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sábado, 1 de março de 2025

A estranha familiar

"Alma-menina no tempo? Não, ela não se envergonhava de seu narcisismo. Era com ele que ela compunha e recompunha toda a sua dignidade. Encarou novamente o espelho e se lembrou de um poema, em que uma mulher, contemplando a sua imagem refletida, perguntava angustiada onde é que ela deixara a sua outra face, a antiga, pois não se reconhecia naquela que lhe estava sendo apresentada naquele momento."

Do conto Luamanda, de Conceição Evaristo, em Olhos d'água


Eu tinha trinta e nove anos quando olhei no espelho e não me reconheci. Foi então que a dermatologista que procurei alguns dias depois me contou, como quem revela o óbvio a alguém muito distraído, que chega uma hora em que o rosto derrete.

Desde então, venho acompanhando o derretimento dos meus traços e só agora, ao escrever, percebo que o esgarçamento dos meus tecidos não seria tão ruim assim se a coisa toda se restringisse ao corpo. O grande problema é que o desabamento muscular vem acompanhado de uma espécie de esmagamento narcísico por uma bigorna que despenca, sem aviso prévio e pesando toneladas, sobre o aparelho psíquico. Para além da realidade, o real, aquilo que não pode ser nomeado exceto talvez pelo nome de angústia, desabou recentemente sobre a minha cabeça, deixando claro, mais do que nunca e por vias que não passam pelo intelecto e pelo pensamento racional, que não é o rosto que escorre, mas a vida.

Olho novamente no espelho e pergunto para essa nova mulher de quarenta e seis anos que apresenta uma ruga persistente sobre a sobrancelha esquerda, marcas do chamado bigode chinês, alguma flacidez sob o queixo, olheiras mais fundas e aparentes e que não sabe se e quando vai menstruar novamente, o que você fez até aqui, o que você vai fazer daqui pra frente, com o tempo que resta?

Envelhecer dói. É como cortar bem fundo a pele em duas metades. A metade jovem e a metade velha. É o corte que se abre nas costas de Elisabeth em A Substância, para que a jovem Sue possa nascer. Sue, uma outra que é também Elisabeth mas que ao mesmo tempo é uma completa estranha. Paradoxalmente, no filme, a estranha que nasce é uma jovem; na vida real, a estranha que está nascendo em mim vestirá a metade velha da pele, o pedaço novo que surgiu a partir do corte. Assim posto, de repente me parece que envelhecer talvez seja algo da ordem do impossível e tautologia é a palavra que me ocorre, embora muito provavelmente ela não seja a correta. Envelhecer é sempre verdade, mas também é uma grande mentira.

Envelhecer dói. Nascer também.

Sobre o futuro

Ata-me, é o que me vem à mente quando olho para o branco estampado na tela do computador. Me dá um nó, me amarra à vida. Não que a sensação de descolamento que venho sentindo ultimamente seja ruim. Não. É como estar permanentemente pisando em uma camada de algodão, como flutuar; é de uma leveza que eu não conhecia, ou melhor, de uma leveza que conheci há muito tempo e da qual já havia me esquecido. As causas eram diferentes, o contexto também, mas o descolamento (quase escrevi deslocamento) já esteve lá, já esteve aqui. Menos leve, pois havia uma fissura mais pronunciada, a do tempo, a da preocupação com o tempo, com o futuro. Eu vivia tão à espera do futuro que, quando ele chegou, mal percebi.

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O futuro, essa coisa lisa e macia, que brilha e explode como as bolhas de sabão sopradas pelas crianças. Horrorizada, maravilhada, eu ando sobre ele.


Sobre o futuro, essa coisa que não existe.

domingo, 3 de abril de 2022

Eu agora me afogo

Eu não me rasgo mais, digo num tom meio alucinado enquanto toco com força o centro do peito, arrastando os dedos pela superfície da pele que recobre o osso esterno, como se com isso eu pudesse voltar a me abrir. Eu agora sou uma criatura que mede esforços, sigo dizendo, e por essa razão fico me perguntando aonde é que eu fui parar. Onde está a pessoa que se rasgava? Cadê aquela intensidade toda? Sei que numa mesma vida a gente nasce e morre várias vezes, mas essa sucessão eterna de perdas cansa. É como a fantasia. Quando a gente acha que encontrou aquela que fez o risco no disco, a que faz um pedaço da música ficar repetindo sem parar, não demora muito a surgir outra, outro risco, um arranhão maior ou menor que, para além da ironia que fatalmente me faz rir, tem também me deixado um pouco puta. Talvez por eu ser ansiosa. Quando quebrei o pé o médico disse, você é muito ansiosa. Fiquei indignada, blasfemei primeiro em silêncio, depois no carro, na sala, na cozinha, no quarto. E ainda que ele tenha feito um trabalho de engenharia ortopédica magnífico no meu pé, encaixando de forma magistral os três parafusos que aparecem como alienígenas na radiografia, e que eu tenha passado a indicá-lo para a cidade inteira, quem, afinal, pensei, era ele para dizer que eu sou uma pessoa ansiosa?

Só que aí, um ano depois, me vi obrigada (só uma toupeira seguiria negando) a admitir que eu sou terrível e implacavelmente ansiosa, que os meus pensamentos constantemente entram acelerados numa linha reta que, como já nos ensinou a geometria, é infinita, e que a verdade é que não fossem os anos de homeopatia hardcore (sim, isso existe), yoga, terapia, análise, discos, filmes, séries, viagens, shows, atividades físicas mais ou menos exaustivas (estas funcionam melhor), a minha mãe pacientemente me ouvindo ao telefone e os amigos também (eu ligo para as pessoas e vou deixar aqui registrado, se for urgente, ligue, se não for, ligue também, não suporto mais o whatsapp e penso que temos que aproveitar recursos tão incrivelmente high tech como a nossa própria voz e a capacidade de interagirmos simultaneamente uns com os outros), chocolate, álcool, a imprescindível companhia de cães, os livros e outras tantas coisas que agora estou com preguiça de escarafunchar em mim mesma e o meu potencial para ser uma paciente psiquiátrica contumaz seria maior do que já é.

Sou tão ansiosa que não consigo viver sem pensar em morrer. Já falei sobre isso aqui, em outros textos. Aliás, fico fascinada quando alguém me diz que não pensa sobre a morte pois eu nunca tive essa experiência. Nunca. Deve ser sublime, algo como passar a vida com a sensação eterna do arrebatamento provocado por algo que nos capturou num determinado instante, um quadro, uma música, um cheiro etc. E mesmo sabendo que a morte é o que dá sentido à vida, que falar e pensar sobre a morte é pensar e falar sobre a vida, sinto uma inveja profunda dessas criaturas fascinantes que acabei de citar, as que não pensam sobre a morte, e que imagino serem menos ansiosas.

A propósito, um bom lugar para se falar sobre a morte, pelo menos para mim, é a análise, momento da semana pelo qual eu obviamente nutro uma certa ansiedade, a ponto de nunca desmarcar. Sou absolutamente dependente da minha analista, cuja voz antes morava na minha cabeça como a voz dela e que agora fala por ela mas com a minha voz. Curiosidades inúteis do meu processo analítico à parte, num ímpeto de ansiedade, mando uma mensagem para a analista a fim de anunciar que na próxima sessão iríamos discutir o Pereira. No dia do encontro, ligo direto, sem antes mandar a famigerada pergunta pelo whatsapp, posso ligar. Começo falando de outro livro, um de crônicas de viagem. Sigo dizendo que o livro me fez pensar em algo que eu já vinha pensando, que seria a hipótese de que talvez o meu último nome, aquele que quase não uso, teria a ver com a minha paixão por viagens, já que o nome me lembra  o verbo viajar no gerúndio. Um nome que é o do pai e que, repito, eu praticamente não uso. Mudo para o Pereira. Fraco mas depois forte, um tanto desprezível no início mas completamente redimido no final. Também me fez lembrar o nome do pai, embora para este não tenha havido redenção, ainda. Ainda denota uma esperança que eu não tenho mais. Torno a dizer que não me rasgo mais e a analista, numa manobra ousada, lança mão de uma pergunta que me faz atravessar a dimensão do céu, do mar e da areia que me cercam para alcançar o mesmo céu, o mesmo mar e a mesma areia, só que de um outro lugar. Demoro o tempo da travessia para responder e, quando o faço, é num tom calmo e, o que não é do meu feitio, doce. A resposta é temporal, recentemente.

Cortamos então da praia para a praça, num outro tempo, ainda mais recente. Inicio acelerada, falando de esquecimentos de objetos, de noites com poucas horas de sono, da névoa que me envolve. Outro corte, outra praça, e falo da morte e do ressentimento de não poder ter me despedido. Em vida. Termino com documentário do Nureyev, ao fim do qual tenho vontade de estender a mão e tocar o bailarino, o que me faz lembrar de dizer que saber que nunca mais será possível falar com as pessoas que morreram me dá a sensação de afogamento. Falar mais do que tocar, embora eu tenha o ímpeto de estender a mão, talvez menos para salvá-los do que para ser salva. Digo que sei exatamente quando isso começou e que antes disso eu não só me rasgava mais como pensava bem menos sobre a morte. Foi numa cama de hotel, numa noite gelada, suando sob uma crosta de cobertores, que me senti afogar pela primeira vez. Ali havia uma separação posta, de forma ainda quase invisível, na linha do horizonte. Depois daquela viagem, passei a me afogar quase diariamente trancada no banheiro. Eu chorava até sentir dor, até não ter mais corpo para afogar. Como a fala não alcançava nem o  interlocutor nem a salvação, eu chorava. Até que numa certa manhã, num susto, escrevi. E foi assim que uma nova história tomou corpo, essa que estou escrevendo agora.

Rosa Montero fala que, quando conheceu o seu marido, teve um receio enorme de perder a liberdade e a independência que havia conquistado (a duras penas, como é a regra no nosso caso, o das mulheres). Pois bem, é exatamente isso que eu sinto hoje, medo de perder essa história que vem sendo construída a algumas duras penas nos últimos anos e que é o medo do abandono de mim mesma para alguém que me toca nesse lugar do não reconhecimento. Mas tem outro, talvez mais entranhado, que é o medo de quem pode ir, a qualquer momento, sem aviso, sem despedida, marcando os dias de abandono que se seguem não com a voz, mas com o silêncio que só se ouve debaixo d´água.


P.S.: A expressão "dias de abandono" utilizada no último parágrafo é uma clara alusão ao livro de Elena Ferrante, de mesmo nome.

sábado, 20 de novembro de 2021

Lascas de palavras

Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

Renato Russo em Índios


Hoje eu lembrei daquele seu sonho onde a gente dança, aquele em que você está a caminho de me ver mas não vem e no qual, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, a gente dança. Pensei então no quão extraordinária é essa onipotência lasciva do sonho, tão diametralmente oposta à impotência brochante da realidade. No sonho a gente é como um deus, a gente pode tudo, e a gente nunca morre. A gente pode tudo menos morrer. Como um deus. Você já morreu nos seus sonhos? Eu, nos meus, sou muito imortal.

Eu não te contei, mas tenho sonhado intensamente nos últimos dias. E sabe o que eu descobri? Que os meus sonhos, não só os de agora, mas os que eu sonho desde sempre, são todos como feiras livres, neles tem sempre muita gente. Irônico, você não acha? Fiquei pensando que talvez isso tenha a ver com as pessoas que moram dentro de mim e que eu desconfio serem muitas. Acho que são tantas que me dá até uma certa vertigem. Te dá vertigem pensar sobre a multidão que mora dentro de você? Eu sinto vertigem com tantas coisas... A morte, por exemplo, me dá muita vertigem. Nunca morri, mas só de pensar em morrer... Um dia desses ouvi alguém contando que havia lido num determinado livro uma coisa a respeito da morte dita por um garotinho. Era algo mais ou menos assim, que quando a gente morre, a gente deixa de ser a gente. Ou seja, eu, quando morro, deixo de ser eu, deixo de existir. Você, quando morre, deixa de ser você. O eu acaba, o você acaba. E aí a pessoa falava também daquela música do Gil onde ele diz que não tem medo da morte, mas que ele tem medo de morrer. Eu tenho medo de morrer, igual ao Gil, igual a muita gente. Você tem medo de morrer?

Mas não é só a morte que me dá vertigem, a vida também, acredita? A vida me dá uma puta vertigem. Quando eu estava viva e, apesar dos parafusos, ainda me sentindo quebrada ali na maca da fisioterapeuta, ela com a mão no meu pé, vi o preto da vertigem total chegar. Você tem claustrofobia? Não, não sei, não tinha, mas agora eu não sei. Agora eu sei que eu tenho náuseas e um medo enorme de nunca mais conseguir dormir. Logo eu, que dormia como uma pedra, logo eu que, quando ficava acordada de madrugada, achava o ritmo da noite o suprassumo da magia. Agora eu tenho horror do anoitecer e uma vontade insuportável de fugir da madrugada. A noite, quando cai, tingindo tudo de sombra, é a chave que me tranca num quarto onde me falta o ar. Eu quero acender o sol mas não consigo porque fora do sonho eu não sou deus e para ser deus eu tenho que dormir. Você quer que eu deixe a porta aberta? Quero, por favor.

Mas o que eu queria mesmo era poder sair correndo dali ou de qualquer outro lugar porque o meu real desejo era andar bem rápido, como eu sempre fiz, andar quase correndo, andar muito até ficar exausta e conseguir dormir. O que eu queria também era saber fazer o que me diziam que eu podia fazer com todo aquele tempo que passava a conta gotas. A ansiedade é como uma névoa que desce a qualquer momento, foi o que a mulher que me atendeu na farmácia de manipulação disse. Aí eu pensei, uau, é isso, ela sabe. Ela certamente sabia que de repente a tal névoa aparecia, pesada, cobrindo tudo com uma camada viscosa, abafando os sons, provocando náuseas e trazendo uma série bem descontrolada de pensamentos vertiginosos. Durante o dia eu olhava para o espelho e tentava descobrir ali os sinais da loucura. Porque para mim não havia dúvidas, era óbvio que eu estava enlouquecendo. Durante a madrugada, deitada na cama ou no sofá, eu esperava o momento em que eu deixaria de ser eu, o início da loucura, da alienação. E então eu pensava sem parar que a loucura seria uma prisão, que enlouquecer seria passar para um lugar onde ninguém, nem você, me entenderia, e ali ficar, sem conseguir encontrar a saída. Ficar louca era deixar de ser eu, era morrer. Você está com medo de morrer, a analista me disse, e ela invariavelmente acerta.

A morte, como a loucura, é uma grande interrupção. Logo que eu saí da casa dos meus pais, aos dezoito anos, eu achava que poderia enlouquecer a qualquer momento. Eu sempre tive medo de morrer. Lembra daquele filme, Garota Interrompida? Sabe qual é o título dele em italiano? Lascas de loucura. Fiquei sabendo disso ao ler um livro de uma escritora chamada Claudia Durastanti. Lascas de loucura, dito assim, não parece tão ruim, não é? Acho que todos nós fomos feitos em lascas nos últimos tempos, todos fomos interrompidos. Isso eu te contei, que eu ainda não sei de tudo que aconteceu comigo nos últimos meses, que eu ainda estou pensando nisso. Ainda estou juntando as lascas, entende? Como essas lascas de palavras que unem e organizam as coisas que eu tenho para te contar.

Fui à exposição da Clarice, você já sabe. A Clarice juntou as lascas como ninguém mas você acredita que eu tenho medo dela? Sim, eu tenho medo da humanidade divina que é a Clarice, das lascas que ela produziu. Medo, assombro, desejo, admiração, susto, fascinação. Eu tenho tudo isso por ela, e eu não queria ser ela. Tem um livro de entrevistas com a Hilda chamado Fico besta quando me entendem e a Clarice para mim é isso, ela é a grande vertigem do entendimento. Do início ao fim.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Thelma ou Louise?

Logo no início da quarentena, do qual alguns meses já nos separam, assisti a Thelma & Louise, filme que por sua vez estava separado de mim por décadas de distância, sendo eu, na ponta de um dos fios desse tempo, ainda adolescente.

A exibição do filme fazia parte de um debate: primeiro a história, depois a conversa, que, no início, resvalou no tema da maternidade, mais precisamente numa especulação sobre a impossibilidade da realização da viagem que constitui um dos elementos do roteiro do filme caso Thelma e Louise tivessem filhos. Embora o debate não tenha se estendido nessa direção, achei o fato curioso e fiquei me perguntando o que um filme sobre duas amigas que não têm filhos e que saem numa road trip nada convencional teria a ver com maternidade.

A resposta é óbvia e confesso que esse tipo de silogismo invariavelmente me incomoda. A questão é que parece quase impossível pensar o feminino sem associá-lo à maternidade, de maneira que um filme sobre duas mulheres, seja qual for o roteiro, tem grandes chances de suscitar algum debate sobre maternidade, ou seja, tem grandes chances de cair num lugar-comum. O problema é que o desejo, sejam quais forem os seus clichês individuais, não cabe num lugar-comum. Ele é bem mais, e também bem menos, que isso.

Penso que Thelma & Louise é um filme que não tem rigorosamente nada a ver com maternidade, não havendo nada ali que diga respeito ao tema, inclusive e principalmente o gênero das protagonistas. É um filme sobre transgressão, liberdade e sobre um dos aspectos mais enigmáticos do feminino, que é a amizade entre duas mulheres.

E a amizade de Thelma e de Louise é daquelas amizades femininas raras, onde a rivalidade cede para o amor, onde a liberdade mútua de transgredir seja lá o que for leva à cumplicidade, onde não há julgamentos.

Quando assisti ao filme pela primeira vez eu não sabia o que era isso. Não como agora, nesse quando de vida que às vezes é tão duro e que magicamente amolece com as rodadas do chá quente que ela prepara ou com as risadas que acompanham as nossas pequenas transgressões.

Durante o filme eu pensava se encontraria nele tudo aquilo que me atravessava daquela forma certeira naquele momento se eu não tivesse tido a chance de viver esse amor em forma de amizade. Também me perguntava se aquele roteiro me levaria aos mesmos pensamentos caso eu mesma já não tivesse passado por algumas travessias em forma de viagens.

Porque, em Thelma & Louise, a viagem parece ser uma metáfora para uma travessia pessoal, para um encontro com o desejo, uma travessia na qual ambas estão sozinhas, mas lado a lado. Thelma e Louise são tudo, menos lugar-comum, pois o que pode haver de mais extraordinário na existência de uma pessoa é o encontro que, para elas, se dá ali, no precipício do desejo. 

terça-feira, 26 de maio de 2020

Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud


Por que não? Foi com essa pergunta que dei início a um trabalho arqueológico um pouco diferente daquele que, na minha infância, eu imaginava quando dizia que um dia seria arqueóloga. De volta para o interior, comecei a escavar e a remover escombros sob os quais, massacrados, encontrei um punhado de desejos. Um deles era o de conhecer a psicanálise e de ter conversas mais profundas com Freud, desejo nascido, como não poderia deixar de ser, das palavras, daquelas que eu via saírem da boca de Marilena Chauí junto da fumaça dos seus cigarros numa sala quente e apinhada de alunos num dos prédios do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre os afetos, as afecções, as proposições e demonstrações da Ética de Espinosa, em meio ao humano definido como desejo, Marilena invariavelmente mencionava Freud, ou pelo menos é assim que eu me lembro dela.

Resgatado dos escombros e restaurado, o desejo pela psicanálise foi aos poucos criando movimentos que finalmente me levaram até Freud, por cujas palavras - de novo o amor pelas palavras, tão explícito nas hestórias da psicanálise -, eu me apaixonei.

Do baixo da minha ignorância nem de longe eu sonhava encontrar nos textos de Freud o que encontrei. Foi como descobrir que um novo planeta existia e que era possível explorá-lo de perto, remexendo, inclusive, nos seus escombros. Foi descobrir que aquilo que me incomodava na filosofia pode, de uma certa maneira, ser superado por outra forma de ver as coisas, uma forma talvez ainda mais livre, mais marginal, menos engessada e mais viajante. Em Freud eu enxerguei humildade, confissão do fracasso, ousadia, liberdade, segurança, agudeza de espírito, perspicácia, sínteses absolutamente inesperadas, poesia, amor, vida pulsando em Eros, ausência de moralismos, compaixão mas, acima de tudo, um escritor brilhante. Freud, para mim, é um escritor brilhante e talvez esse seja, ao fim e ao cabo, o motivo do meu arrebatamento tão apaixonado, porque é simplesmente impossível não se render a tamanha beleza estilística, a uma simplicidade narrativa tão sofisticada, a tanta inteligência e, principalmente, ao amor que ele, Freud, demonstra ter pelas palavras. Porque - e aqui peço para que por favor me corrijam se eu estiver equivocada - psicanálise é de palavras que se trata, não é?

Em meio ao meu trabalho arqueológico e ao meu apaixonamento freudiano, e como sempre levada pelas palavras, lembrei de um documentário cujo trailer eu havia assistido há alguns anos no Espaço Itaú de Cinema (que para mim será eternamente Espaço Unibanco), numa das salas que ficavam a uns quinze minutos a pé, na época, da minha casa, nas quais passei décadas me refugiando. Aliás, vale dizer que sempre penso que se tivesse que eleger um templo para adorar alguma coisa esse templo seria o cinema, lugar onde nunca deixei de encontrar refúgio, recolhimento e transformação.

O nome do documentário era Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud e ao assistir ao trailer pensei, preciso ver esse filme. Só que dei bobeira e, no fim de semana seguinte, ao procurar o horário das sessões no Guia da Folha, descobri que ele não estava mais em cartaz.

A questão é que aquele era um título impossível de ser esquecido, tanto pela impressão que o trailer havia me causado quanto pelo nome do documentário, que tinha me deixado com a pulga atrás da orelha (também conhecida como angústia de não saber). Por que, afinal, hestórias? Por que não histórias? Ou estórias? O que esse título tinha a dizer? Procurei pelo filme em todos os cantos, da Amazon ao streaming, sem êxito, até que, em meio a escavações analíticas que iam a todo vapor, topei com o detentor das chaves para o mistério do documentário perdido, Francisco Capoulade.

O feliz resultado desse encontro é outro encontro, que se dará no próximo sábado, 30 de maio, às 18h, no Zoom, onde não só poderei rever o filme (sim, eu finalmente o assisti) como poderei fazê-lo na companhia de muitos outros que ainda não o assistiram ou que gostariam de fazê-lo novamente (porque uma vez só é pouco e a vontade mesmo é a de ter uma cópia em casa para rever de tempos em tempos, no ritmo das transformações que as leituras de Freud e da vida fazem conosco) e na do próprio Francisco, com quem todos poderemos conversar após a exibição do documentário.

O evento é gratuito, aberto ao público e as vagas são limitadas. Informações e inscrições pelo e-mail freudemcena@gmail.com.

Nos vemos lá?

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Agradeço imensamente a Francisco Capoulade por ter aceitado o convite, disponibilizado o documentário e, mais ainda, por tê-lo realizado; a Cristiane Futagawa (Sushi), pela consultoria e apoio técnicos, e a Patricia Lopes Martin, pelas outras chaves.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Aos prantos no more (mas sempre um pouco)

Hoje estou desconexa. Desconexa? Sim, fragmentada. Como se cada parte de mim estivesse num lugar diferente. Um braço pra lá, outro pra cá, uma perna solta, a outra abandonada. E eu não estou encontrando as palavras para juntá-las. Nem tudo tem simbolização. Eu sei. Sabe, eu não imaginava que eu deitaria aqui hoje e choraria. É realmente sempre uma surpresa.

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Começou quando ela disse chega!, quando ela abriu a porta de saída do carro da vida dela e o empurrou para fora. Aquela coisa estática, fria, corrosiva e furtiva que sempre a encobriu com sua sombra mal dissimulada. Ela enxergava a covardia que aparecia como um monstro que aprisiona pequenas criaturas indefesas em gaiolas de aço. O asco e a curiosidade que isso provocava nela. Por que, se passarinho é para voar e gente é para amar? Por que ele nunca entendeu isso e sempre se escondeu atrás do discurso violento da indiferença? Qual era a parte que faltava? Ela repetiu um sem-número de vezes que preferiria ter apanhado. Preferia um tapa ao bater violento de portas trancadas com chaves guardadas a sete, oito, nove, dez chaves. Preferia qualquer coisa àquela loucura. Ou era perversidade? Ela não sabe dizer. Sabe só que mesmo sem sombra e com a porta fechada a alegria ainda dói um pouco. Tanto, que às vezes vira pranto.

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Chorar é extravasar o que nem as palavras podem juntar.


P.S.: O título deste texto é inspirado na música Eu Estou aos Prantos, de Letrux.

domingo, 22 de março de 2020

"A vida não tem garantias"

Mais de uma vez escrevi que a escrita é a forma pela qual eu me organizo. Não só me organizo, como me amparo. Como diz P., cada um dá o jeito que pode. O meu é esse.

Escrevendo sou até capaz de esquecer, por alguns segundos, que o mundo lá fora está em suspensão, à espera daquilo que sabemos sem saber ou sem querer saber. O clássico não quero saber disso, pois isso é difícil demais de saber.

Na última sexta-feira, dia 13, meu psiquismo entrou numa espiral de sim e não, não e sim, até que no domingo, quinze, o não foi descartado e o sim se acomodou com força. Sim, é grave. Sim, fica em casa o máximo que der. Sim, torne-se obsessiva com limpeza. Sim, aceite e faça o que tem que ser feito.

Terça-feira, dezessete. O dia começa com o trabalho suspenso e com a constatação de que, em casa, não tem nada para cozinhar. Remédios? Tem ibuprofeno, mas esse não pode. Saio, sem querer sair e, na volta, estou um caco. Descubro que sair de casa se transformou numa missão quase impossível, como se as ruas fossem feitas de dinamite prestes a explodir.

Começo a pensar em como será depois. Depois quando? Será que um dia eu vou voltar a me sentir segura fora de casa, mesmo quando tudo estiver bem? Será que eu vou esquecer que não precisa mais ter medo, ou vai sempre ficar um restinho dessa sensação de perigo invisível? Outras pessoas devem estar sentindo a mesma coisa, não devem? Como será para elas?

Quarta, quinta, sexta, sábado. Os dias seguem numa tentativa tímida de não deixar que as horas escorram na tela das informações infinitas, das comunicações incessantes, até que hoje, domingo, acordo envolta por uma sensação informe e difusa, mas confortável.

Já perdi a conta das vezes em que a voz de P. chegou até mim no divã dizendo que a vida não tem garantias. Que tudo é uma grande aposta. E todas as vezes que isso acontece eu paro e silencio. O que dizer, afinal, diante da verdade? Só que por mais que saibamos, por exemplo, que vamos todos morrer um dia ou que não conseguiremos tudo o que queremos, seguimos a vida sem pensar muito na morte e com a esperança de que vamos nos apoderar de todos os nossos desejos. Seguimos com a certeza, mesmo que falsa, de que as coisas têm sim alguma garantia, de que a morte está longe e de que conseguiremos tudo o que queremos (pastores e couchs liderando o coro da ilusão neste último quesito). Só que aí, bom, aí vem um vírus, minúsculo, invisível a olho nu, e derruba o nosso castelo de cartas, deixando a fragilidade das nossas estruturas escancaradas.

Teremos de lidar, a partir de agora e, no meu caso e no da maioria das pessoas que eu conheço, como nunca antes, com os efeitos da frase a vida não tem garantias. Teremos que nos adaptar a uma nova vida e, não menos importante, fazer o luto da antiga, já que é improvável que o mundo seja o mesmo depois do que está acontecendo (o que, claro, também é uma aposta sem garantias).

A palavra que define a sensação que me envolvia ao acordar hoje é adaptação. É como se o não das garantias que a vida não tem tivesse também se acomodado, assim como o sim do faça o que tem que ser feito lá do início deste texto. Como se sim e não tivessem encontrado os seus devidos lugares. Pelo menos por hoje.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Onde estão as chaves?

"Infelizmente, faltavam-me as chaves."

Pierre Rey em Uma temporada com Lacan



Mas a vida é um drama, P. me disse certa vez, com alguma ênfase no verbo. Eu já estava fora do divã e pude vê-la enquanto ela pronunciava as palavras, que logo se uniram numa frase à qual de pronto suspendi o sentido. Então a minha vida também podia ter uma pitada de drama? Eu estava autorizada a sofrer? Olhei com espanto para os olhos que haviam acabado de me revelar o real e a voz de veludo azul reverberou em mim. Não era uma piada. O que da minha vida eu acabara de expor naquele divã era mesmo um drama que eu vinha me esforçando, há anos, para negar.

Passei pela porta do consultório quase tropeçando no meu próprio constrangimento. Eu estava sem graça e sem palavras, literalmente caída na real.

A minha vinda ao mundo havia sido também um drama. Horas de um trabalho de parto que culminou num fórceps. Nasci à força e talvez seja por isso que até hoje me rebelo contra qualquer ato forçado.

Durante os meus primeiros anos, eu me reunia quando me contavam as histórias que estavam nos livros coloridos e bonitos que eu manuseava. Quando aprendi a ler, passei a me reintegrar por meus próprios meios. Bastava mergulhar entre as letras e nadar junto das palavras para restituir meu equilíbrio. Quando era obrigada a fechar os livros, ficava flutuando sobre as histórias, metade do corpo dentro delas, a outra metade fora, louca para afundar novamente na fantasia e fugir da realidade (ou o contrário). Fora das páginas, havia todo um universo de coisas e pessoas interessantes, mas nada ou quase ninguém que se comparasse aos livros. Havia também a indiferença do meu pai e a insônia triste da minha mãe, o drama para o qual eu não tinha palavras. Faltavam-me as chaves.

Só não esqueça as chaves. Foi isso que ela disse? E se eu lhe dissesse, hoje, que nunca as esqueci, as chaves das portas do meu desejo? Ela diria que já sabia disso, pois do contrário não teria sido possível girá-las incessantemente como ela vem fazendo desde o início. Ela sempre soube onde estavam as chaves.

Eu também.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Mais difícil é não acreditar em fantasmas

"Sabe-se que o obsessivo é um misógino, mas não por quê. Ele odeia as mulheres porque odeia seu próprio desejo. Detesta desejar, e as fêmeas provocam tal e tanto desejo. (...) Os obsessivos, menos corajosos, conformam-se com matar-lhes o desejo esmagando-lhes as demandas. (...) 'Faz de mim o que quiser' ofereceu. Ele rompeu com ela."

Ricardo Goldenberg, na saída de Desler Lacan (2ª edição, pp. 303/304)


"O amor só é bom quando medido, de outro modo torna-se terrível. O amor sem limite é arrasador. E o amor perde o limite quando associado ao desejo. Mas estas são considerações covardes. Para Lacan, o amor é paixão ou não é. O amor é sempre ilimitado, quando não é morno por estar dissociado do desejo. Mas ali não é amor, talvez amizade."

Idem, pp. 310/311


"Romantic sponges, they say, do it
Oysters down in oyster bay do it
Let´s do it, let´s fall in love"

Let´s Do It (Let´s Fall in Love), Cole Porter




Duas amigas conversam num carro em movimento numa noite parcamente iluminada pelas luzes amarelas de postes de iluminação esparsos quando, ao acessarem uma estrada antiga e meio fantasmagórica há muito abandonada pelo trânsito local, ouve-se uma delas dizer, a propósito da conversa que estavam tendo, será que ninguém pára pra pensar que difícil mesmo é viver sem ver fantasma, sendo praticamente obrigada pela realidade dura e crua de não existir segunda chance a levantar a bunda do sofá mesmo quando a preguiça e o medo são tamanho monstro e ir lá viver o que tem que ser vivido? Sabendo que não, você não vai voltar pra viver tudo de novo e ter novas e novas oportunidades de assistir àquele filme que você perdeu ou de conhecer pessoas interessantes nem vai ficar infinitamente rodando no espaço sideral numa espiral de encarna e desencarna até resolver tudo com todos? Seria bem conveniente, mas não. Então, numa boa, minha vontade é acender um letreiro em determinadas situações com os seguintes dizeres: não desperdice o nosso tempo tentando me convencer a ver fantasmas. Eu sou e eu gosto de carne, e de osso.



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O casal, formado pelo algoritmo do amor moderno, vomita virtualmente os seus restos. A certa altura da conversa, ela vê surgir na tela uma ideia de relacionamento que parece tirada de uma forma obsessiva untada com pinceladas de sadismo. Ele sentencia, vejo mais como passos. Ela, surpresa com o veredicto, pede um esclarecimento, como um organograma? Isso, ele bate o martelo, organograma.

O mundo gira mas a palavra vem e vai, vai e volta, fica repicando na cabeça dela. Organograma. Organograma do amor. Como pode isso do amor caber num organograma? E amor esquematizado lá é amor? O que leva alguém a querer encaixar o amor num esquema, a ter a pretensão de achar que a vida, tomada ou não sob o aspecto amoroso, é algo que cabe num plano esquematizado, num gráfico, na, que a desculpem os mais sensíveis, porra de um organograma?



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Ela: O tempo só existe nos recortes que a gente faz nele, assim como a realidade pode ser mais ou menos fantasmática dependendo dos recortes que a gente faz nela. Eu não acredito em fantasmas e acho que é mais difícil assim, embora muita gente diga o contrário. Os monstros e as criaturas perigosas do sonho da noite passada eram reais, pois estavam dentro de mim. Chegavam por tubos e alguns eram impulsionados por molas. Era como um parque de diversões pra eles. Tinha até aqueles carrinhos em forma de alguma coisa, de um sorvete, por exemplo. Havia marrom em quase tudo. Acordei angustiada. Estavam dentro de mim, eram reais, como os fantasmas que as pessoas veem por aí e que são reais pra elas. Eles também estão dentro delas. Eu tenho medo de algumas pessoas da mesma forma que elas têm medo de fantasmas. Sabe aquele conto que ficou muito famoso, Cat Person? Então, não tem tanto a ver com a história, mas eu tenho medo de pessoas que se parecem com gatos, assim meio furtivas. Sabe, eu gosto mesmo de gente que é igual a cachorro.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The great leap

"... mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando, devido à frustração, não se pode amar."

Sigmund Freud em Introdução ao narcisismo (1914)



O que vem a seguir, como vem, é fagulha de conexão. E é dela que se trata.


Lembro da porta do elevador em movimento quando senti a faísca. Y. (uma das surpresas que estavam guardadas dentro da caixa de presentes que a China foi para mim) falava sobre a dificuldade de conexão, de troca entre os profissionais da área dela. Arquiteta, doutora em arquitetura e urbanismo e professora universitária, ela falava com pesar sobre o assunto. Fiquei surpresa e contei a ela o que venho sentindo em relação à minha futura área de atuação no ambiente em que estou inserida e concluímos o óbvio, ou seja, que o isolamento só nos traz perdas, atrasos e pobreza intelectual e espiritual.

Enquanto conversávamos, lembrei e compartilhei com ela algo que ouvi certa vez num retiro de Iyengar Yoga, algo sobre o grupo ser uma espécie de catalisador, e que é exatamente o que eu sinto. Refletindo, depois, sobre o assunto, constatei que eu não poderia sentir de outra forma, já que tive a sorte de, por muito tempo, ter a conexão como regra e não como exceção em minha vida. Felizmente pude, ao longo de toda a minha trajetória escolar, do maternal às universidades, e também por um bom tempo depois do seu encerramento, em outros contextos, ter essa experiência, digamos, eternamente formadora. Sempre houve uma certa coesão, uma aproximação que ia além das salas de aula, algo que faiscava entre alguns de nós. É bom deixar claro que quando falo em grupos, aqui, não estou me referindo aos grupos que atuam sem pensar, que vão no embalo, às famosas massas. Não. Estou falando de abertura, de curiosidade, de troca entre pessoas que, teoricamente, têm interesses comuns. De tocar e de se deixar tocar pelo movimento do outro, de criar, pulsar e até de amar. Porque, se eu não estiver delirando, dar o que se tem é, de alguma forma, amar.

A propósito, é de delírio, também, que se trata a falta de conexão. P. diz que, isolado, o psicanalista corre o risco de delirar, e eu concordo com ela. A propósito, psicanalista ou não, eu, ser humano, quando me sinto isolada, deliro. E aí escrevo para poder me salvar, para dar algum corpo aos meus pensamentos e me tirar do entre, do meio da tristeza e da loucura. Talvez eu esteja sendo excessivamente saudosista e dramática, mas acho que nós todos delirávamos menos. Pensávamos mais e delirávamos menos. Existíamos com mais ênfase. Ou eu o fazia.

Mas eu ainda o faço e por isso sofro por não me conectar, por não trocar, por não festejar. E talvez sofra por não entender os motivos pelos quais outros parecem não desejar e não sofrer como eu. Como disse Y., a questão, na troca, não é mostrar o que se sabe, não é, digamos, pagar de gostosa. Não. Pouca importa quem mostra o quê. Ou melhor, até importa, na medida em que concluímos que o pulo do gato é ouvir quem sabe muito, infinitamente mais do que nós, seja quem for, para podermos aprender mais, para formarmos mais conexões, mais pensamentos, mais movimento. Para darmos saltos ao invés de nos arrastarmos por aí.

Reconhecemos, okay, que somos nerds e ser nerd no Brasil, hoje (vamos falar do hoje), é quase um sacrilégio. É algo pelo qual você definitivamente não é bem visto ou bem quisto. É uma espécie de maldição que paira sobre você e que, assim que é detectada em alguns meios, provoca reações as mais paradoxais. Uma delas é o afastamento. Ao invés de atrair, você afasta pessoas. E não, não é assim em todo lugar. Há lugares onde inteligência, curiosidade e abertura funcionam como uma ímã. O que acontece por aqui? Não sei e desconfio que a resposta não seja simples.

Ao me ouvir certa vez falar sobre a insegurança que eu sentia a respeito das minhas irrefreáveis viagens psicanalíticas (as quais então me pareciam, como sempre me pareceram praticamente todos os meus pensamentos pululantes, o cúmulo da inadequação), P. disse, para meu grande alívio, mas o que é a Psicanálise senão uma grande viagem? Ampliando a questão, podemos então nos perguntar, mas o que é a vida senão, em todos os sentidos, uma grande viagem? Será que precisamos da autorização de alguém para pensar livre e desenfreadamente a respeito de qualquer coisa que nos toque enquanto olhamos pela janela do trem? Será que precisamos temer as fagulhas que do nosso encontro com outras pessoas que estejam viajando conosco possam vir a iluminar nossos pensamentos, fazendo com que nossos corpos e almas brilhem da maneira que melhor lhes aprouver? Será que vai valer a pena, lá no fim, ter feito a viagem sem que tenhamos nos permitido conhecer o máximo possível do que cruzamos pelo caminho?

Faço essas perguntas para mim mesma pois a verdade é que quem escreve escreve para si e não para os outros ou em razão de algum objetivo. Como já escrevi antes e como já disse a algumas pessoas, escrevo para me organizar, para me integrar, pois há momentos, muitos, nos quais me sinto esvanecendo em meio a vapores de pavor. Pavores que me tiram o ar e que me deixam cega e tonta diante da possibilidade de perder o que quer que seja que provoque essa ilusão de controle e a sensação infantil de linearidade que ela engloba. Viver, como repete P., não é fácil.

Y., ao contrário de mim, diz que anda preferindo o caos à organização e é a partir desse caos faiscante que extravasa dela que percebi, num pulo que eu andava ensaiando para dar, o quanto de mim andou meio anestesiado por aí, distraído do principal, abandonado ao longo do caminho de uma viagem tempestuosa na qual embarquei com excesso de descuidado.

Da lama ao caos das mudanças e à sorte dos encontros que brilham, no principal, nos organizamos num pensamento que nos sintetiza e que nos faz querer mais, sempre mais, desse momento efêmero que é a vida, no qual está gravado, ainda que eventualmente com letras apagadas, o fato irremediável de que somos todos pó de estrela.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Desler Ricardo ou comentários de leitora

"Six months isn´t so long
Not everybody gets corrupted
You have to have a little faith in people."

Tracy para Isaac em Manhattan, última cena.


"Eis-nos, pois, acuados contra o muro, contra o muro da linguagem. Estamos em nosso lugar, isto é, do mesmo lado que o paciente, e é nesse muro, que é o mesmo para ele e para nós, que tentaremos responder ao eco de sua fala."


Jacques Lacan, Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, em Escritos



"Que outra coisa a gente aprende em uma análise a não ser a amar?"


Ricardo Goldenberg, Uma carta de amor, em Do amor louco e outros amores



Do amor louco e outros amores. Só o título já seria o suficiente para que eu o desejasse mas o que bateu mesmo foi uma história de amor. Levantei o livro da bancada e, ao abri-lo aleatoriamente, dei de cara com BLADE RUNNER. O nome do filme e uma frase de Deckard escritos. Sem pensar e sem levantar os olhos da página, disse ao vendedor, vou levar este também. E o levo, mesmo depois de, há semanas, lido.

Dos textos que o compõe, Uma carta de amor é daqueles que eu sei que vão me acompanhar por ainda muito tempo, em leituras e desleituras periódicas. A seu respeito, Ricardo escreve, duas páginas depois da menção a Blade Runner, que para alguns amigos a quem o deu para ler disse "que o tinha escrito antes com as tripas que com o teclado" (p. 13). Pois bem, eu o li antes com as tripas que com a razão. Sobre Uma carta de amor chorei algumas entranhas.


Ouvi de P. que quem procura análise quer ser amado. Quer (e agora sou eu porém não sem as referências dela a Bartleby) que alguém se sente ao seu lado e olhe para o mesmo muro, seja ele qual for, numa aposta de conexão. Assim talvez como Deckard quando senta ao lado de Rachael ao piano, desencadeando o movimento da possibilidade impossível do amor (entre androide e caçador de androide), numa cena que de tão simbólica é quase palpável (e também dessas que alguém carrega por décadas e que relê de tempos em tempos).


Partindo do pressuposto de que a análise é, entre outras coisas, uma aposta na conexão gerada pelo amor (ou na construção do amor que se ergue sobre as fundações de uma possível conexão), venho pensando que as mágicas acontecidas no processo analítico, tão surpreendentes, nada mais são que a expressão dessa conexão que, há mais de cem anos exposta pela descoberta que nos martelou com o veredicto da impossibilidade do controle absoluto, pode vir a quebrar o clichê mortífero da repetição infinita. Como se a faixa que se acreditava riscada num disco passasse, com um sopro, a tocar sem que a agulha voltasse a emperrar nos montinhos de poeira que até então vinham sendo confundidos com um risco irremediável.


Impossibilidade de controle que, quando se desvela, parece, não por uma feliz coincidência, descobrir também a possibilidade do amor que, uma vez edificado entre analista e analisando, permite que este olhe pelas janelas do edifício construído por ambos de uma altura que, se por um lado é vertiginosa, por outro é aclaradora. Dentro e fora do setting analítico, percebe-se que o amor só é amor quando confessa e tolera fragilidades e fracassos. Quando não, é outra coisa e a maior das vertigens, acredito, pode advir da descoberta de se ver, num supetão, sem nunca ter amado, e sim de ter feito, sem saber mas sempre sabendo, essa outra coisa, esse borrão familiar que pode cegar uma vida inteira sem que esta se dê conta das fantasias que a recobrem.


E com relação às minhas fragilidades, femininas, as quais ando me permitindo confessar e viver, Todas as noites mais uma, De volta ao jardim (A propósito de O Cântico dos Cânticos) e O ameaçado, outros textos que compõem o livro de Ricardo Goldenberg, fizeram com que eu virasse um pouco a chave dos meus pensamentos para encarar uma lógica que, por mais que um dia eu tenha vindo a achar que conhecesse, desconheço tão amplamente que cheguei a sentir raiva desse não saber escancarado durante a leitura. O meu, sobre o masculino.


Aliás, se há algo que me pegou na escrita de Ricardo foi o seu movimento rock and roll, na melhor analogia que a expressão possa ter com as ideias de originalidade e de liberdade. É nesse movimento que, inclusive literalmente, suas muitas referências pops me falam direto, como ficou claro logo no início deste texto. Afinal, está na cara que Do amor louco e outros amores foi amor à primeira vista ou, em outras palavras, a conexão mágica do amor pelas palavras escritas de alguém.



P.S.: O título deste texto é uma brincadeira com o título de Desler Lacan, outro livro de Ricardo Goldenberg.

sábado, 2 de novembro de 2019

Uma pausa de mil compassos

A morte é o maior dos fracassos e a vida, não por alguma coincidência, no mais das vezes, é de fracassos que se trata.

Digo com frequência, por exemplo, que a minha vida não é publicável nas redes sociais, pois ela não é o tempo todo feita de acontecimentos esfuziantes e especialíssimos. Pelo contrário, minha vida é de uma banalidade ímpar e aquilo que me singulariza e ampara e que talvez seja a única coisa passível de algum interesse para o resto do mundo não pode ser transliterada numa foto, seja ela sorridente ou não.

Minha vida, real, é um nó de fracassos inconscientes e de alguns sucessos aparentes e eu começo os meus quarenta e um anos fracassando, sem o grande amor da minha vida e com uma vértebra fraturada. Ela se foi e, com ela, uma parte do eixo que me mantém em pé. Literalmente quebrada pelo maior e mais emblemático signo da impotência humana, a morte.

A propósito, jamais alguém me fez entender o ininteligível da morte como ela. O fracasso maior de viver sem saber nada do que é morrer, de saber que se morre e de mesmo assim nunca estar preparado para o morrer. Quem está vivo nunca morreu e a morte, para os vivos, é palavra vazia, é muro que devolve para quem o olha ou esbarra contra ele o desamparo ou a negação da impotência mas, jamais, o significado do concreto com que foi erigido. A morte, como ouço reverberar na pele do divã, não tem representação simbólica. É o corte que ainda não aconteceu e que não tem, dentro de mim, o que me faça entender o que ele é. É o mais absoluto fracasso da onipotência, o sucesso mais contundente da impotência. O limite ao qual até a mais delirante das criaturas, aquela que não se enxerga frágil e incompleta, está sujeita.

Ela se foi e nada do que vinha me atravessando pôde me poupar do trauma da desaparição. Puf. E não tem mais ela. O que sobra de nós é a história do melhor encontro do mundo e o que sobra de mim é uma fratura que não pode ser exposta por não haver palavras para tanto.

Pensamentos relacionados, contudo, não me faltam, e tenho pensado que do fracasso real, concreto e inescapável da morte à necessidade desesperada de escamotear os fracassos da vida cotidiana, seja com a construção de um avatar que leva uma vida perfeita nas redes sociais ou com a verborragia de quem efetivamente nada tem a dizer, é só um pulinho.

Mas, se a morte, como realidade, se impõe a todos nós, a vida também o faz. Não há vida sem morte, ou seja, sem perdas, fracassos, fraquezas, assim como também não há morte sem vida. Para morrer é preciso estar vivo, é preciso estar no tempo e no espaço, é preciso ser, também, concreto. Ter um corpo ou dar um corpo para o que se tem, sabendo que o que se tem nem sempre ou quase nunca é aquilo que idealmente se gostaria de ter. A vida, real, é feita do difícil de não poder ter tudo.

A vida é, no mais das vezes, de fracassos que se trata.


P.S.: O título deste texto é um verso da música Para ver as meninas, de Paulinho da Viola.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Mas e os canalhas, também amam?

And I cut my bleedin´ heart out every night
And I´m going to die a little more on each St. Valentines day

Blue Valentines, Tom Waits



Fodeu, ela escreveu. Ela sempre escreveu em pensamentos. Naquela noite, olhava por sobre o balcão para o espelho e assistia com curiosidade impassível ao seu enovelamento naquele turbilhão retido num túnel sem cor. Abriu os olhos e escreveu, fodeu.

Cena contínua em outro cenário, uma faísca sem luz transforma o corpo só em corpo. O turbilhão a suga para mais fundo no túnel, onde os sentidos acendem e apagam como num glimpse de verdade em estado bruto. E puro.

Corta e ela se vê na cena primeira, a original, personagem de um romance de Graham Greene sobre a cabeceira da cama que protagoniza a cena em que figura a voz enrouquecida. Ela espera o fim quando as luzes se acendem, mas o projetor continua a rodar. De tempos em tempos, ainda sangra um pouco a cada noite.


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"E a vida amorosa de todo ser humano não passa de sucessivas reimpressões de um 'chichê' único..."

Ricardo Goldenberg em Do amor louco e outros amores, Uma carta de amor



Ela sabe que a pergunta seria desnecessária se houvesse resposta. Encosta no real e tenta lavar a frustração com água que não escorre. É sempre o mesmo, condensado em outros. Sua vida amorosa, excetuados poucos casos, poderia ser chamada, assim como já o fez Borges com um livro, de história universal da infâmia. Pois é de infâmia, desconfia, que se trata a impotência dos falsamente alquebrados, enrustidos na torpeza própria do egoísmo e da mesquinhez. São infames os avarentos do amor, que medem e calculam esforços para não se esforçarem e também aqueles que se fazem frágeis aos olhos de quem os vê, mas que despedaçam quem os toca. Infames e irritantes são os arrogantes de si, que não têm vergonha nem orgulho e que trocaram o coração por inveja e despeito. Infames são sem dúvida aqueles que fazem pouco dela e jogam fora a coragem.

Ela gostaria que a mágica virasse milagre e que o fio ou as voltas que a prendem ao clichê fossem cortados com uma palavra, um simples abracadabra que pusesse fim àquele início e aos seus incontáveis remakes. Sente a exaustão refletida em paralisia e desconfia que não há nada, palavra alguma, que sirva para remendar os farrapos de indiferença usados pelo amor mendigo em suas perambulações.

Elas, as palavras, batem no invisível fio palpável que separa os dois mundos e caem estateladas e desarticuladas na mesa do concreto. Não fosse aquilo de acontecer o que nunca se viveu e que esvazia a gente na hora, ela mastigaria as palavras e as cuspiria todas de volta, ali, na literalidade intangível do encontro com quem é o real, a falta, o gesto de desacolhimento.

Ela não mastiga e o que engole é só a decepção. O resto, vira hiato, sem nome, no texto.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Eu chinesa

"La réponse est le malheur de la question." ("A resposta é a desgraça da pergunta.")

Maurice Blanchot, citado por Ricardo Goldenberg em Desler Lacan



Eu devia estar na quinta ou sexta série do ensino fundamental quando li Henfil na China (antes da Coca-Cola) e pensei que, dado o grau de divertimento alcançado com a leitura (o livro era hilário), eu deveria um dia fazer como o Henfil e ir também à China. 

A melhor oportunidade de concretizar meu antigo desejo surgiu quando Daniela, minha amiga e companheira incansável de viagens filosóficas, psicanalíticas, cinematográficas, yoguis, ciclísticas, políticas, confessionais e agora literais, falou: é o nosso último ano na China; ou você vai ou você vai. Fui, e não queria voltar. Ou não tão cedo.

Da China voltei impressionada na mesma escala do que se vê por lá, ou seja, em enormes proporções. Nunca antes lugar algum havia feito impressão tão grande em mim. Uma impressão para a qual, além das medidas, eu não alcanço as palavras que ainda estão orbitando algum lugar distante do meu sistema solar interior. A China é outro planeta, agora parte do universo particular onde habita o meu.

Lá me vi, mas só depois, encantada pelo som da língua da qual eu nada entendia, mas via. Olhava para os rostos, bocas e olhos das pessoas que diziam e era tomada por um embasbacamento que fazia voltas em mim, me deixando imóvel de surpresa diante do maravilhoso da impossibilidade total. Surpresa que é a palavra resumo da viagem porque a China foi uma grande surpresa, um presente que está se desembrulhando aos poucos e revelando, para mim, a estrangeira que eu nunca fui no dentro (fora, sempre) mas que agora eu sou também. Estranha que me chama para desvendá-la. De novo aqui, o enigma. Ou me devora.

Na China meus olhos viraram bocas e eu comia tudo o que conseguia ver. Todas as cores, texturas, formas e amplitudes. Eu queria engolir o ininteligível e guardar o choque dentro do estômago. Queria, talvez, alimentar a estranha que voltou comigo, fazê-la crescer in loco.

Sem palavras ou com palavras mal articuladas, fiquei sem ter como falar dos cheiros que invadiam as cidades. Se em Paris é uma festa Hemingway fala que andar por Paris com fome era um sacrifício, dados os aromas de comida que eram sentidos durante uma caminhada pelas ruas da cidade, fico curiosa para saber o que ele diria de Xi´an, por exemplo, onde o cheiro azedo-amargo-doce-amarelo-apimentado invade ruas, casas, estações e vagões de metrô e cola em todas as superfícies, do metal à carne humana. Um passeio de bicicleta em cima das muralhas que circundam a cidade é integralmente acompanhado pelo cheiro de comida que, recentemente, numa atitude nonsense, me surpreendi buscando na cidade onde moro.

Nonsense que já durante a viagem escorregou para o centro da lógica que eu acreditava reta e a torceu, fazendo da fita chapada a lógica de modos infinitos ainda não pensados por mim.

Ir à China é como ouvir a versão de Purple Rain do disco Piano & a Microphone 1983, ou seja, não é nada daquilo que você espera e tem um arranjo que simplesmente deixa seu cérebro no vácuo, sem produzir as respostas esperadas na versão original. A China me deixou no vácuo do meu próprio controle, sem produzir as respostas esperadas.

Pelo lado do avesso, etereamente out of control, voltei borbulhando de perguntas que, agraciados sejam os paradoxos, são também respostas, todos capazes de me descolar da minha fina casca interior, de onde eu escorrego para dentro, para o mais dentro de um fluido silencioso onde não há nada escrito além da verdade de mim.

No Brasil, com as suas, nossas e com as dores que eu não sentia há anos, hoje acordei à procura, no espelho, do silêncio do líquido viscoso. É aqui, no reflexo das palavras, que eu o encontro.


P.S.: O título deste texto é uma brincadeira inspirada no livro de Cleyton Andrade, Lacan chinês: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psicanáliseque, lido após o meu retorno, estabeleceu algumas bases para paradoxos, ideias e mais perguntas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Tudo sobre a minha avó?

Da minha avó sei mais fatos do que acontecimentos, como se entre nós houvesse existido sempre um mediador. E havia.

Sei que a vida a tirou de sua mãe ainda bebê, pegando-a com tamanho descuidado que a amassou irremediavelmente ao modo da crueldade, da tragédia e do drama.

Minha avó nunca foi lisa e entre nós as farpas eram abundantes. Ciúme, raiva, indignação eram o avesso do amor que eu sentia por ela (e ela por mim). Entre nós, os vivos e os mortos das nossas desavenças. Mesmo nos vãos das trincheiras onde de tempos em tempos nos achávamos encolhidas e ausentes das sombras de outros corpos, não encontrei a minha avó.

Ela cresceu entre freiras e não as suportava. Tampouco gostava de padres e de rezas. Nunca vi minha avó rezar e vibrava interiormente quando a ouvia dizer sem meias palavras o que pensava sobre a Igreja. Ela, aliás, nunca mediu palavras, fossem para os santos ou para os demônios. No último dia em que a vi com vida, só eu e ela, estávamos cercadas por uma ladainha religiosa e ela dizia, não sabem o que dizem, não sabem o que dizem. No seu velório, enquanto um padre proferia não sei quais palavras à cabeceira do seu corpo, eu só pensava em dizer, pare, ela não gosta. Mas não disse.

Sua altivez e suas palavras afiadas me irritavam, mas também me fascinavam. Quem era aquela criatura que estendia (ou pelo menos fazia tentativas incessantes de expansão) seu domínio sobre os espaços das casas e das almas? Quem era aquela mulher cuja mãe foi encarcerada num leprosário (como eram chamados os estabelecimentos de isolamento para os quais eram compulsoriamente enviadas as pessoas portadoras de hanseníase num passado não muito distante) e que cresceu sob os descuidados de estranhos, junto apenas de sua irmã um pouco mais velha, tão diferente dela e que veio a ser essencialmente fundamental na minha vida? O que ela já havia feito com o corpo da mulher que era a minha avó? O que a açoitava nos inúmeros momentos de pânico que a acometiam? O que ela pensava para além dos fios do tricô tecido com a trama dos noticiários e das novelas de rádio e televisão?

Nas fotos a minha avó, jovem, era bonita. Ouvi que era vaidosa, cabelo sempre arrumado, que pintava as unhas de vermelho e botava calças num tempo em que as cunhadas que moravam no interior só usavam saias. Interior para o qual ela mudou, não por vontade própria, e ficou.

Das vontades mesmas da minha avó eu não sei e desconfio que estiveram sempre aquebrantadas. Talvez a força da mão da vida que a agarrou tenha sido tão grande que com a pressão formaram-se sob a sua pele fina de criança dobras nas quais um desamparo excruciante tomou morada. Fico pensando se o ferro das palavras poderia alisar o tecido esmagado pela angústia e volvê-lo em superfície propícia para o deslizamento do desejo.

Ao contrário da minha avó, que sobreviveu como pôde às palavras separação, abandono e indiferença, eu tenho a chance de suportar as palavras insuportáveis falando e escrevendo sobre elas. Mais, ainda. Eu tenho a chance de fazer da minha avó, morta, em palavras escritas para sempre vivas.