamente amolece com as rodadas do chá quente que ela prepara ou com as risadas que acompanham as nossas pequenas transgressões.

Durante o filme eu pensava se encontraria nele tudo aquilo que me atravessava daquela forma certeira naquele momento se eu não tivesse tido a chance de viver esse amor em forma de amizade. Também me perguntava se aquele roteiro me levaria aos mesmos pensamentos caso eu mesma já não tivesse passado por algumas travessias em forma de viagens.

Porque, em Thelma & Louise, a viagem parece ser uma metáfora para uma travessia pessoal, para um encontro com o desejo, uma travessia na qual ambas estão sozinhas, mas lado a lado. Thelma e Louise são tudo, menos lugar-comum, pois o que pode haver de mais extraordinário na existência de uma pessoa é o encontro que, para elas, se dá ali, no precipício do desejo. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Interlúdio ou hunting high and low

Tem sido assim nos últimos dias, ela acorda e se surpreende com o fato de haver sol lá fora. Sol? Mas não era assim que estava escrito nos inúmeros livros de ficção científica que ela leu, tampouco nos filmes. Neles, tudo era estrela, espaço cósmico, noite eterna, luz artificial, chamas, fumaça, escuridão. O Sol era visto do espaço ou de uma Terra já morta de luz natural. Ela abre os olhos, depois a janela do quarto e anda até a sala, onde a luz invade a intimidade das suas cores high and low. Desconfiada, ela vê o contraste entre o azul infinito do céu e a luz incandescente que entra manchando o tapete com suas linhas retas e tenta ajustar os planos. Como sincronizar o que está para além dos vidros da sacada com a luz natural que invade o seu mundo particular e que é a mesma que existia no mundo de antes, onde a ficção era só científica? Como é possível ler Joyce no café da manhã com o mesmo prazer descontraído de quem um dia leu uma montanha mágica de livros nesse mesmo momento de regozijo intelectual que se repete diariamente e ao qual o cheiro do café e o frescor do pensamento ainda meio molinho dão um tom de conforto incomparável? Momento no qual, por anos a fio, o sol, quando presente, se mostrou como um elemento integrante da cena e não como um estranho. Ainda assim ela lê e sente a beleza das palavras, misturadas ao gosto e ao cheiro do café, a invadir. Uma pequena felicidade brota no seu interior e ela evita olhar para o horizonte, onde, ela sabe, um muro de luz e vidro trarão de volta a pergunta em suspensão. Como é possível que ainda haja sol lá fora?

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Sonhos da quarentena

Estou num quarto estreito, obscuro, onde há três beliches feitos de uma estrutura de madeira muito escura. Dois dos beliches estão dispostos em linha na mesma parede enquanto o outro está na parede oposta. No beliche que está sozinho na parede há duas mulheres além de mim. Eu as conheço.

Uma delas fala comigo, muito e provavelmente em tom acusatório, mas eu não a escuto. Vejo seus lábios se moverem e até imagino o que ela está dizendo, mas não a escuto. Eu olho mas não a vejo. A presença dela naquele quarto me incomoda. O que ela está fazendo ali?

A outra mulher está sentada no colchão, quieta ou balbuciando algo, com o rosto coberto por uma felicidade triste, enquanto a que fala parece estar o tempo todo em pé ao lado dela, porém não muito próxima.

Eu estou do lado oposto, junto dos dois beliches. Atrás deles, na parede, não há, a princípio, nada, mas depois percebo que o guarda-roupa do quarto da minha infância está lá, dentro e através da parede. Uma antiguidade restaurada, também em madeira muito escura. Eu mexo nas prateleiras enquanto vejo, de relance, a mulher que fala. Onde estão as portas do guarda-roupa? E como é possível que eu esteja mexendo naquelas prateleiras através da parede? Há outra dimensão de sonho dentro do sonho?

Angustiada com tudo ao meu redor, o tamanho do quarto, os beliches, o escuro da madeira e do quarto e, principalmente, com a mulher que fala, eu desperto.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud


Por que não? Foi com essa pergunta que dei início a um trabalho arqueológico um pouco diferente daquele que, na minha infância, eu imaginava quando dizia que um dia seria arqueóloga. De volta para o interior, comecei a escavar e a remover escombros sob os quais, massacrados, encontrei um punhado de desejos. Um deles era o de conhecer a psicanálise e de ter conversas mais profundas com Freud, desejo nascido, como não poderia deixar de ser, das palavras, daquelas que eu via saírem da boca de Marilena Chauí junto da fumaça dos seus cigarros numa sala quente e apinhada de alunos num dos prédios do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre os afetos, as afecções, as proposições e demonstrações da Ética de Espinosa, em meio ao humano definido como desejo, Marilena invariavelmente mencionava Freud, ou pelo menos é assim que eu me lembro dela.

Resgatado dos escombros e restaurado, o desejo pela psicanálise foi aos poucos criando movimentos que finalmente me levaram até Freud, por cujas palavras - de novo o amor pelas palavras, tão explícito nas hestórias da psicanálise -, eu me apaixonei.

Do baixo da minha ignorância nem de longe eu sonhava encontrar nos textos de Freud o que encontrei. Foi como descobrir que um novo planeta existia e que era possível explorá-lo de perto, remexendo, inclusive, nos seus escombros. Foi descobrir que aquilo que me incomodava na filosofia pode, de uma certa maneira, ser superado por outra forma de ver as coisas, uma forma talvez ainda mais livre, mais marginal, menos engessada e mais viajante. Em Freud eu enxerguei humildade, confissão do fracasso, ousadia, liberdade, segurança, agudeza de espírito, perspicácia, sínteses absolutamente inesperadas, poesia, amor, vida pulsando em Eros, ausência de moralismos, compaixão mas, acima de tudo, um escritor brilhante. Freud, para mim, é um escritor brilhante e talvez esse seja, ao fim e ao cabo, o motivo do meu arrebatamento tão apaixonado, porque é simplesmente impossível não se render a tamanha beleza estilística, a uma simplicidade narrativa tão sofisticada, a tanta inteligência e, principalmente, ao amor que ele, Freud, demonstra ter pelas palavras. Porque - e aqui peço para que por favor me corrijam se eu estiver equivocada - psicanálise é de palavras que se trata, não é?

Em meio ao meu trabalho arqueológico e ao meu apaixonamento freudiano, e como sempre levada pelas palavras, lembrei de um documentário cujo trailer eu havia assistido há alguns anos no Espaço Itaú de Cinema (que para mim será eternamente Espaço Unibanco), numa das salas que ficavam a uns quinze minutos a pé, na época, da minha casa, nas quais passei décadas me refugiando. Aliás, vale dizer que sempre penso que se tivesse que eleger um templo para adorar alguma coisa esse templo seria o cinema, lugar onde nunca deixei de encontrar refúgio, recolhimento e transformação.

O nome do documentário era Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud e ao assistir ao trailer pensei, preciso ver esse filme. Só que dei bobeira e, no fim de semana seguinte, ao procurar o horário das sessões no Guia da Folha, descobri que ele não estava mais em cartaz.

A questão é que aquele era um título impossível de ser esquecido, tanto pela impressão que o trailer havia me causado quanto pelo nome do documentário, que tinha me deixado com a pulga atrás da orelha (também conhecida como angústia de não saber). Por que, afinal, hestórias? Por que não histórias? Ou estórias? O que esse título tinha a dizer? Procurei pelo filme em todos os cantos, da Amazon ao streaming, sem êxito, até que, em meio a escavações analíticas que iam a todo vapor, topei com o detentor das chaves para o mistério do documentário perdido, Francisco Capoulade.

O feliz resultado desse encontro é outro encontro, que se dará no próximo sábado, 30 de maio, às 18h, no Zoom, onde não só poderei rever o filme (sim, eu finalmente o assisti) como poderei fazê-lo na companhia de muitos outros que ainda não o assistiram ou que gostariam de fazê-lo novamente (porque uma vez só é pouco e a vontade mesmo é a de ter uma cópia em casa para rever de tempos em tempos, no ritmo das transformações que as leituras de Freud e da vida fazem conosco) e na do próprio Francisco, com quem todos poderemos conversar após a exibição do documentário.

O evento é gratuito, aberto ao público e as vagas são limitadas. Informações e inscrições pelo e-mail freudemcena@gmail.com.

Nos vemos lá?

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Agradeço imensamente a Francisco Capoulade por ter aceitado o convite, disponibilizado o documentário e, mais ainda, por tê-lo realizado; a Cristiane Futagawa (Sushi), pela consultoria e apoio técnicos, e a Patricia Lopes Martin, pelas outras chaves.

domingo, 24 de maio de 2020

Entendam o que puderem

"As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"

Coisas do Mundo Minha Nega, Paulinho da Viola


"You can´t start a fire without a spark"

Dancing in the Dark, Bruce Springsteen



Você pulou, eu dizia, e, cansada da batida do dia, ela se via obrigada a voltar a página e ler o que havia faltado da história, pensando, caramba, se ela já sabe, por que quer que eu volte?

Minha mãe começou a me contar histórias enquanto eu estava dentro dela. Tinha as que ela contava em voz alta e as que chegavam até mim por meio do cordão umbilical, como a que é contada em Esta noite a liberdade, que vim a ler depois, na adolescência, e que, junto com outras, serviu de faísca para tantas coisas pela minha vida afora.

Criança, eu tinha baús de madeira para guardar meus tesouros, que sempre foram meus livros, gibis e revistas (a lembrança daquela edição da Superinteressante com o holograma de um cavalo-marinho na capa me faz abrir um sorriso até hoje), e acesso irrestrito às prateleiras que continham livros em casa, onde nada que contivesse páginas encadernadas me era proibido ou negado.

Mas o mais genial, o que de melhor eu tinha, era minha tia Helena. Irmã da minha avó materna, tia Helena era o fino do fino. Ela era, para mim, a encarnação dos livros na Terra, mas não só. Ela era livros e era liberdade. Vivia como queria, lia o que a maioria das pessoas ao meu redor não lia e era capaz de falar sobre tudo, sobre qualquer fato ou personagem, fictício ou não.

Ex-militante do Partido Comunista, ela tinha atos e ideias progressistas e muitos livros fascinantes cujo conteúdo eu não entendia, parcial ou completamente. Ela cuidou de mim desde os meus primeiros anos e até os últimos de sua vida conversou comigo sobre as coisas do mundo. Na infância, ela me cobria de gibis, de revistas e de livros. A partir do início da minha adolescência, trocávamos impressões semanais sobre o convidado do Roda Viva, sobre a entrevista feita por Marília Gabriela no Cara a Cara, sobre as invariavelmente excelentes conduções feitas pelo Roberto d´Ávila no programa que levava no título o seu nome e, assim como acontecia com alguns dos livros que ela tinha, eu também não entendia tudo o que era dito na televisão. Só que isso nunca me desanimou; pelo contrário, o ininteligível me encantava e me envolvia como se eu estivesse sob o efeito de um feitiço ou de uma droga, e eu queria mais, sempre mais daquele mistério, daquelas faíscas, daquelas coisas todas que estavam ali no mundo e que eu precisava aprender.

Eventualmente, confesso, eu me achava um pouco estranha, já que, afinal de contas, qual era o sentido daquilo? Por que eu lia livros e ouvia debates que pareciam estar além da minha compreensão? Até que um dia, assistindo a uma edição do Roda Viva que trazia José Saramago no centro do debate eu o ouvi dizer que sim, que se deve ler livros que não se entende, que se deve lê-los mesmo sem entendê-los completamente e que tudo bem não entender tudo. A partir daí nunca mais me estranhei, pelo menos não nesse sentido, e segui sem culpa sob o efeito amplificador das palavras.

É por isso que quando ouço alguém dizer, em tom desencorajador, que tal ou qual livro ou autor é difícil ou até impossível, que ainda não é hora de ler aquilo ou aquele outro, que um dia, talvez, mas que até lá... Eu agonizo. Fico prostrada por alguns minutos e indignada para todo o sempre, porque a pobreza de espírito, a tentativa de reduzir e de conter o intelecto numa caixa de fósforos é das coisas mais tristes e revoltantes que existem. O que nós todos deveríamos dizer uns aos outros é leia tudo o que quiser e entenda o que puder! Aproveite a faísca do novo e do desconhecido e incendeie o seu mundo; deixe o fogo retorcer a fita do seu pensamento e simplesmente observe o que acontece.

Como disse o Cazuza (sempre ele), o tempo, o tempo não para, e as coisas que estão no mundo não vão esperar por nós. Viver apenas dentro dos limites do que se entende é perda de tempo. E o tempo, o tempo não para.


P.S.: O último parágrafo faz referência à música de Cazuza e Arnaldo Pires Brandão, O Tempo Não Para.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Aos prantos no more (mas sempre um pouco)

Hoje estou desconexa. Desconexa? Sim, fragmentada. Como se cada parte de mim estivesse num lugar diferente. Um braço pra lá, outro pra cá, uma perna solta, a outra abandonada. E eu não estou encontrando as palavras para juntá-las. Nem tudo tem simbolização. Eu sei. Sabe, eu não imaginava que eu deitaria aqui hoje e choraria. É realmente sempre uma surpresa.

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Começou quando ela disse chega!, quando ela abriu a porta de saída do carro da vida dela e o empurrou para fora. Aquela coisa estática, fria, corrosiva e furtiva que sempre a encobriu com sua sombra mal dissimulada. Ela enxergava a covardia que aparecia como um monstro que aprisiona pequenas criaturas indefesas em gaiolas de aço. O asco e a curiosidade que isso provocava nela. Por que, se passarinho é para voar e gente é para amar? Por que ele nunca entendeu isso e sempre se escondeu atrás do discurso violento da indiferença? Qual era a parte que faltava? Ela repetiu um sem-número de vezes que preferiria ter apanhado. Preferia um tapa ao bater violento de portas trancadas com chaves guardadas a sete, oito, nove, dez chaves. Preferia qualquer coisa àquela loucura. Ou era perversidade? Ela não sabe dizer. Sabe só que mesmo sem sombra e com a porta fechada a alegria ainda dói um pouco. Tanto, que às vezes vira pranto.

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Chorar é extravasar o que nem as palavras podem juntar.


P.S.: O título deste texto é inspirado na música Eu Estou aos Prantos, de Letrux.

domingo, 17 de maio de 2020

Fleur

Fim de tarde em Paris. Faminta, ela entra numa pequena padaria e se senta junto a um balcão estreito e vazio do qual é possível, pela parede de vidro à sua frente, observar o ir e vir das pessoas nas calçadas. Escolhe uma das extremidades do balcão onde, à sua direita, uma flor vermelha, falsa ou verdadeira ela não saberia dizer, preenche um vaso de latão longo e estreito postado no chão.

Logo depois entra na padaria uma mãe e seu filho, ele atrás dela. Ao pisar no estabelecimento, o garotinho, de uns seis anos, pele muito branca e cabelos negros, emite seu cumprimento em alto e bom som, bonjour!!!

A mãe vai até o balcão principal para cuidar do pedido enquanto o menino, aproximando-se dela com decisão e altivez, aponta para o vaso e dispara, fleur! Surpresa, ela devolve, fleur. Ele balança a cabeça de maneira enérgica e, ainda apontando para o vaso, repete, com a típica desenvoltura de um parisiense de seis anos que sabe o que (e como) diz, f l e u r. Esforçando-se para não decepcioná-lo, ela se prepara e repete, fazendo o melhor que pode, fleur. Ele abana a cabeça mais uma vez, com mais energia, e diz, f l e e e u r. Ela titubeia e tenta reproduzir com todas as nuances especificadas por ele a palavra fleur. Ele olha para a flor, olha para ela, e diz, em caráter definitivo, fleur.

Sem desviar os olhos, ele ouve as ameaças de abandono da mãe, agora vindas da calçada. Num giro rápido, volta-se finalmente para a porta, despede-se de todos e sai, deixando atrás de si uma flor impronunciada.

Com paixão

A professora de Alemão certo dia nos ensinou que a paixão, naquele idioma, doía muito. Ela nos disse que leidenschaft tinha a ver com dor, com muita dor, e que o termo em si, autoexplicativo, traduzia essa noção de sofrimento.

Passei anos pensando nisso, até agora, Até que a culpa nos separe, onde vejo escritas, nas páginas finais, as palavras com paixão. E aí penso que compaixão é para quem tem paixão, é para quem sofre. Porque se eu não sofro o sofrimento que há em mim, como posso sofrer com o sofrimento do outro? Porque sofrer, não sei, sofrer eu acho que todo mundo sofre, mas sofrer o sofrimento, o próprio e o alheio, nem todo mundo pode. Afinal, de novo e sempre, cada um faz o que pode.

Há quem simplesmente não possa sofrer o sofrimento, quem não posssa se apaixonar. Porque a paixão é um estar para fora de um jeito louco, é ter a coragem (ou eventualmente a falta de opção) de se lançar no outro e deixar de si. E quem é que pode sofrer assim? Quem pode se abandonar, mesmo que só por um tempinho, para ficar com a dor do outro?

Aqueles que formam filas na porta da Zara em tempos de pandemia? Os que nesses mesmos tempos exibem em suas redes sociais o seu bem-estar material enquanto milhões de pessoas padecem ainda mais com a fome e com a pobreza e enquanto outras milhares morrem, deixando atrás de si o sofrimento multiplicado de criaturas que nem sequer puderam constatar fisicamente a morte de quem se foi (até os cães que vivem juntos precisam ver o corpo do companheiro canino morto quando este falece longe do amigo, num hospital veterinário, por exemplo, sob pena de ficarem profundamente tristes e atormentados)? Ou quem sabe aqueles que acham que, ao fazerem o que querem e como querem, estão simplesmente assumindo um risco individual?

Quem é que pode, afinal, compaixão?

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sonhos da quarentena

A rua é aquela que se repete. A servidão de passagem, a galeria. Os buracos que são as portas dos outros mundos que existem lá. A porta em forma de arco, os espinhos plantados no canteiro de pastilhas azuis que se estende da calçada até o fim do comprido passeio. Na calçada, outro buraco, outra porta em forma de arco, maior que aquela que fica na servidão. Paredes brancas, detalhes azuis cor de azulejo português. Carros estacionados em vagas de quarenta e cinco graus. Há vagas sobrando? A lateral da igreja em amarelo sépia descascado. Toda a cena tem sempre uma pincelada de sépia, nada é tão translúcido assim. Esse sonho se concentra em uma extremidade da rua. Há outros onde o meio é o cenário. A outra extremidade raramente aparece. Na de agora, há poucas pessoas fora. Eu sei que elas estão nos buracos, mas fora, só eu transito. Eu e aquele que divide a cena comigo. Há um passeio com ele e a certa altura uma bifurcação. Eu digo, agora vou por aqui e você vai por ali. Então é mesmo assim? É, você sabe que é.

Outra cena, frenesi de pessoas que eu não vejo. Há duas com as quais interajo e que interagem entre si, mas não sei o que dizem, não sei o que eu digo. De repente a Gigi está ali em meio àquela confusão difusa, a algo que se agita e que eu não consigo discernir. Ela pisa num filhote, primeiro com uma pata, depois com a outra. O filhote chora, grita, e ela parece não perceber o que está acontecendo. Depois, outro filhote. De novo, ela parece alheia. E então ela está muito próxima, deitada, e eu olho para ela e a toco com a minha mão esquerda. No início sinto a textura do pelo macio e quase posso sentir o cheiro de pelúcia que era o dela. Mas logo em seguida percebo que há algo errado. O pelo solto fica grudento e, ao tocá-lo, eu sei que há sangue, que agora vejo seco e escuro ao longo dos fios amarelos. O corpo está diferente e o olhar é ausente e parece morto de pavor dentro das órbitas. Ela olha através de mim e não sabe que estou ali. Ela não é a Gigi. Ela não me vê. 

sábado, 9 de maio de 2020

É muito som pra vocês

"Vamos pedir piedade
Senhor, piedade!
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade!
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem"

Blues da Piedade, Cazuza e Frejat



Tive um amigo, E., que contava que no dia da morte do Cazuza se postou na janela do seu apartamento numa rua do bairro dos Jardins, em São Paulo, da qual gritava: É muito som pra vocês! Para quem não se recorda ou é muito jovem para conhecer a história, Cazuza foi uma das inúmeras vítimas da Aids, doença que, quando surgiu, foi cercada de preconceitos e de rótulos, os quais eram automaticamente transferidos para as pessoas que a adquiriam. Cazuza, embora amado por muitos, foi, na época, achincalhado pela canalha que nunca cansa de dar plantão.

É muito som pra vocês. Acho que desde o dia em que descobri, há não muito tempo, que E. se foi essa frase voltou a pipocar na minha cabeça. Olho ao redor e penso: É muito som pra vocês.

Guido!, ele dizia, nas noites passadas de bar em bar, filosofando, contando histórias e discutindo teses mil que no dia seguinte viravam fundamentação de recurso (os quais costumavam ser ganhos na segunda instância pois a primeira era tacanha demais pra tanto som). Ou durante os dias e ânimos quentes nas salas e corredores daquele prédio no Brás, onde a escrotidão da nossa endêmica desigualdade social tinha a sua vez no formato infância e juventude. Lá começava o processo legal dos meninos que aos olhos da sociedade eram os reis do crime mas que nós sabíamos, porque ouvíamos e víamos, que não. Foi ali que eu aprendi que toda notícia que diz que um jovem pobre, negro e, desculpem o termo, totalmente fodido de 16 anos é um psicopata sanguinário tem dois lados. Ou vários. Tem o lado da mãe do garoto que cometeu suicídio na frente dele, o do pai que justamente morreu vitimado pela Aids ou pela cirrose hepática, tem o lado do menino que cresceu sem nada, só com o sofrimento de no fundo se saber perdido. Mas esses são lados que, nós sabemos, não importam. Nunca importaram. E daí pra eles?

Naquela época eu não me surpreendia com o toque do interfone no meio da madrugada pois eu sabia que a seguir viria o anúncio de que E. estava na portaria. Diga a ele para subir, por favor, e logo o via parado à porta com cervejas numa mão e um vidro de Nescafé na outra. Ouvíamos Baden Powell e Toquinho e Vinícius até o dia explodir na grande janela da sala do meu pequeno apartamento na Rua Caio Prado e E., que subia a pé dos Jardins até a Consolação, ao nascer do sol, fazia o caminho inverso em meio aos vestígios da noite que ficavam espalhados pelo chão diurno da Rua Augusta.

Hoje eu olho para aqueles dias, para aqueles momentos, e fico pasma. Parece que foi um sonho. Por um tempo fomos encantadora e escandalosamente livres e ousados. Como podíamos nos permitir tantas pequenas e deliciosas transgressões de alma? Como podíamos acreditar com tanta convicção que a tragédia irremediável que tentávamos remediar dia após dia era legalmente remediável, mesmo quando os dramas reais das queimaduras, das pancadas, dos hematomas, do aprisionamento, dos gritos em forma de colchões sendo queimados se infiltravam nos sonhos, como faziam nos meus?

Penso que as duas perguntas se completam na qualidade de respostas. Ousávamos porque, além das motivações pessoais de cada um, víamos o que víamos da tragédia humana e sabíamos que não havia tempo nem alegria a perder e acreditávamos porque ousávamos apostar no sonho, no sonho de um mundo melhor, de um mundo onde houvesse comida, diversão e arte por toda parte e não só no nosso quadrado de classe média urbana paulistana. Além disso, éramos vários, e nossas palavras circulavam unidas em mesas de bares e em rodas de samba, em alto e bom som, sem medo de incomodar.

Depois, depois o que aconteceu? Depois doses de uma nova realidade foram aos poucos sendo colocadas nos nossos copos. O som ficou mais abafado e a vida, menos furiosa e mais calada.
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Você falou de novo no som. É invasivo, não é? É, eu sempre digo que é. Então. Então era muita vida, é isso? Sim, às vezes, dependendo do momento, dependendo da pulsão de morte, a vida pode ser muito invasiva.

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Seja o que for, ao invés de panelas, penso que o coro das janelas deveria ganhar uma nova versão.

É muito som pra vocês. Sempre foi.



Para E.F.N., in memoriam.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Quebrou não tem mais jeito

"Quebrou não tem mais jeito"


Eu não controlo as palavras, que surgem quando bem entendem. Podem aparecer na estrada, no chuveiro, no meio de uma aula, durante um filme, enquanto lavo a louça. São frequentemente despejadas em pequenos cadernos que deixo espalhados por aí, ao lado da cama, por exemplo, para poder acomodá-las antes de dormirmos. Só que nos últimos dias, nada. Nem nos sonhos elas estão aparecendo, sonhos que, aliás, implodem em poeira de porcelana branca antes que eu tenha a chance de colá-los. Duras que estão as palavras (e talvez os sonhos), imaginei que as tivesse escondido. Afinal, quem quer carregar o peso duro de uma pedra em forma de grito que não sai ou do sofrimento de uma doença que mata aos poucos, cada um de uma maneira diferente, todos os que estão ao seu redor? Quem quer olhar durante as vinte e quatro horas do dia para a dureza de paredes brancas que são não a metáfora, mas a literalidade do (su)real chapado que inadvertidamente e em vários momentos dos dias e das noites aparece no meio do caminho para a geladeira, cuja porta abro pensando que eu daria tudo, qualquer coisa para ter a minha vida de volta?

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"Agora descubra de verdade
O que você ama"


Quando levantar do sofá e ir até a cozinha preparar um chocolate quente te faz chorar você percebe que basta um ato simples, inocente e familiar para que você se veja complemente exposta. E aí você chora e pensa que nunca antes sentiu tanto medo e que estar apavorada te faz irremediavelmente desabar naquele sentimento mais profundo e inconfesso, aquele que você sabe que luta com armas e dentes e com todas as suas mirabolantes estratégias para não revelar. Porque você sabe.

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"Quem vai colar
Os tais caquinhos
Do velho mundo"


Espera, vamos olhar o mapa. Perfeito, é quase fronteira. Sim, mas você não pode esquecer que vai ter que ir pro sul. Preciso te mostrar uns lugares lá. Tudo bem, mas temos que inserir esses dois aqui de cima. Os dois? Sim, eu preciso muito conhecer esse lugar e você também. Você vai ver, vou te mandar tudo o que tenho visto a respeito. Mas são dois países enormes! Tudo bem, a gente dá um jeito. Tem umas bandas de jazz ótimas por lá e dizem que a população é demais. E tem o café, uma série de projetos sociais para conhecer. Você não vai querer perder, né? Ela me olha pela tela do celular rindo e concordando com a cabeça. Desligamos e eu sei, sabemos, que a conversa, normal no mundo de antes, agora soa como um grande delírio.


P.S.: Todos os versos citados são da música Pra começar, de Marina Lima e Antonio Cicero.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Freud, a série, e o fracasso do divertimento

Freud, a série que estreou recentemente na Netflix, parece ter causado (ou ainda estar causando) um certo furor de likes e deslikes (mais destes do que daqueles). Eu poderia listar os motivos pelos quais dei like mas vou me ater ao único que realmente importa: eu me diverti.

Devorei cada episódio imaginando o que o Freud da série descobriria a seguir e como ele sairia dessa ou daquela enrascada (ao mesmo tempo em que fantasiava uma certa semelhança entre ele e Sherlock Holmes), caí de amores pela doçura de Poschacher (o policial parceiro de Kiss) e me deliciei com a cumplicidade transgressora de Lenore (a governanta). Morri de pena pelo destino de Fleur Salomé até então, cujo beleza sedutora, aliás, enchia a tela toda vez que ela aparecia, e curti cada participação canina com aquela minha típica adoração pela espécie que só se explica pelo fato de eu também talvez ser um cachorro.

Se os fatos eram verdadeiros ou não, se a série estava ou não fazendo um retrato fiel da obra, da vida, do próprio Freud, nada importou. Para a obra, temos os livros escritos pelo próprio Freud, suas correspondências com outros médicos e psicanalistas da época etc. e, para a vida, as biografias. Ali, na Netflix, tratava-se de uma obra de ficção, de uma criação que usou um pedacinho da vida de Freud para dar corpo a uma outra coisa. A proposta da série, obviamente, não é veicular uma aula sobre Freud, sobre sua obra, sobre a psicanálise. A proposta, ao que me pareceu, foi criar uma ficção que se presta ao entretenimento. Não que diversos elementos da teoria freudiana e da vida do próprio Freud não estejam na série. Estão. Os próprios nomes dos episódios já dizem isso. Também Breuer, Charcot, Janet, Meynert, todos estão lá, sendo interpretados ou citados. Martha, o chow-chow, a mãe de Freud, a sua família, o judaísmo, o fracasso da hipnose, pulsão de morte (muita, transbordando da tela), pulsão de vida, repetição, ambivalência, conversão histérica. Todos lá, só que relacionados àquele contexto ficcional. E tudo bem (para mim, pelo menos).

Aí hoje, depois de uma conversa com D., ou melhor, de várias que temos tido e nas quais o tema sempre volta à baila, lembrei de uma outra conversa que tivemos, eu, ela e F., há meses, num outro contexto, no qual associávamos uma certa paralisia social ao fator problematização levada às últimas consequências. Agora, eu e D. temos associado o excesso de polêmicas descabidas não só à paralisia social como ao caos e à chatice. A esta, especialmente. Durante a primeira conversa, estávamos todos, salvo engano, a caminho do aeroporto. Eu tinha um voo de volta para o Brasil e definitivamente não estava a fim de embarcar. Um dos principais motivos, a chatice, ou, como já disse o Cazuza, a caretice. Eu estava, estou, cansada de "tanta babaquice, tanta caretice, desta eterna falta do que falar". E também, confesso, estou cansada de tudo ser levado tão a sério e do que é de fato sério não o ser. É um tal de não poder brincar, de não poder viver sem respostas, sem regras, sem manuais, sem polêmicas, sem direita e sem esquerda. Tudo, do patinete à vida íntima das criaturas, é problematizado ao extremo. Tudo é torcido e retorcido. A pobre da série Freud, inclusive.

Vejam, não estou fazendo uma ode à leviandade. Ao contrário. Aliás, exatamente o contrário. O que mais me espanta é o fato de que enquanto as coisas e as opiniões mais banais são levadas ao ápice da problematização, o que realmente importa, o que de fato é vital para nós, como indivíduos e como sociedade, é problematizado a ponto de ser relativizado, negado, desprezado, atacado etc. etc. Ou seja, a babaquice adquiriu proporções tão enormes e incontroláveis que se chega ao ponto de polemizar a existência de um vírus que existe e que já matou milhares de pessoas da mesma forma que se problematiza se um adulto (repito, adulto) que vai conduzir um patinete (repito, patinete) deve ou não usar capacete (sim, eu não moro mais em São Paulo mas a polêmica dos patinetes no ano passado, que acompanhei principalmente pelas rádios locais que ainda ouço, me deixou absolutamente exasperada). Pois aqui eu pergunto se, diante de tudo o que estamos assistindo no mundo e agora no Brasil (milhares de pessoas já morreram em pouquíssimos meses, sistemas de saúde colapsaram, lockdowns foram impostos), cabe questionar se devemos ou não manter o isolamento social neste momento? Cabe abraçar mil e uma teorias conspiratórias e polemizar ao infinito as possibilidades todas até elegermos um bode expiatório para aplacarmos nossa raiva e nosso desespero diante da impotência? Cabe duvidar da existência do vírus??? Eu, que normalmente não tenho muitas respostas, respondo todas essas perguntas sem fazer esforço: não, não cabe.

O fato é que tudo parece ter que ter um grande propósito, muitas regras e todos têm que se levar a sério e serem sérios o tempo todo. Freud, a série, puro entretenimento, não pode ser boa pois não dá conta do riscado da forma como tem que ser. E qual é a forma que tem quer ser? Não podemos simplesmente nos abandonar à tensão daquele climazinho entre Freud Sherlock e Fleur Salomé que aparece na tela sem perguntar onde está a aula, a teoria, se os fatos batem etc.? Não podemos nos entregar à história de mistério e violência (sim, a violência, a agressividade, o dark side fazem parte de todos nós e que bom poder sublimar isso de alguma forma com a ficção) e nos permitirmos gostar dela? É construção ficcional, não é realidade. E tudo bem, não é sacrilégio. Pode. Pode viver, pode respirar, pode rir, pode gozar.

Até porque o próprio Freud nos ensinou que brincar é paradoxo. Brincar, jamais nos esqueçamos, não só é necessário, mas é muito sério. O que atrapalha, no fim das contas, não é a brincadeira. O que sai caro mesmo é sempre a estupidez.

P.S.1: É da música Vida louca vida, de Cazuza, o trecho da letra de música citado no quarto parágrafo.

P.S.2: É possível acessar gratuitamente a obra de Freud, em Português, aqui.

P.S.3: Interesses biográficos podem ser sanados a partir, por exemplo, das pesquisas de Elisabeth Roudinesco e de Peter Gay.

P.S.4: No último parágrafo deste texto faço referência às obras de Freud O chiste e sua relação com o inconsciente (1905) e O início do tratamento (1913).

Sonhos da quarentena

Estou numa loja estreita, crua, e entrego o pagamento em dinheiro ao homem que me atende, postado numa linha diagonal, do outro lado do balcão. Há pouco espaço para manter distância e ele é obrigado a inclinar o corpo na minha direção para pegar o dinheiro que quero lhe entregar e para o qual ele olha como se não acreditasse no que vê. Eu digo que não tenho outra forma de pagar e ele olha para uma nota de dez reais que há entre as outras notas e diz que ela é nova e que, portanto, deve estar contaminada. Titubeia algumas vezes mas pega o dinheiro, não sem um toque de horror no rosto. Não sei o que estou comprando. Talvez shampoo. Aquela loja vende shampoo? Não deveria vender, pois eu a conheço desde a infância e lá não se vende shampoo. Faço uma incursão mental até a mesa onde ele costumava sentar e eu também, às vezes. Mental? Vou até o fundo. Caixas de papelão. O cheiro do pó e do papelão. Eu conheço todo aquele espaço, dentro e fora da loja. Fora, antes, eu tomava banho e meu shampoo acabou. Antes ou depois do banho? Eu estava trabalhando, havia um colega que não ajudava. Era uma espécie de dormitório. Estávamos todos ali. O dia todo? O que fazíamos? O banheiro era coletivo. Mulheres e homens? Ou só mulheres e só homens? Tomei banho mais de uma vez e eram banheiros diferentes a cada vez. Mais escuros, mais claros. A claridade tinha o tom do amarelo. Esse colega me exasperava. Por que ele se expandia tanto?

Corte. Outra cena. Estou numa cidade do nordeste do Brasil. Faço incursões pela água, de uma forma bidimensional, como já aconteceu em outro sonho. Mas nesse não vejo a viagem. Sei que há o mar. Num retorno, acesso a entrada do transporte público, terrestre. Como a entrada de uma estação de metrô. Não é a primeira vez que estou ali mas só nesse momento acesso um local retirado da circulação e vejo, por um vidro imenso, crateras como as da lua em torno das quais há pessoas sentadas. Não muitas, esparsas. Elas observam a paisagem. As crateras são preenchidas com água azul quase bic e todo o mar se estende a partir dali. Todo ele é azul muito forte. O céu não, o céu é amarelo, é vermelho, é laranja. Alguém me diz que sim, que aquilo está ali, que é só ir até lá. Volto para algum outro lugar e falo sobre o azul e as crateras. Com quem eu falo? Depois procuro uma forma de acessar a paisagem. Entro por uma porta e deparo com uma escada. Branca. Começo imediatamente a subir e me desculpo pela invasão com uma mulher que está ali. Eu a conheço. Quem é ela? Ela diz que tudo bem, que muita gente passa por ali. Então isto é uma servidão de passagem, pergunto. Ou será que afirmo? Ela diz que sim, que mais ou menos. Acesso a rua e caminho. O colega exasperante está ali. Mas não é ele. É um amigo. Uma amizade breve. Ele fica pelo caminho mas não completamente. Sigo e entro num local parecido com um abrigo de acesso a algum tipo de transporte público. Há vidros. Não nada além de paredes e de vidros. Olho por eles e as crateras estão ali. O mar terrivelmente azul também. O homem reaparece e eu não sei o que dizer. Ele fala muito e me exaspera. Por que aquele mar é tão azul?

domingo, 12 de abril de 2020

Sonho morto

Escorrego para dentro da noite de mim e me encontro pele quente sobre o corpo de carne viva.

Afundo no vazio de um sono morto e acordo com a lembrança de um verde grama entre casas.

Piso na grama e o sonho se desfaz.


Qual é o enigma que me devora?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Sonhos da quarentena

Dois homens, uma máquina grande. De lavar roupas? Olho para o buraco que há no centro dela e fixo meu olhar ali. Eu não quero olhar para os olhos de um dos homens pois, se olhar, farei algo que eu não quero. Eles discutem sobre algo. Eu digo que não quero, que não vou olhar. Um carro. Há uma casa ali, rua, calçada, tudo perto e ao mesmo tempo longe. Um deles vai e volta. Volta para o carro? Quem são eles? Eu os conheço.

Outra casa, outra cena, outro carro. Verde no ferro fundido. Portões de grade, corrente, cadeado. Um outro homem. Ele sai do carro? E eu, estou no carro? Olho por entre as grades do portão e falo com alguém. Uma mulher. Não tem ninguém lá? Está tudo vazio? A cena é triste e fechada, a casa é triste.

Outra cena, outra casa, uma chácara. Mesmo lugar de um outro sonho. Há sol, árvores, gramado, piscina. A casa é marrom, quadrada. Só vejo uma parte dela. Há um caramanchão.

Estou de volta à casa triste e o outro homem está lá. Ele se aproxima, por dentro, do portão. Fala algo sobre caixas de ovos. Caixas de ovos? Eu não entendo. Eu quero entender que ovos, que caixas. Do que é que ele está falando? E de repente a casa triste se abre em chácara, em caramanchão, e o homem caminha para lá. O espaço todo adquire um ar sinistro e eu não quero estar lá. O homem é o meu pai.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Vento

Hoje acordei falta de barulho de vento, de sol queimando a retina, de ver a rua passar.

Acordei dor amortecida de tédio, o peito por dentro suspenso ao respirar.

Acordei conflito de mim, fantasia do outro. 

Hoje acordei choque sem explosão, luz branca sem escuridão. Acordei banal, carnal, sem divisão.

Da janela olhei o um só do mundo e desejei sem saber o quê.


Eu queria era a poesia do entre laços das folhas quando bate o vento. 

terça-feira, 31 de março de 2020

Sonhos da quarentena

Uma escola, eu carrego uma mochila. Pequena. A que eu carrego para a praia. Mas há outra mochila, que insiste em escorregar. Onde ela está? Na mochila que vai nas minhas costas há comida. E só. A escola é branca. As paredes de alvenaria, as portas, brancas. Sou surpreendida pela quantidade de azulejos brancos que a revestem e que me incomodam. Caminho por um corredor aberto mas não tão largo. Subo uma escada branca e acesso as arquibancadas do que parece ser um estádio. Há outras pessoas ali, talvez um colega ou uma colega de trabalho. Falamos algo a respeito do que está acontecendo. O que está acontecendo? Haverá uma palestra? Uma reunião? As pessoas estão esparsas pelas arquibancadas, em pequenos grupos ou sozinhas. Muitos espaços estão vazios. Lá embaixo, na arena, há outras pessoas. O que elas dizem? Elas dizem alguma coisa? Levanto e volto a descer as escadas brancas. Ao meu redor, paredes de azulejos brancos. Eu estou ali a trabalho. Saio em busca da mochila que está nas minhas costas. Preciso comer. Preciso? Encontro os banheiros, masculino e feminino, e me confundo. Em qual deles devo entrar? Qual é o feminino? Entro no banheiro e encontro a comida na mochila. Eu como? Eu falo com alguém. Alguém me encontra. Estou trabalhando? Sigo para outro ponto da escola, aberto. Ao meu redor as paredes são brancas e tudo é quase branco. A claridade me entristece.

Outro corredor aberto, mais vivo. Cores. Um corrimão de ferro verde, linhas retas, disposto quase no meio do passeio. Pessoas caminham na direção oposta mas sei que há alguém atrás de mim. A via está disposta num ângulo diferente do que até então vinha se apresentando. Caminho apressada por ela. Estou na universidade e preciso chegar no dormitório. Eu moro lá? O quarto não está arrumado, há coisas sobre a cama. Um item vermelho, um pedaço de pano que eu reconheço. Saio e ando novamente por ali. Desço uma escada. Branca, mas só ela. Os azulejos brancos desapareceram. Estou à procura de alguém? Uma amiga que de repente se calou. Ela está lá. Frequentamos as mesmas universidades. Onde ela está? Ela fala comigo? Ouço que é necessário voltar. O vírus. Volto para o quarto. Bagunça. A cama, as coisas. Mas vou ter que ficar lá. As pessoas transitam apressadas, confusas, pelos espaços da universidade. No quarto, começo a arrumar a mochila e falo, pelo telefone, com a minha mãe. Ela anuncia que terei que ir embora. A universidade será fechada.