sábado, 1 de março de 2025
A estranha familiar
Sobre o futuro
Ata-me, é o que me vem à mente quando olho para o branco estampado na tela do computador. Me dá um nó, me amarra à vida. Não que a sensação de descolamento que venho sentindo ultimamente seja ruim. Não. É como estar permanentemente pisando em uma camada de algodão, como flutuar; é de uma leveza que eu não conhecia, ou melhor, de uma leveza que conheci há muito tempo e da qual já havia me esquecido. As causas eram diferentes, o contexto também, mas o descolamento (quase escrevi deslocamento) já esteve lá, já esteve aqui. Menos leve, pois havia uma fissura mais pronunciada, a do tempo, a da preocupação com o tempo, com o futuro. Eu vivia tão à espera do futuro que, quando ele chegou, mal percebi.
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O futuro, essa coisa lisa e macia, que brilha e explode como as bolhas de sabão sopradas pelas crianças. Horrorizada, maravilhada, eu ando sobre ele.
Sobre o futuro, essa coisa que não existe.
domingo, 3 de abril de 2022
Eu agora me afogo
sábado, 20 de novembro de 2021
Lascas de palavras
terça-feira, 24 de novembro de 2020
Thelma ou Louise?
terça-feira, 26 de maio de 2020
Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Aos prantos no more (mas sempre um pouco)
domingo, 22 de março de 2020
"A vida não tem garantias"
quinta-feira, 5 de março de 2020
Onde estão as chaves?
A minha vinda ao mundo havia sido também um drama. Horas de um trabalho de parto que culminou num fórceps. Nasci à força e talvez seja por isso que até hoje me rebelo contra qualquer ato forçado.
Durante os meus primeiros anos, eu me reunia quando me contavam as histórias que estavam nos livros coloridos e bonitos que eu manuseava. Quando aprendi a ler, passei a me reintegrar por meus próprios meios. Bastava mergulhar entre as letras e nadar junto das palavras para restituir meu equilíbrio. Quando era obrigada a fechar os livros, ficava flutuando sobre as histórias, metade do corpo dentro delas, a outra metade fora, louca para afundar novamente na fantasia e fugir da realidade (ou o contrário). Fora das páginas, havia todo um universo de coisas e pessoas interessantes, mas nada ou quase ninguém que se comparasse aos livros. Havia também a indiferença do meu pai e a insônia triste da minha mãe, o drama para o qual eu não tinha palavras. Faltavam-me as chaves.
Só não esqueça as chaves. Foi isso que ela disse? E se eu lhe dissesse, hoje, que nunca as esqueci, as chaves das portas do meu desejo? Ela diria que já sabia disso, pois do contrário não teria sido possível girá-las incessantemente como ela vem fazendo desde o início. Ela sempre soube onde estavam as chaves.
Eu também.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Mais difícil é não acreditar em fantasmas
"Romantic sponges, they say, do it
Oysters down in oyster bay do it
Let´s do it, let´s fall in love"
Let´s Do It (Let´s Fall in Love), Cole Porter
O casal, formado pelo algoritmo do amor moderno, vomita virtualmente os seus restos. A certa altura da conversa, ela vê surgir na tela uma ideia de relacionamento que parece tirada de uma forma obsessiva untada com pinceladas de sadismo. Ele sentencia, vejo mais como passos. Ela, surpresa com o veredicto, pede um esclarecimento, como um organograma? Isso, ele bate o martelo, organograma.
Ela: O tempo só existe nos recortes que a gente faz nele, assim como a realidade pode ser mais ou menos fantasmática dependendo dos recortes que a gente faz nela. Eu não acredito em fantasmas e acho que é mais difícil assim, embora muita gente diga o contrário. Os monstros e as criaturas perigosas do sonho da noite passada eram reais, pois estavam dentro de mim. Chegavam por tubos e alguns eram impulsionados por molas. Era como um parque de diversões pra eles. Tinha até aqueles carrinhos em forma de alguma coisa, de um sorvete, por exemplo. Havia marrom em quase tudo. Acordei angustiada. Estavam dentro de mim, eram reais, como os fantasmas que as pessoas veem por aí e que são reais pra elas. Eles também estão dentro delas. Eu tenho medo de algumas pessoas da mesma forma que elas têm medo de fantasmas. Sabe aquele conto que ficou muito famoso, Cat Person? Então, não tem tanto a ver com a história, mas eu tenho medo de pessoas que se parecem com gatos, assim meio furtivas. Sabe, eu gosto mesmo de gente que é igual a cachorro.
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
The great leap
O que vem a seguir, como vem, é fagulha de conexão. E é dela que se trata.
A propósito, é de delírio, também, que se trata a falta de conexão. P. diz que, isolado, o psicanalista corre o risco de delirar, e eu concordo com ela. A propósito, psicanalista ou não, eu, ser humano, quando me sinto isolada, deliro. E aí escrevo para poder me salvar, para dar algum corpo aos meus pensamentos e me tirar do entre, do meio da tristeza e da loucura. Talvez eu esteja sendo excessivamente saudosista e dramática, mas acho que nós todos delirávamos menos. Pensávamos mais e delirávamos menos. Existíamos com mais ênfase. Ou eu o fazia.
Mas eu ainda o faço e por isso sofro por não me conectar, por não trocar, por não festejar. E talvez sofra por não entender os motivos pelos quais outros parecem não desejar e não sofrer como eu. Como disse Y., a questão, na troca, não é mostrar o que se sabe, não é, digamos, pagar de gostosa. Não. Pouca importa quem mostra o quê. Ou melhor, até importa, na medida em que concluímos que o pulo do gato é ouvir quem sabe muito, infinitamente mais do que nós, seja quem for, para podermos aprender mais, para formarmos mais conexões, mais pensamentos, mais movimento. Para darmos saltos ao invés de nos arrastarmos por aí.
Reconhecemos, okay, que somos nerds e ser nerd no Brasil, hoje (vamos falar do hoje), é quase um sacrilégio. É algo pelo qual você definitivamente não é bem visto ou bem quisto. É uma espécie de maldição que paira sobre você e que, assim que é detectada em alguns meios, provoca reações as mais paradoxais. Uma delas é o afastamento. Ao invés de atrair, você afasta pessoas. E não, não é assim em todo lugar. Há lugares onde inteligência, curiosidade e abertura funcionam como uma ímã. O que acontece por aqui? Não sei e desconfio que a resposta não seja simples.
Ao me ouvir certa vez falar sobre a insegurança que eu sentia a respeito das minhas irrefreáveis viagens psicanalíticas (as quais então me pareciam, como sempre me pareceram praticamente todos os meus pensamentos pululantes, o cúmulo da inadequação), P. disse, para meu grande alívio, mas o que é a Psicanálise senão uma grande viagem? Ampliando a questão, podemos então nos perguntar, mas o que é a vida senão, em todos os sentidos, uma grande viagem? Será que precisamos da autorização de alguém para pensar livre e desenfreadamente a respeito de qualquer coisa que nos toque enquanto olhamos pela janela do trem? Será que precisamos temer as fagulhas que do nosso encontro com outras pessoas que estejam viajando conosco possam vir a iluminar nossos pensamentos, fazendo com que nossos corpos e almas brilhem da maneira que melhor lhes aprouver? Será que vai valer a pena, lá no fim, ter feito a viagem sem que tenhamos nos permitido conhecer o máximo possível do que cruzamos pelo caminho?
Faço essas perguntas para mim mesma pois a verdade é que quem escreve escreve para si e não para os outros ou em razão de algum objetivo. Como já escrevi antes e como já disse a algumas pessoas, escrevo para me organizar, para me integrar, pois há momentos, muitos, nos quais me sinto esvanecendo em meio a vapores de pavor. Pavores que me tiram o ar e que me deixam cega e tonta diante da possibilidade de perder o que quer que seja que provoque essa ilusão de controle e a sensação infantil de linearidade que ela engloba. Viver, como repete P., não é fácil.
Y., ao contrário de mim, diz que anda preferindo o caos à organização e é a partir desse caos faiscante que extravasa dela que percebi, num pulo que eu andava ensaiando para dar, o quanto de mim andou meio anestesiado por aí, distraído do principal, abandonado ao longo do caminho de uma viagem tempestuosa na qual embarquei com excesso de descuidado.
Da lama ao caos das mudanças e à sorte dos encontros que brilham, no principal, nos organizamos num pensamento que nos sintetiza e que nos faz querer mais, sempre mais, desse momento efêmero que é a vida, no qual está gravado, ainda que eventualmente com letras apagadas, o fato irremediável de que somos todos pó de estrela.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Desler Ricardo ou comentários de leitora
"Eis-nos, pois, acuados contra o muro, contra o muro da linguagem. Estamos em nosso lugar, isto é, do mesmo lado que o paciente, e é nesse muro, que é o mesmo para ele e para nós, que tentaremos responder ao eco de sua fala."
Jacques Lacan, Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, em Escritos
"Que outra coisa a gente aprende em uma análise a não ser a amar?"
Ricardo Goldenberg, Uma carta de amor, em Do amor louco e outros amores
Dos textos que o compõe, Uma carta de amor é daqueles que eu sei que vão me acompanhar por ainda muito tempo, em leituras e desleituras periódicas. A seu respeito, Ricardo escreve, duas páginas depois da menção a Blade Runner, que para alguns amigos a quem o deu para ler disse "que o tinha escrito antes com as tripas que com o teclado" (p. 13). Pois bem, eu o li antes com as tripas que com a razão. Sobre Uma carta de amor chorei algumas entranhas.
Ouvi de P. que quem procura análise quer ser amado. Quer (e agora sou eu porém não sem as referências dela a Bartleby) que alguém se sente ao seu lado e olhe para o mesmo muro, seja ele qual for, numa aposta de conexão. Assim talvez como Deckard quando senta ao lado de Rachael ao piano, desencadeando o movimento da possibilidade impossível do amor (entre androide e caçador de androide), numa cena que de tão simbólica é quase palpável (e também dessas que alguém carrega por décadas e que relê de tempos em tempos).
Partindo do pressuposto de que a análise é, entre outras coisas, uma aposta na conexão gerada pelo amor (ou na construção do amor que se ergue sobre as fundações de uma possível conexão), venho pensando que as mágicas acontecidas no processo analítico, tão surpreendentes, nada mais são que a expressão dessa conexão que, há mais de cem anos exposta pela descoberta que nos martelou com o veredicto da impossibilidade do controle absoluto, pode vir a quebrar o clichê mortífero da repetição infinita. Como se a faixa que se acreditava riscada num disco passasse, com um sopro, a tocar sem que a agulha voltasse a emperrar nos montinhos de poeira que até então vinham sendo confundidos com um risco irremediável.
Impossibilidade de controle que, quando se desvela, parece, não por uma feliz coincidência, descobrir também a possibilidade do amor que, uma vez edificado entre analista e analisando, permite que este olhe pelas janelas do edifício construído por ambos de uma altura que, se por um lado é vertiginosa, por outro é aclaradora. Dentro e fora do setting analítico, percebe-se que o amor só é amor quando confessa e tolera fragilidades e fracassos. Quando não, é outra coisa e a maior das vertigens, acredito, pode advir da descoberta de se ver, num supetão, sem nunca ter amado, e sim de ter feito, sem saber mas sempre sabendo, essa outra coisa, esse borrão familiar que pode cegar uma vida inteira sem que esta se dê conta das fantasias que a recobrem.
E com relação às minhas fragilidades, femininas, as quais ando me permitindo confessar e viver, Todas as noites mais uma, De volta ao jardim (A propósito de O Cântico dos Cânticos) e O ameaçado, outros textos que compõem o livro de Ricardo Goldenberg, fizeram com que eu virasse um pouco a chave dos meus pensamentos para encarar uma lógica que, por mais que um dia eu tenha vindo a achar que conhecesse, desconheço tão amplamente que cheguei a sentir raiva desse não saber escancarado durante a leitura. O meu, sobre o masculino.
Aliás, se há algo que me pegou na escrita de Ricardo foi o seu movimento rock and roll, na melhor analogia que a expressão possa ter com as ideias de originalidade e de liberdade. É nesse movimento que, inclusive literalmente, suas muitas referências pops me falam direto, como ficou claro logo no início deste texto. Afinal, está na cara que Do amor louco e outros amores foi amor à primeira vista ou, em outras palavras, a conexão mágica do amor pelas palavras escritas de alguém.
P.S.: O título deste texto é uma brincadeira com o título de Desler Lacan, outro livro de Ricardo Goldenberg.
sábado, 2 de novembro de 2019
Uma pausa de mil compassos
Minha vida, real, é um nó de fracassos inconscientes e de alguns sucessos aparentes e eu começo os meus quarenta e um anos fracassando, sem o grande amor da minha vida e com uma vértebra fraturada. Ela se foi e, com ela, uma parte do eixo que me mantém em pé. Literalmente quebrada pelo maior e mais emblemático signo da impotência humana, a morte.
Pensamentos relacionados, contudo, não me faltam, e tenho pensado que do fracasso real, concreto e inescapável da morte à necessidade desesperada de escamotear os fracassos da vida cotidiana, seja com a construção de um avatar que leva uma vida perfeita nas redes sociais ou com a verborragia de quem efetivamente nada tem a dizer, é só um pulinho.
Mas, se a morte, como realidade, se impõe a todos nós, a vida também o faz. Não há vida sem morte, ou seja, sem perdas, fracassos, fraquezas, assim como também não há morte sem vida. Para morrer é preciso estar vivo, é preciso estar no tempo e no espaço, é preciso ser, também, concreto. Ter um corpo ou dar um corpo para o que se tem, sabendo que o que se tem nem sempre ou quase nunca é aquilo que idealmente se gostaria de ter. A vida, real, é feita do difícil de não poder ter tudo.
A vida é, no mais das vezes, de fracassos que se trata.
P.S.: O título deste texto é um verso da música Para ver as meninas, de Paulinho da Viola.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Mas e os canalhas, também amam?
Fodeu, ela escreveu. Ela sempre escreveu em pensamentos. Naquela noite, olhava por sobre o balcão para o espelho e assistia com curiosidade impassível ao seu enovelamento naquele turbilhão retido num túnel sem cor. Abriu os olhos e escreveu, fodeu.
Ela não mastiga e o que engole é só a decepção. O resto, vira hiato, sem nome, no texto.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Eu chinesa
Maurice Blanchot, citado por Ricardo Goldenberg em Desler Lacan
Lá me vi, mas só depois, encantada pelo som da língua da qual eu nada entendia, mas via. Olhava para os rostos, bocas e olhos das pessoas que diziam e era tomada por um embasbacamento que fazia voltas em mim, me deixando imóvel de surpresa diante do maravilhoso da impossibilidade total. Surpresa que é a palavra resumo da viagem porque a China foi uma grande surpresa, um presente que está se desembrulhando aos poucos e revelando, para mim, a estrangeira que eu nunca fui no dentro (fora, sempre) mas que agora eu sou também. Estranha que me chama para desvendá-la. De novo aqui, o enigma. Ou me devora.
Na China meus olhos viraram bocas e eu comia tudo o que conseguia ver. Todas as cores, texturas, formas e amplitudes. Eu queria engolir o ininteligível e guardar o choque dentro do estômago. Queria, talvez, alimentar a estranha que voltou comigo, fazê-la crescer in loco.
Sem palavras ou com palavras mal articuladas, fiquei sem ter como falar dos cheiros que invadiam as cidades. Se em Paris é uma festa Hemingway fala que andar por Paris com fome era um sacrifício, dados os aromas de comida que eram sentidos durante uma caminhada pelas ruas da cidade, fico curiosa para saber o que ele diria de Xi´an, por exemplo, onde o cheiro azedo-amargo-doce-amarelo-apimentado invade ruas, casas, estações e vagões de metrô e cola em todas as superfícies, do metal à carne humana. Um passeio de bicicleta em cima das muralhas que circundam a cidade é integralmente acompanhado pelo cheiro de comida que, recentemente, numa atitude nonsense, me surpreendi buscando na cidade onde moro.
Nonsense que já durante a viagem escorregou para o centro da lógica que eu acreditava reta e a torceu, fazendo da fita chapada a lógica de modos infinitos ainda não pensados por mim.
Ir à China é como ouvir a versão de Purple Rain do disco Piano & a Microphone 1983, ou seja, não é nada daquilo que você espera e tem um arranjo que simplesmente deixa seu cérebro no vácuo, sem produzir as respostas esperadas na versão original. A China me deixou no vácuo do meu próprio controle, sem produzir as respostas esperadas.
Pelo lado do avesso, etereamente out of control, voltei borbulhando de perguntas que, agraciados sejam os paradoxos, são também respostas, todos capazes de me descolar da minha fina casca interior, de onde eu escorrego para dentro, para o mais dentro de um fluido silencioso onde não há nada escrito além da verdade de mim.
No Brasil, com as suas, nossas e com as dores que eu não sentia há anos, hoje acordei à procura, no espelho, do silêncio do líquido viscoso. É aqui, no reflexo das palavras, que eu o encontro.
P.S.: O título deste texto é uma brincadeira inspirada no livro de Cleyton Andrade, Lacan chinês: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psicanálise, que, lido após o meu retorno, estabeleceu algumas bases para paradoxos, ideias e mais perguntas.
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Tudo sobre a minha avó?
Das vontades mesmas da minha avó eu não sei e desconfio que estiveram sempre aquebrantadas. Talvez a força da mão da vida que a agarrou tenha sido tão grande que com a pressão formaram-se sob a sua pele fina de criança dobras nas quais um desamparo excruciante tomou morada. Fico pensando se o ferro das palavras poderia alisar o tecido esmagado pela angústia e volvê-lo em superfície propícia para o deslizamento do desejo.
Ao contrário da minha avó, que sobreviveu como pôde às palavras separação, abandono e indiferença, eu tenho a chance de suportar as palavras insuportáveis falando e escrevendo sobre elas. Mais, ainda. Eu tenho a chance de fazer da minha avó, morta, em palavras escritas para sempre vivas.
